#254 Correspondência Exclui a Verdade dos Contrafactuais de Liberdade?
January 14, 2015Caro Dr. Craig,
No livro "Four Views on Divine Providence” [Quatro Visões sobre a Providência Divina], o erudito Paul Kjoss Helseth levantou algumas questões sobre o seu modelo molinista que você não teve a chance de responder em detalhe.
Para mim, o mais importante e crucial das perguntas de Helseth é esta:
"Qual é o status ontológico dos contrafactuais de Liberdade da criatura para Molinistas em geral e para Dr. Craig em particular?" (p.101)
Na minha opinião, o modelo molinista permanece ou cai com a resposta para a pergunta acima.
Até onde eu entendo a pergunta de Helseth, ele está perguntando se tais contrafactuais referem-se a uma realidade ontologicamente objetiva. (Ele não está perguntando se tais contrafactuais, como as proposições, existem como objetos abstratos em qualquer sentido platônico).
Além disso, eu gostaria de acrescentar uma pergunta semelhante a de Helseth: Qual é o status ontológico de declarações de "vontade" que pertencem à presciência de Deus? Elas se referem a uma realidade ontologicamente existente, real e objetiva no momento do conhecimento prévio de Deus?
Em seu livro "The Only Wise God" [O Único Deus Sábio], você argumenta que a presciência de Deus que Jones "irá" fazer X, não implica que Jones "deve" fazer X. (Jones ainda está livre para fazer o contrário, somente que ele não vai fazer).
Acho esse argumento insatisfatório à luz da pergunta de Helseth: Qual é o status ontológico da ação X (que será executada) por Jones?
Se x existe (objetivamente), então é impossível que Jones poderia REALMENTE fazer o contrário e a distinção entre "quer" e "deve" parece ser meramente semântica ou lingüística e não ontológica. (Note que Jones "poderia" fazer o contrário somente em um sentido puramente teórico ou lógico e não em um sentido ontológico ou metafísico, já que o que ele vai fazer é factualmente e metafisicamente inevitável).
Se X não existe objetivamente (mas só DEPOIS de Jones realmente fazê-lo), então as declarações sobre o futuro não são verdadeiras, e a presciência de Deus não pode ser conhecimento afinal (no sentido de crença verdadeira justificada). Por isso, Deus não poderia ter conhecimento prévio de decisões livres das criaturas.
Então, uma declaração de "vontade" refere-se a algo objetivamente existente (ou seja, a um estado de coisas de fato existente)?
Minha opinião leiga é esta:
Eventos futuros que são fundamentados em decisões livres das criaturas não existem antes de que serem executados. O futuro não existe em qualquer sentido objetivo. Portanto, todas as declarações de "vontade" (não baseadas em inferência mas na presciência real de decisões livres) não podem ser verdadeiras, e, portanto, Deus não tem conhecimento prévio.
As decisões livres se tornam realidade SOMENTE depois que elas são tomadas livremente pelo indivíduo e apenas nesse momento é que elas têm valores de verdade que podem ser conhecidos por Deus.
Portanto, as proposições sobre o futuro não são verdadeiras antes de o futuro se concretizar.
No entanto, o que é verdadeiro são as CONSEQUÊNCIAS futuras da soma de ações de todos em um determinado momento e, possivelmente, isso é o que poderia ser conhecido nos casos de precognição humana e "pré-conhecimento" divino.
Pessoas com faculdades pré-cognitivas poderiam saber (meios paranormais, vamos conceder) as conseqüências das ações das pessoas (realizada em determinado momento, digamos, em 18 de fevereiro de 2012).
Por exemplo, as conseqüências das ações das pessoas em 18 de fevereiro de 2012 irão produzir, ceteris paribus, efeitos tais e tais específicos em 2016 e estes efeitos poderiam ser conhecidos AGORA (via meios paranormais) por certos seres humanos e Deus. Mas estes efeitos podem ser alterados pelas ações de pessoas em março de 2012.
Assim, para cada ação real, uma certa conseqüência futura vai seguir e, em princípio, pode ser conhecida. Mas a próxima ação poderia mudar essas conseqüências e para a produção de outras conseqüências, que por sua vez poderiam ser conhecidas também.
Eu não sei se esta proposta é muito ingênua ou ignorante, mas parece-me ser certa, (pelo menos em um nível intuitivo) como a melhor maneira de fazer sentido da compatibilidade da presciência, precognição e a liberdade humana.
Obrigada,
Mary
Venezuela
Dr. Craig responde
A
Mary, estou contente por sua pergunta porque ela me permite expandir em minhas observações aos meus colegas contribuintes que eu li na convenção ETS em novembro passado. Como há algumas confusões em sua pergunta, deixe-me abordá-la de forma incremental.
