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#269 Quem Fala em Nome da Ciência?

January 14, 2015
Q

Caro Bill:

Eu espero que você esteja bem.

Algumas pessoas me encaminharam (ansiosas) a sua resposta sobre a "Teoria da Evolução e Teísmo" no Reasonable Faith.

Como você sem dúvida sabe, a sua resposta é semelhante ao que Al Plantinga dá em seu livro importante Where the Conflict Really Lies [Onde o Conflito Realmente se Encontra]. Infelizmente, eu acho que você está cometendo o mesmo erro que Al. (Eu ainda amo o livro dele e faço dele leitura obrigatória para os nossos seminários de verão.) Você e Al são dois dos defensores mais proeminentes e capazes da fé no planeta. Então, um erro neste ponto é profundamente conseqüente.

É claro que você está certo quando diz que os cientistas não têm razão quando alegam que a história da vida é o resultado de um processo sem propósito, isto é, a evidência empírica não estabelece qualquer coisa assim (muito pelo contrário, na minha opinião). A pergunta, no entanto, é o que os darwinistas tipicamente reivindicam para sua teoria e para a evidência. Eu acho que você está confundindo o que os biólogos evolutivos são justificados em dizer com o que eles normalmente estão dizendo.

É verdade que se a palavra "aleatório" na teoria da evolução, Neo-Darwinismo, etc., significa apenas algo como "independentemente da sua utilidade para o organismo", então é logicamente compatível com o teísmo e teleologia (embora mesmo essa definição exclua claramente todos tipos de possível atividade divina e vai muito além da evidência empírica). Em seu post, você cita Francisco Ayala para estabelecer a definição oficial de "aleatório" na biologia. Mas por que você confiaria em Francisco Ayala em algo dessa natureza? Ele dedicou grande parte de sua carreira, desde que perdeu sua fé através do estudo de teoria evolucionista (darwiniana), tentando convencer os cristãos de que não têm nada com que se preocupar (ele tinha sido um padre dominicano). Ele diz aos cristãos que não há conflito entre o darwinismo e o cristianismo, mas, se é assim, alguém poderia se perguntar por que Ayala perdeu a fé ao se identificar com o darwinismo.

Mas esta é uma questão tangencial. A pergunta crucial é esta: Será que os biólogos evolucionistas, os neo-darwinistas, etc., de forma consistente e representativamente, restringem suas explicações desta forma? Absolutamente não. Os biólogos em geral, e a maioria das apresentações da evolução biológica (neo-darwinista), não têm o cuidado de delimitar o significado de "aleatório" ou "acaso." Pode-se construir uma forma ideal da teoria evitar as pretensões metafísicas com um jogo de linguagem privada.

Na verdade, se alguém ler por muito tempo na literatura relevante, ele descobre uma estratégia de isca-e-troca comum usada pelos darwinistas, que é o de apresentar uma definição metafisicamente mínima da palavra/teoria em contextos como "Debater William Lane Craig em público" e outra definição em, bem, todos os outros contextos. O equívoco deles é freqüentemente coordenado e intencional. Outras vezes é simplesmente o padrão darwiniano. Certamente um dos serviços importantes de "pensamento filosófico cuidadoso sobre a ciência" é identificar e expor este equívoco, ao invés de impedir ou perdê-lo.

A distinção entre "divulgadores" e cientistas é comum, mas artificial. O problema começou com Darwin, o qual se baseou profundamente na forma de argumento: Deus não faria X dessa maneira, então X deve ter evoluído por seleção e variação, e ele persiste em toda a disciplina até o dia de hoje. Se você duvida que a teoria é normalmente e de maneira geral definida de formas a-teleológicas, eu ficaria feliz em enviar-lhe citações de dezenas de livros de biologia e declarações oficiais, tornando bastante claro que a teoria pretende explicar a adaptação biológica como uma alternativa para design. Palavras como "cego" e "sem propósito" aparecem em todos os lugares. Esta prática tem sido onipresente desde que Darwin escreveu A Origem das Espécies. Na citação de Steve Meyer que você discute, Steve está parafraseando a famosa citação de G.G. Simpson: "O homem é o resultado de um processo sem propósito e natural que não o tem em mente." Simpson não era um "popularizador." É impreciso tratar a parte a-teleológica da teoria de Darwin como um caroneiro acidental, mas é facilmente destacável.

