#610 Somos personagens num livro?
April 01, 2019Dr. Craig, (muito obrigado por tudo o que faz
)
Muito parece se discutir sobre o Big Bang e a origem do universo ultimamente. Parece-me supérfluo, porque adoto a perspectiva de que todos nós somos, na realidade, personagens de um “livro” não-fictício em que vivemos, não só escrito pelo Autor do universo, mas também contendo as regras de comportamento que ele ali pôs em andamento. Por isso, parece-me que discutir o que ocorreu antes do “Era uma vez...” (o Big Bang) é, de fato, totalmente irrelevante. Parece-me óbvio que o Autor criou substância para o universo e continua a injetar-lhe forma, guiando a “trama” à medida que ela se desenrola. Ele pode até mesmo se inserir pessoalmente na própria história, como o fazem também muitos escritores humanos. Acho que o que quero perguntar é se isso, na sua opinião, é compatível com a Bíblia e se sou sensato em adotar tal perspectiva.
Muito obrigado.
Rustin
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
No transcorrer de meu estudo acerca de Deus e objetos abstratos, gastei um bom tempo lendo e refletindo sobre a natureza da ficção e sobre a teoria da simulação, a visão segundo a qual objetos abstratos são análogos a personagens num livro, como Sherlock Holmes. Em decorrência de meu estudo, penso que, embora objetos abstratos possam, de fato, ser entidades fictícias, é teológica e filosoficamente inaceitável sustentar que nós mesmos somos personagens numa história ou, conforme a versão mais contemporânea da mesma ideia, objetos numa simulação de computador ou um holograma.
Isto porque nós somos pessoas, ao passo que personagens fictícios, se porventura existem, são objetos abstratos. Sem dúvida, nas histórias de Conan Doyle, Sherlock Holmes é uma pessoa. Porém, trata-se apenas de um jeito de dizer que é fictício que “Sherlock Holmes é uma pessoa”, assim como é fictício que “Sherlock Holmes mora em seu endereço de 22B Baker Street, em Londres”. Nenhum destes dois enunciados é verdadeiro; são verdadeiros tão-somente no mundo da ficção criado por Conan Doyle. Em contraste, não é fictício que “Sherlock Holmes é um cão” ou que “Sherlock Holmes mora em Toledo”, pois estes enunciados não são verdadeiros no mundo fictício das histórias de Conan Doyle. Sherlock Holmes ou não existe mesmo ou, na melhor das hipóteses, esta coisa [nota bene!] é um objeto abstrato acerca do qual se pode fazer afirmações de verdade, como “Sherlock Holmes é mais popular do que Hercule Poirot”.
Além disso, personagens numa história não têm livre-arbítrio, pois tudo que pensam e fazem na história é determinado pelo autor da história. Obviamente, na história, eles podem ser pessoas dotadas de livre-arbítrio, mas isto é o mesmo que dizer que, na história, Holmes mora em Londres. Na realidade, ele não mora em Londres, tampouco tem livre-arbítrio. Assim, personagens fictícios não têm responsabilidade moral, como o têm pessoas reais.
Acrescente-se que personagens fictícios são radicalmente incompletos. Será que Holmes calçava sapatos de tamanho 41? Isto não é nem verdadeiro nem falso no mundo da ficção. Portanto, em contraste com pessoas reais, personagens fictícios são, em larga medida, indeterminados. Talvez se pudesse fugir desta implicação indesejada dizendo que, uma vez que Deus é onisciente, ele poderia tornar os personagens em Sua história plenamente determinados. No entanto, por que pensar que Deus se deu a tanto trabalho assim? Quem é, afinal, que vai ler esse livro?
Mas espere aí! Você pode protestar. Minha sugestão é que somos personagens num livro não-fictício. Isto não faz nenhuma diferença. Mesmo que o livro seja composto de enunciados verdadeiros, os personagens na história não são pessoas reais dos quais trata a história. Isto é evidente no caso em que estejam mortas as pessoas reais das quais trata a história! Personagens literários numa história verdadeira ainda são, na melhor das hipóteses, objetos abstratos, e não pessoas de carne e osso. Por isso, sim, Deus poderia se inserir na própria história, assim como o fazem, às vezes, autores humanos. Porém, é uma entidade concreta, e não um objeto abstrato e, portanto, não idêntico ao caráter chamado “Deus” na história. De fato, se a história é verdadeira, os nomes próprios de alguns dos personagens na história devem se referir a pessoas reais que existem fora da história. Assim, quem são eles, senão nós? Afinal, não escapamos de um mundo real fora da história. Logo, é filosófica e teologicamente impossível que sejamos personagens literários, mesmo numa história verdadeira.
Além disso, tal visão é completamente injustificável. Nossas apreensões de nós mesmos e do mundo ao nosso redor enquanto realidades concretas são crenças apropriadamente básicas, fundamentadas em nossa experiência e, portanto, plenamente sustentáveis do ponto de vista da razão. Seria preciso um derrotador de poder inimaginável para solapar a crença de que sou uma pessoa. Qualquer que seja esse derrotador será esmagado pelo aval que tenho de que sou uma pessoa. Ademais, quaisquer argumentos céticos para a conclusão de que sou um personagem numa história tenderão a ser contraditórios, já que não podemos confiar em nenhuma deliberação de nossas faculdades cognitivas se formos apenas personagens numa história. O autor determina tudo que pensamos, e nenhuma de nossas percepções é confiável.
Pois então, quanto ao ponto que motivou sua pergunta, Rustin, embora seja despropositado perguntar o que precedeu o “Era uma vez...” na história (por ser tão indeterminado quanto o número dos sapatos de Sherlock Holmes), é muitíssimo relevante no mundo real saber se o universo começou a existir e, caso o tenha, por que veio a existir. É esta a pergunta condutora da cosmologia contemporânea, tendo também grande peso teológico.
- William Lane Craig