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#52 Prioridades e produtividade

July 12, 2012
Q

Dr. Craig,

A sua produtividade sugere que o senhor tem a energia de cinco homens. Que dicas práticas poderia dar a um jovem filósofo cristão que está tentando ser tão produtivo quanto o senhor? De que maneira o senhor estuda e escreve com tanta produtividade, ao mesmo tempo que dá atenção à sua esposa? Onde o senhor acha tempo?

Anônimo

United States

Dr. Craig responde


A

Com a 52ª Pergunta da Semana, chegamos ao aniversário de um ano do lançamento do nosso website Reasonable Faith. Que experiência maravilhosa tem sido! A notável variedade de características do site e o viço dos materiais apresentados aqui toda semana têm me ajudado a torná-lo um sonho realizado para mim. Temos sido estimulados pelo número cada vez maior de visitantes únicos em cada mês, de todas as partes do globo, como também pelos muitos e-mails e cartas expressando como um podcast, artigo, debate ou livro foi útil a alguém.

Na proporção que refletimos a respeito do nosso primeiro aniversário, pensei que seria apropriado dar um passo atrás e considerar uma questão mais pessoal esta semana. Fico lisonjeado com a pergunta, mas acho realmente que ela também levanta alguns temas importantes.

A pergunta nos lembra de que, como pensadores cristãos, temos de levar uma vida que equilibre nosso ministério com nossos compromissos pessoais (sem falar na nossa vida espiritual!). Se nos lançarmos totalmente em nosso trabalho a ponto de negligenciarmos a família, logo terminaremos muito produtivos, mas divorciados (ou desgraçados), causando vergonha ao nome de Cristo e danos àqueles a quem Deus nos confiou para amar e proteger. Portanto, a pergunta diz respeito a prioridades e produtividade. Há muito do que falar aqui, mas permita-me tecer algumas sugestões práticas que me têm sido úteis.

1. Defina as prioridades. Diante de tudo o que há para fazer, devemos começar tendo um claro senso de nossas prioridades. Elas determinarão como dosaremos nosso tempo e energia. A prioridade maior será a nossa caminhada pessoal com Deus. O que incluirá tempo gasto a sós com ele, bem como tempo para o culto corporativo e o serviço numa igreja local. Jan e eu observamos o princípio do sábado cristão de separar um dia em cada semana para adorar e descansar, e, portanto, não estudo aos domingos. Minha segunda prioridade é Jan e nossos filhos. Quando Jan e eu iniciamos em meus estudos de pós-graduação no seminário, disse-lhe que, se algum dia a tensão fosse demais, ou caso se sentisse negligenciada, bastava uma palavra dela e eu abandonaria a faculdade. Ela sabia que eu falava sério, e isso lhe deu forças para suportar a tensão de meus estudos de pós-graduação. Também lhe prometi que não estudaria à noite nem fins de semanas; esses períodos seriam dedicados a ela. Cumprir os compromissos que assumi com ela (os quais ainda observo) me estimularam a levantar bem cedo e ter um cronograma diário muito disciplinado, como você pode imaginar! Deus honrou esse compromisso. Tenho uma esposa que iria aos confins do mundo por mim (e tem ido!). O erudito que tem um casamento feliz será naturalmente mais produtivo do que aquele que é infeliz e deprimido. É como diz a Bíblia: “Quem ama sua mulher, ama a si mesmo” (Ef 5.28). Jamais foram proferidas palavras mais verdadeiras!

2. Pertinácia. Depois de obter a clara compreensão de suas prioridades, é muito importante cultivar o traço característico pessoal da pertinácia. Com isso quero dizer a capacidade de saber a diferença entre o bom e o melhor e de não deixar que o bom se torne inimigo do melhor. Há distrações demais na vida, e muitas delas são coisas legitimamente boas. Mas se nosso desejo for o de ser tão produtivos quanto pudermos, então temos de aprender a evitar o que é bom por causa do objetivo no qual estamos focados. No seminário, por exemplo, não frequentava a capela diariamente nem saía com os colegas, pois eu sabia que teria de ter feito todo o meu trabalho antes de voltar para casa cada noite. Sabendo onde estavam as minhas prioridades, estava preparado para fazer os sacrifícios necessários. Muitas vezes na minha pesquisa esbarrei com algum artigo filosófico realmente interessante, não relacionado diretamente com o meu projeto de pesquisa atual. Em vez de me distrair com ele, simplesmente tomava nota dos dados bibliográficos que havia nele para poder voltar futuramente ao artigo.

3. Administração do tempo. Faz muito tempo que compreendi que o tempo é mais valioso do que dinheiro, pois, embora seja possível sempre recuperar o dinheiro de novo, o tempo, uma vez que se foi, perdeu-se para sempre. Por isso precisamos investir em nosso tempo ao máximo. Isso significa saber como administrar o tempo. Ao longo dos anos aprendi a ter uma vida bastante disciplinada. Levanto-me diariamente às 5h30 e gasto uma hora em devoção pessoal, depois desço as escadas para exercitar-me por cerca de uma hora. Depois do chuveiro, tomo o desjejum com Jan e conversamos a respeito do nosso dia. Então, estudo até aproximadamente as 13h, quando ela já preparou o almoço para mim. (Sim, ela é uma excelente cozinheira e dona de casa!) Depois disso, realizo estudos mais leves ou leio até mais ou menos 17h. Finalmente, quando minha cabeça está cansada demais para pensar, cuido da correspondência eletrônica das 17h às 18h. Daí, Jan e eu jantamos e aproveitamos juntos o restante da noite. Ela me ajudou a definir essa rotina e acho-a bastante praticável. Obviamente, quando estou viajando, as coisas se desarrumam todas! Mas, mesmo quando estou em trânsito, procuro exercitar-me e levo comigo uma luz para leituras.