Eu tenho dificuldade em entender a sabedoria em definir uma teoria de uma forma que não adapta a linguagem e explicações do fundador e dos defensores da teoria. Certamente eles têm uma reivindicação privilegiada sobre a pergunta sobre o que eles querem dizer com a teoria.

Ayala mesmo muitas vezes desliza para uma linguagem anti-teleológica quando fala sobre evolução, mesmo quando ele está tentando dar uma definição mais detalhada da teoria. Veja, por exemplo, o seu “Darwin’s greatest discovery: Design without designer" [A maior descoberta de Darwin: Projeto sem projetista", publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) USA em 2007. (Vol. 104: 8567-8573, 15 de maio de 2007). PNAS não é exatamente uma publicação populista. Ele fornece algumas definições detalhistas de "aleatório" e "acaso" lá também, e, ainda assim, observe o próprio título do artigo. Ele até usa "processos naturais" em uma forma a-teleológica, como se os processos naturais, por definição, excluíssem atividade divina. Ele diz que ao descobrir que "o design de organismos vivos pode ser atribuído a resultado de processos naturais," Darwin completou uma "revolução conceitual", que "não é nada se não uma visão fundamental que mudou para sempre a forma como a humanidade se vê e seu lugar no universo."Agora, por que isso?

Ele afirma que a revolução darwiniana, como a revolução copernicana, trouxe uma parte da natureza sob a explicação de "leis naturais." Um dos muitos problemas com essa afirmação comum: o "mecanismo" de seleção/mutação, ao contrário de leis naturais da física e da química não tem poder de previsão ou expressão matemática e nenhuma evidência significativa em seu favor, além de alguns exemplos triviais dentro das espécies de que nunca ninguém duvidou. Ele também concorda com o velho mito histórico sobre Copérnico "deslocando a Terra de seu local previamente aceito como o centro do universo e movendo-a para um lugar subordinado como apenas mais um planeta girando ao redor do sol. De maneira congruente, a revolução darwiniana é vista como uma que consiste no deslocamento de seres humanos de sua posição exaltada como o centro da vida na Terra, com todas as outras espécies criadas para o serviço da humanidade." Observe a água metafísica que Darwin está carregando aqui. É sempre assim.

Ele, então, passa a explicar: "A evolução biológica difere de uma pintura ou artefato porque ela não é o resultado de um projeto pré-concebido. O design de organismos não é inteligente, mas imperfeito e, às vezes, definitivamente disfuncional."(Isso não faz sentido, já que um projeto pode ser inteligente e imperfeito. Este erro é recorrente com darwinistas, mas não é fundamental para o meu ponto aqui.) Ele também explica: "O design de organismos como eles existem na natureza, no entanto, não é 'design inteligente', imposto por Deus como Engenheiro Supremo ou por seres humanos. Ao contrário, é o resultado de um processo natural de seleção, promovendo a adaptação de organismos aos seus ambientes."Observe as palavras "ao contrário." Ele conclui o artigo dizendo que "a seleção natural não tem capacidade de antecipação; ela não antecipa os ambientes do futuro", e assim, "na evolução não há nenhuma entidade ou pessoa que está selecionando combinações de adaptação." É assim que a Teoria de Darwin geralmente é explicada por seus proponentes. Todo o ponto do artigo de Ayala é argumentar que o processo darwiniano proporciona "alguma aparência de propósito" sem propósito real. Observe a linguagem explicitamente teológica, em um artigo na revista Proceedings of the Natural Academy of Sciences.

