#13 Saltando o fosso horrendo e largo de Lessing
July 11, 2012Dr. Craig, há um capítulo em meu livro no qual argumento que, se Deus revelou a si mesmo no passado histórico (e não na história dos dias presentes), logo escolheu um meio paupérrimo para fazê-lo. Digo também que, se ele preferiu se revelar na era supersticiosa e pré-científica do passado, escolheu uma época indigente para fazê-lo. Quando se trata de seres sobrenaturais e seus supostos milagres, é como se quase tudo pudesse ser racionalmente negado na história, mesmo que o evento tenha acontecido especialmente no passado supersticioso. Como prova disso, há agora muitas pessoas racionais alegando que Jesus nunca foi um personagem histórico do passado, apesar de eu particularmente ainda achar que foi. Embora eu tenha aprendido muito com o senhor nas suas aulas e em seus escritos, e possa quase antecipar as suas respostas, o senhor já sentiu realmente a força do “fosso horrendo e largo” de Gotthold Lessing, o qual, segundo ele mesmo afirmou, não conseguiria atravessar, por mais que se esforçasse tentando? Gotthold Lessing (1729-1781) afirmou: “Milagres, que vi com meus olhos e pude eu mesmo confirmá-los, são uma coisa; milagres dos quais tive conhecimento só pela história de outros que afirmam tê-los visto e verificado, são outra”. “Mas [...] vivo no século 18, no qual não ocorrem mais milagres. O problema é que relatos de milagres não são milagres [...] [eles] têm que operar através de um meio que lhes exaure toda a força”.
John
United States
Dr. Craig responde
A
Que bom ter notícias suas, John! Você pergunta se eu já senti de fato a força do fosso horrendo e largo de Lessing, o qual, disse ele, que não conseguiria saltar. A resposta é “Sim, dependendo de como você interpreta essa metáfora”. Defrontei-me com o fosso de Lessing pela primeira vez nas aulas de teologia em Wheaton e procurei dar a ele uma resposta adequada.
Em benefício dos que desconhecem o artigo “On the Proof of the Spirit and of Power” [Da prova do Espírito e de poder] (1777) de Lessing, permita-me expor com brevidade o desafio desse filósofo. Lessing aceitou a classificação das verdades como verdades de razão (verdades necessárias, demonstráveis pela razão apenas) ou verdades de fato (verdades contingentes, conhecidas somente empiricamente). Sua alegação fundamental é que verdades contingentes da história não podem jamais se converter em verdades necessárias da razão. O cerne da questão é que Lessing pensava que as verdades da religião estavam ou deveriam estar entre as verdades da razão. Por isso, as verdades religiosas não podem nunca ser provadas pela investigação histórica. Essa ruptura entre as verdades contingentes da história e as verdades necessárias da religião é o fosso largo e horrível sobre o qual Lessing afirma não conseguir passar. Se ele estiver certo, a apologética histórica a favor do cristianismo não passa de esforço inútil e absurdo.
Os argumentos de Lessing são tão confusos que, num certo nível, é fácil infligir-lhe alguns furos:
(1). Não é certo que verdades contingentes não possam servir como prova de verdades necessárias. Lessing reflete o pensamento de Leibniz, Kant e outros contemporâneos seus segundo os quais as verdades necessárias, quer sejam analíticas ou sintéticas, seriam conhecidas a priori, ou seja, não com base na experiência. Mas um dos insights de Saul Kripke em nossos dias é que há também, necessariamente, verdades conhecidas a posteriori, por exemplo, a de que o peso atômico do ouro é 79. É uma verdade que não poderíamos conhecer só pela razão, mas que, depois de familiarizados com o ouro, como um elemento químico, podemos verificar que qualquer elemento cujo número atômico seja diferente de 79 não é ouro, por mais que se pareça com o ouro.
