#729 Simplicidade divina
September 07, 2021Caro Dr. Craig,
O senhor recentemente respondeu à minha pergunta sobre linguagem religiosa no podcast Reasonable Faith (22 de março de 2021) e gostaria de reformulá-la de maneira mais compreensível. Admito que a minha formulação da questão ficou um pouco falha e bagunçada, e por isso quero gastar um tempo para tentar rearticulá-la, já que estou genuinamente em busca de respostas.
Basicamente, o que penso estar tentando pergunta é o seguinte: segundo a sua visão de Deus, como é que Deus pode ser qualitativamente infinito e absolutamente único? Pela perspectiva tomista, uma vez que Deus não é nenhum ser particular, mas, sim, o Ser em si subsistente, Deus teria de ser qualitativamente infinito e único pelo simples fato de as criaturas não poderem compreender tal realidade, mesmo ao longo da eternidade. É por isso que eu e outros tomistas cremos que, por toda a eternidade no céu, constantemente “aprenderemos” novas coisas sobre Deus, e jamais haverá um momento em que alcançaremos o fato “último” acerca de Deus. Já que o senhor parece acreditar que Deus é, de fato, ser particular, e não Ser em si, parece que, em nível metafísico muito básico, o senhor tem uma visão finita de Deus e, portanto, poderíamos teoricamente alcançar um fato “último” acerca de Deus no céu. Isto parece muito problemático, pois Deus, enquanto realidade última, não deve ser realidade finita. Conforme expressou David Bentley Hart, Deus é um grande “Oceano do Ser”, do qual derivam todos os seres finitos. Espero que agora faça mais sentido.
Obrigado pela leitura, e aguardo a sua resposta. Deus abençoe.
Anthony
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Agradeço a sua pergunta, Anthony, porque se relaciona com a minha pesquisa atual para o meu projeto de teologia filosófica sistemática. Agora embarquei na seção sobre a Doutrina de Deus e estou investigando o que filósofos chamam de coerência do teísmo, ou como melhor explicar os diversos atributos de Deus. Depois de escrever os primeiros rascunhos das subseções sobre necessidade e asseidade divinas, agora estou percorrendo a prodigiosa literatura sobre simplicidade divina.
A doutrina da simplicidade divina mantém que não há composição ou complexidade em Deus. A doutrina tem sido entendida de diferentes maneiras ao longo da história da igreja. Todos concordam que Deus não é composto de partes materiais, uma vez que Ele não é objeto físico. Porém, no outro extremo do espectro, seguidores de Tomás de Aquino afirmam que, em Deus, não há sequer uma distinção entre essência e existência. Antes, Deus é só o ato puro do ser.
A fim de entender esta afirmação, precisamos ter algum entendimento prévio da metafísica tomista. Para Tomás, seres finitos são todos compostos de essência e existência. A essência de algo é a sua natureza individual, onde a natureza desse algo é dada em resposta à pergunta: “O que é isso?”. Por exemplo, um cavalo tem determinada natureza que o faz um cavalo, em vez de, digamos, um homem ou leão. A existência de algo é dada (ou não) em resposta à pergunta: “Será que é?”. Ao considerarmos a essência de um cavalo, não podemos responder à pergunta da sua existência ou não. A sua essência é distinta da sua existência.
É crucial entender que, para Tomás, não se trata meramente de distinção conceptual que fazemos nas nossas mentes. Antes, é distinção metafísica ou real dentro das criaturas. As criaturas são compostas metafisicamente de essência e existência. Com “existência”, Tomás quer dizer um ato do ser que instancia a essência. A existência não é propriedade acrescentada à essência de algo; antes, é a instanciação dessa essência. Os tomistas gostam de enfatizar a natureza verbal da palavra “ente” ou “ser” (do latim esse). Ser não é propriedade, mas ato de instanciação. Assim, se alguma criatura deve existir, o ser deve estar unido à sua essência, a fim de que tal criatura seja algo real.
Por isso, a afirmação de que Deus é absolutamente simples implica (dada a real distinção entre essência e existência) que Deus é o ato puro do ser. É inaceitável manter que Deus tenha determinada natureza — digamos, divindade (sem falar das diversas propriedades essenciais normalmente atribuídas a Deus, como santidade, asseidade, onipotência, onisciência, eternidade e assim por diante) —, à qual o ato do ser está necessariamente unido. Uma essência serve para restringir o ser a esse ou aquele tipo de ser, digamos, um homem ou cavalo. Porém, uma vez que Ele é simples, o ato divino do ser não está limitado por nenhuma essência. Ele só é o ato puro do ser, ilimitado por qualquer natureza. Ele é, conforme gostam de dizer os tomistas, ser em si subsistente (ipsum esse subsistens).