Em primeiro lugar, qual é o estado ontológico dos contrafactuais de liberdade da criatura? Esta é uma pergunta que tanto Highfield e Helseth colocam. Helseth não desdobra qual supostamente é o problema. Às vezes Highfield parece sugerir que molinismo está comprometido com platonismo sobre proposições. Ele alega,
Existe uma realidade co-eterna que não é nem Deus, nem uma criatura de Deus. No entanto, essa realidade quase-divina determina e limita o que Deus pode ser e fazer. As verdades necessárias determinam que tipo de divindade Deus pode ser e as verdades do conhecimento médio determinam que tipo de mundo Deus pode criar.
Agora, o desafio do platonismo para aseidade divina é um que todos temos de enfrentar. Como o exemplo de Highfield de verdades necessárias mostra, o problema não se limita a proposições contrafactuais. Se proposições de qualquer tipo são objetos abstratos não criados, então a aseidade de Deus é fatalmente comprometida. (Veja o simpósio no número mais recente da Philosophia Christi, a revista do EPS, onde há uma troca de três visões sobre o tema.) Não há uma posição sobre esta pergunta que é de rigeur para os Molinistas. Da minha parte eu estou inclinado em direção a uma perspectiva nominalista, a qual nega a existência de objetos abstratos como as proposições, incluindo os expressos pelos contrafactuais. Nós geralmente podemos evitar o compromisso ôntico a proposições simplesmente por se recusar a "ascender semanticamente" e, em vez de afirmar a verdade de alguma proposição, apenas fazer a afirmação relevante.
Há uma grande variedade de perspectivas nominalistas disponíveis para o teísta hoje. Notei que a própria visão de Highfield é uma espécie de nominalismo: ele nega que as proposições sejam objetos abstratos que existem independentemente de Deus ou até mesmo conceitos na mente de Deus. Na visão de Highfield realmente não existem proposições. Antes, Deus só conhece a Si mesmo como um objeto concreto. Ao conhecer a Si mesmo, Deus sabe o que nós articulamos como verdades necessárias, como "2 + 2 = 4", "Se estiver chovendo, então está chovendo", "Se p ou q, e não-p, então q", etc.
Highfield pensa que sua ideia não deixa espaço para o conhecimento médio. Mas isso está correto? Ao conhecer a Si mesmo, Deus também conhece os limites lógicos em Seu poder para realizar certos estados de coisas. Por exemplo, Ele sabe que não pode criar uma pedra mais pesada do que Ele pode levantar. Mas, exatamente da mesma forma, o Molinista pode afirmar que Deus sabe o que Ele não pode fazer com que se Pedro estivesse nas circunstâncias C, ele livremente afirmaria Cristo três vezes. Nós articulamos que Deus sabe por dizer que Deus sabe o que a proposição contrafatual expressa por "Se Pedro estivesse em C, ele livremente negaria Cristo por três vezes" é verdadeiro. Mas o conhecimento de Deus não é proposicional em seu modo; Ele só conhece a Si mesmo e o que Ele pode fazer.
Então, eu não acho que as proposições contrafactuais conhecidas por Deus através de Seu conhecimento médio existem de qualquer forma.
Agora, isso não é como você interpreta a pergunta de Helseth. Você acha que ele está perguntando se tais contrafactuais "referem-se a uma realidade ontologicamente objetiva". Da mesma forma, você quer saber se as proposições expressas por frases temporais no futuro "referem-se a uma realidade ontologicamente existente, real e objetiva no momento do conhecimento prévio de Deus".
Aqui é o lugar onde a confusão se instala. As proposições ou sentenças não se referem a coisas. A referência é uma função do que são chamadas termos singulares (palavras como nomes próprios, descrições definidas, e demonstrativos como "isso" e "aquilo"). O que proposições verdadeiras ou frases fazem, pelo menos em uma teoria da verdade como correspondência, é corresponder com a realidade.
Portanto, a pergunta torna-se, os contrafactuais verdadeiras de liberdade e declarações temporais do futuro correspondem com a realidade? Eu acho que sim. Parece-me que, considerando a verdade como sendo a propriedade de correspondente com a realidade não exige que todos os termos singulares em uma frase verdadeira se referem a objetos que existem no mundo. Demasiados filósofos, penso eu, ainda estão no encalço de uma espécie de teoria pictórica da linguagem, segundo a qual os termos referentes devem ter objetos correspondentes (ou denotações) no mundo. Tal visão está completamente equivocada. Nós freqüentemente afirmamos declarações verdadeiras que contém termos singulares que não denotam objetos existentes. Considere os seguintes exemplos:
· O clima em Atlanta vai ser quente hoje.
