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#101 Wes Morriston sobre Criação Divina

August 03, 2014
Q

Querido Dr. Craig,

Sou membro do Reasonable Faith por muito tempo, mas passei muito tempo longe.... Sou um estudante em filosofia na universidade do Kansas, então pretendo participar de ambos seus debates em março. Tive uma pequena conversa com seu ponto de contato a respeito de seus debates no Northwestern Missouri State, e ele me informou da crítica de Wes Morriston sobre o argumento Cosmológico Kalam, em seu último acréscimo ao Reasonable Faith. Depois de ouvir a acusação dele de que você se desviou da crítica do Morriston em seu último acréscimo ao Reasonable Faith, fui obrigado a olhar mais a fundo no argumento que ele dá. Morriston parece afirmar duas coisas. A primeira era que Deus não pode existir de forma causal antes do universo se Ele existe agora dentro do tempo DO universo, com isso eu não fico muito preocupado, já que você já escreveu extensivamente desse relacionamento espaço-tempo. Porém, sua segunda afirmação me deixou pensativo. Morriston diz que se Deus é, de fato, “eternamente atemporal,” então nunca teria um ponto em que Deus não desejasse que o universo existisse. Então Morriston pergunta, por que Craig não vê o mundo como eterno, se Deus quisesse a criação do universo por toda a eternidade? Existe um hiato temporal? Se sim, como isso é possível?

Todo o artigo pode ser encontrado em http://debunkingchristianity.blogspot.com/2007/05/wes-morriston-critique-of-kalam.html

Estou ansioso por sua resposta,

Wes H.

United States

Dr. Craig responde


A

Até esta resposta ser postada, nosso diálogo no Westminster College já vai ter passado. Mas eu sei que Wes Morriston planeja trazer esta pergunta, que você levanta, à tona porque nós trocamos nossos discursos iniciais antes do diálogo para facilitar discussão. Sua objeção surge em resposta a um dos pontos mais interessantes do kalam medieval, isto é, sua contensão de que o que é requerido para explicar a origem do universo não é somente uma Primeira Causa, mas um Criador Pessoal. Ainda estou para ver uma boa resposta para esta contensão. É assim que eu coloco o argumento em nosso diálogo no Westminster College:

...somente um agente livre pode explicar a origem de um efeito temporal de uma causa atemporal. Se a causa do universo fosse impessoal, uma causa mecanicamente operada, então a causa nunca poderia existir sem seu efeito. Pois se a condição suficiente do efeito é dada, então o efeito deve ser dado também. Para ilustrar: vamos falar sobre a causa do congelamento da água em temperaturas abaixo de zero. Se a temperatura fosse eternamente abaixo de zero grau centígrados, então qualquer água seria eternamente congelada. Seria impossível para a água começar a congelar em um tempo finito atrás. Mas isso implica que, se a causa do universo existisse eternamente, o universo teria também existido eternamente.

A única forma para a causa ser atemporal, mas seus efeitos começarem no tempo, é se a causa for um agente pessoal que livremente escolha trazer à tona um efeito sem qualquer condição antecedente determinante. Filósofos chamam esse tipo de causa “causa agencial,” e porque o agente é livre, ele pode iniciar novos efeitos ao livremente trazer à tona condições que não estavam previamente presentes. Por exemplo, um homem sentando imutavelmente desde a eternidade pode livremente levantar-se; portanto, um efeito temporal surge de um agente eternamente existente. Da mesma forma, um tempo finito atrás um Criador imbuído de livre arbítrio poderia ter livremente trazido o mundo à existência naquele momento. Dessa forma, o Criador poderia existir sem mudança e eternamente, mas escolher criar o mundo no tempo. Então a causa é eterna, mas o efeito não é. Portanto, nós somos criados, não meramente de uma causa transcendente do universo, mas de um Criador Pessoal.

