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Doutrina da Revelação (Parte 6): Como a inspiração pode ser plenária, verbal e confluente?

March 01, 2023

A confluência da Escritura

Andamos falando da doutrina da inspiração. Da última vez, encerramos com a questão do modo em que a inspiração pode ser plenária, verbal e, ainda assim, confluente. Vimos que ninguém deseja defender a teoria do ditado da inspiração bíblica. Os muçulmanos adotam algo assim para o Alcorão, mas os teólogos cristãos reconhecem que as Escrituras são os produtos dos seus autores humanos, bem como do autor divino. Assim, algum tipo de teoria da supervisão parece melhor. Porém, o problema é como enunciar tal teoria: mostrar como podemos explicar a obra supervisora de Deus, de modo que o produto final seja verbal, plenário e confluente na sua inspiração.

Como é que a inspiração pode ser verbal, plenária e, ainda assim, confluente? No caso, os teólogos contemporâneos não têm muito a dizer. Vejamos a perplexidade expressa por alguns teólogos representativos dentre católicos, luteranos e reformados. Não são contemporâneos. São pensadores clássicos que representam tais tradições.

Primeiramente, da perspectiva católica, John Henry Newman, o grande cardeal britânico, nas suas Lectures on the Scripture Proofs of the Doctrines of the Church [Preleções sobre as provas escriturísticas das doutrinas da igreja], em 1838, tem o seguinte a dizer sobre a questão:

De que modo é a inspiração compatível com a agência pessoal por parte dos seus instrumentos, que a composição da Bíblia evidencia, disto não sabemos; porém, se algo é certo, é o seguinte: que, embora a Bíblia seja inspirada e, portanto, em certo sentido, escrita por Deus, porções muito grandes dela, se não a maior parte dela, são escritas de maneira tão livre e irrestrita e (aparentemente) com tão pouca consciência de ditado ou restrição sobrenaturais, por parte dos Seus instrumentos terrenos, que é como se Ele não participasse da tarefa. Como Deus rege a vontade e, ainda assim, a vontade é livre; como Ele rege o curso do mundo e, ainda assim, os homens o conduzem, assim também Ele inspirou a Bíblia e, ainda assim, homens a escreveram. Não importa o que mais seja verdadeiro a este respeito, isto é verdadeiro: podemos falar da história ou do modo da sua composição de maneira tão verdadeira quanto a de outros livros; podemos falar dos seus autores como se tivessem um objeto em vista, sendo influenciados por circunstâncias, ansiosos, sofridos, propositalmente a omitir ou introduzir assuntos, a suprir o que outros ignoraram ou a deixar as coisas incompletas. Conquanto a Bíblia seja inspirada, ela tem todas as características que se pode atribuir a um livro sem inspiração: as características de dialeto e estilo, os efeitos distintos de tempos e lugares, juventude e idade ou caráter moral e intelectual; e insisto nisto para que, naquilo que disser, eu não pareça esquecer (o que não esqueço) que, a despeito da sua forma humana, ela tem em si o espírito e a mente de Deus.[1]

No caso, Newman expressa com muita eloquência que, enquanto Deus é o autor da Escritura, ela é também, de certo modo inexplicável, um produto deveras humano que evidencia todas as características dos seus autores humanos.[2]

Da perspectiva luterana, ouçam o que Robert Preuss, no seu livro The Theology of Post-Reformation Lutheranism [A teologia do luteranismo pós-Reforma], publicado em 1970, tem a dizer. Preuss escreve assim:

A doutrina luterana da inspiração apresenta um paradoxo. Por um lado, ensinou-se que Deus é o autor primaries [isto é, o autor primário] da Escritura, que Ele determinou e proporcionou os pensamentos e palavras reais da Escrituras e que nenhuma cooperação humana concorre efficienter [isto é, como causa eficiente] na produção da Escritura. Por outro lado, manteve-se que os temperamentos (ingenia), a investigação e sentimentos (studia) e as diferenças nos antecedentes pessoais (nationes) dos autores inspirados refletem-se todos claramente nas Escrituras; que não há nada docético na Escritura;

