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#70 Youtube Acaba com Argumento Cosmológico!

January 14, 2015
Q

https://www.youtube.com/watch?v=K8YN0fwo5J4

Um “Universo sem início” pode existir?

Eu preciso fazer uma colocação simples sobre o infinito.

Você não pode quantificar o infinito, o infinito é ilimitado.

Exemplo:

10 quilômetros é feito de 10000 metros, sim.

inf quilômetros não são feitos de de inf*10000 metros.

Por favor responda,

Greg

United States

Dr. Craig responde


A

Greg, quando vi sua pergunta pensei que você estava se referindo a outro vídeo no Youtube sobre o argumento cosmológico kalam chamado “Acabando com o Argumento Cosmológico” https://www.youtube.com/watch?v=JN9GnHLQNig. Eu normalmente não respondo a esse tipo de coisa, mas esse último vídeo era tão ruim que não pude resistir a dizer algo como resposta. Depois volto para sua pergunta.

O vídeo procura negar que o universo começou a existir. Imediatamente, o ataque começa com o pé errado ao afirmar que “A fim de qualquer coisa vir a existir, primeiro precisa ser não-existente.” Esta formulação é infeliz, já que parece sugerir que algo pode primeiro ter a propriedade de não-existência e depois ter a propriedade de existência. Mas não-existência não é uma propriedade que algo pode ter: apenas coisas existentes têm propriedades. Então, seria mais preciso dizer “para que algo venha a existir, deve existir um tempo t tal que a coisa existe em t e não existe tempo t* antes de t em que a coisa existia,” ou, de forma mais simples, “Para que qualquer coisa passe a existir deve existir um primeiro momento de sua existência.”

O próprio vídeo entende que tem algo errado aqui, exigindo: “Como algo pode ser não-existente?”. Mas, em vez de corrigir sua análise falsa do que significa começar a existir, ele piora as coisas e complementa seu erro ao desafiar o espectador: “Você pode me dar o nome de qualquer coisa que veio a existência?? Qualquer coisa…”

Bem, eu não achei essa pergunta muito difícil! Que tal eu mesmo? Eu não vim à existência? Ou o autor do vídeo acredita seriamente que eu existia antes da união do esperma e do óvulo dos meus pais?

Esse vídeo nos fala que os átomos de um relógio existem desde quando o próprio universo existe e que a mesma coisa acontece com tudo no universo. Desconsidere o fato de que átomos, na verdade, não existem desde quando o universo existe. A confusão mais fundamental aqui é, obviamente, igualar algo com o material do que esse algo é feito. Porque os átomos que atualmente compõem meu corpo sempre existiram, eu sempre existi? Eu existia durante a era Jurássica e durante a era da formação das galáxias? Se tal conclusão não é evidentemente absurda, reflita: eu tenho certas propriedades essenciais, propriedades sem as quais eu não existiria. Por exemplo, eu ser um ser humano é uma propriedade essencial minha. Mas meus átomos antes da minha concepção não eram um ser humano. Portanto, eles não eram eu. Além disso, a ciência médica nos diz que a cada sete anos o material que constitui meu corpo é quase completamente substituído por novos constituintes. Assim, antes da minha concepção, qual conjunto de constituintes que formaram meu corpo durante minha vida era eu?

Assim, a sugestão do vídeo de que nada veio à existência é ridícula. Na verdade, o restante do vídeo contradiz essa sugestão, já que depois ele afirma que o tempo começou a existir. Pior, se, como o vídeo sugere, “A fim de qualquer coisa vir a existência primeiro precisa ser não-existente”, então o tempo deve primeiro ser não existente antes que ele comece – o que é incoerente, já que isso requer que o tempo tenha existido antes que existisse. Na análise do vídeo, portanto, é impossível, por definição, que o tempo tenha tido um início. Além disso ser factualmente falso, assuntos como esse não devem ser decididos recorrendo-se a meras definições. Eles devem ser decididos considerando-se os argumentos e as evidências. Portanto, esse vídeo está baseado em uma confusão irremediável.

O vídeo continua levantando outras objeções para a afirmação de que o universo começou a existir. Ele concede que “o tempo não pode ser infinito”, e, portanto, o tempo começou a existir. Mas o vídeo faz a notável afirmação de que o universo, diferentemente do tempo, não começou a existir. Isso me parece bizarro. O universo é simplesmente o espaço-tempo e todo seu conteúdo. Então, se o tempo teve um começo, por que o universo não teve um começo também? A resposta, de acordo com o vídeo, é que “O universo sempre existiu”. Nunca existiu um tempo em que o universo não existiu. O problema aqui é que a palavra “sempre” simplesmente significa “em todos os momentos”. Mas se o tempo é finito e teve um começo, então algo pode ter existido em todos os momentos e ainda ter começado a existir. Se o tempo começou cinco minutos atrás, então o universo “sempre” existiu, mas não existiu sem ter um começo. Ele começou a existir há cinco minutos.

Novamente, o vídeo parece entender que tem algo errado aqui, pois reconhece: “Mas é claro, ‘sempre’ é uma palavra que diz respeito ao tempo. Portanto, o universo tem existido desde que o tempo começou”. Certo! E, portanto, mesmo que tenha “sempre” existido, o universo começou a existir porque o tempo é finito em direção ao passado. Lembre que, para algo começar a existir, não é necessário que exista um tempo no qual esse algo não tenha existido (esse foi o erro exposto acima); o que tem que ocorrer é que deve haver um tempo antes do qual ele não existia (ou seja, é falso que ele existiu antes desse tempo). Essa condição é satisfeita tanto para o tempo quanto para o universo se o tempo é finito em direção ao passado.