Além disso, Lessing combina necessidade com certeza. Ele considera que as verdades necessárias são mais precisas do que as verdades contingentes. Esse ponto de vista é evidentemente falso, à semelhança dos problemas matemáticos não resolvidos, como demonstra a Conjectura de Goldbach, a qual, de duas uma, é necessariamente verdadeira ou é necessariamente falsa — embora ninguém saiba qual seja. Comparativamente, tenho certeza absoluta de que George Washington já tenha sido presidente dos Estados Unidos, embora essa verdade histórica seja contingente. Não há razão para que uma verdade contingente, cuja certeza é conhecida, não sirva como evidência para uma verdade necessária menos óbvia.
(2). A identificação de verdades religiosas com verdades necessárias é um erro. Com certeza, algumas verdades religiosas, como a de que Deus existe, podem ser necessárias, mas não há a mínima razão para se imaginar que todas as verdades sejam verdades necessárias — condição especialmente evidente no caso de uma religião histórica como o cristianismo. Por que se deveria entender que as verdades da encarnação de Cristo, o seu nascimento virginal, os milagres e exorcismos que ele realizou, sua crucificação, sepultamento e ressurreição não são verdades religiosas só porque são reivindicações históricas contingentes? O preconceito cultural de Lessing para com o deísmo se manifesta nesse ponto.
(3). As verdades históricas podem servir como provas ao menos das reivindicações históricas da religião. Consideremos o que os cristãos confessam acerca de Jesus no Credo dos Apóstolos:
[Jesus Cristo] foi concebido por obra do Espírito Santo,
nasceu da Virgem Maria,
padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos,
foi crucificado, morto e sepultado.
Desceu ao Hades.
Ao terceiro dia, ressuscitou dos mortos.
O Credo é um misto de alegações historicamente verificáveis e não verificáveis, todas confessadas como verdades da religião cristã. Ainda que a evidência histórica não sirva para estabelecer verdades como a concepção virginal ou a descida ao Hades, não há razão para que a evidência histórica seja irrelevante para outras reivindicações da fé cristã, por exemplo, a frase realista e terrena “padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos”.
Portanto, conforme digo, é superficialmente fácil recorrer a reivindicações para refutar o pensamento indigente de Lessing. Mas isso perderia de vista o problema mais profundo que aqui se esconde. O problema não é, como você sugere, que “quase tudo pode ser negado racionalmente na história”. John, essa alegação é notoriamente falsa, e tenho certeza de que você se retrataria dela se pensasse nisso com mais profundidade. Estou atualmente revisando o capítulo sobre a objetividade do conhecimento histórico de meu livro Reasonable Faith [A veracidade da fé cristã. São Paulo: Vida Nova], o qual me tem feito recuar nos debates sobre a filosofia da história. As alegações levantadas por filósofos pós-modernistas da história de que o conhecimento do passado é impossível foram rejeitadas quase universalmente pelos historiadores profissionais. C. Behan McCullagh, por exemplo, em resposta às alegações pós-modernistas de que tudo é interpretação, queixa-se: “Eles ignoram o fato de que muitas interpretações de evidência observável, muitas declarações de fatos históricos particulares, são tão fortemente apoiadas que são consideradas como virtualmente certas” (“What Do Historians Argue About?” [O que indagam os historiadores?], History and Theory 43 [2004]: 22). O que me lembra o comentário de Isaiah Berlin. De acordo com ele, se alguém defendesse que as peças e os sonetos de Shakespeare tinham sido escritos de fato na corte de Genghis Kahn na Mongólia Exterior, não diríamos só que essa pessoa não estaria certa, mas que não tinha juízo!
Com relação a Jesus de Nazaré, de acordo com E. P. Sanders, “não há dúvidas substanciais acerca do curso geral da vida de Jesus: quando e onde ele viveu, onde e quando aproximadamente morreu e o tipo de coisa que ele fez durante sua atividade pública” (The Historical Figure of Jesus [A personagem histórica de Jesus], Penguin Books, 1993, p. 10). A ideia de que podemos negar racionalmente a existência de Jesus não é o tipo de posição que historiadores respeitáveis endossem, por mais racionais que, em outro sentido, sejam as pessoas citadas por você. Acho irônico, John, que pessoas que abandonaram a fé cristã, como Robert Price, às vezes se lancem tão longe na direção oposta que se tornam mais simplórios e passam a adotar posições mais extremas do que as visões fundamentalistas que antes defendiam. Não deixe que isso lhe aconteça.