[Docetismo foi heresia antiga que pensava que, enquanto o espiritual é bom, o material e físico é mau. Portanto, Cristo não poderia verdadeiramente encarnar-se. Ele só parecia estar encarnado. A natureza e corpo humanos de Jesus eram, de fato, ilusórios, e não reais. O que Preuss está dizendo, no caso, é que não há nada docético na Escritura. Ela é, realmente, o produto desses autores humanos, bem como do autor divino. Não devemos pensar que esses autores humanos sejam meros estenógrafos a tomarem um ditado. Eles, realmente, assumem o seu próprio papel.]

que os porta-vozes de Deus escrevem de maneira voluntária, consciente, espontânea e a partir da mais profunda convicção e experiência espirituais pessoais; que, do ponto de vista psicológico e subjetivo (materialiter et subjective), eles estavam totalmente envolvidos na redação da Escritura. Estas duas características salientes da doutrina da inspiração devem ser mantidos em tensão...

Ora, pode parecer totalmente incompatível que o Espírito de Deus fornecesse, na mesmíssima ação única, as próprias palavras da Escritura, ao mesmo tempo que Se acomodava às peculiaridades linguísticas e personalidade total do escritor específico, de modo que esses homens tenham escrito livre e espontaneamente. Porém, foi precisamente isto que aconteceu, de acordo com as provas e dados bíblicos. E, se a Escritura não nos informa como esses dois fatos podem ser verdadeiros, não devemos fazer violência a nenhum deles, nem tentar sondar o mistério da inspiração além do que foi revelado. Os mestres luteranos bem sabem que existe uma lacuna na sua teologia neste quesito...; e eles contentam-se em reter a lacuna lógica e aceitar o paradoxo.[3]

 

Segundo a visão de Preuss, a doutrina da inspiração é, inerentemente, paradoxal e misteriosa, e de nada vale tentar sondar este mistério para solucioná-lo.

Por último, da perspectiva reformada, temos o seguinte do grande teólogo de Princeton dos fins do século XIX, B. B. Warfield. No seu livro Calvin and Calvinismo [Calvino e o calvinismo], Warfield escreve que a doutrina clássica da inspiração:

propositadamente, não declara nada quanto ao modo de inspiração. As igrejas reformadas admitem que se trata de algo inescrutável. Elas se contentam em definir com cuidado e sustentar os efeitos da influência divina, deixando envolto em mistério o modo da ação divina pelo qual tal influência se deu.[4]

Mais uma vez, vemos, do ponto de vista de Warfield, que a doutrina da inspiração é simplesmente misteriosa e deve ser deixada assim.

Penso que, embora às vezes sejamos forçados a apelar para o mistério no fazer teológico, só devemos fazê-lo como último recurso, após terem falhado as tentativas de entender a doutrina cristã. Acho que ainda não atingimos este ponto com a doutrina da inspiração. Tentemos sondar o assunto um pouco mais a fundo para ver o quanto podemos entender da doutrina ou teoria da inspiração que lhe permitiria ser verbal, plenária e confluente.[5]

Como ponto de partida para a discussão, quero atentar para o artigo publicado anos atrás por dois filósofos cristãos, Randy e David Basinger, com o título “Inerrancy, Dictation, and the Free Will Defence” [Inerrância, ditado e a defesa do livre-arbítrio], que saiu em Evangelical Quarterly.[6] O que os dois Basinger defendem é que, caso se mantenha a doutrina da inerrância bíblica, não se pode empregar a defesa do livre-arbítrio para responder ao problema do mal.

