#757 O dia do sábado e a mito-história
December 14, 2021Dr. Craig,
Como o senhor concilia o que crê sobre mito-história com estes versículos:
“Então Deus falou todas estas palavras: ... Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. ‘Seis dias trabalharás e farás o teu trabalho;’ mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR teu Deus... Porque o SENHOR fez em seis dias o céu e a terra, o mar e tudo o que neles há, e no sétimo dia descansou. Por isso, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou” (Êxodo 20.1, 8-10a, 11)?
De Gênesis 12 em diante, os escritos de Moisés não seriam “mito-históricos”. De Gênesis 12 em diante, pelo que entendo do que o senhor diz, Moisés está registrando a história do modo como pensamos em história — não mitológica, mas realmente. Além disso, Moisés especificamente escreve: “Então Deus falou todas estas palavras”. DEUS ESTÁ FALANDO. O próprio Deus, ao ordenar o sábado, está falando de dias exatamente do mesmo modo como nós e os israelitas entenderiam: dias de 24 horas, 7 dias na semana. Guardar o sábado era tão sério que quebrá-lo era punível de morte, sendo o mandamento descansar no sétimo dia literal. E Deus parece fundamentar isto no seu próprio descanso literal naquele dia.
Mais uma vez se diz o seguinte, após a ordem de descanso aos israelitas: “Porque ... fez em seis dias... e no sétimo dia descansou. POR ISSO, o SENHOR abençoou o dia de sábado e o santificou”. As palavras “porque” e “por isso” são tão conectadas à ordem que não se pode saltar arbitrariamente, a partir do contexto, da mito-história (Deus a trabalhar por seis dias “mitológicos?” e a descansar no sétimo dia “mitológico?” em Gênesis 1) para a história real (os israelitas a trabalhar seis dias literais e a descansar no sétimo dia literal).
Novamente, Deus está falando assim a Israel com voz audível do monte Sinai. E a sua voz audível os aterrorizou de tal maneira que queriam que Moisés falasse no lugar de Deus, e não mais ouvir diretamente de Deus.
Assim, não podemos contornar o fato de que o Deus que, segundo tudo o que o senhor está dizendo, inspirou Moisés a escrever mito-história, está a falar agora diretamente a Israel, como se ele, literalmente, trabalhasse por seis dias e, literalmente, descansasse do seu trabalho no sétimo dia — e que devem imitar a Deus ao descansar dos seis dias de trabalho, assim como ele descansou dos seus seis dias de trabalho. Entendo antropomorfismo, mas isto não parece se encaixar com ele. Obviamente, Deus não precisa “descansar” da mesma forma que nós, mas entendemos o que ele quer dizer: que ele completou a sua criação em seis dias e “descansou” do seu trabalho para se deleitar na sua obra. Não vejo outro jeito de entender isto tudo.
Olatunde
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Caramba, Olatunde, a fundamentação da observação do dia de sábado na narrativa da criação (Gênesis 2.1-3) é um dos meus exemplos ilustrativos dos motivos etiológicos na história primeva de Gênesis 1—11 que servem para amparar a sua classificação genérica como mito! Para certificar que estamos na mesma página, segue aqui a definição de “mito” que uso do folclorista finlandês Lauri Honko:
Mito, uma história dos deuses, um relato religioso do começo do mundo, da criação, dos eventos fundamentais, dos atos exemplares dos deuses em decorrência dos quais o mundo, a natureza e a cultura foram criados com todas as suas partes e receberam a sua ordem, que ainda permanece. Um mito expressa e confirma os valores e normas religiosos da sociedade, fornece os padrões de comportamento a serem imitados, testifica a eficácia do ritual com os seus fins práticos e estabelece a santidade do culto.[1]
Tal definição de “mito” está, obviamente, muito distante do uso popular da palavra em expressões como “o mito do empreendedor de sucesso” ou “o mito da dieta de poucas calorias”.
Ora, conforme indica Honko, uma das funções mais importantes do mito na sociedade que o adota é etiológica: almeja ancorar realidades presentes entre o público, como o mundo, a humanidade, os fenômenos naturais, as práticas culturais e o culto religioso prevalente num tempo primordial. Gênesis 1—11 compartilha com os mitos em geral e com os mitos do antigo oriente próximo em específico os grandes temas etiológicos da origem do mundo, da humanidade, de certos fenômenos naturais, das práticas culturais e do culto religioso prevalente na sociedade judaica.
