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#728 O destino de quem rejeita a Cristo

September 07, 2021
Q

Caro Dr. Craig,

Obrigado por todo o trabalho que faz. É bênção enorme. Estou escrevendo enquanto me encontro num lugar muito tenebroso e difícil na minha vida. Estou realmente lutando com diferentes questões ligadas ao cristianismo.

Uma das questões que tem realmente me incomodado é a ideia do particularismo cristão. Penso que muitos da minha idade (tenho 20 anos) lutam com esta questão e não conseguem, por isso, ser testemunhas muito eficazes para Cristo. Foi assim que comecei a lutar tanto com o assunto. Gosto de ler e ouvir materiais apologéticos. Entendo que há razões boas e fundamentadas para crer em Cristo. No entanto, o que realmente me desconcerta é ler os testemunhos de diferentes pessoas que buscaram a verdade e, segundo disseram, encontraram-na no islam ou em alguma outra religião. Talvez não tivessem todas as ferramentas corretas, mas, com as informações que possuíam, a melhor escolha para eles foi a religião que escolheram.

Muitos dizem que experimentaram a Deus. Em um testemunho, a pessoa disse: “Olhando para trás, não consigo mais ver como o islam podia sequer ter sido tão difícil de entender ou aceitar; é tão obviamente verdadeiro para mim agora que é como se estivesse bem na minha cara”.

O meu problema não está tanto em defender o cristianismo (embora, por vezes, fique perguntado se realmente sei que ele é verdade), mas como Deus poderia permitir as pessoas buscarem a verdade e dizerem que a encontraram em outra religião. Por que é que Ele não lhes forneceu provas de que o cristianismo é verdadeiro? Muitas destas pessoas têm formação cristã, mas, ainda assim, escolhem não o seguir, porque as provas que receberam não as convenceram.

Assim, fiquei pensando se as pessoas não poderiam ser salvas em outra religião.

Ao ler o seu trabalho, entendo que o senhor crê que alguém que não ouviu de Cristo pode ser salvo, caso responda à revelação de Deus na natureza e consciência.

Assim, alguém pode ser salvo caso responda a Deus mediante a natureza ou consciência, sem explicitamente crer em Cristo. Porém, como é que Deus pode rejeitar alguém que O busca e diz tê-lO encontrado em outra religião? E muitas destas pessoas ouviram de Cristo, e, ainda assim, não creem nEle. Será que a salvação tem a ver com responder a Deus de maneira apropriada ou perceber a nossa pecaminosidade e perdão por meio de Cristo? Será que alguém pode amar a Deus em outra religião, mas, ainda assim, ser condenado, por não ter confiado em Cristo para o perdão dos seus pecados?

Tudo o que estou dizendo é que parece incoerente dizer que alguém pode ser salvo ao responder positivamente a Deus na natureza e consciência, mas alguém em outra religião que responde a Deus da melhor forma que sabe será condenado, porque não crê em Cristo como Filho de Deus que morreu pelos seus pecados e ressuscitou. Espero que esteja me fazendo entender, porque estas questões têm me trazido muita perturbação. Se alguém pode ter vida eterna por buscar a Deus sem crer em Cristo, por que, então, sequer crer em Cristo? Por que compartilhar a Cristo com os outros, se eles podem encontrar a Deus em outra religião? E o que dizer da mensagem do evangelho, que diz sermos salvos pela graça? Que a salvação não tem a ver com sermos morais ou mesmo experimentarmos a Deus, mas, sim, recebermos o dom gratuito de Deus, a vida eterna? O que é a salvação de acordo com Jesus? Espero que possa me ajudar com estas perguntas. Penso que muitos jovens se beneficiariam com respostas a estas questões difíceis.

Camille

Canadá

Canada

Dr. Craig responde


A

Estas são mesmo perguntas agonizantes, Camille, com as quais, para ser honesto, eu também luto. Para começar, observe como eu intitulei esta pergunta da semana. Não se trata da salvação de quem jamais ouviu a Cristo (o que incluiria Abraão e Moisés, e por isso dificilmente seria desconcertante!) nem daqueles de outras religiões que jamais ouviram de Cristo. Antes, estamos falando de pessoas que ouviram a proclamação precisa do evangelho e o rejeitaram, virando as costas para Cristo.