· O desapontamento de Sherrie com seu marido era profunda e indiscutível.
· O preço dos bilhetes é de dez dólares.
· Quarta-feira cai entre terça-feira e quinta-feira.
· Sua sinceridade foi comovente.
· James não podia pagar sua hipoteca.
· A vista do vale de Jezreel do alto do Monte Carmelo foi de tirar o fôlego.
· Sua queixa constante é fútil.
· A perda de Spasky terminou com a partida.
· Ele fez isso por amor a mim e as crianças.
Seria fantástico pensar que todos os termos singulares existentes nestas frases plausivelmente verdadeiras tem objetos no mundo que correspondem a eles.
Há uma legião de exemplos como esses. Na verdade, eu suspeito que os termos singulares que se referem a objetos do mundo real podem realmente ser a exceção e não a regra na linguagem comum. Considere o seguinte parágrafo citado pelo filósofo britânico Michael Dummett de um diário londrino:
Margaret Thatcher ontem deu seu sinal mais forte até hoje sobre os perigos do aquecimento global causado pela poluição do ar. Mas ela não anunciou qualquer nova política de combate às alterações climáticas e do aumento do nível do mar, além de um compromisso qualificado que a Inglaterra iria estabilizar as suas emissões de dióxido de carbono, o gás 'efeito estufa' mais importante alterando o clima, até o ano de 2005. Grã-Bretanha apenas cumpriria esse compromisso se outras nações não especificadas prometessem contenção similar.
Nada incomum sobre esse discurso, mas, como Dummett observa, "Além de ‘Margaret Thatcher,' ‘ar’ e ‘mar,' não há um substantivo ou frase substantivo neste parágrafo indiscutivelmente representando ou aplicando a um objeto concreto [...]" [1] Não há necessidade de inchar nossa ontologia com tais objetos estranhos como seriam as denotações dos termos singulares no parágrafo acima.
Portanto, a unidade de correspondência, por assim dizer, não precisa ser considerada como palavras individuais ou outras expressões sub-essenciais. Em vez disso, correspondência pode ser considerada como estando entre uma afirmação como um todo e o mundo. Essa correspondência holística é dada sem citação pelo chamado esquema-T de Alfred Tarski:
T. Para qualquer declaração "S", "S" é verdadeira se, e somente se, S.
Assim, por exemplo, "A neve é branca" é verdadeiro se, e somente se, a neve é branca. Isso é tudo o que há para a verdade como correspondência! Então, para voltar a um dos nossos exemplos acima, a frase "Quarta-feira cai entre terça e quinta-feira" é verdadeira se, e somente se quarta-feira cai entre terça-feira e quinta-feira. É equivocado buscar correlações (correlatos) na realidade (neste caso, quarta-feira) para todos os termos singulares existentes na frase S.
A razão pela qual alguns filósofos consideram a correspondência como algo que implica objetos do mundo real correlacionados com os termos singulares de uma declaração é que eles juntam uma teoria da verdade como correspondência com outra teoria chamada teoria de produtor de verdades. Esta é a doutrina de que (algumas) afirmações são verdadeiras, se e somente se existe alguma coisa no mundo que os torna verdade. Maximalismo de produtores de verdade é a doutrina de que cada afirmação verdadeira tem um produtor de verdade. A maioria dos teóricos de produtor de verdade identificam o produtor de verdade de uma declaração com o fato ou estado de coisas divulgado pelo esquema-T acima. Mas alguns filósofos parecem pensar que produtores de verdade de uma declaração são as denotações dos termos singulares empregados na declaração. Portanto, a verdade da frase acima mencionada exige que às quartas-feiras existem como coisas reais no mundo! Mas eu acho que esta hipótese não se justifica por duas razões.
Em primeiro lugar, se a unidade de correspondência é declarações inteiras, então correspondência com a realidade não exige que uma declaração de produtores de verdade sejam os objetos (se houver) correlacionados com os seus termos singulares. Por exemplo, a afirmação "John não podia pagar sua hipoteca" é verdadeira e assim corresponde à realidade, mas seus produtores de verdade não irão incluir uma não-entidade como uma hipoteca. O que alguns teóricos chamam de "indutores de verdade" de uma declaração não podem ser os objetos, se houver, referidos na declaração em questão. Mas eles ainda são produtores de verdade, pois eles são o que fazem a declaração em questão verdadeira. Os proponentes de produtores de verdade como John Heil e Heather Dyke têm enfatizado que os produtores de verdade de uma sentença não precisam ser os referentes dos termos singulares na sentença. Dyke chama a suposição de que as descrições da realidade geram uma metafísica "a falácia representacional." É uma falácia porque "Somente saber que a sentença é verdadeira não lhe diz o que faz com que seja verdade". [2] Ela observa que, se toda a declaração (ao invés de suas palavras) é o portador principal de sentido, não temos que aceitar que há alguma entidade que é o referente de cada palavra. Ela mantém apenas que, se um discurso inclui frases verdadeiras, então há algo sobre o mundo que constitui o produtor de verdade para aquelas frases. Portanto, a falta de termos singulares de uma sentença para ter referentes do mundo real não implica que tal sentença não é uma descrição verdadeira da realidade e por isso não corresponde à realidade.