Aqui está a objeção de Morriston:

O segundo argumento de Bill para dizer que a causa do universo deve ser pessoal implicitamente, presume que só podem existir dois tipos de causa - agentes pessoais livres que podem existir sem causar coisas que eles são livres para causar, e condições suficientes impessoais que não podem existir sem produzir seus efeitos. Dada esta presunção, Bill defende que uma causa impessoal eterna só poderia ter um efeito eterno. Já que ele pensa que o universo deve ter um começo, ele conclui que a causa do universo só poderia ter sido um agente pessoal eterno que livremente escolhe “criar o mundo no tempo.”

Farei apenas duas observações sobre isso. A primeira é a respeito do exemplo de Bill de uma causa que é eterna e impessoal. Na verdade é um exemplo de uma causa temporal que não tem início! Se a água sempre tivesse existido e sempre tivesse a temperatura abaixo de zero grau centígrados, sempre teria sido congelada. Mas, na visão de Bill, Deus não é eterno nesse sentido, já que isso envolveria duração temporal sem começo, justamente do tipo que Bill acredita ser impossível.

Aqui está minha segunda observação. Presuma que Deus é eterno, onisciente e todo poderoso e que Ele decide criar o universo. Segue que a decisão de Deus de criar deve ser tão eterna quanto Ele é. Dada a onipotência de Deus, a decisão eterna dele de criar deve ser suficiente para a existência do universo. Pela lógica do argumento de Bill, então, deveríamos concluir que o universo é simplesmente tão eterno quanto a decisão de Deus de criá-lo. Claramente, algo deu errado.

Agora note que a resposta de Wes não identifica qualquer falha no argumento que eu dei. Na verdade a resposta de Wes é dizer que deve haver algo de errado com meu argumento porque leva a uma conclusão não desejada.

Mas será que faz isso mesmo? Com respeito à primeira observação de Wes, ele está certo em notar a diferença entre uma causa atemporal e uma causa sempre eterna (uma que existiu temporalmente e sem começo). Mas esta diferença é incidental ao argumento. O que é comum para ambos os tipos de ser, e chave para o argumento é que em qualquer um dos casos a causa existe sem começo e sem mudança. É consistente com o argumento cosmológico kalam para sustentar com Alan Padgett que Deus existe sem mudança antes da criação em um tempo amórfico, em que intervalos temporais não podem ser distinguidos, e a mesma pergunta ainda surgirá de como um efeito com um começo pode surgir de uma causa sem começo.

O segundo ponto de Wes - e o que você mencionou em sua carta – é, portanto, a verdadeira questão. Com respeito a esta questão, como já expliquei em outro lugar, eu concordo que a decisão de Deus de criar um mundo com um começo é eterna no sentido que Deus tem uma intenção atemporal que um mundo com começo existisse. Mas, como Wes observa, esta mera intenção não é suficiente para um mundo começar a existir. O que é necessário, além disso, é o exercício do poder causal da parte de Deus (veja uma análise útil da agência livre por J. P. Moreland, "Libertarian Agency and the Craig/Grünbaum Debate about Theistic Explanation of the Initial Singularity," [Agência Libertariana e o Debate Craig/Grünbaum sobre a Explicação Teísta da Singularidade Inicial] American Catholic Philosophical Quarterly 81 [1998]: 539-54). Como um agente livre Deus é capaz de exercer Seu poder causal sem qualquer condição antecedente determinante. É isso que diferencia um agente pessoal de uma causa impessoal. Tal exercício é uma mudança em Deus que plausivelmente O leva para dentro do tempo naquele momento. Assim, o momento em que Deus cria o universo é o momento em que o universo começa a existir. Então Deus existe sem mudança (apesar de não imutavelmente) sem a criação com uma intenção atemporal que um mundo com um começo exista, e, ao exercer seu poder causal, traz tal mundo à existência no primeiro momento do tempo. É claro, não faz sentido perguntar por que Deus não exerceu Seu poder causal antes, já que não havia “antes”!

O argumento kalam, portanto, não tem a implicação indesejável que Wes alega que tem, e assim permanece um bom argumento para a pessoalidade de uma causa transcendente do começo do universo.

- William Lane Craig