Ora, é seu mérito, Anthony, que você enxergue claramente as implicações radicais desta doutrina. Ela implica que Deus é, literalmente, incompreensível. Isto porque o modo como o intelecto humano compreende alguma coisa é mediante a natureza ou essência dela. É assim que chegamos a conhecer o que ela é. O intelecto humano, portanto, não tem nenhum modo de compreender o ato puro do ser. Não estando unido a nenhuma essência, é incapaz de ser pensado. A doutrina de Tomás, então, leva ao agnosticismo profundo em relação a quem ou o que Deus é. Só podemos dizer o que Ele não é: não-físico, não-temporal, não-espacial etc. Não podemos ter nenhuma conhecimento positivo de Deus.
Assim, é falso que, para os tomistas, “por toda a eternidade no céu, constantemente ‘aprenderemos’ novas coisas sobre Deus”. Pelo contrário, se Tomás estiver certo, constantemente aprenderemos nada sobre Deus — nunca! Se os santos no céu vierem a ter uma “visão beatífica” da essência ou ser de Deus, terá de experiência ser inefável, mística e não-cognitiva.
Tal doutrina é tão antibíblica — não apenas no sentido de que não é ensinada na Bíblia, mas no sentido de que é contrária ao ensinamento da Bíblia, que nos instrui que Deus é amoroso, pessoal, santo, todo-poderoso, eterno e assim por diante — que resta perguntar como um cristão bíblico pode sequer se sentir atraído a doutrina tão perniciosa. O Deus de Tomás se parece mais com o Absoluto inefável do hinduísmo, que também não tem distinções, do que com o Deus da Bíblia, que Se revela a nós como isto e não aquilo.
Você propõe como justificação para a doutrina da simplicidade divina a afirmação de que, sem esta doutrina, Deus é finito, o que é, obviamente, inaceitável do ponto de vista teológico. Porém, eu não vejo nada disso, Anthony. Mesmo que a simplicidade seja condição suficiente para a infinidade de Deus, por que pensar que é condição necessária? Por que um ser complexo não pode ser infinito? Deus é qualitativamente infinito em maneiras multifacetadas: Ele é metafisicamente necessário na sua existência, Ele existe a se como a única realidade incriada, Ele é onipotente, onisciente, eterno, moralmente perfeito, o próprio padrão de bondade e assim por diante. Tais atributos são acarretados pela situação de Deus como o maior ser concebível. Não vejo absolutamente nenhuma razão para pensar que um Deus não-tomista não possa ter tal conjunto de propriedades.
Pelo contrário, de fato, é o Deus tomista que não pode ter estas propriedades. Deveras, não é nem um pouco óbvio em qual sentido o tomista pode afirmar que Deus é infinito em algum sentido positivo. Tudo que parecemos obter é que Deus é o ato puro do ser, não recebido ou contraído por nenhum essência, como acontece em criaturas. Esta é, na melhor das hipóteses, a tese de que Deus não é finito, mas que ele é conceito puramente negativo. Por que pensar que o ato puro do ser é um grande Oceano do Ser, em vez de apenas o grande Desconhecido?
O que, pergunta você, torna Deus absolutamente único? Bem, Ele é a única realidade incriada, por um lado, além do único ser necessário, eterno, onipotente etc. Como o Senhor disse a Isaías, “Eu sou Deus, e não há outro não há outro semelhante a mim” (Isaías 46.9). Ninguém mais tem tais atributos. Não vejo nenhuma razão de por que tal ser infinito não possa existir ao lado de seres finitos, como a causa existencial deles.[1]
Uma última camada para acrescentar ao debate: como anti-realista quanto a propriedade, não penso que Deus seja metafisicamente composto de nenhum constituinte. Não é necessário propriedades como coisas metafisicamente existentes a fim de fazer predições verdadeiras acerca de Deus. Neste sentido, realmente concordo que Deus é simples! No entanto, isto não tem nenhuma relevância teológica, porque também somos simples neste mesmo sentido! Rejeito ontologias constituintes. Por outro lado, enquanto anti-realista, também rejeito ontologias relacionais, que tomam propriedades como se fossem objetos abstratos para os quais as coisas existem em relação de exemplificação. Acho que, na literatura sobre simplicidade divina, costuma-se assumir que se deve ser realista quanto a propriedades, quer no sentido de ontologia constituinte, quer no sentido de ontologia relacional. O anti-realista escapa deste dilema ao simplesmente rejeitar propriedades na sua totalidade.
[1] Você talvez queira conferir o meu artigo: “Pantheists in Spite of Themselves? Pannenberg, Clayton, and Shults on Divine Infinity”, https://www.reasonablefaith.org/writings/scholarly-writings/christian-doctrines/pantheists-in-spite-of-themselves-pannenberg-clayton-and-shults-on-divine-i/
- William Lane Craig