Depois disso o vídeo passa a analisar a primeira premissa do argumento cosmológico kalam, que diz que Tudo que começa a existir tem uma causa. Essa premissa é falsa, o vídeo nos diz, porque “você teria que mostrar que alguma coisa começou a existir”, e isso não foi feito. O autor do vídeo obviamente não entende que sentenças universalmente quantificadas, como essa primeira premissa, são condicionais na sua forma lógica. Ela tem a forma “Para qualquer x, se x começou a existir, então x tem uma causa.” Essa premissa pode ser verdade mesmo que nada tenha começado a existir. O vídeo não diz nada que possa tornar plausível a afirmação de que coisas podem começar a existir sem causa.

Já vimos, então, o que o vídeo não diz. Vamos analisar agora o que ele diz. Primeiro, ele diz que o modelo do Big Bang não implica que o universo teve um começo. Essa afirmação é simplesmente falsa. De acordo com o modelo padrão toda a matéria e energia, o espaço físico e o próprio tempo começaram a existir na singularidade cosmológica inicial, que é um ponto de limite para o espaço-tempo. P. C. W. Davies comenta:

Se nós extrapolarmos essa estimativa até seu extremo, chegaremos a um ponto quando todas as distâncias no universo serão reduzidas a zero. Portanto, uma singularidade cosmológica inicial forma uma extremidade temporal no passado para o universo. Não podemos continuar a usar o raciocínio empregado na física, ou mesmo o conceito de espaço-tempo, uma vez que ultrapassemos essa extremidade. Por esta razão a maioria dos cosmólogos pensa na singularidade inicial como o começo do universo. Nessa visão o big bang representa o evento da criação; a criação não somente de toda a matéria e energia do universo, mas também do próprio espaço-tempo. [1]

Portanto, podemos representar de forma gráfica o espaço-tempo como um cone. (Fig. 1).

Fig. 1: Representação cônica do Modelo Padrão Espaço-Tempo. Espaço e tempo começam em uma singularidade cosmológica inicial, antes da qual literalmente nada existe.

Em tal modelo o universo começa a existir, já que na singularidade inicial é verdade que Não existe um ponto de espaço-tempo anterior ou é falso que Algo existia antes da singularidade.

Segundo, o vídeo afirma que a Lei da Conservação de Energia - que diz que massa/energia não podem ser nem criadas e nem destruídas – seria violada se o universo tivesse começado a existir. O autor do vídeo precisa torcer para que isso não seja verdade, caso contrário o paradigma da cosmologia contemporânea estaria em sério conflito com as leis da natureza! É importante enfatizar que até agora não fizemos nenhuma afirmação ou inferência teológica. Estamos falando apenas sobre cosmologia. Cosmólogos não consideram que o modelo padrão está em conflito com a Lei de Conservação porque a lei aplica-se apenas dentro do universo onde - como nosso cinegrafista colocaria - ela “sempre” funciona. Mas ela não é violada se toda a arena espaço-tempo na qual ela vale começa a existir, pois essa situação está fora de sua área de aplicação.

Das duas premissas segue-se que o universo tem uma causa. O vídeo protesta, dizendo que é impossível que o tempo tenha uma causa, pois uma causa deve ser temporalmente anterior aos seus efeitos e não existe tempo antes do começo do tempo. Note, porém, que nenhum argumento foi dado para a afirmação de que causas devem preceder temporalmente seus efeitos. De fato, isso não é verdade, pois existem casos de causas que são simultâneas aos seus efeitos.

No caso da causa do universo o que é necessário é uma causa que, ou existe temporalmente antes do universo em um tempo metafísico que é independente de nossas medidas físicas, como Newton defendeu, ou, como eu prefiro, existe de forma atemporal sem o universo, mas que é colocado dentro do tempo no momento da criação em virtude de seu real relacionamento com o universo. Minha visão é que Deus é atemporal sem o universo e temporal com o universo. Essas são questões profundas que já discuti extensivamente em meu livro Time and Eternity (Tempo eEternidade).

O erro do cinegrafista é a suposição dele de que um ser que existe atemporalmente é imutável. Uma coisa não implica na outra. Um ser atemporal deve ser sem mudança, mas isso não implica imutabilidade. Um ser atemporal é atemporal somente no caso em que Ele existe sem mudança, mas, caso ele mude, então ele se torna temporal. Isso, eu sugiro, é exatamente o que Deus fez ao criar o universo.

Mas como um ser que não muda pode iniciar uma mudança? Sendo um agente pessoal imbuído de livre arbítrio – o que leva à conclusão de que a causa do universo deve ser um Criador pessoal. Notei que o vídeo rotulou este argumento como uma “falácia lógica”, mas em nenhum momento se importou em apontar onde a falácia está.

Portanto, o naturalista representado no vídeo está enganado quando afirma que (3) o tempo não pode ter uma causa e que (4) o início do tempo é uma causa sem causa. O que é assustador é que algumas pessoas são aparentemente persuadidas por sofismas como esses que são exibidos no vídeo.

Voltando então à sua pergunta, Greg, a resposta é que uma distância infinita é, de fato, composta por um número infinito de quilômetros, mas também por precisamente o mesmo número de metros e o mesmo número de centímetros. Esse é um dos resultados malucos que a existência de um infinito real/atual geraria. Dê uma olhada no meu livro The Kalam Cosmological Argument (O Argumento Cosmológico Kalam) para maiores detalhes sobre esse assunto.

  • [1]

    P. C. W. Davies, "Spacetime Singularities in Cosmology," em The Study of Time III, ed. J. T. Fraser (New York: Springer Verlag, 1978), pp. 78-79.

- William Lane Craig