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Doutrina da Revelação (Parte 3): A relação da revelação geral com a teologia natural

March 01, 2023

Teologia natural e revelação especial

Andamos falando da revelação geral. Da última vez, vimos algumas das funções da revelação geral. Hoje, queremos atentar para o tópico da relação da revelação geral com a teologia natural.

A teologia natural é o ramo da teologia que investiga a justificação para a existência de Deus, sem recorrer à revelação divina autorizada. Ponha de lado o que sabemos de Deus a partir da sua revelação autorizada nas Escrituras, por exemplo, e daí o que se pode saber sobre Deus, simplesmente com base apenas na razão humana? O projeto da teologia natural é construir diversos argumentos para a existência de Deus. A pergunta que queremos fazer agora é esta: qual é a relação entre a revelação geral na natureza e o projeto da teologia natural de defender a existência de Deus?

A questão que surge, neste contexto, é a seguinte: como é que devemos entender o que Paulo disse, em Romanos 1, a respeito do conhecimento de Deus disponível mediante a sua revelação geral na natureza e na consciência? Ou seja, será que esta revelação é tal que se trata de inferência à existência de Deus a partir, por exemplo, da ordem na natureza ou simplesmente da existência da criação, ou será que se trata da lei moral escrita nos nossos corações e a nossa compreensão de valores e deveres morais objetivos? Será que inferimos, então, que Deus existe? Será que existe aí um argumento que Paulo está a apresentar? Será que ele está endossando, em outras palavras, o projeto da teologia natural, em Romanos 1? Ou, então, será que o conhecimento de Deus está disponível mediante a revelação mais como percepção? Ou seja, ao olharmos a natureza, simplesmente vemos que foi criada por Deus. Não se trata de inferência à existência de Deus. Não se trata de argumento. É mais c0mo uma percepção. Olha-se para a natureza e sente-se nela a lei moral, simplesmente se percebendo nisto a existência e bondade de Deus.

Parece-me que ambas as posições são interpretação defensável de Romanos 1. Porém, permita-me apontar algumas razões para pensar que não se trata apenas de percepção, mas, de fato, de inferência. Observem o que Paulo diz em Romanos 1.20: “Pois os seus atributos invisíveis, seu eterno poder e divindade, são vistos claramente desde a criação do mundo e percebidos mediante as coisas criadas”. O que Paulo diz, no grego, é que essas coisas invisíveis se percebem claramente mediante a reflexão sobre as coisas que foram criadas. É ao refletir-se sobre a criação que se percebe que ela é criada por Deus, Isto sugeriria que, de fato, algum tipo de inferência está envolvido. Percebemos Deus na criação, mas é mediante a reflexão racional sobre a criação que se percebe a existência de Deus.

Ademais, é muito interessante que esta passagem, em Romanos 1, mantém grande semelhança com o pensamento filosófico grego sobre Deus e o modo em que ele pode ser conhecido por meio da criação. O grego, nesta passagem, está entre os exemplos mais claros de grego clássico encontrados no Novo Testamento, o que sugere que ele carrega em si a marca da filosofia helenística ou grega. Por exemplo, a palavra aidios, para a natureza eterna de Deus — quando se fala da natureza eterna de Deus a ser percebida —, é palavra grega encontrada apenas duas vezes em todo o Novo Testamento. Não faz parte do vocabulário normal que se encontra nele. Igualmente, a palavra theotes, que significa a natureza divina — quando se diz que a sua natureza eterna foi claramente percebida — é palavra encontrada apenas aqui no Novo Testamento. É singular. É palavra grega que se refere à divindade: a natureza ou essência de Deus.

Além disso, esta passagem em Romanos 1 mantém clara semelhança com a obra judaico-helenística intertestamentária denominada Sabedoria de Salomão. Não faz parte da Bíblia. Na verdade, não foi escrita por Salomão. Trata-se de obra atribuída a Salomão, mas é, de fato, exemplo do judaísmo grego ou helenístico que existiu durante o período intertestamentária, antes do advento de Jesus. Quero ler para vocês os versículos 1-9 da Sabedoria de Salomão, capítulo 13. Observem as semelhanças entre esta passagem e o que Paulo diz em Romanos 1:

