English Site
back
5 / 06

#160 Talo (Thallus) e a Escuridão ao Meio Dia

October 28, 2014
Q

Dr. Craig, devo dizer-lhe que as suas obras têm trazido esperança e vida eterna a um jovem que estava procurando com grande tenacidade a verdade e realmente pesou as evidências de ambos os lados antes de tomar uma decisão.

Minha pergunta: A Bíblia relata que ficou escuro durante a crucificação de Jesus. Lembro de ter lido (e eu estou tentando me lembrar onde) que havia fontes externas relatando que houve um eclipse durante quase o tempo exato da crucificação e que ficou escuro durante as horas de luz do dia. Se isso fosse verdade isso seria ENORME na defesa do cristianismo e confiabilidade dos evangelhos. Eu ficaria muito grato se você pudesse lançar alguma luz sobre isso.

Steve

United States

Dr. Craig responde


A

Lançar luz sobre a escuridão? Posso dizer algumas palavras sobre esta questão intrigante. No relato da crucificação de Jesus no Evangelho de Marcos, lemos: "E quando à sexta hora tinha chegado, houve trevas sobre toda a terra até à hora nona" (Marcos 15.33). Esse detalhe faz parte da história da paixão pré-marquiana e, uma vez que Marcos é o mais antigo dos evangelhos, portanto, uma tradição muito antiga que merece ser levada a sério.

Existem referências extra-bíblicas corroborando a esse fato? Aqui começa uma cadeia histórica fascinante e articulada. Em seu Chronicle de cerca do ano 800, o cronista bizantino Georgius Syncellus cita uma passagem de um livro, já não existente, intitulado Uma História do Mundo, que foi escrito por volta de 220 pelo pai da igreja, Július Africanus, ele próprio um historiador capaz, que por sua vez relata que o historiador romano Thallus, que escreveu sobre a história do antigo Oriente Próximo, tenta no terceiro livro de sua História, obra que também já não existe, explicar a escuridão no momento da morte de Cristo devido a um eclipse solar. Nós não devemos ficar excessivamente perturbados por esta cadeia de citações de obras agora perdidas, pois em muitos casos, só sabemos do que autores antigos escreveram através de tais citações, e não há nenhuma razão para pensar que Syncellus ou Africanus não citaram precisamente as obras conhecidas por eles. O que é lamentável é que Africanus, na verdade, não cita as palavras de Thallus, deixando-nos no escuro, por assim dizer, pelo o que ele realmente disse. Eis a passagem de Africanus reproduzidas por Syncellus:

Em todo o mundo houve uma escuridão muito terrível; e as rochas partiram-se por um terremoto, e muitos lugares na Judéia e outros distritos foram jogados para baixo. Esta escuridão, Thallus no terceiro livro de sua História, chama, como me parece sem razão, um eclipse do sol. Pois os hebreus celebram a Páscoa no dia 14 de acordo com a lua, e a paixão do nosso Salvador cai no dia antes da Páscoa; mas um eclipse do sol ocorre somente quando a lua aparece sob o sol. E isso não pode acontecer em qualquer outro momento, mas no intervalo entre o primeiro dia da lua nova e o último da velha, isto é, na sua junção: como, pois, um eclipse aconteceria quando a lua está quase diametralmente oposta ao sol? Deixe essa opinião passar, no entanto; deixe que carregue a maioria com ela; e deixe que este presságio do mundo ser considerado um eclipse do sol, como para outros um presságio só para os olhos. Flegonte registra que, no tempo de Tibério César, na lua cheia, houve um eclipse total do sol a partir da sexta hora até a nona exatamente aquele de que falamos. Mas o que tem um eclipse em comum com um terremoto, pedras fendidas, ressurreição dos mortos, e tão grande perturbação em todo o universo? Certamente nenhum evento como este é registrado por um longo período. Mas foi uma escuridão induzida por Deus, porque o Senhor sofria.

Africanus, que cita Thallus sobre outros assuntos também, está entusiasmado para expor a explicação da escuridão, como devido a um eclipse solar de Thallus, como errônea. Ele ressalta que tal explicação é irrazoável porque a Páscoa sempre ocorre no momento da lua cheia, e lua cheia não pode ficar entre a terra e o sol. Assim, a explicação, de acordo com Africanus, deve ser que a escuridão foi milagrosa.

Então Thallus de fato se referiu à crucificação de Jesus e à escuridão? Alguns têm sugerido que Thallus pode ter falado apenas de um eclipse que ocorreu naquela época, que Africanus toma para se referir à escuridão registrada nos Evangelhos. Assim, a conexão do eclipse e da escuridão na crucificação de Jesus foi feita, não pelo próprio Thallus, mas por Africanus. Suporte para este ponto de vista pode ser encontrado na citação de Flegonte, que parece ter mencionado um eclipse durante o reinado de Tibério, mas, tanto quanto sabemos por outras citações da obra de Flegonte, não se referiu à escuridão na crucificação de Jesus.