Em segundo lugar, nem todas as declarações correspondentes a realidade precisam ter produtores de verdade. Maximalismo de Produtores de Verdade é uma doutrina controversa defendida por uma minoria de pensadores. Trenton Merricks tem argumentado persuasivamente que, no máximo, apenas verdades sobre o que as propriedades são realmente tendo coisas realmente existentes devem ter produtores de verdade. [3] Ele fornece um bom número de exceções à doutrina do maximalismo de produtores de verdade, como existenciais negativos e generalizações universais como "Hobbits não existem" e "Todos os corvos são negros", verdades morais como "pessoas inocentes não devem ser torturadas," verdades temporais como "Os Troianos foram derrotados," verdades modais como "pode ter havido uma dúzia a mais de partículas fundamentais," contra factuais de liberdade como "Se agente S estivesse em circunstâncias C, ele livremente faria a ação A," e verdades disposicionais como "Se este vidro fosse atingido, ele iria quebrar." Merricks conclui que "Algumas verdades não são verdadeiras em virtude de como elas estão relacionadas a qualquer entidade ou entidades existente". [4] Ainda tais verdades nos dizem sobre como o mundo é e por isso pode-se dizer que correspondem com a realidade. Se pensarmos em correspondência ao longo das linhas do esquema-T, então, como os exemplos de Merricks ilustram, as verdades que correspondem a realidade não precisam ter produtores de verdade afinal. Se alguém insiste em produtores de verdade para contrafactuais e declarações temporais do futuro, então pode-se simplesmente apelar para os contrafactuais e os fatos temporais divulgados pela esquema-T como seu produtor de verdade. [5]
Com base no que eu disse, Mary, eu acho que você pode ver por que a sua declaração "Se X não existe objetivamente (mas somente DEPOIS que Jones realmente o fez), então declarações sobre o futuro não são verdadeiras e a presciência de Deus não pode ser conhecimento afinal" não se justifica. Concordo com a sua teoria do tempo que os eventos futuros não existem. Mas, não segue a partir de uma teoria temporal de tempo que as declarações temporais do futuro sobre eventos contingentes não são verdadeiras. Tal visão envolve uma lógica alternativa que ou nega o Princípio da Bivalência (o princípio de que toda proposição p é verdadeiro ou falso) ou interpreta todas as declarações temporais do futuro como falsas, com todos os deslocamentos lógicos que resultam. Além disso, ela é uma visão anti-bíblica que é incompatível, não somente com todas as afirmações verdadeiras temporais para o futuro nas Escrituras, mas especialmente com a presciência e profecias de eventos futuros contingentes de Deus.
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[1]
Michael Dummett, Frege: Philosophy of Mathematics (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1991), p. 231.
Michael Dummett, Frege: Philosophy of Mathematics (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1991), p. 231.
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[2]
Heather Dyke, Metaphysics and the Representational Fallacy, Routledge Studies em Contemporary Philosophy (London: Routledge, 2008), p. 5; cf. John Heil, From an Ontological Point of View (Oxford: Clarendon Press, 2003), cap. 7.
Heather Dyke, Metaphysics and the Representational Fallacy, Routledge Studies em Contemporary Philosophy (London: Routledge, 2008), p. 5; cf. John Heil, From an Ontological Point of View (Oxford: Clarendon Press, 2003), cap. 7.
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[3]
Trenton Merricks, Truth and Ontology (Oxford: Clarendon Press, 2007), p. xvii; cf. p. 168.
Trenton Merricks, Truth and Ontology (Oxford: Clarendon Press, 2007), p. xvii; cf. p. 168.
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[4]
Ibid., p. 181.
Ibid., p. 181.
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[5]
Veja meu artigo neste site “Middle Knowledge, Truth-Makers, and the Grounding Objection,” Faith and Philosophy 18 (2001): 337-52.
Veja meu artigo neste site “Middle Knowledge, Truth-Makers, and the Grounding Objection,” Faith and Philosophy 18 (2001): 337-52.
- William Lane Craig