Para quem não está familiarizado com a questão, em resposta ao argumento ateísta de que existe sofrimento e mal no mundo que um Deus bom e todo-poderoso não iria nem poderia permitir, o defensor do livre-arbítrio dirá que o mal no mundo é, possivelmente, decorrência das livres ações das criaturas, quer humanas, quer demoníacas. Portanto, Deus não pode garantir que um mundo de criaturas livres, com tanto bem quanto tem este mundo, não tivesse também menos mal. Trata-se da defesa do livre-arbítrio contra o problema do mal. Ela apela para a liberdade das criaturas para explicar como um Deus pode ser todo-poderoso e amoroso e, entretanto, o sofrimento e o mal ainda existirem.

O que os dois Basinger querem dizer é que, caso se adote a defesa do livre arbítrio, não se pode crer na inerrância bíblica. Por que será? Eles dão o seguinte argumento, que imaginam favorável à inerrância bíblica. É assim que o inerrantista bíblico argumentará, segundo pensam eles.

1. As palavras da Bíblia são o produto da livre atividade humana.

Isto só quer dizer que a Escritura é confluente na sua inspiração. Não é ditada por Deus. As palavras da Bíblia são o produto da livre atividade humana.

2. As atividades humanas, tal qual a redação de um livro, podem ser totalmente controladas por Deus, sem violar a liberdade humana.

Esta é a visão da supervisão da inspiração, que diz Deus poder supervisar a redação da Escritura, sem violar a liberdade dos autores humanos.

3. Deus controlou totalmente o que os autores humanos, de fato, escreveram.

Assim, obtém-se a inspiração verbal.

4. Logo, as palavras da Bíblia são declarações de Deus.

5. O que quer que Deus declare não tem erros.

6. Logo, as palavras da Bíblia não têm erros.

Trata-se de argumento a favor da inerrância bíblica baseado nas palavras da Bíblia como o produto da atividade humana e o controle total de Deus desses livres autores humanos.

Os dois Basinger dizem que, à luz do endosso da premissa (2) pelo defensor da inspiração (a saber, que as atividades humanas podem ser totalmente controladas por Deus, sem violar a liberdade humana), tal pessoa não pode utilizar a defesa do livre-arbítrio em resposta ao problema do mal. Ele não pode dizer que o mal estava, de algum modo, fora do controle de Deus. Se as atividades humanas podem ser totalmente controladas por Deus, sem violar a liberdade humana, Deus deveria conseguir controlar totalmente o mundo, de modo que o mal e o pecado jamais ocorressem. Dada a realidade do mal humano e o fato de que Deus não pode ser o autor do mal, eles dizem que a premissa (2) deve ser falsa. Caso se sustente a realidade do mal e, ainda assim, a superintendência de Deus sobre o mundo, é preciso dizer que as atividades humanas não podem ser totalmente controladas por Deus, sem violar a liberdade humana. Quer dizer que (2) é falso.

Porém, é possível apresentar o seguinte argumento:

1. As palavras da Bíblia são o produto da livre atividade humana.

2’. As atividades humanas e os seus produtos não podem ser totalmente controlados por Deus sem violar a liberdade humana.

Agora, uma nova premissa (7):

7. A doutrina da inspiração verbal e plenária da Bíblia acarreta o controle total, por parte de Deus, das palavras da Bíblia.

            8. Logo, a doutrina da inspiração verbal e plenária da Bíblia é falsa.

Quer dizer que a visão confluente da inspiração verbal e plenária é falsa.[7]

Caso se persista na afirmação da doutrina da inspiração verbal e plenária, uma vez que (7) é verdadeiro, praticamente por definição (de que a doutrina da inspiração verbal e plenária da Bíblia acarreta o controle total, por parte de Deus, das palavras da Bíblia), é preciso negar (1), ou seja, é preciso afirmar que a inspiração verbal e plenária implica a teoria do ditado da inspiração. Eles pensam que isto, caso adotado, negará a confluência. Quer dizer que se deve adotar que a inspiração verbal e plenária requer o ditado. É o único modo em que as palavras da Bíblia poderiam ser totalmente controladas por Deus. Acaba-se no ditado.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Não entendo por que não é confluente, se Deus usa a sua soberania para garantir circunstâncias nas quais eles, com seu próprio livre-arbítrio, escolherão a mesma palavra. Então, eles escolheram, com seu próprio livre-arbítrio, determinada palavra, embora Deus a tivesse orquestrado num supraconjunto da soberania.

