#295 Sobre a Bondade de Deus
May 16, 2015Eu era um cristão, com isso quero dizer que eu realmente acreditava e praticava ativamente minha fé. Eu realmente aceitei a Jesus Cristo como meu Senhor e Salvador, liderava estudos bíblicos, levava as crianças e liderava clubes para crianças, liderava escolas dominicais, realizava sessões Alpha, liderava um grupo em casa, ia a semanas de oração e muito mais. Eu não estava brincando. Então por que eu desisti de tudo? Eu tinha um monte de perguntas que muitas vezes tinha medo de perguntar, porque sentia que se eu as perguntasse iria mostrar a minha incapacidade de continuar a executar as atividades que eu liderava. Eu também meio que dei um tiro no pé, porque quando os não crentes me faziam perguntas e eu dava respostas, eles nunca seguiam com as perguntas que eu tinha na minha cabeça, as perguntas que eu mesmo estava com muito medo de perguntar, então eu nunca desabafei minhas perguntas. Então, quais eram as perguntas?
Eu acho que todos elas se resumem a uma grande pergunta: Como sabemos que Deus é bom? Os cristãos acreditam que Jesus é o filho de Deus e eles acreditam nisso porque, de acordo com a Bíblia, ele era sem pecado. Segue também (de acordo com a corrente principal do cristianismo), que Jesus também é Deus. Podemos, portanto, concluir que Deus é sem pecado, Ele é moralmente puro. Então Deus resiste a uma análise moral? Parece que não. Quando Herodes teve sua autoridade ameaçada pelo nascimento de Jesus, ele deu ordens para o infanticídio para garantir a morte do recém-nascido rei dos reis. Este é um evento terrível na história, que uma pessoa ordenasse a morte de centenas de crianças para proteger a sua autoridade. O comportamento de Herodes é moralmente errado. Podemos concluir que Herodes não é Deus (paciência agora). Quando o Faraó recusou a deixar o povo de Deus ir após ser ordenado por Deus, através de Moisés como um mensageiro, Deus decidiu que esta ação deveria ser tomada. A autoridade de Deus estava em perigo, ele estava sendo desafiado. A ação final de Deus foi ordenar a matança dos filhos primogênitos no Egito. Sim, havia uma cláusula de saída, o sangue sobre a porta, mas ele ordenou a matança de crianças, e crianças morreram. O que torna isto pior é que Deus endureceu o coração de Faraó, ele forçou a mão do Faraó, Deus sabia que o Faraó não poderia dizer 'eu vou deixar o seu povo ir.' Deus estava matando as crianças, não importa o quê. Podemos, portanto, concluir que Deus não é moralmente puro. Isso significa que Deus não é realmente Deus, ele não é quem diz ser. Agora eu estou bastante certo de que esse não é um argumento à prova d'água, mas até agora eu não ouvi uma resposta racional.
Eu realmente quero uma resposta a esta pergunta. Eu não quero ouvir respostas bobas que não fazem sentido. Por exemplo: "Deus é bom, nós não entendemos suas razões para tudo" Isso ignora a pergunta, como é que sabemos que ele é bom? "Deus está além de nossa compreensão e ele faz as coisas por razões que não podemos compreender." Mais uma vez esta resposta não faz sentido se ele está além de nossa compreensão como podemos entender alguma coisa sobre ele, onde a linha de entendimento está traçada? É pular fora dizer isso, porque assim que chegarmos a algo que não podemos explicar simplesmente dizemos "isso é porque Deus está além de nossa compreensão". "Satanás cegou-lhe." Se este for o caso, isso significa que Satanás não cegou você, por isso, responda a pergunta para o bem daqueles que foram cegados. "O fato de que você está falando sobre Deus, prova que há um Deus." Podemos falar sobre um monte de coisas que não existem [...] Existem outros, mas por favor, tente analisar quaisquer respostas e ver se elas fazem sentido. Eu anseio pela sua resposta, vamos tentar cavar até chegar à verdade.
David
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Sinto muito ouvir sobre suas lutas com a fé cristã, David! Fico feliz que você escreveu, em busca de respostas. Isso sugere que, em seu coração, você realmente não desistiu. Espero que, como tantos outros, você volte para Cristo.
Então, vamos pensar juntos sobre suas perguntas.Você não vai receber respostas bobas, prontas, de mim. Vou tentar analisar “suas respostas”, como você pede. (A propósito, eu não resisto em dizer que, se você está familiarizado com o meu trabalho sobre os objetos abstratos (ver Pergunta # 289), você vai saber que eu estou firmemente convencido de que podemos falar sobre coisas que não existem. E enquanto eu acho que Deus não pode ser plenamente compreendido por qualquer ser finito, isso não implica que não podemos entender muito sobre Deus, sendo feitos como somos à Sua imagem como pessoas racionais.)
