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Excurso sobre Teologia Natural (Parte 3): O papel dos argumentos e das evidências

June 11, 2023

O testemunho do Espírito Santo na vida dos incrédulos

Na última vez em que estivemos juntos, argumentei que, para o crente cristão, a crença em Deus e as grandes verdades do Evangelho são crenças propiamente básicas, fundamentadas no testemunho interior do Espírito Santo de Deus.

Se é assim que ocorre para o crente, o que acontece com o incrédulo? Qual é o papel do Espírito Santo na vida de um incrédulo? O incrédulo não é regenerado e, portanto, não é habitado pelo Espírito Santo e, assim sendo, não experimenta o testemunho do Espírito Santo da verdade da fé cristã, como nós, cristãos. Visto que o incrédulo é desprovido do Espírito Santo, isso significa que ele precisa confiar em argumentos e evidências para convencê-lo de que o cristianismo é verdadeiro? Eu acho que a resposta é não, de jeito nenhum. De acordo com as Escrituras, Deus tem um ministério especial do Espírito Santo, que é voltado para as necessidades do incrédulo em particular. Jesus descreve esse ministério em João 16: 7-11. Jesus diz:

Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo. Do pecado, porque os homens não creem em mim; da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não me verão mais; e do juízo, porque o príncipe deste mundo já está condenado.

Observe aqui que Jesus está dirigindo o ministério do Espírito Santo não à igreja, mas ao mundo. Ele está falando de pessoas que, como ele diz, "não acreditam em mim". O ministério do Espírito Santo aqui descrito é triplo: ele convence o incrédulo de seu próprio pecado, em segundo lugar, sobre a justiça de Deus, e em terceiro lugar, sobre sua condenação diante de Deus. Pode-se dizer que o incrédulo que está tão condenado pode ainda assim saber de tais verdades como "Deus existe", "sou culpado diante de Deus" e assim por diante.

É assim que tem que ser. Pois se não fosse pela obra do Espírito Santo, ninguém jamais se tornaria cristão. Segundo Paulo, o homem natural entregue a si mesmo não busca a Deus. Romanos 3: 10-11: “Não há nenhum justo, nem um sequer; não há ninguém que entenda, ninguém que busque a Deus.” O homem não regenerado, diz Paulo, não consegue entender as coisas espirituais - 1 Coríntios 2:14: “Quem não tem o Espírito não aceita as coisas que vêm do Espírito de Deus, pois lhe são loucura; e não é capaz de entendê-las, porque elas são discernidas espiritualmente.” O homem não regenerado é hostil a Deus - Romanos 8: 7: “a mentalidade da carne é inimiga de Deus porque não se submete à Lei de Deus, nem pode fazê-lo.” Como Jesus disse, os homens amam mais as trevas do que a luz. Entregue a si mesmo, o homem natural não regenerado nunca chegaria a Deus.

O fato de encontrarmos pessoas que estão buscando a Deus e que estão prontas para receber a Cristo quando compartilhamos o evangelho com elas é evidência de que o Espírito Santo já estava trabalhando em suas vidas, convencendo-as e atraindo-as para ele. Como Jesus disse em João 6:44: "Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, não o atrair”.

Portanto, quando uma pessoa se recusa a vir a Cristo, nunca é apenas por falta de evidência ou por causa de dificuldades intelectuais com a fé. No fundo, ela se recusa a vir porque, de bom grado, ignora e rejeita a atração do Espírito Santo de Deus em seu coração.[1] Esse poder do Espírito Santo de convencer e atrair pode levar tempo. Pode levar anos para que o incrédulo finalmente venha a Cristo. No entanto, ninguém em última instância realmente falha em se tornar cristão por falta de argumentos ou evidências; ele falha em se tornar cristão porque ama mais as trevas do que a luz e não quer nada com Deus. Mas qualquer pessoa que responda ao agir do Espírito de Deus com uma mente aberta e um coração aberto pode saber com certeza que o cristianismo é verdadeiro, porque o Espírito de Deus o convencerá eventualmente de que é verdade. Ouça as palavras de Jesus em João 7: 16-17 – pra mim são os dois versículos mais notáveis do Novo Testamento. Jesus disse: “Jesus respondeu: “O meu ensino não é de mim mesmo. Vem daquele que me enviou. Se alguém decidir fazer a vontade de Deus, descobrirá se o meu ensino vem de Deus ou se falo por mim mesmo.” Aqui Jesus disse que se alguém está realmente buscando a Deus, se sua vontade é fazer a vontade de Deus, então ele saberá que esse ensinamento é de Deus ou que Jesus está apenas falando de sua própria opinião. Jesus está afirmando aqui que, se alguém realmente quer a vontade de Deus - está realmente buscando a Deus -, então ele saberá que o ensino de Jesus realmente é de Deus.

