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#611 Resposta a comentários à entrevista para The New York Times

April 01, 2019
Q

Na verdade, esta não é uma pergunta, e sim um elogio. Achei que suas respostas às perguntas de Nicholas Kristof foram perfeitas. Há tantos mal-entendidos naquilo que chamo de mundo secular em relação ao cristianismo (e, para ser justo, o contrário provavelmente também é verdadeiro), e o senhor fez um ótimo trabalho em preencher essa lacuna.

https://www.nytimes.com/2018/12/21/opinion/sunday/christmas-christian-craig.html [em português:[DDF1]  ]

Holt

Estados Unidos


Afghanistan

Dr. Craig responde


A

Obrigado pelas palavras de encorajamento, Holt! Fiquei feliz que minha brevíssima entrevista tenha suscitado reação tão veemente! Prefiro sempre a hostilidade à apatia!

A impressão mais acentuada que eu tive das diversas críticas é a ignorância que evidenciam a respeito de todo o domínio da pesquisa cristã, que parece ser invisível aos detratores. Eles parecem ignorar, na maior tranquilidade, que há milhares e milhares de filósofos, estudiosos de Novo Testamento e cientistas de opinião semelhante, que partilham de minha crença nos princípios do “cristianismo puro e simples”. Esses estudiosos são ativos em suas sociedades profissionais, publicam em periódicos especializados e nas mais distintas editoras acadêmicas, além de lecionar em nossas universidades. Será que devemos considerar idiotas ou charlatães acadêmicos tão destacados como Alvin Plantinga, George Ellis e N. T. Wright?

O fato é que esses detratores tendem a viver em seu próprio mundinho, protegidos não apenas da pesquisa cristã, mas da ampla gama de investigação pertinente às questões discutidas. Alguns chegam ao ponto de criticar o sr. Kristof por ousar perturbar a tranquilidade deles, invadindo seu mundinho com a entrevista que fez. Seu isolamento intelectual é evidente, por exemplo, em

(i) seu endosso da teoria do mito de Jesus, uma visão que, testada e rejeitada pelos estudiosos, foi embora junto com o século XIX;

(ii) sua aderência ao cientismo, uma epistemologia contraditória, popular durante a primeira metade do século XX, que agora é, na prática, universalmente rejeitada por filósofos; e

(iii) seu ceticismo quanto à possibilidade de milagres, a despeito do reconhecimento quase unânime entre os filósofos contemporâneos de que o argumento de Hume é um fracasso.

É interessante que muitos dos detratores não ligam que os teístas sustentem suas visões pela fé. No entanto, ficam nervosos quando se sugere que pode haver, na realidade, indícios a favor do teísmo cristão. Por que tanta raiva? Muitos deles parecem ter feito vista grossa à modéstia de minhas afirmações. Defendo que a crença no teísmo cristão é razoável e racional. Isto não exclui que a descrença também seja razoável e racional. Por que devemos impugnar a racionalidade de quem discordamos?

Muitos dos detratores parecem pensar que a crença teísta é intelectualmente desprezível. Assim, evidenciam sua aparente falta de familiaridade com debates contemporâneos a respeito da origem e ajuste fino do universo, que servem para tornar o teísmo uma opção viável mesmo entre físicos. Se estiver interessado em entender parte dos avanços contemporâneos dos argumentos a favor da existência de Deus, dê uma olhada em The Blackwell Companion to Natural Theology [Manual Blackwell de Teologia Natural] (Wiley-Blackwell, 2009)

Quanto ao teísmo cristão, fico me perguntando se os detratores sabem que mitologia não é mais tida como categoria relevante para compreender o Jesus histórico. Durante o século XX, houve entre biblistas um movimento chamado de “a redescoberta judaica de Jesus”. Veio a se entender que o contexto interpretativo adequado para compreender Jesus de Nazaré não era a mitologia pagã, mas o judaísmo palestino do primeiro século. Com relação à concepção virginal de Jesus, em particular, mitos pagãos em que deuses assumem forma humana e têm relação sexual com humanas para produzir descendência é precisamente o oposto de uma concepção virginal!

O modo como se enxerga a história do nascimento virginal será, sem dúvida, afetado pelo modo como se pensa que, em Jesus, Deus escolheu, uma vez por todas, revelar-se. Assim, o modo como avaliamos sua alegada ressurreição dentre os mortos será crucial. Hoje, a vasta maioria de historiadores que escreveram sobre o assunto afirma que Jesus de Nazaré foi executado por crucificação romana, que seu cadáver foi enterrado num sepulcro por um membro do Sinédrio chamado José de Arimateia, que o sepulcro foi achado vazio por um grupo de discípulas de Jesus no domingo pela manhã após sua crucificação, que vários indivíduos e grupos tiveram experiências de verem Jesus vivo após sua morte, e que os primeiros discípulos repentina e sinceramente vieram a crer que Deus ressuscitara Jesus dentre os mortos, apesar de terem toda predisposição em contrário. Pois bem, os detratores talvez discordem destes fatos, mas, no caso, precisam refutar os indícios que convencem do contrário a maioria dos estudiosos. Estes fatos parecem tornar bastante razoável e racional a crença na ressurreição de Jesus e em suas radicais afirmações pessoais, a menos que você tenha algum argumento prévio a favor da impossibilidade de milagres. Dado o teísmo, o ônus da prova recai sobre os ombros do cético.

Por isso, continuo firme na minha afirmação de que a crença no teísmo cristão é uma fé razoável e racional e convido seus detratores a analisar mais uma vez os indícios a favor dela.

- William Lane Craig