São insensatos por natureza todos os homens que ignoraram Deus, e que pelos bens visíveis não chegaram a conhecer Aquele que é, nem, considerando as obras, reconheceram o Artista. Pelo contrário, tomaram o fogo, ou o vento, ou o ar veloz, ou o círculo dos astros, ou a água impetuosa, ou os luzeiros dos céus, por deuses governadores do mundo. Se eles, encantados com a beleza de tais coisas, as julgaram deuses, reconheçam quanto é melhor do que elas o seu Senhor, porque foi o Autor da beleza que criou todas estas coisas. Ou, se eles se maravilharam do seu poder e força, entendam por elas que o que as fez é mais forte do que elas. Com efeito, pela grandeza e beleza das criaturas se pode, por analogia, chegar ao conhecimento do seu Criador. Todavia estes homens são menos repreensíveis, porque, porventura, caem no erro buscando a Deus e desejando encontrá-lo. Ocupados no exame das suas obras, são seduzidos pelo seu aspecto, pois são belas as coisas visíveis. Mas, por outra parte, nem estes merecem desculpa, porque, se chegaram a ter luz bastante para poderem conhecer o universo, como não descobriram mais facilmente o Senhor dele? 

 

Parece ecoar Romanos 1 (ou melhor, Romanos ecoa esta passagem)! O autor, no caso, fala do modo em que todas as pessoas são inexcusáveis por não reconhecerem a existência do Criador, por causa das suas maravilhosas obras, mediante a reflexão, a partir da qual se pode perceber o Criador. Assim, é loucura — é inexcusável — adorar as obras em si ou pensar que foram formadas por deuses, em vez de adorar ao Criador transcendente que formou tais obras. Em Sabedoria de Salomão, o autor evidentemente fala de uma inferência arrazoada das partir das obras criadas para o Deus Criador. É mediante a criação — mediante as obras dele — que se pode inferir que Deus existe e que todos os homens são responsáveis por fazerem tal inferência.

Isto sugeriria que aquilo que Paulo está discutindo, em Romanos 1, pode muito bem se tratar de inferência a Deus como o Criador e Arquiteto do universo, além da fonte da lei moral escrita no interior. Assim, seria um endosso do projeto de teologia natural.

Além disso, deem uma olhada em Atos 14.17. Trata-se de descrição do ministério de Paulo e Barnabé em Listra. Os homens daquela cidade, ao verem os milagres que haviam feito, pensam que os deuses desceram do céu. O sacerdote do templo de Zeus sai para oferecer sacrifícios a Paulo e Barnabé, pensando que os dois são deuses. O que Paulo diz é que não é verdade. Observem que ele diz, no versículo 15: “Nós também somos homens, da mesma natureza que a vossa, e vos anunciamos o evangelho para que vos afasteis dessas práticas inúteis e vos volteis para o Deus vivo, que fez o céu, a terra, o mar e tudo que há neles”. É a este Criador do universo que devem voltar-se. Então, no versículo 16, “Nos tempos passados ele permitiu que todas as nações andassem por seus próprios caminhos”. São pessoas que tinham apenas a revelação geral. Deus não se tinha revelado a eles de modo especial. Não tinham ouvido de Cristo. Ele permitiu que as nações andassem nos seus próprios caminhos. Porém, no versículo 17: “Contudo, não deixou de dar testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos chuvas do céu e estações frutíferas, fartando-vos de mantimento e enchendo o vosso coração de alegria”. No caso, Paulo diz que as estações e a produtividade da natureza, a revelação de Deus na criação, são testemunho até mesmo a estas nações gentílicas que jamais tinham ouvido do evangelho. Assim, ele forneceu-lhes provas, mesmo que os tivesse ignorado por ainda não lhes ter levado o evangelho.

Parece-me que temos, no pensamento de Paulo, um endosso do projeto de teologia natural, de modo que é bastante legítimo construir argumentos e provas para a existência de Deus.