Então, eu acho que, tanto para o incrédulo quanto para o crente, é o testemunho do Espírito de Deus que, em última análise, assegura a ele a verdade do cristianismo. O incrédulo que está realmente buscando a Deus ficará convencido da verdade da mensagem cristã.

COMEÇO DA DISCUSSÃO

Aluno: Li anos atrás, quando me tornei cristão em 2006, um livro de Dinesh D'Souza chamado What Is So Great About Christianity? (O que há de tão bom no cristianismo?). Nesse livro, ele fala sobre essa ideia de pessoas olhando para evidências e tentando chegar a Deus - é possível racionalizar sua aproximação de Deus? Ele disse que o fato da maioria das pessoas não acreditar em Deus não é por causa de um conflito. A maioria das pessoas simplesmente sabe que o cristianismo é verdadeiro através do testemunho do Espírito Santo e esse tipo de coisa. Ele disse que se você pensar sobre isso, se você tiver que racionalizar seu caminho para Deus, entrar no céu seria como entrar em Harvard. Você teria que ser um certo tipo de pessoa inteligente e intelectual para que Deus fosse aceitável. Dinesh D'Souza disse que Deus tende a gostar de pessoas mais humildes, enquanto nós gostamos de pessoas mais intelectuais em alguma área. Achei que esta é uma ideia realmente perspicaz.

Dr. Craig: Eu concordo com você. Se Deus simplesmente nos abandonasse à nossa própria inteligência e engenhosidade para descobrir se ele existe ou não, ele seria realmente um Deus muito cruel. Mas Deus nos ama. Ele ama as pessoas. Assim, pelo seu Espírito Santo, ele procura atraí-los para si mesmo. Isso não significa, como veremos, que não há evidências e argumentos suficientes para conhecer a verdade do cristianismo, mas é dizer que eles não são necessários e que um Deus amoroso pode levar as pessoas a conhecerem a si mesmo, sem necessidade de argumentação, se for esse o caso.

Aluno: Fomos visitados em nossa casa pelos mórmons. Eles se sentam e o que dizem repetidas vezes é: eu posso sentir “queimando no peito”. Eu posso sentir isso “queimando no peito”. Como você explica isso? É indigestão?

Dr. Craig: Vou dizer algo mais sobre isso. Essa pergunta foi feita na semana passada também. Continuo adiando minha resposta às pessoas porque essa é uma das principais objeções com as quais precisamos lidar. Mas o que eu simplesmente diria em poucas palavras é o seguinte: afirmações espúrias de uma testemunha do Espírito Santo não fazem nada para minar logicamente a autenticidade de uma afirmação verdadeira do Espírito Santo. Só porque alguém afirma falsamente saber algo porque isso queima em seu coração ou através de uma experiência direta com Deus, não significa que uma pessoa que tenha algo genuíno seja, portanto, injustificada naquilo que acredita.[2] Eu acho que isso é suficiente para minar essa objeção. Falaremos mais sobre isso quando chegarmos nela.

Aluno: Quando estávamos em São Francisco, antes de eu ser cristão, havia uma igreja - Glad Memorial - que tinha um ministério incrível para a população de rua. Os traficantes de drogas e as prostitutas e todos os membros de gangues apareciam no domingo de manhã e eles dançavam e cantavam as músicas e se sentiam bem. Eles saíam da igreja e voltaram para a rua e faziam as mesmas coisas novamente. Essa é uma maneira terrível - ou na época era uma maneira terrível - de eu ver o cristianismo. Eu apenas disse: Uau! Isso é realmente legal. Você pode fazer o que quiser, desde que vá no domingo de manhã e cante.