Dr. Craig: Acho que você está começando a ver a fraqueza do argumento. Aguente aí, e vamos começar a puxar o fio e ver se o emaranhado vai desfazer-se.

Aluno: Estava só pensando na terceira opção que vem à mente: é possível que Deus estabeleça circunstâncias que cumpram a sua vontade, mas, ainda assim, você tenha liberdade e executará o plano dele.

Dr. Craig: Vocês são muito bem instruídos! [risos] Não consigo deixar nada escapar de vocês!

Aluno: Já estou aqui há anos, devo ter aprendido algo!

Dr. Craig: Correto. Você está fazendo a mesma observação. Falaremos algo no mesmo sentido.

DISCUSSÃO TERMINA

Vejamos, agora, a resposta aos dois Basinger escrita por Norman Geisler. Ele escreveu um artigo em Evangelical Quarterly com o título: “Inerrancy and Free Will: A Reply to the Brothers Basinger” [Inerrância e livre-arbítrio: resposta aos irmãos Basinger].[8] Ele diz haver um pressuposto oculto no raciocínio dos dois Basinger, a saber:

9. Se Deus pode garantir, infalivelmente, o que alguns homens farão, ele pode fazer o mesmo para todos.

Geisler escreve o oposto:

Pode ter sido porque apenas alguns homens livremente escolheram cooperar com o Espírito, de modo a poder guiá-los sem erro. Ou pode ter sido que o Espírito Santo, simplesmente, escolheu usar esses homens e ocasiões que, segundo ele sabia infalivelmente, não produziriam erro.

O que Geisler sugere é que dizer que há certos homens que Deus podia escolher usar para escrever as Escrituras, ciente de que escreveriam exatamente o que ele quer, não significa que ele pode controlar, infalivelmente, a todos em todas as circunstâncias, de modo que o mal jamais ocorresse. Pode muito bem ser verdade que Deus não possa controlar a tudo tão totalmente que o mal jamais viesse a ser cometido livremente, embora ele tivesse a capacidade de escolher certas pessoas, como Paulo, Lucas e Mateus, de modo que, nessas ocasiões determinadas, eles escrevessem, de um jeito infalível, exatamente o que ele queria que eles dissessem.[9]

Observe a segunda frase da sugestão de Geisler: “Ou pode ter sido que o Espírito Santo, simplesmente, escolheu usar esses homens e ocasiões que, segundo ele sabia infalivelmente, não produziriam erro”. Que tipo de conhecimento Geisler está atribuindo a Deus ao dizê-lo? Conhecimento médio! É exatamente isto. Ele está dizendo que Deus sabia o que esses autores livremente escreveriam, em determinados conjuntos de circunstâncias. Assim, ao colocar os autores nessas circunstâncias e deixá-los livres, ele sabia que livremente escreveriam exatamente o que Deus queria que escrevessem. Isto sugere, na minha opinião, uma solução de conhecimento médio ao problema da inspiração bíblica, a saber: é possível haver inspiração verdadeiramente confluente, mas também verbal e plenária, atribuindo-se a Deus o conhecimento médio daquilo que os autores humanos escreveriam, caso colocados em determinadas circunstâncias.