Jesus prometeu: “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, saberá se esse ensino é dele, ou se falo por mim mesmo” (João 7.17). Aqui, Jesus diz que quem busca honestamente a Deus e confronta o ensino de Jesus saberá que o seu ensino vem, de fato, de Deus. Segue que qualquer um que não reconheça este fato não quer, na verdade, fazer a vontade de Deus. Como é que Jesus pode fazer uma afirmação tão audaz?

A resposta é que o Espírito Santo de Deus está em operação para convencer e atrair as pessoas para o conhecimento salvífico de Deus (João 16.8). O que Paulo chama de “homem natural” está em estado de alienação e rebelião contra Deus, morto nos seus pecados e, portanto, não buscando, mas, sim, resistindo a Deus (Romanos 3.10-11; 1 Coríntios 2.14). A única maneira em que tal pessoa pode chegar ao conhecimento salvífico de Deus é mediante o poder de convencimento e atração do Espírito Santo. Quem quer que se recuse a vir à fé em Cristo é, em algum momento, culpado de resistir ao Espírito Santo e, assim, separa-se de Deus. A Bíblia diz que Deus não quer que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento (2 Pedro 3.9). A única razão, portanto, por que algumas pessoas não conseguem encontrar a salvação é porque elas livremente resistem aos próprios esforços de Deus para salvá-las.

Assim, pense em pessoas que conheciam o evangelho, mas hoje alegam ter encontrado a verdade no islam ou em alguma outra religião. Enfatizo não ser verdade, como você disse, que, “com as informações que possuíam, a melhor escolha para eles foi a religião que escolheram”. Com total independência da questão de terem ignorado ou não as provas a favor do cristianismo, o que se deve ter em mente é que, num nível mais fundamental, suprimiram o testemunho que o Espírito Santo lhes dava de que o evangelho é verdade. Repudiaram o próprio Deus e o seu testemunho para eles acerca de verdade do ensino de Jesus. Eles se separaram, então, de Deus.

Sem dúvida, podem relatar experiências religiosas em outra religião. É óbvio! No entanto, quem quer que diga que o islam “é tão obviamente verdadeiro para mim agora que é como se estivesse bem na minha cara” está, francamente, enganando-se. O Alcorão tem uma visão tão historicamente incorreta de Jesus de Nazaré, afirmando até que Jesus não foi crucificado, que ele se torna indefensível, e o conceito de Deus no islam é tão moralmente repulsivo, ao asseverar que Deus odeia os descrentes e ama apenas aos que o amam, que não tem a menor possibilidade de ser verdade.

Você pergunta: “como Deus poderia permitir as pessoas buscarem a verdade e dizerem que a encontraram em outra religião?”. Porque Ele nos deu livre arbítrio e, por isso, não nos coagirá a crer. Alguns cristãos dizem que a graça de Deus é irresistível. Discordo. “Homens teimosos”, declarou Estêvão, “vós sempre resistis ao Espírito Santo” (Atos 7.51). O Espírito de Deus busca atrair a cada um de nós para Si, mas, em última instância, se alguém escolhe livremente seguir o seu próprio caminho, Deus não o forçará. “Por que é que Ele não lhes forneceu provas de que o cristianismo é verdadeiro?” Ele o fez: o testemunho que o Espírito Santo dá sobre a verdade do evangelho. “Muitas destas pessoas têm formação cristã, mas, ainda assim, escolhem não o seguir, porque as provas que receberam não as convenceram.” Não, eles escolheram não seguir porque resistiram ao Espírito Santo (e isso sem levar em conta se resistiram ou não às provas apologéticas).

Espero que consiga começar a ver como a perspectiva cristã sobre a descrença é diferente, se comparada com a perspectiva dominante em nossa cultura relativista do ponto de vista religioso.