Parece-me, porém, que este argumento não é convincente por duas razões. Em primeiro lugar, a finalidade de Africanus ao citar Flegonte não é para confirmar a escuridão no momento da crucificação. Como eu o leio, a razão para citar Flegonte é fornecer uma ilustração de alguém que é tolo o bastante para concordar que um eclipse solar pode ocorrer, como Talo sugere, no período de lua cheia. Africanus rejeitou a explicação de Thallus como irrazoável, mas depois diz que para o bem do argumento, ele deverá permitir que explicação seja correta. Flegonte, afinal, diz que um eclipse solar ocorreu na lua cheia durante o reinado de Tibério. Assim, admitamos que a escuridão fosse devido um eclipse - e daí? A co-ocorrência de um eclipse com um terremoto, rochas fendidas, ressurreição dos mortos, e assim por diante, ainda requer uma explicação sobrenatural.

Contra essa reconstrução do argumento, pode-se notar que a concessão de Africanus não é que um eclipse realmente ocorreu, mas que ele ocorreu "apenas para o olho", ou seja, era uma espécie de ilusão de ótica. Não me parece que esta ressalva realmente mude o impulso de seu argumento, no entanto; o ponto é que, por hipótese, parecia às pessoas como se um eclipse solar houvesse ocorrido na época da lua cheia, e Flegonte ilustra que algumas pessoas realmente já relataram algo assim.

Em segundo lugar, a frase "exatamente aquele de que falamos" mostra que o próprio Africanus tem que identificar o eclipse comentado por Flegonte como o suposto eclipse no momento da crucificação. Tivesse Flegonte o identificado ele mesmo, então tal referência não seria necessária da parte de Africanus.

Isto está em contraste marcante com a referência a Thallus. Ali Africanus não relata que de acordo com Thallus um eclipse solar ocorreu durante o reinado de Tibério, que poderíamos conectar com a escuridão que aconteceu durante a crucificação de Jesus. Em vez disso, depois de se referir à escuridão que ocorreu durante a crucificação, Africanus diz que Thallus (sem razão) chama essa escuridão de um eclipse do sol. Parece que Thallus estava oferecendo uma explicação natural para as trevas que supostamente caíram durante a crucificação de Jesus. Ao contrário de Flegonte, Thallus parecia estar resolvendo uma reivindicação especificamente cristã.

Agora, se Thallus escreveu muito mais tarde do que os Evangelhos, nada disso seria muito emocionante. Afinal, nos evangelhos apócrifos, por exemplo, temos elaborações sobre as narrativas do Evangelho, e nos Pais da Igreja, como Justino Mártir, encontramos vestígios de polêmicas anticristãs antigas. Tais reflexões sobre os relatos dos Evangelhos, sendo tardios e derivados, não aumentam significativamente a credibilidade histórica das narrativas do Evangelho.

Por outro lado, se Thallus escreveu sua História antes dos Evangelhos, então seu testemunho torna-se muito interessante de fato. A datação de sua obra é incerta, mas a maioria dos estudiosos data a História de Thallus para a metade do primeiro século, ou seja, por volta de 50 AD, apenas 20 anos após a crucifixão de Jesus, em 30 AD. Por outro lado a maioria dos estudiosos data o Evangelho de Marcos para cerca de 66-70 AD.

Se isso está certo, então, ou Thallus fornece certificação independente e extra-bíblica da escuridão ao meio-dia, aumentando assim a probabilidade de sua historicidade, ou então Thallus está respondendo à história da paixão que estava sendo contada pelos cristãos em sua época, atestando, assim, a antiguidade dessa tradição. Em ambos os casos Thallus, sem dúvida, está reagindo a uma interpretação cristã do evento, uma vez que ele está tentando dar uma explicação alternativa do evento. Alguém poderia argumentar que, dada a sua familiaridade com os assuntos do Oriente Próximo, Thallus teria simplesmente negado que o evento ocorreu se ele não tivesse qualquer conhecimento de seu acontecimento. Desse modo, ele confirma a historicidade da escuridão ao meio-dia. Talvez, no entanto, simplesmente explicá-la foi a resposta mais fácil (Thallus explica em outro lugar presságios de forma naturalista). Nesse caso, o que Thallus oferece não é uma confirmação independente dos relatos dos Evangelhos, mas evidência do primitivismo da tradição da paixão pré-marquiana, uma conclusão que não é de pequena importância, uma vez que quanto mais antiga a tradição, mais historicamente digno de confiança ela é.

É claro que se, por outros motivos, tais como as várias linhas de evidência sugerindo que Atos foi escrito antes de 60 AD, e o Evangelho de Lucas antes de Atos, e o Evangelho de Marcos antes de Lucas - rejeitarmos a datação convencional dos Evangelhos, como eu sou inclinado a fazer, então já temos os próprios Evangelhos contemporâneos a Thallus. Mas na datação convencional, é bastante impressionante que a referência mais antiga à crucificação de Jesus não vem de um dos evangelistas cristãos, mas de um historiador romano pagão.

- William Lane Craig