Você declara sua pergunta fundamental da seguinte forma: Como é que sabemos que Deus é bom? Agora em um nível, como expliquei na pergunta passada # 294, essa pergunta é fácil de responder: é conceitualmente necessário que Deus seja bom. Ou seja, a bondade pertence ao próprio conceito de Deus, assim como não ser casado pertence ao conceito de um solteiro. Pois (1), por definição Deus é um ser digno de adoração, e apenas um ser que é perfeitamente bom seria digno de adoração; e (2) como o maior ser concebível, Deus deve ser moralmente perfeito, já que é melhor ser moralmente perfeito do que moralmente falho.
Mas é evidente que não é isso que está incomodando você. Parece-me que o que lhe incomoda é saber se a representação de Deus na Bíblia é suficiente para o conceito de Deus. Eu percebo que não é assim que você coloca a sua pergunta, mas lembre-se, você me pediu para analisá-la. Quando você pergunta: "Será que Deus resiste a uma análise moral?", você está perguntando se o retrato de Deus na Bíblia atinge o conceito de um ser moralmente perfeito. Agora, se essa é a sua pergunta, vamos começar assumindo o pior cenário. Vamos supor que a representação de Deus na Bíblia é moralmente inadequada. O que se segue? Que Deus não existe? Nem um pouco! O fracasso da Bíblia em retratar adequadamente Deus não implica que não há Deus. Seria um ateu temerário, de fato, que tentaria inferir a não-existência de Deus a partir da inadequação moral de certos retratos de Deus na Bíblia. Este fato é especialmente evidente, David, quando você tem em mente os argumentos persuasivos da teologia natural a favor da existência de Deus — os argumentos cosmológicos, teleológicos, ontológicos, morais e outros a favor da existência de Deus. (Eu vejo que cristãos que estão lutando com a dúvida parecem esquecer todos os argumentos da teologia natural.) Eu estou convencido de que temos muito boas razões para pensar que Deus existe.
Então seguiria a partir de uma resposta negativa à nossa pergunta que Jesus de Nazaré não ressuscitou dos mortos e não era quem dizia ser? Mais uma vez, obviamente, não! Você não pode refutar a evidência crível sustentando a ressurreição de Jesus, ou suas afirmações pessoais radicais, apontando para passagens da Bíblia que não são moralmente dignas de Deus. Nenhum historiador iria ouvir tal argumento contra, digamos, o túmulo vazio ou aparições pós-morte (post-mortem) de Jesus.
O que isto significa é que a sua pergunta não fornece nenhuma base para se afastar de Deus ou Jesus Cristo e abandonar a fé cristã. Você foi muito além do que os seus argumentos garantem.
Então, o que segue de uma resposta negativa à sua pergunta? Parece-me que, na pior das hipóteses, o que se segue é que a Bíblia não é sempre precisa em retratar Deus. Isso significa que, na pior das hipóteses, você teria que desistir da doutrina da inerrância Bíblica. Você teria que concluir que os autores bíblicos não acertaram sobre Deus em todos os casos. Isso, por sua vez, exige que você ajuste a sua doutrina da inspiração, sustentando que o elemento divino em coordenar a escrita da Bíblia não ignorou o elemento humano para garantir inerrância.
Agora isso coloca uma perspectiva muito diferente em sua pergunta! Você pode, e racionalmente deve ainda, ser um cristão, mesmo se você não defende uma doutrina de inspiração que garante inerrância bíblica.Esta é uma doutrina que é uma questão interna entre os cristãos. Há uma abundância de cristãos hoje que não mantêm a doutrina da inerrância da bíblia. Agora temos considerado o pior cenário para ver do que você tem que desistir no caso de sua pergunta não poder ser respondida de forma adequada. Espero que você tenha visto que realmente exagerou em se distanciar de Cristo.
Mas a sua pergunta é, de fato, incontestável? Será que estamos presos ao pior cenário? Eu não penso que sim.Vamos olhar mais de perto a sua objeção. Você considera a história do Antigo Testamento de Deus tirando a vida dos primogênitos do Egito a fim de induzir o Faraó a libertar o povo de Israel da escravidão. Você compara isso com Herodes, o Grande, matando os bebês de Belém a fim de evitar que o Messias crescesse e reivindicasse o seu trono. Já que o que Herodes fez foi mal, e Deus fez a mesma coisa, como Herodes, o que Deus fez foi mal também.