A citação de Meyer, aliás, parece uma citação truncada a partir de uma transcrição de um discurso extemporâneo. Eu sei que não é de qualquer coisa que ele tenha escrito e não aparece em uma pesquisa na Internet. Em qualquer caso, Steve obviamente não diria que "evolução" é, por definição, sem propósito. O ponto dele, sem dúvida, foi algo como isto: Se a evolução é um processo cego e sem propósito, então, por definição, nem mesmo Deus poderia guiá-la. Se Ele a guiou, então, por definição, não seria despropositada. Você acha que é plausível que Mike Behe e Steve Meyer, depois de todos esses anos de estudo, de leitura, escrita, e debate sobre o assunto, não conseguiram entender o que os teóricos darwinistas estão dizendo, e que ninguém havia se preocupado em simplesmente explicar-lhes que a palavra "aleatório" tem um significado especializado, metafisicamente neutro quando os biólogos a usam? Pelo contrário, posso lhe assegurar que Steve, Mike e todos os outros proeminentes defensores do DI estão intimamente familiarizados com este jogo de linguagem darwiniano.

Embora seja uma questão separada, eu estou surpreso que você tenha citado um relatório por Darrell Domning no Centro Nacional para a Educação Científica no sentido de que "a maioria dos evolucionistas são teístas de algum tipo." O NCSE, como Ayala, trabalha para convencer as pessoas religiosas que não há nada metafisicamente problemático sobre a teoria darwiniana e por isso tem toda a motivação para deturpar os fatos aqui. É dirigido pelo Eugenie Scott — um signatário do terceiro manifesto humanista — e emprega vários ateus da aldeia. Esta não é exatamente uma organização em que devemos confiar para representar o assunto em discussão.

De qualquer forma, na maioria das pesquisas, os biólogos são consistentemente identificados como um dos mais ateístas das disciplinas científicas (matemáticos e físicos tendem a ser mais amigáveis ao teísmo). E nas pesquisas de biólogos que são membros da NAS, 95% dizem que são ateus. Em uma pesquisa bem trabalhada de 2003, Gregory Graffin e Will Provine entrevistaram 149 biólogos da evolução da elite, e descobriram que 78% eram "naturalistas puros." Surpreendentemente, "somente dois dos 149 se descreveram como teístas completos." (Ver http://www.americanscientist.org/issues/id.3747,y.0,no.,content.true,page.2,css.print/issue.aspx).

Em suma, o darwinismo como é ensinado, explicado e entendido pela maioria de seus proponentes e como ele é identificado com a biologia evolutiva em si, não é captado pela definição estipulada de Ayala de "aleatório", a qual você focou em sua resposta. Na verdade, seguindo Ayala desta forma, temo que você tenha tomado a isca darwiniana, mas errou a troca.

Todos os melhores cumprimentos,

Jay

United States

Dr. Craig responde


A

Obrigado por esses comentários mordazes, Jay! Para que os leitores em dificuldades não troquem a floresta pelas árvores, estamos de acordo sobre o ponto central: a de que à medida que uma pessoa afirma que as evidências da biologia evolutiva mostram que o processo evolutivo, que se baseia em mutações genéticas e seleção natural, é sem direção, despropositado ou não-teleológico, ela está fazendo uma afirmação que irremediavelmente ultrapassa a evidência científica e, assim, não é justificada. A pergunta que permanece é: esta reivindicação alardeada é (como eu suspeito) realmente filosófica, embora disfarçada de ciência, ou é (como você acredita), de fato, parte integrante da própria teoria científica? Se eu estiver certo, devemos castigar os biólogos que transgredem os limites da ciência em fazer tal afirmação filosófica; enquanto que, se você está certo, devemos rejeitar a teoria científica que faz tal afirmação. Em ambos os casos, a própria alegação é rejeitada como injustificada; mas será que estamos rejeitando uma declaração filosófica ou uma declaração científica?