Também não acho que o entendimento de Lessing seja que os milagres não podem ser objeto de prova histórica. O argumento de Hume contra a identificação de milagres foi detonado por filósofos como John Earman em seu livro Hume’s Abject Failure, [O fracasso abjeto de Hume] (Oxford University Press, 2000). Não há argumento a priori contra a possibilidade de se estabelecer um milagre historicamente. Será preciso investigar a evidência caso a caso. Com respeito à ressurreição de Jesus, não é necessário ir tão longe quanto foi N. T. Wright, ao estimar que as probabilidades históricas do túmulo vazio e das aparições post-mortem de Jesus são tão altas que são “praticamente certas, como a morte de Augusto em 14 d. C. e a queda de Jerusalém em 70 d. C” (The Resurrection of the Son of God [A ressurreição do Filho de Deus], Fortress: 2003, p. 710), a fim de reconhecer que a evidência é suficientemente forte para estabelecer esses fatos, como concorda a grande maioria dos estudiosos do Novo Testamento. Aceitar ou não uma explicação milagrosa desses fatos vai depender mais de sua abertura a explicações sobrenaturais do que de considerações estritamente históricas.
Portanto, qual é o problema de fundamentar as crenças religiosas em provas históricas? O problema, segundo me parece, é tanto a relatividade da evidência histórica quanto a habilidade individual para apreendê-la. Nós temos tanto a evidência manuscrita como as ferramentas avaliativas históricas que fornecem fundamento substancial para que se creia em Jesus do modo como os evangelhos o descrevem. Mas, e quanto às gerações mais antigas, às quais faltavam a evidência e as ferramentas de que dispomos? O fato é que a vasta maioria das pessoas ao longo de toda a história e no mundo hoje não teve treinamento, tempo nem recursos para conduzir uma investigação histórica da evidência a favor de Jesus. Se insistirmos na necessidade de um fundamento histórico comprobatório para a fé, então condenaremos a maior parte da população do mundo à incredulidade, negando, portanto, a tais pessoas, o privilégio e a alegria de conhecerem Deus em Cristo. O que para mim é um absurdo. Por isso, o fosso horrendo e largo que nos confronta é este: a lacuna entre a situação epistêmica condicionada historicamente e a evidência exigida para garantir a fé cristã.
Acho que foi o filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard quem deu a resposta certa a Lessing. Através do encontro existencial com o próprio Deus, cada geração pode tornar-se contemporânea da primeira geração. Portanto, não dependemos de provas históricas para o conhecimento da verdade do cristianismo. Pelo contrário, através do testemunho íntimo e imediato do Espírito Santo, todos podem vir ao conhecimento da verdade do evangelho ao ouvi-lo. Essa perspectiva passou a ser conhecida, um tanto equivocadamente, como epistemologia reformada. Alvin Plantinga explicou magistralmente esse enfoque no seu livro fantástico Warranted Christian Belief [A fé cristã justificada] (Oxford University Press: 2000). Aqui não é o lugar para defender essa visão; talvez você queira dar uma olhada no capítulo sobre epistemologia religiosa no livro que escrevi com J. P. Moreland, Philosophical Foundations for a Christian Worldview [Filosofia e cosmovisão cristã, Vida Nova, SP] (Inter-Varsity, 2003).
Portanto, é assim que salto por cima do fosso de Lessing. A fé cristã é confirmada pela evidência histórica por aqueles de nós bastante afortunados para ser tão epistemicamente posicionados a ponto de desfrutarmos dela corretamente. A fé cristã, todavia, não se fundamenta na evidência histórica.
- William Lane Craig