Dr. Craig: Isso é o que Tiago chama de fé morta - uma fé sem obras. Não tem frutos na vida de uma pessoa. Não basta ir à igreja para experiências emocionais. Ele precisa se manifestar em sua vida. Se é um testemunho genuíno do Espírito Santo que você recebeu, então você dará o fruto do Espírito, certo? Amor, alegria, paz, paciência, bondade, generosidade, fidelidade, domínio próprio. Estes são os frutos da vida de uma pessoa genuinamente habitada e cheia do Espírito Santo.

FIM DA DISCUSSÃO

Argumentei que a crença em Deus e nas verdades do Evangelho são propiamente básicas, tanto para o crente quanto para o incrédulo, baseadas no testemunho do Espírito Santo. Isso significa que é simplesmente racional acreditar em Deus e no cristianismo ou significa que essa crença é realmente justificada? Qual é a diferença entre elas?

Plantinga distingue racionalidade e garantia. Ele argumenta que a crença em Deus não é meramente racional para alguém com base no testemunho do Espírito, mas que isso é realmente garantido para que eles possam saber que Deus existe. Uma crença pode ser racional, mesmo que seja de fato falsa. Quando dizemos que uma crença é racional, queremos dizer que a pessoa não viola nenhum dever epistemológico de acreditar nisso. Ela está dentro de seus direitos epistemológicos em acreditar nisso. Ou queremos dizer que ela não apresenta defeito em sua estrutura cognitiva. Ela não está fazendo nada de errado ou deformado com relação ao seu sistema de crenças. É claro que uma crença pode ser racional nesse sentido e, no entanto, ser falsa. Por exemplo, se você conhecesse alguém pela primeira vez e esta pessoa lhe dissesse: "Olá, meu nome é Marcos", seria racional acreditar que o nome dele é Marcos. Mas é possível que não seja Marcos. Ele pode estar mentindo para mim por algum motivo. Pode ser outro nome. Então, eu seria racional em acreditar no que na verdade é uma crença falsa. Ser propiamente básico apenas o suficiente para ser racional não é realmente suficiente. O que queremos saber é: essa crença é garantida para nós de tal maneira que podemos dizer que realmente temos conhecimento da existência de Deus e da verdade do cristianismo?

Na visão de Plantinga, temos garantia e não apenas racionalidade. Para Plantinga, o testemunho interno do Espírito Santo é o análogo próximo de uma faculdade cognitiva que possuímos. Nesse sentido, é um "mecanismo" de formação de crenças que pode ser confiável. Ele acha que as crenças formadas por esse "mecanismo" atendem às condições de justificação. Portanto, ele diria que podemos conhecer as grandes verdades do Evangelho através do testemunho do Espírito Santo. Sendo assim, elas são garantidas para nós. Temos um conhecimento genuíno da verdade da existência de Deus e das grandes coisas do Evangelho.

Pelo fato de conhecemos as grandes verdades do Evangelho por meio da obra do Espírito Santo, como resultado você não precisa ter nenhuma evidência para elas. Em vez disso, elas são propiamente básicas para nós, tanto em relação à racionalidade quanto em relação à garantia.[3] Plantinga afirma que “de acordo com o modelo, as verdades centrais do Evangelho são auto-autenticadas”, ou seja, “elas não obtêm suas evidências ou justificativas por acreditarem na base evidencial de outras proposições”.

Argumentei que isso está de acordo com o ensino do Novo Testamento. Para o crente e para o incrédulo, é o trabalho de autenticação do Espírito Santo que fornece conhecimento da verdade do cristianismo. Então, eu concordo com Plantinga que a crença no Deus da Bíblia é uma crença propiamente básica e eu simplesmente enfatizaria que é o testemunho do Espírito Santo que fundamenta essa crença e, portanto, a torna propiamente básica. E porque essa crença é formada em resposta ao próprio testemunho de Deus (a própria revelação de Deus através do testemunho do Espírito Santo), ela não precisa de autenticação externa. Não é meramente racional acreditarmos no que Deus diz, mas constitui conhecimento. Na verdade, temos conhecimento da verdade do cristianismo através do testemunho do Espírito Santo.