A questão fundamental, então, é quem determina o conteúdo de uma teoria científica? Quem fala pela ciência? Agora, em um nível, a resposta a essa pergunta é fácil: os praticantes experientes de uma teoria nos dizem qual o conteúdo dessa teoria. Na prática, porém, as coisas não são tão fáceis. Pois os cientistas, sendo filosoficamente destreinados, podem ser cegos para os pressupostos filosóficos e ramificações de seus pontos de vista, de modo que as declarações descuidadas são muitas vezes feitas, especialmente por aqueles que têm uma agenda filosófica ou teológica, que não são realmente parte da própria teoria. Então, quando encontramos os especialistas profissionais discordando entre si sobre o conteúdo próprio de uma teoria científica, isso levanta suspeitas de que as afirmações extra-teóricas estão sendo feitas por alguns deles.

Esta é precisamente a situação que enfrentamos relativa à definição da palavra "aleatório" quando se aplica a mutações genéticas. É desconcertante quando ouvimos tantos biólogos especialistas afirmando que estas ocorrem totalmente por acaso, ou são totalmente sem propósito, já que tais alegações não foram comprovadas cientificamente. Por essa razão, a explicação de Ayala de aleatoriedade como "independentemente da sua utilidade para o organismo" é tão impressionante. Ela dá sentido à teoria como ciência.

Você pergunta: "Por que você confia em Francisco Ayala com algo dessa natureza?" Duas razões, eu acho. Primeiro, ele é um profissional especialista da teoria com mais prêmios do que um general argentino! Em segundo lugar, o princípio de caridade exige. No entendimento de Ayala, a teoria faz sentido como ciência. Mas no entendimento não-teleológico, a teoria se transforma em metafísica, fazendo afirmações que não puderam ser estabelecidas pela evidência empírica. Devemos ser caridosos ao interpretar a opinião das pessoas de uma forma que as represente bem, ao invés de construir homens de palha.

Então, eu não concordo com você que "A pergunta crucial é a seguinte: Será que os biólogos evolucionistas, os neo-darwinistas, etc. de forma consistente e representativamente restringem suas explicações desta forma?" Em vez disso, a pergunta é: quando os biólogos evolucionistas começam a fazer afirmações infladas sobre a ausência de teleologia, eles começaram a filosofar sobre uma teoria que, estritamente falando, não faz tais afirmações infladas? A própria estratégia isca e troca que você descreve me faz suspeitar que eles estão, de fato, fazendo afirmações filosóficas em nome da teoria que a própria teoria não faz.

É importante entender que não são apenas os popularizadores que fazem tais afirmações filosóficas em nome de uma teoria científica. Profissionais especializados principalmente em declarações para audiências populares muitas vezes fazem tais afirmações. Eu vejo isso acontecer o tempo todo em uma área da ciência com a qual eu tenho mais familiaridade: a cosmologia. Físicos especialistas como Stephen Hawking e Lawrence Krauss fazem afirmações ultrajantes em nome de algumas teorias sobre a origem do universo. A declaração que você cita de G.G. Simpson é igualmente imprudente e é uma inferência filosófica da teoria da evolução, em vez de uma declaração sóbria dela.

Quanto a declarações aparentemente inconsistentes de Ayala, você precisa entender que ele tem outras razões para pensar que os organismos não são projetados na forma em que os encontramos. Isto é, o problema do mal natural e exemplos de má concepção. Este fato é mencionado na observação que você cita: "O design de organismos não é inteligente, mas imperfeito e, às vezes, definitivamente disfuncional." Debater Ayala sobre a viabilidade do Design Inteligente, portanto, me obrigou a elaborar resumos sobre os temas da dor dos animais e casos de design não-ideais. Essas são questões muito diferentes do que apenas a definição de "aleatoriedade!" Aqui estão argumentos filosóficos contra o design. Na verdade, Jay, como você pode ter certeza de que as autoridades que você menciona não estão dizendo que o processo evolutivo é não-teleológico, e não simplesmente por definição de aleatoriedade, mas com base em argumentos do mal e dis-teleologia?

Então no minha visão, se há uma isca e troca acontecendo aqui é a troca de fazer ciência com base empírica para fazer afirmações filosóficas que excedem em muito a ciência. Ao invés de perder ou ignorar a troca da ciência para a filosofia, precisamos destacá-la e chamar naturalistas para ela.

- William Lane Craig