Sim, afirmo que quem jamais ouviu o evangelho pode ser salvo mediante a morte expiatória de Cristo ao responder à revelação geral de Deus na natureza e na consciência. Isto porque podem deixar de resistir, respondendo, então, à luz que Deus lhes Deus. “Assim, porém, como é que Deus pode rejeitar alguém que O busca e diz tê-lO encontrado em outra religião?”. A questão está mal formulada. A pergunta adequada é: como é que Deus pode condenar alguém que virou as costas para Cristo, voltando-se para outra religião? A resposta: porque tal pessoa resiste e ignora ao Espírito Santo. “Será que a salvação tem a ver com responder a Deus de maneira apropriada ou perceber a nossa pecaminosidade e perdão por meio de Cristo?”. A pergunta não ficou muito clara. Você quis dizer que chegamos à salvação ao respondermos a Deus de maneira apropriada ou ao percebermos a nossa pecaminosidade e perdão por meio de Cristo? A pergunta postula falsa dicotomia. Sim, chegamos à salvação ao respondermos a Deus de maneira apropriada, e a maneira apropriada para quem ouviu o evangelho é arrepender-se e crer em Cristo para a salvação. Por outro lado, uma pessoa como Moisés não pode buscar perdão mediante Cristo por nunca ter ouvido de Cristo. Assim, ele terá recebido outro modo de responder de maneira apropriada a Deus. “Será que alguém pode amar a Deus em outra religião, mas, ainda assim, ser condenado, por não ter confiado em Cristo para o perdão dos seus pecados?” Não, porque, se rejeitam a Cristo, não amam verdadeiramente a Deus (pense em João 7.17), ao passo que, se verdadeiramente amam a Deus, a sua incapacidade de confiar em Cristo deve ser porque não ouviram de Cristo e, por isso, não estão condenados, mas estão respondendo de maneira apropriada à luz que têm.

Será que é “incoerente dizer que alguém pode ser salvo ao responder positivamente a Deus na natureza e consciência, mas alguém em outra religião que responde a Deus da melhor forma que sabe será condenado, porque não crê em Cristo”? Não, de modo algum! Isto porque quem está salvo mediante a sua resposta à natureza e consciência não rejeitou a Cristo, mas está respondendo positivamente a Deus da melhor maneira que sabe. No entanto, quem rejeita conscientemente a Cristo não está respondendo a Deus da melhor maneira que sabe; antes, está resistindo ao Espírito Santo. É como o homem que está a se afogar e empurra para longe a bóia salva-vidas jogada para si.

 “Se alguém pode ter vida eterna por buscar a Deus sem crer em Cristo, por que, então, sequer crer em Cristo?” Quem quer que responda positivamente à revelação natural de Deus na natureza e consciência também responderá positivamente à revelação especial de Deus no evangelho. Se a vontade de alguém é fazer a vontade de Deus, ele saberá que o ensino de Jesus vem de Deus. “Por que compartilhar a Cristo com os outros, se eles podem encontrar a Deus em outra religião?” Porque quem encontra a salvação mediante a revelação geral, se tais pessoas existem, é relativamente raro, e o evangelho é revelação muito mais poderosa da verdade de Deus que atrai até mesmo quem rejeita a revelação geral. “E o que dizer da mensagem do evangelho, que diz sermos salvos pela graça? Que a salvação não tem a ver com sermos morais ou mesmo experimentarmos a Deus, mas, sim, recebermos o dom gratuito de Deus, a vida eterna?” Se você acha que estou dizendo algo além disto, você me entendeu mal. O dom gratuito da vida eterna, por parte de Deus, encontra-se preeminentemente em Jesus Cristo, de modo que quem o rejeita está a rejeitar o dom gratuito de salvação da parte de Deus. “O que é a salvação de acordo com Jesus?” É a reconciliação com Deus, realizada mediante a morte de Jesus.

Ao pensar nestas coisas, Camille, você encontrará abundantes materiais sobre a questão do particularismo cristão no nosso site.

- William Lane Craig