Acho interessante que B. B. Warfield, no seu artigo “The Biblical Idea of Inspiration” [A ideia bíblica de inspiração], que vou citar em um momento, propõe uma visão que é quase exatamente a mesma. Trata-se de bela descrição do que uma perspectiva do conhecimento médio sobre a inspiração bíblica acarreta. Assim diz Warfield:

Por isso, assim que nos empenhamos seriamente em formar-nos uma clara concepção da natureza precisa da ação divina na “expiração” [lembrem-se que é o que significa inspiração: “soprado por Deus”] das Escrituras — esta “condução” dos escritores das Escrituras [lembrem-se que, em 2 Pedro, é dito que os autores da Escrituras foram levados pelo Espírito Santo a escrever o que escreveram] para o seu fim pretendido da produção de um livro de confiabilidade divina e autoridade indefectível —, ficamos com consciência aguçada de um problema mais profundo e mais amplo, sem o qual tal inspiração, assim chamada tecnicamente, não pode ser considerada de modo proveitoso. [Então, Warfield diz que o problema da inspiração bíblica é apenas exemplo de um problema mais amplo. Qual seria ele? Diz Warfield:] Este é o problema geral da origem das Escrituras e a parte de Deus em todo esse complexo de processos por cuja interação esses livros, que denominamos de Sagradas Escrituras, com todas as suas peculiaridades e todas as suas qualidades de todos os tipos, foram trazidas à existência. Isto porque esses livros não foram produzidos repentinamente, por algum ato milagroso, entregues completos do céu, como dizem; porém, como todos os demais produtos do tempo, eles são efeito último de diversos processos a cooperarem através de longos períodos. É de se considerar, por exemplo, a preparação do material que forma o assunto desses livros: numa história sacra, por exemplo, a ser narrada; ou em experiência religiosa que pode servir de norma para o registro; ou em elaboração lógica do conteúdo da revelação que pode ser posta a serviço do povo de Deus; ou na revelação progressiva da própria verdade divina, fornecendo o seu conteúdo culminante. E deve-se considerar a preparação dos homens para escreverem tais livros: preparação física, intelectual, espiritual, que os deve ter acompanhado ao longo de todas as suas vidas e, de fato, deve ter tido o seu início nos seus ancestrais remotos, sendo o efeito dela levar os homens certos, nos lugares certos, no tempo certo, com os dotes, impulsos e aquisições certos, a escreverem justamente os livros que lhes foram designados.[10] Quando a “inspiração”, assim chamada tecnicamente, é suprainduzida em linhas de preparação como essas, ela adota um aspecto bem distinto daquele que ela possui quando pensada como ação isolada do Espírito divino a operar fora de qualquer relação com os processos históricos. Fazem-se, por vezes, representações como se, quando Deus desejou produzir livros sagrados que incorporariam a Sua vontade — uma série de cartas como as de Paulo, por exemplo —, Ele houvesse sido reduzido à necessidade de descer à terra e penosamente escrutinar os homens que encontrou ali, buscando com ansiedade alguém que, de modo geral, prometesse o melhor para o Seu propósito; e, então, forçando com violência o material que desejava expresso por meio desse alguém, contra a sua inclinação natural e com o mínimo de perdas possíveis das suas características recalcitrantes. Obviamente, nada assim aconteceu. Se Deus desejava dar ao Seu povo uma série de cartas como as de Paulo, Ele preparou um Paulo para escrevê-las, e o Paulo que ele empregou foi o Paulo que, espontaneamente, escreveu justamente tais cartas.[11]

Trata-se de descrição perfeita do conhecimento médio na sua supervisão da redação das Escrituras. Deus sabia que Paulo livremente escreveria, se estivesse em tal ou qual circunstância e lhe fossem apresentadas determinadas necessidades a serem abordadas e corrigidas. Ele sabia que Paulo escreveria, por exemplo, a carta aos Romanos. Assim, ao colocar Paulo nessas circunstâncias que, obviamente, exigiam (conforme o diz Warfield) toda uma série de ancestrais e eventos que levassem até àquele ponto, Deus pôde garantir que Paulo escrevesse exatamente o que Deus desejava expresso a nós.