Se isto estiver correto, qual é a relação entre a revelação geral e os argumentos da teologia natural? Obviamente, não são idênticos. Os argumentos da teologia natural são produtos humanos. São criações e formulações humanas. Precisarão ser refeitos a cada geração, à medida que as pessoas continuam a pensar, investigar e refletir sobre estas questões. Não se trata de projeto estático, terminado de uma vez por todas. Cada geração necessita refletir sobre estas questões, formulando bons argumentos para a existência de Deus. Porém, a revelação geral esteve presente desde o princípio. A revelação geral, na minha opinião, é, por assim dizer, os traços do artista no seu artefato. Pode-se reconhecer Rembrandt por meio dos traços do artista, isto é, nas suas pinturas. O mesmo se dá com outros artistas. Ou, então, as digitais do oleiro deixadas no barro. Deus é revelado no mundo criado que ele fez. Isto, então, produz a matéria a partir da qual os seres humanos podem refletir e formular argumentos para a existência de Deus. Assim, os argumentos para a existência de Deus são falíveis e revisáveis, e vocês podem sentir-se à vontade para rejeitá-los, caso não estejam convencidos com eles. Isto, porém, não afeta a revelação geral que Deus faz de si mesmo na natureza e na consciência, que é clara o suficiente para tornar todos os homens inexcusáveis, ao não reconhecerem a existência de um poderoso Criador eterno e as exigências da sua lei moral nos seus corações.

 

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Qual foi a referência? Sabedoria de Salomão?

Dr. Craig: Foi Sabedoria de Salomão 13.1-9. Tenho certeza de que você pode procurar na internet e achar o texto para leitura. A passagem é fascinante, não é mesmo? É, simplesmente, admirável. Há também passagens em Aristóteles nas quais ele reflete sobre o modo em que Deus é revelado no mundo criado que soam bem como Romanos 1. Paulo estava, claramente, em contato com a filosofia grega, na minha opinião, e o que os filósofos gregos falaram sobre a maneira como a existência de Deus é evidente mediante o mundo criado. No entanto, a Sabedoria de Salomão é, sem dúvida, uma passagem judaica marcante a este respeito.

Aluno: Estou tentando ler esta parte de Romanos 1. 18. Diz assim: “Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que impedem a verdade pela sua injustiça. Pois o que se pode conhecer sobre Deus é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou”. Está dizendo, então, que todos têm algum grau de verdade a partir da revelação geral, e Deus presta contas com você por suprimi-la e não a realizar na sua vida. Esta é a prova. Não é que tudo é tão claro, mas simplesmente que prestamos contas por tudo que sabemos (o que podemos ver nela).

Dr. Craig: O que ele diz é que é claro. Diz ele no versículo 19: “Deus lhes manifestou”. Então, no versículo 20, ele diz: “são vistos claramente e percebidos, de modo que eles são indesculpáveis”. Mas você tem muita razão em dizer que, no versículo 18, ele afirma que as pessoas suprimem esta verdade. Na sua depravação e trevas morais, suprimem este conhecimento natural de Deus disponível mediante a revelação geral.

Aluno: Então, o poder eterno é claro e o esplendor é claro, mas prestam-se contas por aquilo que se está suprimindo, porque é prova de que a pessoa sabe, por suprimir.

Dr. Craig: Parece ser assim. Sim. Ele diz que a divindade de Deus (a sua divindade invisível) — e, depois, ele cita especificamente o seu eterno poder — se percebe nas coisas criadas. Então, no capítulo 2, tem-se também a lei moral escrita nos corações de todas as pessoas. Por isso, obtêm-se os atributos de Deus a partir da criação, mas, então, os atributos morais de Deus a partir da consciência também. Assim, trata-se de conhecimento de Deus bastante significativo, na minha opinião, que está disponível apenas mediante a revelação geral. A ideia de que só se conhece a Deus mediante a revelação especial — por meio da Bíblia ou do evangelho — é complemente alheia ao Novo Testamento e, de fato, à Bíblia inteira, penso eu, que diz haver uma revelação geral de Deus na natureza, bem como na consciência, disponível a todos.

Aluno: Só um comentário. Vejo a ligação entre esta visão de inferir a existência de Deus a partir da revelação geral com o desejo de Deus de que o homem o busque, mais adiante em Atos. Creio que haja uma ligação aí em que Deus, realmente, quer que pensemos, tentemos alcançá-lo e o encontremos deste modo.

Dr. Craig: Vamos ver essa passagem em Atos 17, por ser também relevante ao que citei de Paulo em Listra, onde ele diz: “[Deus] não deixou de dar testemunho de si mesmo”. Em Atos 17.22 em diante, tem-se o discurso de Paulo na Colina de Marte, em Atenas, e identificados especificamente no grupo dos seus ouvintes estão filósofos estoicos e epicureus, filósofos gregos antigos que vieram ouvir Paulo! Como indicou quem fez a pergunta, o que ele diz aqui está no versículo 24:

O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens. Tampouco é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa. Pois é ele mesmo quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas.

