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#66 Um Deus Pessoal O Artigo na revista Christianity Today e a Pessoalidade de Deus

October 28, 2014
Q

Dr. Craig tem defendido tanto em seus escritos quanto debates que um Deus pessoal é a melhor explicação para a existência do universo e dos valores morais objetivos. Nesse artigo ele responde dois correspondentes que questionam essas conclusões. Dr. Craig primeiro responde que a causa do universo não pode ser simplesmente atemporal, fora do espaço e imaterial, mas também deve ser um agente que escolheu criar. Ele também explica que objetos abstratos como as formas não podem em si mesmos manter valores morais ou emitir comandos. Ambos os argumentos estabelecem que a explicação final tanto para o universo quanto para a moralidade objetiva deve ser um Deus pessoal.

Pergunta #1:

Prezado Dr. Craig,

Acabei de ler seu artigo no Christianity Today sobre os argumentos em defesa da existência de Deus, mas uma pergunta, mais do que qualquer outra, permanece sem resposta para mim: por que deve existir um Deus PESSOAL, e o que você quer dizer com “pessoal”? Isso pode ser sustentado pela teologia natural e pelos métodos da teologia natural? O “Bom” de Platão, afinal, não é uma pessoa.

O fato de que o cosmos, por meio do Big Bang, vem de algum princípio gerador unificado (sobre o qual não podemos saber muito) não parece provar nada sobre a pessoalidade de Deus. Por favor, me diga onde devo procurar respostas para estas perguntas.

Sinceramente,

Pete

Pergunta #2:

Olá,

Eu sou o amigo ateu de Roger da Pergunta 65.

Você diz que “Deus aprova algo porque Ele é bom”. Que padrão você usa para chamar Deus de bom? Deus é bom porque ser bom é o que Deus é? Ou Deus é bom porque Deus tem todas as propriedades da bondade?

O ônus da prova está com você para mostrar que a primeira opção não faz com que bondade seja arbitrária porque você é quem está afirmando que a moralidade tem uma base objetiva se Deus existe. Eu não acho que a moralidade é baseada em qualquer coisa objetiva (uma razão lógica que não apela para valores emocionais).

Se você quer sugerir que o caráter de Deus é essencial e que o caráter dele serve como o paradigma para o que é bom APENAS para mostrar que o dilema de Êutífron não é um dilema, tudo bem. Você pode fazer isso e seguir em frente. Mas, se você quer afirmar que a moralidade tem uma base objetiva se Deus existe, então você tem que provar sua afirmação sem raciocínio circular.

Obrigado por tentar responder a pergunta do meu amigo!

Brandon

United States

Dr. Craig responde


A

Um Deus pessoal

Concordo com você, Pete, que mostrar que a explicação final é pessoal é um elemento crucial em qualquer caso cumulativo bem sucedido em defesa da existência de Deus. Por “pessoal” eu quero dizer imbuído de racionalidade, auto-consciência, e volição - os tipos de qualidades normalmente associadas com ser uma pessoa.

É marcante que todos os argumentos que eu resumi no meu artigo na CT implicam na existência de um ser pessoal. Se mesmo um desses argumentos é bem sucedido, então, o teólogo natural é bem sucedido em mostrar que sua explicação final é pessoal.

A pessoalidade da explicação final é mais óbvia no caso do argumento teleológico, pois leva a um projetista inteligente do cosmos. Esse argumento te oferece exatamente o que você estava procurando.

Mas até mesmo no caso dos outros argumentos, a pessoalidade da explicação final é dada indiretamente. No caso do argumento cosmológico, se você reler o artigo da CT, você verá que eu apresentei um argumento para a pessoalidade da causa inicial do universo:

Uma causa externa do universo deve estar fora do espaço e do tempo e, portanto, não pode ser físico ou material. Existem apenas dois tipos de coisas que se encaixam nesta descrição: objetos abstratos, como números, ou uma mente inteligente. Mas objetos abstratos são causalmente impotentes. O número 7, por exemplo, não pode causar algo. Portanto, segue-se que a explicação do universo é uma mente pessoal externa e transcendente, que criou o universo, que é o que a maioria das pessoas tem tradicionalmente chamado de “Deus”.

Deus Pessoal – a necessidade da causalidade por agência

A causa do universo deve ser um ser fora do mundo que transcende espaço e tempo e é, portanto, ou uma mente sem corpo ou um objeto abstrato; não pode ser o último; portanto, deve ser o primeiro, o que significa dizer que este é um ser pessoal.