Fundamentar o culto religioso aceito na sociedade em eventos do passado primordial é uma das funções etiológicas importantes do mito. Isto é exatamente o que faz o relato da criação com a tão importante observância do sábado pelos judeus. Dentre os mais importantes e óbvios motivos etiológicos em Gênesis 1—11, são os associados ao estabelecimento do culto religioso. A história da criação termina com o descanso de Deus do seu trabalho no sétimo dia: “"No sétimo dia, Deus já havia completado a obra que fizera; nesse dia ele descansou de toda a sua obra. E Deus abençoou e santificou o sétimo dia, porque nele descansou de toda a obra que havia criado e feito” (Gênesis 2.2-3). O estudioso veterotestamentário Bill Arnold, de quem aprendi pela primeira vez sobre mito-história, observa que a importância do sábado no Israel antigo “não tem como ser exagerada”. Ele comenta acertadamente:
Por ser algo básico na cultura ocidental por tanto tempo, pode ser difícil ao leitor atual compreender o peso desta introdução do conceito de um dia de descanso em sete. Deveras, nossa fácil aceitação de tal ideia talvez nos leve a ler 2.1-3 como anticlimática ao que se constitui um relato da criação que seria, de outro modo, espetacular. Nossa dificuldade está em ler a instituição do sábado como meramente um dogma cultual, quase como se fosse uma consideração posterior à criação do mundo. Pelo contrário, ao colocá-lo ali, na conclusão da criação do mundo, o autor criou uma teologia elaborada do sábado que não deve fugir de nossa vista.[2]
A ideia de uma semana de sete dias a ter o clímax num sábado santificado não tem paralelos em outros textos do antigo oriente próximo. É uma singularidade judaica. Provavelmente, nenhum outro motivo etiológico em Gênesis 1—11 é atestado de modo tão vigoroso ou importante quanto a fundamentação da observância do sábado na observância que o próprio Deus fez do sétimo dia como dia de descanso na história da criação do mundo.
Conforme você observa, o próprio autor do Pentateuco, ao refletir posteriormente na história da criação, é explícito sobre a observância do sábado estar fundamentada no padrão estabelecido por Deus, bem como em sua santificação e bênção do sétimo dia (Êxodo 20.8-11; 31.15-17).
Por isso, sim, o autor do Pentateuco remonta aos eventos da história da criação em Gênesis 1—2, mas isso não demanda nada mais do que uma referência literária, uma retrospectiva, por assim dizer, da história da criação. Penso que a dificuldade que você tem com esta ideia é que você acha que a autoridade de um mito na sociedade depende da verdade literal desse mito. Não é bem assim. Os mitos costumam ser interpretados figurada ou metaforicamente em sociedades para as quais eles têm autoridade. O mito de uma criação em seis dias a ter o clímax num dia de descanso pode ter autoridade para a observância do sábado em Israel sem pensarmos que Deus tenha criado em literalmente seis dias consecutivos de 24 horas e, então, descansado no sétimo dia.
Assim, será que o autor do Pentateuco exigiu que leiamos o seu relato literalmente? Há bom motivo para pensar que não o fez. Em geral, há a implausibilidade da criação do mundo em apenas seis dias, o que se deve não a qualquer limite no poder onipotente de Deus (que poderia ter criado o mundo em seis segundos!), mas, sim, ao problema dos cenários enganosos de “aparência de idade” — ilustrado, por exemplo, pelo famoso enigma de ônfalo: será que Adão tinha umbigo? Igualmente, há a qualidade literária altamente estilizada e estruturada de Gênesis 1, o que um comentarista denominou de “prosa exaltada”. Mais especificamente, há pistas na própria narrativa que indicam não ter o autor pretendido que fosse lida de maneira literalista. Por exemplo, o autor do Pentateuco teria sabido que as águas primordiais da criação em Gênesis 1.9-10 não poderiam ter escoado em 24 horas (cf. Gênesis 8.3, onde as águas do dilúvio, que fizeram a terra voltar ao seu estado primordial, levaram mais de 150 dias para se reduzirem, até que os topos das montanhas ficassem visíveis). Ele teria sabido, igualmente, que o nascer e o pôr do sol (Gênesis 1.5b) não poderiam ter ocorrido antes da criação do sol (Gênesis 1.14-18). Ele teria sabido que as árvores não poderiam ter brotado naturalmente da terra, crescido até à maturidade, florescido e frutificado em 24 horas (Gênesis 1.12-13), como se fosse em fotografia de câmara rápida. Ele deliberadamente omitiu do seu relato qualquer desfecho para o sétimo dia (Gênesis 2.2), de modo que não se trata de um período de tempo de 24 horas.
Tudo isto sugere que a interpretação literal da narrativa da criação não nos é imposta. Antes, o autor do Pentateuco adotou a típica semana de trabalho judaica, com o clímax no sábado, usando-a como a rubrica para estruturar o seu relato da criação. Ele consegue, portanto, fundamentar a prática religiosa judaica prevalente da observância do sábado nos eventos primordiais da criação. A história primordial da criação tinha autoridade para a sociedade judaica, mas não precisava ser interpretada literalmente.
[1] Lauri Honko, “The Problem of Defining Myth”, in Sacred Narrative: Readings in the Theory of Myth, ed. Alan Dundes (Berkeley: University of California Press, 1984), p. 49. Observação; para que ninguém se perturbe com a menção a deidades, não há nenhuma proibição de um mito monoteísta.
[2] Bill T. Arnold, Genesis, New Cambridge Bible Commentary (Cambridge: Cambridge University Press, 2009), p. 50.
- William Lane Craig