#211 Tempo Atemporal e Identidade através do Tempo
October 28, 2014Será que uma teoria "atemporal" de tempo viola o Princípio de Identidade?
Olá Dr. Craig, eu sou do Brasil. Vi sua entrevista com Robert Lawrence Kuhn (apresentador do programa da PBS "Closer to Truth"), em que você distingue duas visões filosóficas do tempo. A primeira é a visão flexiva [Tensed] do tempo.
Mas eu tenho pensado profundamente sobre a aflexiva (tenseless) do tempo. Nessa visão, o passado, o presente e o futuro são igualmente reais e a “temporalidade” observada do tempo é apenas uma ilusão da nossa mente.
Aqui está o problema: se as posições (a) e (b) de um elétron observado (x) são simultaneamente reais, então a declaração "o elétron (x) é elétron (x)" seria falsa, o que significaria que o princípio de identidade seria falso também. É isso correto?
O modelo aflexivo tem algumas outras implicações absurdas:
- Se todos os estados da minha mente são simultaneamente reais, por que eu tenho essa ilusão dinâmica?
- Será que eu já estou morto, mas não estou ciente disso?
Além disso, eu acho que ela implica que a natureza da nossa mente não é material.
Se este modelo de tempo é, de fato, tão absurdo, por que Stephen Hawking o aceita, apesar de todas as probabilidades? A ciência moderna é, de fato, tão incompatível com a nossa consciência do mundo? Ou Hawking está cometendo exatamente o mesmo erro de Einstein em relação à expansão do espaço, apenas para evitar o início do Cosmos?
Eu não sou um escritor nativo de inglês, mas eu fiz o meu melhor.
Daniel
Deus o abençoe Dr. Craig
Brazil
Dr. Craig responde
A
Estou muito encorajado pelo número de cristãos astutos no Brasil que estamos encontrando através do Reasonable Faith. O Brasil atingir o status de superpotência durante este século, e a igreja cristã de lá continuar a brotar, é motivo para grande otimismo em relação ao futuro.
A sua pergunta perceptiva, Daniel, é uma que eu já abordei em meu ensaio "O Paradoxo de McTaggart e o Problema de Intrínsecos Temporários," Analysis 58 (1998): 122-127. Para aqueles que não estão familiarizados com o pano de fundo da pergunta de Daniel, deixe-me explicar que, em termos gerais, existem duas visões conflitantes sobre a natureza do tempo: a visão flexiva (tensed), que mantém que tornar-se (becoming) temporal é uma característica real e objetiva do mundo, e a visão aflexiva (tenseless), que afirma que todos os momentos do tempo, sejam passados, presentes ou futuros, são igualmente reais e existentes, de modo que se tornar temporal é uma ilusão da consciência humana. Os filósofos estão profundamente divididos sobre qual visão é correta.
Agora, o que Daniel notou é que a visão aflexiva (tenseless) tem uma implicação muito estranha. Considere uma entidade x que existe em dois momentos distintos de tempo. Em vez de um elétron, deixe x ser você mesmo, para aguçar o paradoxo. Decorre do Princípio da Indiscernibilidade dos Idênticos que você não é a mesma pessoa que existia apenas um minuto atrás! Para a teoria aflexiva do tempo, estes são dois objetos distintos que ocupam posições diferentes no espaço-tempo. Além disso, eles possuem propriedades diferentes: a pessoa posterior pode ter uma forma ligeiramente diferente ou menos algumas moléculas. Assim, eles não podem ser idênticos, pois têm propriedades perceptíveis.