Qual é o papel do argumento e da evidência no conhecimento da verdade do cristianismo? Eu já disse que a maneira fundamental pela qual conhecemos a verdade do cristianismo é através do testemunho auto-autenticado do Espírito Santo. Portanto, o único papel que resta para o argumento e a evidência a desempenhar é um papel subsidiário. Aqui eu acho que Martinho Lutero distinguiu corretamente entre o que ele chamou de usos magisteriais e ministeriais da razão. Quem são esses? O papel magistral da razão ocorre quando a razão permanece acima do Evangelho como um magistrado e julga sua verdade ou falsidade com base em argumentos e evidências. Por outro lado, o uso ministerial da razão ocorre quando a razão se submete e serve à mensagem do Evangelho. À luz do testemunho do Espírito Santo, eu diria que apenas o uso ministerial da razão é legítimo. A filosofia é justamente a serva da teologia. Razão é uma ferramenta dada por Deus para nos ajudar a entender e defender melhor nossa fé; como Anselmo colocou, a nossa fé é do tipo que busca entendimento. Uma pessoa que sabe que o cristianismo é verdadeiro com base no testemunho do Espírito Santo também pode ter uma apologética sólida que reforça para ele a verdade do que o Espírito Santo diz. Podemos imaginar uma pessoa que tenha o testemunho do Espírito Santo e bons argumentos da teologia natural e evidências cristãs das grandes verdades do Evangelho. Pode-se dizer que essa pessoa tem um tipo de dupla garantia da verdade de suas crenças cristãs. Essa pessoa é duplamente garantida em sua crença cristã, no sentido de que ela tem duas fontes de garantia para o que ela acredita que são independentes uma da outra.

Eu acho que você consegue ver que pode haver grandes vantagens em ter esse tipo de dupla garantia para suas crenças cristãs. Ter argumentos sólidos sobre a existência de um Deus e evidências da confiabilidade dos Evangelhos, além do testemunho do Espírito Santo em sua vida, poderia aumentar sua confiança na verdade das reivindicações da verdade cristã. Na teoria de Plantinga, pelo menos, isso significaria que você tem uma garantia maior do que acredita como resultado desses argumentos e evidências, bem como do testemunho do Espírito Santo. Um mandado maior, por sua vez, poderia levar, por exemplo, um incrédulo a chegar mais rapidamente à fé quando vê esse grande mandado que o cristianismo possui, ou poderia inspirar um crente a compartilhar sua fé com mais ousadia, porque ele tem um mandado maior para o que ele acredita e, portanto, mais confiança. Além disso, a disponibilidade de um mandado independente para as alegações da verdade cristã que estão à parte da obra do Espírito Santo pode levar um incrédulo a ser mais aberto à atração do Espírito Santo quando ouve o Evangelho.[4] Ele pode não vir a Cristo por causa dos argumentos que escuta, no entanto, isso pode torná-lo mais aberto a responder ao Espírito Santo quando o Espírito dá testemunho ao seu coração. Ou, no caso do crente, ter argumentos e evidências independentes poderia dar apoio ao crente durante momentos de secura espiritual ou dúvida, quando ele está lutando em sua vida cristã e o testemunho do Espírito Santo parece eclipsado. Então, ter esse mandado independente poderia sustentar sua fé ao passar por esses momentos de dúvida ou luta. Estou certo de que você poderia pensar em muitas, muitas outras maneiras pelas quais esse tipo de dupla garantia seria de grande benefício na vida cristã.

Então, eu argumentaria que, como cristãos, temos no trabalho do Espírito Santo e nos argumentos da teologia natural e evidências cristãs uma dupla garantia da verdade de nossas crenças cristãs, para que possamos dizer que sabemos essas coisas através dessas duas fontes de garantia.

COMEÇO DA DISCUSSÃO

Aluno: O que você acha que leva uma pessoa a usar o uso magistral da razão ou o uso ministerial da razão?

Dr. Craig: O que faria uma pessoa se apegar a qualquer uma delas?

Aluno: Sim. O Espírito Santo influência para mudar suas escolhas?