Aqui, é o Deus do monoteísmo judaico que ele está proclamando a estes pagãos gregos, o Deus revelado na natureza que criou o mundo. Ele diz que Deus, então, estabeleceu os lugares onde todos deveriam viver, no versículo 27, “para que buscassem a Deus e, mesmo tateando, pudessem encontrá-lo. Ele, de fato, não está longe de cada um de nós”. Assim, Paulo está dizendo que, mesmo aos gentios que ainda não ouviram o evangelho, esse conhecimento de Deus está disponível. Observem mais uma vez, no versículo 30, que temos esta mesma expressão: “Deus não levou em conta os tempos da ignorância”. Ele não levou em conta o tempo de ignorância, mas não ficou sem testemunho, certo? Então, diz ele: “, mas agora ordena que todos os homens, em todos os lugares, se arrependam”, e proclama a ressurreição de Jesus dentre os mortos. Então, mesmo durante este tempo de ignorância, como Paulo o denomina, quando Deus não levou em conta os pecados de gerações antigas que ainda não tinham recebido dele a revelação especial, ele não ficou sem testemunho. E este é o testemunho da revelação geral que Deus nos revela, de modo que, conforme diz Paulo, nenhum de nós está longe dele. Vivemos e nos movemos e existimos, e a esperança de Deus é que o buscaremos, que iremos atrás dele, tateá-lo e, talvez, encontrá-lo, diz Paulo.

DISCUSSÃO TERMINA

Passemos para a discussão da revelação especial. Em que sentido a revelação especial é especial? O que queremos dizer com a palavra “especial”, neste contexto? Mais uma vez, duas opções.

1. Significa que Deus se revela com mais clareza do que o faz na revelação geral.

2. Trata-se de revelação mais plena de si mesmo aos seres humanos.

Portanto, a revelação especial é dada com clareza e plenitude da natureza, dos propósitos e dos planos de Deus, tais que não se pode obter apenas mediante a revelação geral. No caso, temos mais clareza e mais informações sobre quem Deus é.

Quais são os diversos tipos de revelação especial? Os teólogos costumam dizer que a revelação especial vem por sua Palavra. É pela Palavra de Deus, em oposição à natureza, que Deus se revela de modo especial. Tal Palavra pode tomar duas formas: ou a Palavra viva (Jesus Cristo, a revelação plena de Deus) ou, então, a Escritura Sagrada, que é a Palavra de Deus escrita.

Em relação a Jesus Cristo como Palavra de Deus, ver João 1.1: “No princípio, era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus”. Em seguida, no versículo 14: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade; vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai”. Então, no versículo 18: “Ninguém jamais viu a Deus. O Deus unigênito, que está ao lado do Pai, foi quem o revelou”. De fato, os melhores manuscritos do versículo 18 dizem: “O Deus unigênito, que está ao lado do Pai, foi quem o revelou”. Assim, aqui Jesus Cristo é declarado a Palavra ou Verbo de Deus, a própria expressão de Deus, em carne humana, a revelar-nos a graça e verdade de Deus de modo mais pleno do que o disponível pela revelação geral.

Quanto à revelação de Deus na Escritura Sagrada, vejam 2 Timóteo 3.16. Paulo escreve ali: “Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça”. A noção de ser inspirada, no caso, significa “soprada por Deus”, literalmente. A Escritura é soprada por Deus. Assim, ela se torna a Palavra de Deus para nós.

Portanto, a revelação especial pode tomar a forma de Jesus Cristo, que revela plenamente à humanidade o Deus Pai, mas há também a revelação de Deus na Escritura Sagrada.