O que isto significa não é que o teórico da aflexiva do tempo deve abandonar o Princípio de Identidade, porque é uma verdade necessária da lógica, mas sim que o teórico da aflexiva do tempo deve acreditar que a mudança intrínseca é impossível e que nada realmente perdura no tempo! Essas conseqüências são geralmente reconhecidas pelos teóricos da visão aflexiva do tempo. Eles mantém que o que chamamos de pessoas são apenas fatias tridimensionais de "vermes" de quatro dimensões do espaço-tempo. As várias fatias são objetos diferentes, assim como as diferentes fatias de um pão. Uma fatia não se transforma em outra, nem sofre qualquer mudança intrínseca. A aparência de mudança surge porque as várias fatias temporais possuem diferentes propriedades intrínsecas. Não há uma mudança mais intrínseca nos objetos ao longo do tempo do que em um pedaço de pão que se afunila a partir de grandes fatias em uma extremidade, para pequenas fatias na outra.
Eu concordo com você, Daniel, que isto parece muito louco. Tenho todas as razões para acreditar que há pelo menos uma coisa que perdura através da mudança intrínseca, ou seja, eu mesmo. Eu existia um segundo atrás, e apesar das mudanças que ocorreram em mim, eu ainda existo agora. Nenhuma pessoa sã realmente acredita que ela não é a mesma pessoa que existiu um minuto atrás. Além disso, a visão aflexiva é incompatível com a responsabilidade moral, louvor e culpa. O objeto de quatro dimensões não-consciente do qual eu sou uma parte não pode ser considerado como um agente moral e portanto não é moralmente responsável por nada. Pode-se dizer que as fatias espaço-temporais ou partes de tais objetos são agentes morais. Mas, então, torna-se impossível manter uma fatia responsável por aquilo que outra fatia fez. Como pode uma pessoa ser responsabilizada e punida por aquilo que uma pessoa completamente diferente e distinta fez? Por que eu deveria ser punido por meus crimes? Da mesma forma, como pode o louvor moral ser dado a uma pessoa pelo que alguma outra pessoa, que já não existe, fez? Por que eu, que não fiz nada, devo receber o crédito pelo heroísmo de alguma outra pessoa?
Este argumento tem sérias implicações teológicas, pois o teísmo cristão afirma não só que as pessoas são agentes morais responsáveis, mas também que Deus é justo em mantê-las responsáveis por seus atos.
Sua segunda objeção sobre a explicação da ilusão de tornar-se temporal também é um problema premente. Na visão da aflexiva, os eventos mentais em si são amarrados em uma série atemporal, assim como eventos físicos são, e são todos igualmente reais. Minha falta de consciência do amanhã é tão real como a minha falta de consciência do hoje. A experiência do sucessivo surgimento de experiências é ilusória. Experiências realmente não vêm a ser e vão embora. Mas isso voa na cara da fenomenologia da consciência do tempo. Nega que experimentamos o tornar-se das nossas experiências. Porque, se nós temos tal experiência, então devemos perguntar novamente se esta experiência é dependente da mente ou não, e assim por diante. Para pôr fim a uma regressão infinita viciosa, o teórico da visão aflexiva do tempo deve negar que nós experimentamos o tornar-se de experiências. Mas tal fenomenologia é obviamente imprecisa.
Eu não sei por que você diz que a visão aflexiva implica materialismo com respeito ao ser humano; mas teóricos da visão aflexiva do tempo são, na maior parte unidos com epistemologia naturalista, e assim seriam, em qualquer caso, mal-dispostos a qualquer dualismo corpo-mente.
Então, por que alguém como Stephen Hawking defende uma visão aflexiva de tempo? Eu acho que a razão principal é que a física considera útil tratar o tempo e o espaço como uma entidade quadridimensional, chamada espaço-tempo, em que tornar-se temporal não tem nenhuma participação. A Teoria da Relatividade, em particular, torna-se lúcida em tal contexto. Infelizmente, demasiados físicos, nunca tendo estudado filosofia, ingenuamente tomam essa representação geométrica como um ensaio de metafísica, e não como um dispositivo meramente heurístico. Portanto, devemos ser muito cautelosos sobre as declarações de físicos quando se trata da natureza do tempo.
- William Lane Craig