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#755 Ressurreição e reduplicação

November 10, 2021
Q

Dr. Craig,

Vi que o senhor fez um pouco de investigação teológica sobre a questão da historicidade da ressurreição de Jesus, e gostaria de saber quais são as suas visões ontológicas relacionadas à ressurreição. Mais especificamente, qual é a sua visão sobre identidade pessoal e a ressurreição. O que considera ser personalidade, e como é exatamente que se trata da mesma pessoa no corpo antes da morte e após a ressurreição? (Por exemplo, no caso em que o corpo da pessoa é completamente destruído, mas, depois, Deus recria o corpo na Nova Terra.)

O senhor tem uma visão dualista do corpo e mente, pensando que a personalidade está “armazenada” na mente, ou a visão materialista do corpo humano — se for assim, como exatamente o corpo recriado seria tão diferente de um clone do corpo original? Quero dizer: como a mesma pessoa e personalidade seria transferida do corpo original para o próximo? Parece-me que, na visão dualista de corpo e mente, não seria tão difícil imaginar a pessoa a transferir-se para um novo corpo, mas, segundo a perspectiva materialista, seria mais difícil. O que acha?

Obrigado.

Petros

Grécia

Greece

Dr. Craig responde


A

Abordo estas questões importantes nas minhas aulas para Defenders 3 sobre a doutrina do homem, Petro, particularmente na aula 9. Defendo o dualismo de corpo e mente (ou alma), conforme ensinado pelo Novo Testamento. Parece-me que a pessoa humana é, simplesmente, uma alma racional num corpo hominídeo. Quando nosso corpo morre, nossa alma persiste em estado incorpóreo até a ressurreição escatológica e a reunião de nossa alma com um corpo.

Na minha aula, aponto que a negação da realidade da alma não é apenas antibíblica, mas tem consequências teológicas extremamente sérias, solapando, de fato, toda a teologia cristã. Menciono quatro destas consequências, a quarta da qual tem relevância especial para a sua pergunta:

1. Deus é mente ou alma incorpórea, assim como nos tornaremos almas incorpóreas ao morrermos. Se você não crê que almas incorpóreas sejam possíveis, será muito difícil enxergar como você consegue crer na existência de Deus, pois Deus é alma sem corpo.

2. O livre-arbítrio parece impossível sem a realidade da alma. Se somos apenas máquinas físicas e eletroquímicas, não há nenhum lugar para a livre agência.

3. Sem uma alma duradoura, a ressurreição do corpo corre o risco de se reduzir à criação por Deus de uma réplica de você, e não da ressurreição real dentre os mortos. Se você é apenas o seu corpo e deixa de existir quando o seu corpo morre ou é destruído (digamos, vaporizado numa explosão atômica), quando Deus ressuscitar os mortos no Dia do Juízo, por que seria você, e não apenas uma duplicata sua? O que faz com que você, e não uma réplica sua, com todas as suas memórias e outros traços, seja restaurado? A título ilustrativo, tipicamente, os materialistas diriam que o que torna este púlpito o mesmo púlpito que estava aqui no domingo passado é a sua continuidade material. Porém, suponha que tivéssemos de criar, a partir do nada, um púlpito de exata semelhança — uma duplicata dele —, não no futuro, mas aqui e agora, ao lado do outro na plataforma. Simplesmente por estarem em estado perfeitamente semelhante não se tornariam o mesmo púlpito, não é mesmo? Assim, suponha que o púlpito fosse destruído e Deus, no futuro, viesse a criar um púlpito de aparência exatamente igual. Por que se trataria deste púlpito, e não de uma duplicata deste púlpito? Igualmente, talvez não seja realmente você a ser ressuscitado dentre os mortos. Você morreu e deixou de existir, quando o seu corpo morreu. No entanto, na ressurreição, Deus produz uma duplicata sua. Deus fará clones de todos nós no Dia do Juízo — o que não se trata, de forma alguma, da doutrina bíblica da ressurreição. Segundo a perspectiva materialista, é preciso dar uma explicação muito boa de por que a produção da mesma pessoa por parte de Deus, no dia da ressurreição, é realmente você, e não apenas uma duplicata sua. Em contraste, segundo o dualismo, a alma perdura na morte do corpo e no estado intermediário, assegurando, assim, a identidade pessoal da pessoa que morreu com a pessoa que, então, é ressuscitada no Dia do Juízo.

4. A encarnação se torna muito difícil, senão impossível, sem uma alma. Se os seres humanos são entidades puramente materiais, como é que a segunda pessoa da trindade poderia tornar-se homem? A doutrina da encarnação não é a doutrina de que a segunda pessoa da trindade — o Logos — transformou-se em ser humano. Propus um modelo da encarnação que pressupõe ter o homem um constituinte imaterial da sua natureza que o Logos pode substituir. Como, porém, o Logos poderia se fazer carne ou ter natureza humana é muito difícil de entender, penso eu, segundo a antropologia materialista.

Em suma, parece-me que não somente temos bons fundamentos bíblicos para afirmar a realidade da alma e do corpo como distintos, mas também que a negação da realidade da alma tem algumas consequências teológicas seriíssimas que deveriam produzir relutância generalizada em adotar tal antropologia monista e materialista.

- William Lane Craig