Vocês notarão que isto se harmoniza muito bem com a noção de que a inspiração é, primordialmente, uma propriedade do texto. É, primordialmente, uma propriedade do produto final. Como diz Warfield, não é algum tipo de influência que sobrevém ao autor e o leva a escrever algo. Talvez o Espírito Santo tenha sobrevindo, de algum modo, a esses homens e os tenha conduzido, mas a redação das Escrituras é um processo muito mais histórico do que se imagina. Envolve a preparação do autor, a preparação das circunstâncias, e pode muito bem acontecer que, dado o conhecimento médio de Deus, não foi preciso haver nenhum tipo de influência do Espírito Santo em acréscimo a isto tudo. Todavia, o produto final é soprado por Deus. É inspirado.

Isto ajuda a explicar, por exemplo, as chamadas levicula ou trivialidades nas Escrituras, como Paulo a dizer: “Quando vieres, traze-me a capa que deixei em Trôade ... e os livros”, ou as saudações que ele envia. Não quer dizer que Deus não estaria contente, caso Paulo tivesse saudado outra pessoa ou dado outras instruções. Deus lhe permitiu liberdade para saudar, espontaneamente, quem ele desejasse, e para Deus está tudo bem assim. Deus fica bastante contente. Isto permitiria liberdade na escolha vocabular de Paulo. Pode ser que o que Deus queria que ele expressasse podia ter sido tão bem expresso em outras palavras. Pode ser que Deus não se importaria, caso ele saudasse outras pessoas ou as saudasse com outros termos. Não obstante, Deus sabia o que Paulo escreveria em tais circunstâncias, e ele se satisfez com o que Paulo escreveu, que seria a Palavra de Deus para nós.

Isto também explicaria as passagens nas quais se expressam as emoções do autor. Mencionei os salmos imprecatórios, que são difíceis de entender, caso se pense neles como ditados diretamente da parte de Deus. Segundo a perspectiva do conhecimento médio, Deus sabia que este autor, caso estivesse nessas circunstâncias angustiantes, vituperaria os seus inimigos, clamaria pela destruição deles e os amaldiçoaria.[12] Mas não quer dizer que é algo que, necessariamente, Deus quer que façamos. Pode ser que o propósito de Deus ao permitir ao autor expressas tais emoções é dizer-nos: Você pode trazer as suas dúvidas e a sua ira e as suas emoções até mim. Venha expressar-se em oração a mim, com todos os sentimentos que estão acumulados em você, e eu lhe darei ouvidos. Atenderei às suas orações. Assim, temos uma perspectiva bem diferente quanto a esses elementos nas Escrituras que tanto são o produto da emoção humana, ira e assim por diante.

Você talvez diga: “Espere um minuto, Dr. Craig. Não seria um exagero?” Isso porque, dado o conhecimento médio e providência de Deus, não estaria tudo que o autor humano escreve, nesse sentido, em última instância, sob o controle de Deus? Ele sabia o que você poderia escrever em tal ou qual circunstância. Será que isto torna o seu artigo filosófico inspirado por Deus? Não, é claro que não. Penso que a diferença estaria na intenção de Deus em relação ao que está escrito. Com certeza, Deus sabia o que eu livremente escreveria em tal ou qual circunstância, mas não é a intenção de Deus que isto se tornasse a Sua Palavra para nós. É isto o que serve para diferenciar os livros das Escrituras e separá-los como inspirados de maneira especial, a saber: Deus pretende que, ao fazer tal autor escrever tais palavras, elas se tornassem a própria Palavra de Deus para nós. Assim, é tanto o produto do autor humano quanto a Palavra de Deus para nós. É o que a separa como inspirada e, portanto, dotada de autoridade e assim por diante.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Existiriam duas partes? Uma é a redação do texto: será que é perfeita? E a segunda parte é a seguinte: dos textos escritos, quais deles são protegidos e quais são selecionados por Deus como Escritura? Penso haver muitos textos escritos que não são Escritura, não é mesmo? Tenho certeza de que houve até cartas de Paulo que não temos mais. Mas parece que a Bíblia foi protegida e selecionada por Deus, e é por isso que ela se tornou Escritura.