No caso do argumento cosmológico kalam, o mesmo raciocínio mantém-se com respeito a origem do universo. Além disso, há um argumento adicional para a pessoalidade da primeira causa que eu não mencionei no artigo que surge da peculiaridade de efeitos temporais resultarem de uma causa eterna. Como eu explico no livro Reasonable Faith,

Nós concluímos que o início do universo foi o efeito da primeira causa...Bem, isso parece muito estranho. A causa é de alguma forma eterna porém o efeito que produziu não é eterno mas começou a existir num tempo finito no passado. Como isso pode ser? Se as condições necessárias e suficientes para a produção do efeito são eternas, então por que o efeito não é eterno? Como todas as condições causais suficientes para a produção de um efeito podem existir imutavelmente e no entanto o efeito não ser também existente com a causa? Como a causa pode existir sem o efeito? ... Parece existir uma forma de escapar deste dilema, e isso é dizer que a causa do universo é um agente pessoal que livremente escolheu criar um universo no tempo. Filósofos chamam esse tipo de causa “causalidade de agência”, e porque o agente é livre, ele pode iniciar novos efeitos e livremente criar condições que não estavam previamente presentes. Por exemplo, um homem sentando sem mudança desde a eternidade poderia livremente querer levantar; portanto um efeito temporal surge de um agente eternamente existente. Da mesma forma, um tempo finito atrás um Criador que possui livre arbítrio poderia ter livremente trazido a tona um mundo naquele momento. Dessa forma, o Criador poderia existir sem mudança e eternamente mas escolher criar o mundo no tempo. Por “escolher” não precisa-se significar que o Criador muda de ideia sobre a decisão de criar, mas que ele livremente e eternamente intenciona criar um mundo com um começo. Exercitando seu poder causal, ele portanto traz a tona aquele mundo com um começo. Então a causa é eterna, mas o efeito não é. Dessa forma, então, é possível que um universo temporal tenha começado a existir a partir de uma causa eterna: através do livre arbítrio de um Criador pessoal.

Deus Pessoal – o motivo pelo qual Deus deve ser pessoal

No caso do argumento moral, o conceito de Deus envolvido no argumento é de um ser pessoal, já que valores morais, se eles existem, residem em pessoas, não em coisas inanimadas, e porque apenas um ser pessoal pode ser uma fonte de deveres morais ao emitir comandos para nós. Esta é a falha da forma impessoal do Bem de Platão. A Justiça, por exemplo, sendo meramente um objeto abstrato, não é justa em si mesma e nem pode emitir imperativos exigindo que sejamos justos. Teólogos cristãos, como Agostinho, por exemplo, avançaram a teoria ética de Platão ao identificar o Bem de Platão com o próprio Deus.

Finalmente, o argumento ontológico requer que Deus, um ser de máxima excelência, seja pessoal, não somente porque pessoalidade é uma conseqüência das propriedades que constroem a excelência máxima como a onisciência, onipotência e perfeição moral, mas também porque ser pessoal é, por si mesmo, uma propriedade de máxima excelência, que não poderia faltar em um ser de máxima excelência.

Portanto, você pode ver que um teólogo natural está muito bem equipado quando chega a hora de demonstrar a pessoalidade de sua explicação final.

Deus Pessoal - Derrotando o Dilema de Êutifron

Agora vamos retornar à pergunta do Brandon. Para lembrar, a versão do argumento moral que eu apresentei no artigo da CT é a seguinte:

1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem.

2. Valores e deveres morais objetivos existem.

3. Portanto, Deus existe.

Como notei no artigo, não-teístas tipicamente tentarão resistir ao argumento moral com um dilema que tem a intenção de mostrar que valores morais objetivos são independentes de Deus. O chamado Dilema de Êutifron afirma que valores morais são ou independentes de Deus (se Ele os aprova porque eles são bons) ou eles são arbitrários (se eles são bons apenas porque Deus os aprova) Já que eles não são arbitrários, eles devem ser independentes de Deus. A lógica do Dilema de Êutifron é a seguinte:

1. A ou B.

2. Não-B.

3. Portanto, A.

Este é o argumento do não-teísta; é dele a responsabilidade de provar que suas duas premissas são verdadeiras. Para derrotar o argumento, tudo o que o teísta precisa fazer é oferecer uma terceira alternativa possível, para que em vez da premissa (1), nós temos

1.′ A ou B ou C.

Mas agora não podemos concluir de (2) que, portanto, A. Na verdade, para continuar mantendo seu argumento, o não-teísta deve agora provar,

2.′ não-B e não-C.

Então, Brandon, você precisa prover algum argumento para (2') - em particular, algum argumento em defesa de não-C. É insuficiente dizer para o teísta, “Qual é sua evidência para C?” O teísta não tem o ônus da prova de mostrar que C é verdade; ele apenas tem que oferecer uma alternativa para A ou B. Uma vez que o teísta faz isso, ele se desfaz de toda sua responsabilidade. Agora é sua responsabilidade provar que C é falso se você quer continuar defendendo (2') para, então, forçar o teísta a adotar A.