4. Trabalhe como para o Senhor. Quando entrei no seminário, nosso deão Kenneth Kantzer instava-nos como estudantes: “Vejam os seus estudos como serviços para Cristo”. Que perspectiva diferente essa injunção dava a nossos estudos! Ninguém queria oferecer ao Senhor um serviço sem ânimo ou defeituoso. Você gostaria de lhe oferecer somente o melhor do seu melhor. Quando estava no seminário, Jan comprou para mim uma plaquinha de papelão que fixei na minha lâmpada de mesa para que a visse toda vez que me sentava para estudar. No cartão estavam impressas as palavras de Colossenses 3.23: “tudo quanto fizerdes, fazei de coração, como se fizésseis ao Senhor e não aos homens”. Esse versículo inspira-me em tudo que eu faço. Ele lhe dará a motivação e o zelo para fazer bem o seu trabalho, mesmo quando as coisas ficarem difíceis.

5. O método tartaruga. Você se lembra da fábula da tartaruga e da lebre? A lebre era uma velocista, que começou a corrida em disparada, ao passo que a tartaruga era perseverante. Pouco depois, a lebre cansou-se e deitou-se para descansar. Quando acordou, a laboriosa e perseverante tartaruga estava cruzando a linha de chegada na sua frente. Espanto-me como o trabalho lento, firme e incremental se desenvolve até que depois de um tempo você olha para trás e se surpreende com o que foi realizado. Meu pai era um exemplo dessa virtude. Quando eu era garoto, ele mandava que carregamentos de entulhos ou pedras fossem despejados em nosso terreno e então, nas horas após o trabalho ou nos fins de semanas, ele saía e sem a ajuda de ninguém, com uma pá e um carrinho de mão, começava a transportar a montanha de material — uma tarefa sem aparente perspectiva de resultado. Contudo, após vários meses, o entulho desaparecia por completo ou estava construído um muro de pedras. Ficava simplesmente espantado com o modo como o labor lento e perseverante é o jeito para conseguir a realização das coisas. Jan e eu apelidamos esse jeito de trabalhar de “o método tartaruga”. Há alguns anos, ele comprou para mim uma tartaruga de bronze, que agora enfeita minha mesa de cabeceira para me lembrar dessa verdade.

6. Hábitos de estudo. Você deve desenvolver vários hábitos de estudo para lhe tornar mais produtivo. Quando estudar, escolha um lugar tranquilo e sem distrações visuais e, diante de uma escrivaninha ou mesa com superfície bem iluminada, sente-se numa cadeira em que possa apoiar as costas. Discipline-se a ler durante intervalos cada vez mais longos, para não estar sempre se levantando para pegar uma xícara de café ou conversar com alguém. Quando se tratar de escrever, não seja perfeccionista. Apenas ponha no papel e depois você pode revisar. O perfeccionismo leva à paralisia. Aqui estão duas dicas importantes: (i) Tome notas sobre aquilo que você lê. Se não tomar notas a respeito do que estiver lendo, se esquecerá de quase tudo o que leu logo depois de colocar o livro de volta na estante. Tomar notas não somente lhe ajudará a reter aquilo que leu, mas também lhe dará um registro daquilo que você leu. Em meu escritório, tenho cadernos com os rótulos de filosofia, filosofia da religião, filosofia da ciência, teologia sistemática, estudos no nt, etc., em que arquivo minhas notas sobre tudo o que leio. (Acho que você pode fazer isso também em um computador, mas comecei antes que existissem computadores pessoais e há grandes vantagens de cópias impressas quando se trata de acessibilidade e comparação de notas). (ii) Faça um curso de leitura dinâmica. Tomar notas vai reduzir sua velocidade. Mas a leitura dinâmica pode lhe auxiliar a compensar isso em alguma medida. Eu tinha a ideia de que leitura dinâmica era apenas dar uma folheada, e isso me parecia uma prática sem qualquer valor. Mas descobri que leitura dinâmica não é folhear: você ainda lê cada palavra, mas apenas as lê mais rápido! Descobri que todos nós temos um monte de hábitos ruins quando lemos (como a articulação silenciosa das palavras) que nos tornam mais lentos, e nesse sentido a leitura dinâmica pode nos livrar deles. Assim, incentivaria você a fazer um curso habilitado de leitura dinâmica.

7. Multiplique. Quando você começar a escrever para valer, produza o máximo de milhagem que puder a partir de uma mesma pesquisa. Por exemplo, se você tem acompanhado meu trabalho, sabe que tipicamente escreverei um livro erudito, como God, Time and Eternity [Deus, tempo e eternidade], publicado por uma editora acadêmica, e depois escreverei o mesmo material num formato de livro mais popular, como Time and Eternity [Tempo e eternidade], para o leitor leigo. Além disso, antes de o livro vir à lume, publicarei alguns de seus capítulos na forma de artigos em periódicos profissionais. Assim, de um mesmo conjunto de pesquisa, origina-se uma variedade de publicações.

Bem, como pode ver, tenho simplesmente um monte de conselhos. Espero que algum lhe seja útil. Sei que isso tem funcionado perfeitamente para mim!

Obrigado a todos vocês que ajudaram a fazer nosso primeiro ano do website Reasonable Faith um sucesso maravilhoso!

- William Lane Craig