Dr. Craig: Isto se relaciona à questão do cânon da Escritura, cuja discussão outro dia adiamos; ou seja, quais livros são os que Deus separou de modo especial para serem a Sua Palavra para nós? Abordaremos esta questão mais adiante no curso. A única coisa que estamos tentando fazer aqui é formular uma teoria de inspiração que permita aos livros serem escritos por autores humanos, mas supervisionados por Deus de tal modo que aquilo que escrevem é a própria Palavra de Deus para nós.

Aluno: Qual é a diferença entre isto e o ponto de vista do teísmo aberto? Parece muito parecido pelo fato de…

Dr. Craig: Não, não, não. Você está entendendo mal o teísmo aberto ou o conhecimento médio, porque são antitéticos um ao outro. A visão teísta aberta é que Deus não sabe o futuro, nem tampouco declarações condicionais do que as pessoas devam fazer no futuro. Segundo a visão teísta aberta, Deus não sabe o que o apóstolo Paulo escreveria, caso estivesse em tal ou qual circunstância. Ele não sabe o que Paulo diria à igreja de Roma, ou sequer se escreveria uma carta à igreja de Roma, caso estivesse em determinadas circunstâncias. Por isso, o teísta aberto tem problema dificílimo ao explicar a providência e soberania de Deus na história, porque Ele não sabe o que agentes humanos fariam livremente em diversas circunstâncias. A perspectiva do conhecimento médio diz que Deus sabia exatamente o que tal pessoa faria livremente, caso estivesse em tal conjunto de circunstâncias. Portanto, ao criar tal pessoa e ao colocá-la em tais circunstâncias, ele sabia que, por exemplo, decorreria a carta de 1 Coríntios, e o que ele dissesse ali se tornaria a Palavra de Deus para nós. São perspectivas bem diferentes.

DISCUSSÃO TERMINA

Permitam-me dizer algo. Quando chegarmos à seção do curso sobre a doutrina de Deus, teremos uma seção extensa sobre os atributos de Deus, incluindo a onisciência de Deus, ou seja, o fato de Deus saber todas as coisas. Ali vamos ir muito mais a fundo nessas teorias de conhecimento divino, como o teísmo aberto, conhecimento médio, presciência simples e assim por diante. Por isso, se estiverem interessados no assunto, aguentem aí; vamos abordá-lo quando chegarmos à doutrina de Deus.

Isto nos traz ao encerramento da aula de hoje. Da próxima vez, veremos a autoridade que a Escritura tem por ser inspirada por Deus.[13]


[1] John Henry Newman, Lectures on the Scripture Proofs of the Doctrines of the Church, Tracts for the Times 85 (Londres: J. G. F. & J. Rivington, 1838), p. 30.

[2] 4:53

[3] Robert D. Preuss, The Theology of Post-Reformation Lutheranism, 2 vols. (St. Louis; Mo.: Concordia Publishing House, 1970), 1: 290-291.

[4] Benjamin Breckinridge Warfield, Calvin and Calvinism (Oxford University Press, 1931; rep. ed.: Grand Rapids, Mich.: Baker, 1981), p. 62.

[5] 10:18

[6] Randall Basinger e David Basinger, “Inerrancy, Dictation and The Free Will Defence”, Evangelical Quarterly 55 (1983): pp. 177-180.

[7] 15:24

[8] Norman L. Geisler, “Inerrancy and Free Will: A Reply to the Brothers Basinger”, Evangelical Quarterly 57 (1985): pp. 347-353.

[9] 20:20

[10] 25:10

[11] Benjamin Breckinridge Warfield, “The Biblical Idea of Inspiration”, em The Inspiration and Authority of the Bible, ed. Samuel G. Craig, com introdução de Cornelius Van Til (Filadélfia: Presbyterian & Reformed, 1970), pp. 154-155.

[12] 30:05

[13] Duração total: 35:53 (Copyright © 2014 William Lane Craig)