Dr. Craig: Bem, eu diria que uma pessoa que mantém a visão magisterial da razão pode não ter refletido suficientemente nos dados do Novo Testamento sobre como podemos conhecer as verdades cristãs através do testemunho do Espírito Santo, e que esse Espírito pode ser tão poderoso que possa até superar objeções e invalidadores da crença cristã. Estou convencido de que o que eu disse está alinhado com o ensino do Novo Testamento. Minha crença de que Lutero estava certo ao pensar que o uso ministerial da razão é correto é que simplesmente não consigo imaginar nenhuma circunstância sob a qual uma pessoa seria justificada em apostatar. Não consigo imaginar nenhuma circunstância em que uma pessoa se encontre onde a coisa racional para ela fazer - a coisa que ela deve fazer - é rejeitar Jesus Cristo da sua vida e voltar a ser um não-cristão novamente. A apostasia me parece um pecado imperdoável. Só pode ser imperdoável se uma pessoa nunca puder ser justificada em fazê-lo. No entanto, em uma visão magistral da razão, pode-se facilmente imaginar circunstâncias nas quais os crentes podem se encontrar onde não sabem as respostas para as objeções e os argumentos que são trazidos contra eles e, portanto, se apenas seguirem os argumentos e as evidências, devem “desconverter” - eles devem apostatar. Na minha opinião, isso é injusto. Deve haver - tem que haver! - algum outro mandado que permitiria justificadamente a pessoa perseverar em sua fé, apesar de sua incapacidade de responder às objeções.

Aluno: Você diria que, na decisão de aceitar a Cristo, uma pessoa faz essa mudança? Você diria que é isso que essa decisão faz com uma pessoa quando ela realmente muda do uso magisterial da razão para um uso ministerial?

Dr. Craig: Acho que não. Como argumentei, também acho que, para o incrédulo, o motivo pelo qual um incrédulo falha em chegar a Deus é porque ele voluntariamente rejeita e ignora a atração do Espírito Santo de Deus em seu coração. Caso contrário, um incrédulo como Bertrand Russell, por exemplo, poderá estar diante de Deus no dia do julgamento... Russell foi perguntado a respeito disso por uma mulher. Ela disse: O que você diria se se encontrasse diante de Deus no Dia do Julgamento? E Russell respondeu: eu diria que não há evidências suficientes, Deus. Não há evidências suficientes. Bem, algumas pessoas podem ser justificadas em dizê-lo, caso não houvesse o testemunho do Espírito Santo. Imagine alguém criado na Rússia soviética que nunca teve a chance de ouvir o Evangelho e foi doutrinado com propaganda marxista na universidade. Essa pessoa pode se encontrar nesse tipo de situação.[5] No entanto, não creio que, novamente no Novo Testamento, alguém jamais se justificaria em rejeitar Jesus Cristo. Ninguém seria capaz de ficar diante de Deus no dia do julgamento e desculpar sua incredulidade dizendo que não havia provas suficientes. Penso que é o testemunho do Espírito Santo que é o fator fundamental em como sabemos que o cristianismo é verdadeiro. Mesmo as pessoas que não receberam boas razões para acreditar e razões persuasivas para descrer ainda são, em última análise, responsáveis perante Deus, porque a razão pela qual elas não acreditam é, em última análise, porque rejeitam e ignoram o próprio testemunho de Deus sobre a verdade do Evangelho.

Aluno: Como a passagem de Romanos 2 sobre a lei de Deus escrita no coração de alguém se relaciona com isso?

Dr. Craig: Vamos olhar para essa passagem. Romanos 2: 14-16,

(De fato, quando os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam-se lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho também a sua consciência e os pensamentos deles, ora acusando-os, ora defendendo-os.) Isso tudo se verá no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Jesus Cristo, conforme o declara o meu evangelho.

Entendo que o que Paulo está ensinando aqui é que as exigências da lei moral de Deus também são propiamente básicas, e que as pessoas têm um conhecimento inerente do certo e do errado, do bem e do mal, de modo que o relativista ou niilista religioso que pensa que não existe nenhum valor e dever moral objetivo está desrespeitando essa crença propriamente básica, escrita em seu coração por Deus. Eu não acho que a passagem esteja ensinando que a crença em Deus é corretamente básica, mas acho que a passagem que você cita está ensinando que um conhecimento do bem e do mal fundamental, certo e errado, está escrito em nossos corações e é propiamente básico e, portanto, somos responsáveis perante Deus por nosso fracasso em cumprir as exigências da lei moral. Isso forneceria uma boa analogia, talvez, à crença em Deus como sendo propiamente básica.

Aluno: Não teria que haver uma base - um padrão - para o certo e o errado?