Como disse, é só até aí que vão em relação à revelação especial. Parece-me, porém, haver uma terceira forma que a revelação especial pode tomar, e seria o que denomino de revelações particulares. Seriam revelações em sonhos, visões, profecias e assim por diante. Parece-me que se encaixam na nossa definição do que seja revelação. Lembrem-se que dissemos ser revelação o desvelamento de algo oculto, de maneira que possa ser visto e conhecido pelo que é, ou, de modo mais geral, revelação é comunicação da parte de Deus. A Bíblia, na minha opinião, testifica abundantemente do fato de Deus se comunicar com as pessoas por meio de sonhos, visões, profecias e assim por diante, que não estão na Sagrada Escritura e, obviamente, não estão em Jesus Cristo. Para exemplo disto, vejam 1 Coríntios 14.26, 29-30. No caso, Paulo está estabelecendo regulamentos para a maneira como deve proceder o culto nas igrejas do Novo Testamento, quando se reunirem. Haveria profetas que afirmariam ter revelação da parte de Deus e falariam nessas assembleias. Paulo dá alguns regulamentos sobre o modo em que esses profetas têm de comportar-se. Primeira Coríntios 14.26, 29-30 diz:

Irmãos, que fazer, então? Quando vos reunis, cada um de vós tem um hino, tem uma palavra de instrução, tem uma revelação, tem uma palavra em língua, tem interpretação. Tudo deve ser feito visando à edificação... Que dois ou três profetas falem, e os outros julguem o que foi dito. Mas se for dada uma revelação a alguém que estiver sentado, cale-se o primeiro.

 

Aqui, Paulo emprega a palavra “revelação” para descrever os profetas do Novo Testamento que comunicavam alguma palavra do Senhor. Paulo dá conselhos sobre o modo como esses profetas têm de comportar-se. Ele diz às pessoas que estão sentadas ali que os ouçam criticamente para ponderar se a palavra é mesmo do Senhor ou não, se é revelação ou profecia genuína ou não.

Assim, parece-me que há revelações particulares. O que as diferencia da Sagrada Escritura, na minha opinião, é que, embora a revelação de Deus na Escritura seja especial no sentido de ser mais clara, mais plena, ela ainda é geral no sentido da sua aplicabilidade. Aplica-se a todos. As verdades expostas nas Escrituras são aplicáveis de maneira universal. Assim, a revelação na Bíblia é aplicada de maneira universal. Porém, essas revelações particulares não são aplicadas de maneira universal. São feitas em tempo específico e em lugar específico para as pessoas ali envolvidas. Se Deus, por exemplo, dá a alguém como Paulo uma revelação para passar para a Macedônia e pregar o evangelho, trata-se de revelação dada apenas a Paulo, à qual ele está obrigado a obedecer. Não quer dizer que você esteja obrigado a ir para a Macedônia pregar o evangelho. Essas revelações especiais não devem ser aplicadas de maneira universal, mas pretendem ser apenas para o tempo, lugar e pessoas que ali estavam e as receberam.

Estes parecem ser os modos pelos quais Deus se revela de maneira especial, além da revelação geral: por meio do seu Filho Jesus Filho, a revelação plena do Deus Pai; por meio da sua revelação nas Sagradas Escrituras; e com essas revelações particulares mediante profecias, sonhos, visão e assim por diante.

 

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Parece que, nos dias antigos, era preciso haver ênfase mais particular na revelação especial, porque a Bíblia ainda não havia sido escrita. Assim, Paulo, quando diz “meu evangelho”, está dando-lhes tradição oral onde o relata. Parece que estaria em uso antes das Escrituras serem escritas. Então, depois, a Bíblia se tornou o padrão pelo qual se testam essas coisas...

Dr. Craig: Acho que a sua observação é muito boa. Note que não tratei da questão de essas revelações particulares ainda ocorrerem ou não hoje. Os nossos irmãos carismáticos creem que Deus dá, sim, esses tipos de palavras especiais ao povo. Outros cristãos diriam, como acho que você fez, que, uma vez que o cânon da Bíblia foi dado e tivemos a revelação no Novo Testamento, não haveria mais nenhuma necessidade para essas revelações particulares, que teriam sido importantíssimas antes que a Escritura fosse escrita e disseminada largamente. Vou deixar está questão em aberto, a esta altura. Estou estudando o material do Novo Testamento sobre esta questão. Parece-me que, pelo menos no período do Novo Testamento (e eu diria do Antigo também), Deus, ocasionalmente, revelou-se de modo especial dessas formas, independentemente de o fazer ou não hoje.

Aluno: Há tantas pessoas que dizem receber mensagens ou revelações, ou que profetizam da parte de Deus, com base em sonhos e coisas assim. Qual é o seu entendimento a este respeito? Qual é a sua filosofia quanto a este tipo de gente?

