#311 Deus Criando o Tempo
May 16, 2015Caro Dr. Craig,
Uma objeção comum (por exemplo, Grünbaum) para a sua visão do começo do universo é que o momento da criação não pode ser "antes de" a atualização ou materialização do universo, uma vez que já pressupõe o tempo do universo. Em resposta, você propôs que talvez o momento da criação do universo tenha sido simultâneo com o começo do universo, assim não precisando mais um "antes".
Mas a nossa noção do que é um evento ser simultâneo com outro evento só faz sentido dentro de um espaço e do tempo já existentes (independentemente de se simultaneidade for considerada aqui como absoluta ou relativa).
Então, falar de espaço e de tempo em si como estando num relacionamento simultâneo com uma causa ou momento da criação (como se o espaço e o tempo fossem uma coisa espaço-temporal ou do próprio evento) parece ininteligível. Nossa noção de simultaneidade, ou coincidência, e até mesmo a nossa noção do que é ser um evento só faz sentido dentro de um espaço e de tempo já existente.
Por último, se alguém afirma que talvez a propriedade da própria simultaneidade também começa AO MESMO TEMPO (ou "simultâneo"), com o começo do universo e sua causa, então parece exigir uma simultaneidade de segunda ordem, que mais uma vez parece ininteligível.
Como você resolveria este problema?
Felicidades,
Rui
Canadá
Canada
Dr. Craig responde
A
Dr. Craig responde:
Essa objeção é essencialmente o sétimo argumento de Brian Leftow em seu Time and Eternity [Tempo e Eternidade] para a existência atemporal de Deus e eu respondi a ele no capítulo de abertura do meu livro God, Time, and Eternity [Deus, Tempo e Eternidade]. [1]
A falha fundamental desta objeção é a suposição de que "a nossa noção do que é um evento ser simultâneo com outro só fazer sentido dentro de um espaço e do tempo já existentes." Os filósofos têm distinguido entre teorias do tempo substantivo e relacionais. De acordo com um ponto de vista substantivo de tempo, o tempo existe independentemente de, e explicativamente antes, de quaisquer eventos que ocorram no tempo. Isaac Newton, por exemplo, acreditava que antes de Deus criar o universo, houve um tempo vazio, desprovido de eventos, em algum momento do qual Deus criou o universo físico. Em contrapartida, de acordo com um ponto de vista relacional do tempo, o tempo é dependente de, e explicativamente posterior, à ocorrência de eventos. A razão de o tempo existir é a ocorrência de eventos. Na ausência absoluta de qualquer evento, não haveria um tempo vazio; em vez disso não haveria nenhum momento sequer. Por essa razão, Gottfried Leibniz, que se opôs a Newton, considerou que simplesmente não há tempo antes da criação do universo. O Tempo começa no momento da criação, e não faz sentido perguntar: "Por que Deus não criou o mundo antes?"
A chave fundamental subjacente a sua objeção pressupõe a verdade da visão substantiva de tempo. Pois ela assume que o tempo é explicativamente anterior a ocorrência de eventos. Assume que para que ocorram eventos o tempo deve, por assim dizer, já estar lá. Mas numa visão relacional isso é falso. O tempo existe porque ocorrem os eventos. A ocorrência de eventos é explicativamente anterior a existência do tempo.
Então, numa visão relacional do tempos, Deus, existindo imutavelmente sem a criação, seria atemporal. Como Leibniz viu, com razão, o tempo passa a existir com a ocorrência do primeiro evento, o ato de criação de Deus. O tempo começa a existir porque ocorre um evento.
Portanto, sua objeção deve pressupor a insustentabilidade de uma visão relacional de tempo. Mas tal visão parece perfeitamente coerente e é amplamente defendida hoje. Assim, a oposição se baseia no pressuposto que o teísta é livre para rejeitar.
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[1]
God, Time and Eternity (Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2001), pp. 19-23; cf. Brian Leftow, Time and Eternity, Cornell Studies in Philosophy of Religion (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1991), pp. 273-4.
God, Time and Eternity (Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 2001), pp. 19-23; cf. Brian Leftow, Time and Eternity, Cornell Studies in Philosophy of Religion (Ithaca, N.Y.: Cornell University Press, 1991), pp. 273-4.
- William Lane Craig