Dr. Craig: Sim absolutamente! E é por isso que eu argumentaria pela existência de Deus com base em valores e deveres morais objetivos. O que eu diria é algo assim. Valores e deveres morais objetivos existem. Segundo, se Deus não existisse, valores e deveres morais objetivos não existiriam. Terceiro, portanto, Deus existe. Eu acho que esse é um bom argumento moral para a existência de Deus. A primeira premissa - de que existem valores e deveres morais objetivos - eu diria que é uma crença propiamente básica, fundamentada em nossa experiência moral.

Aluno: Gostaria de saber como você emprega isso quando está debatendo contra um membro piedoso de outra religião. Shabir Ally, por exemplo, admitiu que se recusava a usar a razão ou a evidência magistralmente contra o Alcorão. Lembre-se de quando ele fala sobre Jesus, ele diz: eu começo com o Alcorão. E você o criticou por fazer isso. Você disse: não é assim que o conhecimento é formado.

Dr. Craig: Ah, certo. Porque estávamos debatendo sobre questões históricas. Mas acho que o muçulmano tem todo o direito de afirmar que sua crença é propiamente básica e está no testemunho de Alá em seu coração. Mas acho que ele está enganado, como eu estava dizendo anteriormente sobre os mórmons. Isso está voltando à mesma pergunta novamente sobre o que dizer de pessoas que falsamente fingem testemunhar do Espírito.

Aluno: Eu me pergunto como você consegue fazer essa distinção. Como decidimos qual sistema está certo sem usar a razão magisterialmente ou usando evidências magisterialmente para decidir entre isso ou aquilo?

Dr. Craig: O ponto exato de chamá-lo de autenticação é que, para a pessoa que tem o testemunho autêntico do Espírito Santo, ele se autentica. Ele não precisa de argumentos ou razão. Para a pessoa que realmente o tem, ela sabe que tem. É a pessoa que não a possui e que tem uma experiência religiosa falsa e fraudulenta que está com problemas e cuja confiança pode ser abalada quando apresentamos argumentos e evidências contra sua opinião.[6] Essa será a esperança - porque sabemos que ele realmente não tem um testemunho autêntico do Espírito Santo sobre a verdade do mormonismo ou do islamismo - de que, ao compartilharmos esses argumentos e evidências contra o mormonismo e o islamismo, eles possam penetrar e abalar sua confiança que estas pessoas têm, fazendo-as perder a confiança nessa religião falsa à qual se apegam.

Aluno: Parece que, às vezes, usamos a palavra "conhecer" e "acreditar" de forma intercambiável. Parece que podemos acreditar sem dúvida, mas isso é diferente de conhecer?

Dr. Craig: Certo. Isso está correto. Estou feliz que você trouxe isso à tona. Quando meu filho tinha 17 anos, ele tinha certeza de muitas coisas. Confie em mim, pai, ele diria. E ele estava errado. Ele tinha crença sem dúvida, mas isso não significava que ele conhecia dessas coisas. A certeza não é uma condição suficiente para o conhecimento nem uma condição necessária para o conhecimento. Você pode conhecer as coisas sem ter certeza delas, e pode ter certeza de falsidades que realmente não conhece. O que converte a crença verdadeira (digamos que você tenha uma crença verdadeira) em conhecimento? É essa qualidade elusiva que Plantinga chama de "garantia". Se a crença é de alguma forma garantida por você em medida suficiente, pode-se dizer que você conhece disso. Mas não compare a palavra "conhecimento" com a certeza de alguma coisa. A certeza é uma propriedade psicológica que não é necessária nem suficiente para o conhecimento.

Aluno: Então, andamos pela fé e não pela vista. Isso não implica que realmente não conhecemos?

Dr. Craig: Isso foi mencionado no culto da manhã de hoje e me fez refletir sobre isso, pois o pastor estava falando sobre andar pela fé e não pela vista. Pareceu-me que um bom exemplo da vida cristã que caminha pela fé e não pela vista seria lidar com males e desastres e sofrimentos que entram em nossas vidas pelas quais não vemos razão suficiente. Quando algo horrível acontece com você - você sai da garagem e acidentalmente atropela sua filhinha que estava brincando atrás do carro e você nunca a viu; coisas horríveis como essas acontecem - e você não vê uma boa razão para isso; são circunstâncias em que, como Jó, penso, andamos pela fé e não pela vista. Não vemos as razões moralmente justificadoras de Deus para permitir tais coisas, mas confiamos nele enquanto passamos por elas. Isso é uma fé cega? Não! Porque temos boas razões para acreditar que Deus existe. Nós temos o testemunho do Espírito Santo; nós temos os argumentos da teologia natural. Temos a garantia de crer que Deus existe e que Ele nos ama e tem nossos melhores interesses no coração. Então, quando vemos coisas como essas terríveis catástrofes acontecendo, é nesse tipo de circunstância que precisamos andar pela fé e não pela vista.