Em outros contextos, tenho certeza que você reconheceria onde o ônus da prova está. Veja meu argumento acima para a pessoalidade da causa do universo demonstrado pelo argumento cosmológico. Este também está na forma de um dilema:

1. Ou a causa do universo é um objeto abstrato ou a causa do universo é uma mente sem corpo.

2. A causa do universo não é um objeto abstrato.

3. Portanto, a causa do universo é uma mente sem corpo.

O não-teísta que disputa este argumento irá tentar derrotar a premissa (1) ao sugerir alguma alternativa impessoal C como a causa do universo. Seria desastrado da minha parte responder a esse ponto dizendo: “Mas qual a sua evidência para C? Você não provou que C é verdade”. O não-teísta balançaria sua cabeça e diria, “Desculpe-me, mas é sua responsabilidade provar que minha alternativa C é falsa. Você é quem está argumentando que a causa do universo é pessoal. Eu estou apenas dizendo que você não provou isso porque você não excluiu C.”

Você se encontra exatamente no mesmo barco com o seu dilema. O teísta clássico anunciou uma alternativa para seu A ou B, então se você quer provar que valores morais, se eles existem, são independentes de Deus, você precisa mostrar porque a alternativa C oferecida pelo teísmo clássico falha.

Eu acho que você reconhece a falha do Dilema de Êutifron, mas você tenta trivializar o resultado dizendo,

Se você quer sugerir que o caráter de Deus é essencial e que o caráter dele serve como o paradigma para o que é bom APENAS para mostrar que o dilema de Êutífron não é um dilema, tudo bem. Você pode fazer isso e seguir em frente.

Sim, é exatamente isso que eu quero mostrar, e esta conclusão representa progresso verdadeiro porque sua afirmação inicial na Pergunta 65, você irá recordar, foi:

Ainda não encontrei uma boa resposta a este dilema. ... Não é um falso dilema. ... Craig defende Deus como perfeito e depois diz que Deus precisa ser perfeito porque esta é a definição de Deus. Isso é lógica circular.

Agora eu acho que você vê o Dilema de Êutifron como, de fato, um falso dilema, dada a possibilidade de C, e que não existe circularidade envolvida porque o teísta não está tentando provar C, mas simplesmente oferecê-lo como uma alternativa para A e B. Então agora você encontrou uma boa resposta para o dilema.

Esse resultado é muito significativo, Brandon, porque, como eu expliquei, uma das respostas não-teístas mais comuns ao argumento moral é o Dilema de Êutifron. Com a falha daquele dilema, uma das principais objeções à premissa (1) do meu argumento moral original, isto é

1. Se Deus não existe, valores e deveres morais objetivos não existem

cai por terra.

Agora, eu não pude deixar de ficar surpreso pelo fato de que na sua pergunta atual você, na verdade, concorda com a premissa (1). A premissa (2), isto é

2. Valores e deveres morais objetivos existem.

é o que você realmente vai contra, pois você diz,

Eu não acho que a moralidade é baseada em qualquer coisa objetiva (uma razão lógica que não apela para valores emocionais).

Então você de fato admite (1), mas nega (2). Mas aqui, Brandon, eu tenho dificuldades de acreditar que você realmente acha que (2) é falsa. Não sei se você tem uma namorada, mas se tiver, você realmente acha que seria moralmente permissível para você atacá-la com uma chave de fenda, mutilá-la e matá-la? Você realmente acha que tal ato seria moralmente indiferente, no mesmo plano ético que amá-la? (Se sim, eu te aconselharia a não permitir que ela leia esta resposta).

Deus Pessoal – a razoabilidade de defender valores morais objetivos

Em nossa experiência moral nós apreendemos uma esfera de valores e deveres morais existindo objetivamente, e não temos nenhuma boa razão para duvidar da veracidade de tais experiências. Como Louise Antony corretamente aponta em nossa troca de ideias em God and Ethics (ed. Nathan King e Robert Garcia. Lanham, Md.: Rowman & Littlefield, 2008), qualquer argumento em defesa do niilismo moral será baseado em premissas que são menos evidentes do que a realidade de valores e deveres morais objetivos em si. É por isso que nem ela nem quase qualquer filósofo com quem eu tenho debatido esse assunto nega a premissa (2) do argumento moral.

Você certamente está correto quando diz que o eticista cristão que quer desenvolver uma teoria da ética baseada no teísmo terá muito mais o que dizer a respeito desses tópicos, como as três perguntas que você levanta no segundo parágrafo. Eu mesmo tenho abordado essas perguntas na seção sobre a bondade de Deus no livro Philosophical Foundations for a Christian Worldview (Downer's Grove, Ill.: Inter-Varsity Press, 2003) – publicado em português como Filosofia e Cosmovisão Cristã (Vida Nova – 2005). Mas este não é meu projeto aqui. Aqui nossa preocupação é meramente sustentar as premissas (1) e (2) do argumento moral. Você concorda que (1) é verdade, e sua negação do (2) vai contra nossa experiência moral, sem nenhum argumento, pelo menos até agora, para negar a veracidade dessa experiência. Então, parece-me que o argumento moral é muito bom.

- William Lane Craig