Vamos deixar de lado a questão de Deus endurecendo o coração de Faraó, porque eu concordo com você que, se Deus fez o Faraó se recusar a liberar o povo de Israel, então Faraó não pode ser moralmente responsável por sua recusa (eu não sou um calvinista!). Eu acho que uma perspectiva do conhecimento médio sobre esta passagem pode lançar luz sobre como de Deus pode ser dito fazer coisas mesmo que envolvam os atos livremente desejados de pessoas humanas. Essa é uma história para outro dia!
Agora eu acho que é bastante óbvio que existem diferenças moralmente significativas entre os dois casos que você menciona. Herodes estava agindo de forma egoísta, em desafio a Deus, a fim de preservar sua própria autoridade real. Deus não estava agindo para preservar sua autoridade, mas para preservar as vidas e a liberdade de milhares de pessoas que estavam sendo abusadas como escravas. Além disso, como você nota, este era um último recurso da parte de Deus, recorrido apenas quando outros meios de influenciar o faraó tinham falhado.
Mas deixe tudo isso de lado. O ponto mais fundamental que precisa ser dito é que você assume que todas as pessoas têm os mesmos deveres morais para cumprir, que uma ação que seria imoral para uma pessoa não pode ser moral para outra. Essa suposição é, penso eu, obviamente falsa. Diferentes pessoas podem ter diferentes deveres morais. Por exemplo, os nossos filhos, quando eram pequenos, eram moralmente obrigados a obedecer a minha esposa; mas eu não tenho essa obrigação. Um policial tem o direito de parar você por alta velocidade na rodovia; eu não tenho esse direito.
Então, por que achar que Deus tem as mesmas obrigações morais que Herodes (ou qualquer ser humano)? Eu não vejo nenhuma razão para pensar que Ele tem. Em particular, Deus, parece-me, tem o direito de dar e tirar a vida humana como entender. A vida é um dom de Deus, parece-me, e eu não tenho absolutamente nenhuma reivindicação em um segundo de existência continuada. Se Ele quer acabar com a minha vida agora e me chamar para o lar, esta é Sua prerrogativa. Na verdade, se você crê, como eu, que as pessoas que morrem na infância vão para o céu, então Deus não prejudicou de modo algum as crianças egípcias em pôr fim à sua vida terrena mais cedo do que o normal. Elas não estão reclamando! Por que você deveria?
Na verdade, eu estou inclinado a pensar que Deus não tem quaisquer obrigações morais para cumprir. Obrigações e proibições morais surgem como resultado de imperativos emitidos por uma autoridade competente. Assim, a fonte de nossos deveres morais são mandamentos de Deus. É por isso que o que Herodes fez foi errado: ele transgrediu a ordem divina para não matar. Agora, já que Deus, presumivelmente, não emite comandos para Si mesmo, segue que Ele não tem deveres morais. Por isso, é logicamente incoerente alegar que Deus fez algo que Ele não deveria fazer.
Isso quer dizer que Deus pode fazer qualquer coisa? Não, porque Deus não pode agir contra a Sua própria natureza. Deus é essencialmente amoroso, justo, paciente, consistente, e assim por diante. Portanto, se Deus tira a vida de alguém, digamos, uma criança egípcia, podemos ter a certeza de que Deus faz isso, não por capricho, mas apenas com razão suficiente para fazê-lo. No caso das pragas sobre o Egito, podemos ter certeza de que Deus tinha boas razões para agir assim, por exemplo, redimir Israel da escravidão e, em última análise, o resgate de todo o mundo através de Messias de Israel, Jesus.
Isto implica que Deus pode agir de maneiras que podem ser chocante para nós. C. S. Lewis comentou certa vez: "O que as pessoas querem dizer quando dizem que elas não têm medo de Deus, porque elas sabem que Ele é bom? Será que elas nunca foram ao dentista?" Nas Crônicas de Nárnia, Lewis simboliza esta verdade quando é explicado às crianças que Aslam não é um leão manso, mas ele é bom.
David, você mencionar a tentativa má de Herodes em frustrar os propósitos de Deus é um lembrete oportuno, durante esta época de Natal, do ato de Deus transbordando bondade e amor em enviar seu filho Jesus para o mundo, para nos redimir do mal e para nos assegurar as bênçãos da vida eterna. Que momento oportuno para reafirmar sua fé e gratidão a Ele!
- William Lane Craig