Aluno: Ao dizer coisas como: Nunca pode haver uma razão pela qual você jamais se converterá, ou que: Essas experiências são suficientes, para que ninguém nunca entre no céu por meio de evidências, estamos separando a fé da razão?

Dr. Craig: Veja bem, eu não disse isso. Eu nunca disse que ninguém entra no céu através de evidências. Eu nunca disse isso. O que eu disse foi que não é necessário ter essa garantia porque você tem a garantia do Espírito Santo para poder entrar no céu sem argumentos e evidências. Mas você também pode entrar no céu por meio de argumentos e evidências, se eles o levarem a confiar em Cristo. O que eu disse antes, novamente, foi que ninguém jamais poderia apostatar de maneira justificável ou resistir justificadamente até o fim de sua vida em crer em Deus porque quaisquer dificuldades ou problemas intelectuais que ele pudesse ter, eu diria, serão simplesmente superados pelo testemunho do Espírito Santo. Mais uma vez, pense no que Jesus disse: se a vontade de alguém é fazer a vontade de Deus, ele saberá se meu ensino é de Deus.[7]

Aluno: Isso nos faz lembrar de que o testemunho ministerial é importante para nós e para o nosso crescimento. Se você observar Apocalipse 12: 10-11 - a parte básica é: “Eles o conquistaram pelo sangue do cordeiro e pela palavra de seu próprio testemunho.” Ao testemunharmos com amor, ministrando, Deus nos abrirá e Deus será capaz de nos mostrar mais profundamente em Sua Palavra. Há tempo para argumentos magisteriais para defender a posição na Terra, mas para testemunhar e salvar outros, você precisa ter amor por eles e isso na verdade ministra na sua vida. Ele lhe dá uma visão mais profunda; mostra verdades mais firmes e o que devemos fazer depois. É importante ter os dois. No que diz respeito a todos terem princípios básicos - Deus diz que todos são responsáveis em saber o que têm em seu testemunho; portanto, cabe a nós testemunhar e, em seguida, o Espírito Santo é mais forte que o testemunho de qualquer outra pessoa. O que eles estão testemunhando são seres espirituais que estão se inserindo. Eles são ídolos. Isto é o que...

Dr. Craig: Eu acho que você está apresentando um bom argumento. Você não acredita que o Espírito Santo é mais poderoso e pode superar o falso testemunho que um muçulmano experimenta da verdade do Alcorão ou de Alá? Você realmente acha que Deus é tão fraco que ele não pode superar esse tipo de experiência psicológica? Eu acho que ele pode.

Aluno: E se não gerar convicção quando você testemunhar e esta pessoa lhe disser isso, aceite. Isso é Deus. Não desconsidere. Ele está lhe dizendo que você tem um erro no seu caminho. Isso é rejeitar o Espírito Santo.

Dr. Craig: O papel do Espírito Santo, lembre-se, é “convencer aqueles que não acreditam em mim do pecado, da justiça e do juízo.” Compartilhe sua fé, confiando que o Espírito Santo está secretamente trabalhando no coração da pessoa.

Aluno: Você tem que fazê-lo com amor e eles precisam vê-lo, caso contrário eles nunca confiarão nessa convicção.

Dr. Craig: Isso mesmo.

FIM DA DISCUSSÃO

O que falaremos da próxima vez é sobre essa objeção há muito adiada sobre os invalidadores. E a pessoa que tem o testemunho do Espírito Santo em seu coração, mas encontra objeções ou argumentos contra sua fé as quais ela não consegue responder? Como lidamos com a racionalidade e a garantia da crença no cristianismo nesse tipo de circunstância difícil? Essa é a pergunta que abordaremos da próxima vez.[8]

 

[1] 5:08

[2] 10:03

[3] 15:00

[4] 20:07

[5] 25:06

[6] 30:06

[7] 35:00

[8] Tempo total: 37:57 (Copyright © 2015 William Lane Craig)