#765 Proselitismo
April 09, 2022Olá, Dr. Craig.
Reporto aqui uma pergunta que um irmão em Cristo compartilhou comigo, mas não consegui responder direito, além de me fazer pensar muito. Alguns pontos de reflexão e perguntas sobre a ética do proselitismo: como ando duvidando da minha fé cristã, uma das questões com as quais estou lutando (e, francamente, sempre tive aversão) é a realidade do proselitismo forçado. Aqueles que crescemos em igrejas cristãs (e, especificamente, evangélicas) estamos muito acostumados a ser envergonhados, culpados e forçados a ter conversas constrangedoras com amigos em que a expectativa era vendermos a nossa marca de cristianismo. A venda devia ser agressiva. Não podíamos ouvir um “não” e devíamos importunar continuamente e compelir a pessoa até que ela se convertesse ou rompesse a relação conosco (por motivos óbvios). Uma vez que a mensagem de Jesus parece ser que devemos abandonar as nossas vidas e prazeres pelo reino, nos exaurirmos em serviço aos pobres, e tudo isso carregando um pesado fardo moral, parece ainda mais imoral compelir esta mensagem em pessoas e indignar-se quando não a recebem. Isto sem falar da ameaça do inferno para o que vende e o comprador em potencial. Com tudo isto em jogo, algumas perguntas:
1. Será que existe proselitismo ético? Como pode ser praticado?
2. Se a ameaça do inferno justifica abusar e importunar amigos e familiares, por que será que a tortura ao estilo da inquisição não é justificada? “Força-os a vir”, no fim das contas.
3. Será que a grande comissão se aplica a todos nós, ou meramente aos apóstolos e aqueles chamados como eles? Observo que as cartas de Paulo não falam deste proselitismo agressivo e forçado feito por leigos. Frequentemente, apenas pede que orem por ele enquanto ele evangeliza. Será que isto explica por que nem todo cristão se sente “chamado” ao evangelismo?
4. Uma vez que boa parte do evangelismo e missões é problemática, será que o conceito de evangelismo é inerentemente problemático? Se não é, como será que se pode abordar os assuntos correlatos?
Obrigada por acompanhar minhas reflexões e perguntas. Agradeço de antemão por sua resposta.
Becky
Itália
Dr. Craig responde
A
Agradeço por compartilhar comigo a sua luta, Becky! Quero dizer franca e incisivamente que a experiência de igreja que você descreve é terrivelmente disfuncional e até perversa. Você precisa fazer todo o necessário para livrar-se da sua visão distorcida de evangelização e ficar emocionalmente livre dela.
A própria palavra “proselitismo” é horrenda. A maioria dos cristãos que conheço preferem falar de “compartilhar o evangelho” ou “ter conversas sobre a fé”. Não há humilhação, culpa ou imposição ao compartilhar o evangelho. O ideal é que seja o fluir natural das nossas vidas. A ideia de que “Não podíamos ouvir um ‘não’ e devíamos importunar continuamente e compelir a pessoa até que ela se convertesse ou rompesse a relação conosco (por motivos óbvios)” seria risível enquanto estratégia evangelística, se não fosse tão trágica. Como costumava dizer Bill Bright, o presidente da Cruzada Estudantil para Cristo, “não fira o fruto!”. Se o fruto não está maduro, deixe que alguém o colha em outro momento.
Só me deixa perplexo como algumas igrejas conseguem criar uma visão tão oca e antibíblica de compartilhar o evangelho! O defeito não está em Jesus ou no evangelho, Becky, mas naqueles que pervertem o evangelho.
Agora, respondendo às suas perguntas específicas:
1. Será que existe proselitismo ético? Como pode ser praticado? Obviamente, existem maneiras éticas de evangelizar ou compartilhar o evangelho. Afinal, Jesus e os apóstolos o fizeram! Pode ser feito de inúmeras maneiras, desde uma conversa pessoal com um amigo até uma palestra num campus universitário. Em relação ao que se denomina “evangelismo pessoal”, uma das coisas mais eficazes a fazer é memorizar um breve relato de como você veio a conhecer a Cristo que você possa compartilhar com alguém, quando surgir a oportunidade. Fico surpreso com a frequência com que tenho a chance de contar como vim à fé em Cristo, mesmo que isto tenha ocorrido décadas atrás. As pessoas gostam de ouvir a sua história pessoal. Não há pressão ou apelação, apenar o partilhar do que aconteceu com você! Porém, se a pessoa quiser ouvir mais, é bom ter em mente um breve resumo da mensagem do evangelho para compartilhar. Ou, então, compartilhe nosso mais recente vídeo com produção de Zangmeister, “É possível conhecer a Deus?”. Mas, francamente, Becky, preocupo-me que você tenha ficado tão desgastada com a sua experiência negativa que talvez ainda não esteja pronta para este conselho.
2. Se a ameaça do inferno justifica abusar e importunar amigos e familiares, por que será que a tortura ao estilo da inquisição não é justificada? Nenhuma opção é justificada. Abusar e importunar os seus amigos e familiares é maligno.
3. Será que a grande comissão se aplica a todos nós, ou meramente aos apóstolos e aqueles chamados como eles? Embora alguns de nós somos chamados ao serviço cristão como vocação, todos somos chamados a compartilhar o evangelho. 1 Pedro 3.15-16 diz: “Estai sempre preparados para responder a todo o que vos pedir a razão da esperança que há em vós. Mas fazei isso com mansidão e temor”. Aqui, vemos tanto a nossa preparação para compartilhar o evangelho quanto a atitude adequada que devemos ter ao fazê-lo.
Permita-me acrescentar, com toda franqueza, que uma razão por que muitos cristãos não se interessam em evangelismo é que não estão cheios do Espírito Santo. Para pessoas assim, o evangelismo parece uma obrigação e um fardo. Como disse antes, compartilhar o evangelho deveria ser algo que transborda das nossas vidas. Em certo sentido, o nosso interesse em evangelismo nos pode servir como uma espécie de termômetro espiritual. Será que ficamos frios no nosso amor por Cristo, de modo que não alegramos mais em compartilhá-lo com os outros? Se os nossos corações estão ardendo de amor por Ele, por que não estaríamos desejosos de compartilhá-lO com os outros, ao surgir a oportunidade?
4. Uma vez que boa parte do evangelismo e missões é problemática, será que o conceito de evangelismo é inerentemente problemático? Se não é, como será que se pode abordar os assuntos correlatos? Não, evangelismo e missões não são problemáticos, mas, sim, bíblicos. O problemático é a estratégia evangelística. Qual é a melhor forma de alcançar as pessoas na nossa cultura secular contemporânea? Como alcançarmos países não-cristãos de modo eficaz? Novos métodos precisam ser investigados constantemente. É exatamente o que estamos tentando fazer com Reasonable Faith.
Permita-me encerrar com uma palavra, Becky. A sua experiência infeliz com a igreja não deveria levá-la a duvidar da verdade da fé cristã, mas, sim, da inteligência e espiritualidade daqueles que tentaram forçá-la a fazer proselitismo. Não deixe que eles se coloquem entre você e Jesus. Há bons argumentos a favor da existência de Deus e indícios sólidos de que Jesus foi quem afirmava ser. A perversidade dos líderes da sua igreja não faz nada para anular tais indícios.
- William Lane Craig