Dr. Craig: Acho que a minha atitude é de humildade em relação às pessoas que fazem essas alegações. O Novo Testamento ensina que esse tipo de coisa acontecia no tempo do Novo Testamento. Não estou convencido dos argumentos que dizem terem elas cessado. Quando se analisam os argumentos ditos cessacionistas, não são muito convincentes, na minha opinião, ao dizerem que Deus não faz mais essas coisas. Penso assim: quem sou eu para dizer que Deus não fala a alguém de modo especial, dando-lhe um sonho ou uma palavra ou algo do gênero? Não estou em posição de julgar. Só posso julgar se eu recebi ou não tal palavra ou revelação. Obviamente, se a pessoa alega ter alguma palavra de Deus contrária à Escritura — por exemplo, sei de casos de pessoas que dizem: “Deus me disse que não há nenhum problema em divorciar-me da minha esposa e casar-me com esta outra mulher da igreja. Esta é a vontade dele para mim”... Isto é contrário à Escritura. Daí, já se pode saber que se trata de impressão subjetiva da própria pessoa, pois Deus não contradiz a Escritura, que é a revelação com aplicação universal. Porém, em outros casos, quando alguém diz, por exemplo — e se tem notícia disto o tempo todo: “Deus me disse para falar com essa pessoa sentada ao meu lado no avião ou no restaurante, eu compartilhei o evangelho com ela e ela veio a Cristo”. Quem sou eu para dizer que Deus não fez isso? Talvez fosse justamente um direcionamento do Espírito Santo. Sem dúvida, poderia acontecer. Em outros casos, as pessoas afirmam mesmo terem informações verdadeiras da parte de Deus. Só penso que tenho de estar aberto a isto, mas não tão aberto assim a ponto de perder o cérebro. Mantém-se a mente aberta, mas isto não significa ser ingênuo quanto a estas coisas.

Aluno: Concordo com o senhor. Efésios fala sobre a unidade: o único Espírito, o único Deus. A unidade é porque toda a comunicação com Deus é coerente. Assim, quer se trate da revelação especial, quer da Palavra viva ou da Escritura, são coerentes. Não acho que Deus esteja encaixotado pelas mentes humanas, não podendo ir além do que está escrito. Deus ainda pode operar de maneiras que ultrapassam o nosso entendimento, mas tudo é coerente. É coerente com a Palavra viva. É coerente com a Escritura, de modo que todos podem, como o senhor disse, julgar ou discernir se algo vem de Deus ou não.

Dr. Craig: Sim, quero reforçar o que você disse a respeito da importância do discernimento aqui. Permita-me apenas citar 1 João 4.1: “Amados, não acrediteis em qualquer espírito, mas avaliai se os espíritos vêm de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo”. Somos chamados, então, a exercer discernimento.

Aluno: Um apoio à revelação particular no presente é o fato de que muitos, mas muitos muçulmanos estão vindo a Cristo no Oriente Médio. Sigo a questão por causa do meu interesse em profecia no Oriente Médio. Isto acontece em muitos países diferentes e vem de fontes nas quais confio. Eles têm visões e são salvos. Vêm a Cristo. São salvos assim como você e eu. E isto aconteceu com uma visão. Bem, eles não têm a Bíblia lá: ela é ilegal, além de uma ameaça à própria vida. Como alguém comentou antes, nos dias antigos, não havia a Escritura. Para eles, é como se estivessem voltando aos dias antigos. Aí entra a revelação particular.

Dr. Craig: Obrigado. Acho que isto se relaciona com o que disse, na semana passada, sobre a transição da velha para a nova aliança que não ocorreu instantemente no mundo inteiro, mas acontece à medida que a mensagem do evangelho se espalha geograficamente, da Palestina do primeiro século para todo o mundo. Por isso, essas pessoas que você mencionou ainda estão, em certo sentido, nesse período mais antigo — os tempos de ignorância que Deus não levou em conta —, em que revelações especiais desse gênero, bem como a revelação geral, podem ser mais importantes.

DISCUSSÃO TERMINA

 

Na próxima semana, falaremos sobre a Escritura. Veremos teorias da inspiração da Escritura, com o intuito de formular uma teoria defensável sobre o modo em que Deus inspirou a Sagrada Escritura.