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Excurso sobre Teologia Natural (Parte 4): Invalidadores de crenças propiamente básicas

June 11, 2023

Invalidadores de crenças propiamente básicas

Na última vez, argumentei que a crença em Deus e nas grandes verdades do Evangelho são crenças propiamente básicas, não apenas no que diz respeito à racionalidade, mas também no que se refere à garantia por meio do testemunho do Espírito Santo. Assim, por meio do testemunho do Espírito, podemos dizer que sabemos que Deus existe e que essas grandes coisas do Evangelho são verdadeiras. Hoje chegamos a uma pergunta muito importante que adiei nas últimas duas semanas, e essa é a questão dos invalidadores de crenças propiamente básicas.

Plantinga enfatiza que a basicalidade apropriada da crença em Deus não implica em sua inviabilidade. Isso quer dizer que essa crença é invalidável - pode ser invalidada por outras crenças incompatíveis que chegam a ser aceitas pelo teísta. Se um teísta aceita crenças que são incompatíveis com sua crença em Deus, ele tem uma espécie de dissonância cognitiva e, para permanecer racional, ele terá que desistir de algumas de suas crenças, e talvez seja sua crença em Deus que ele desistirá para manter sua racionalidade. Por exemplo, imagine um cristão que é confrontado com o problema do mal para argumentar contra a existência de Deus. Ele é confrontado com um potencial invalidador de sua crença cristã em Deus. Se ele quiser permanecer racional em suas crenças, terá que invalidar esse invalidador de suas crenças cristãs - uma espécie de invalidador-invalidador, se desejar. É aqui que a apologética cristã pode entrar; isso pode ajudar a formular respostas para esses possíveis invalidadores. Por exemplo, a defesa do livre arbítrio poderia ser uma maneira de invalidar o problema do mal.

Mas Plantinga também argumenta que, em alguns casos, a própria crença original pode exceder sua acusação invalidadora, garantindo que ela realmente se torne uma invalidadora intrínseca de seu aparente invalidador. Ele dá um exemplo muito interessante de alguém que foi acusado de um crime que ele sabe que não cometeu e, ainda assim, uma pessoa contra quem todas as evidências estão acumuladas. Portanto, se um júri se basear simplesmente nas evidências, eles devem condená-lo e considerá-lo culpado. Plantinga ressalta que essa pessoa não é racionalmente obrigada a seguir as evidências até onde elas levam, porque sabe que é inocente e sabe disso de uma maneira propiamente básica. Não há necessidade de ele desistir dessa crença propiamente básica e concordar com seus colegas de que ele é, de fato, culpado. A crença de que ele não cometeu o crime derruba intrinsecamente os invalidadores trazidos contra ele pelas evidências.

Plantinga faz a aplicação teológica sugerindo que a crença em Deus pode igualmente invalidar intrinsecamente todos os invalidadores que são trazidos contra ela. Plantinga sugere que as circunstâncias que poderiam produzir uma garantia tão poderosa para a crença em Deus são o sentido natural de Deus implantado que ele acredita que Deus colocou em nossos corações, assim como o testemunho do Espírito Santo que aprofunda e acentua esse senso congênito e inato de Deus.

Se surgir um conflito entre o testemunho do Espírito Santo e as verdades fundamentais da fé e crenças cristãs baseadas em argumentos e evidências, é o primeiro que deve ter precedência sobre o segundo, e não o contrário.

Isso está exatamente de acordo com o que descrevi na semana passada como a afirmação de Martinho Lutero de que apenas o uso ministerial da razão é válido e legítimo.[1] Não é permitido que a razão permaneça como um magistrado e julgue a verdade da mensagem do Evangelho. Ela é uma ministra da mensagem do Evangelho, a qual se submete e serve. Portanto, a crença em Deus e nas grandes coisas do Evangelho concedida a nós pelo testemunho do Espírito Santo, são invalidadores intrínsecos de todos os supostos invalidadores que possam ser trazidos contra eles.

Algumas pessoas discordariam disso. Elas diriam que não, que a razão pode ser usada em um papel magisterial, pelo menos pelo incrédulo que ainda não conheceu a Cristo e está explorando em qual sistema religioso acreditar. Eles perguntarão de que outra forma você poderia determinar qual é a verdade, a Bíblia, o Alcorão ou o Livro dos Mórmons, a menos que usasse argumentos e evidências para julgá-los. O muçulmano ou o mórmon também afirma ter um testemunho interior do Espírito de Deus ou algo que "queima no peito", que autêntica para eles a verdade de suas respectivas escrituras. Dizem que as reivindicações cristãs de uma experiência subjetiva parecem estar em pé de igualdade com reivindicações não-cristãs semelhantes.

Como podemos responder a essa objeção? Como já sugeri nas lições anteriores, parece-me que o fato de outras pessoas alegarem ter um testemunho do Espírito Santo ou algo que "queima no peito", isso não faz nada para invalidar a crença de uma pessoa que genuinamente tem o testemunho do Espírito Santo para as verdades de sua fé. A existência de um testemunho autêntico e único do Espírito Santo não exclui de forma alguma que possa haver pessoas que façam afirmações falsas sobre tal coisa. Se for esse o caso, como a existência de falsas alegações de um testemunho do Espírito Santo em favor de uma religião não cristã faz algo logicamente para minar o fato de que o crente cristão possui o testemunho real e autêntico do Espírito Santo? Por que eu deveria ser privado da minha alegria e garantia de salvação simplesmente porque alguém finge falsamente, sincera ou enganosamente, o testemunho do Espírito? Se um mórmon ou um muçulmano afirma falsamente experimentar o testemunho do Espírito de Deus em seu coração para a verdade do Alcorão ou do Livro de Mórmon, isso não faz nada (me parece) para minar a veracidade da minha experiência.

Porém alguém pode querer insistir: "Mas como você sabe que sua experiência também não é tão espúria quanto a deles?" Essa pergunta já foi respondida: a experiência do testemunho do Espírito é auto-autenticada para quem realmente o tem. O cristão cheio do Espírito pode saber imediatamente que sua reivindicação ao testemunho do Espírito é verdadeira, apesar da presença de falsas alegações feitas por outras pessoas que aderem a outras religiões.

Quando você se depara com um mórmon, um muçulmano ou um adepto de alguma outra fé que afirma saber de uma maneira propiamente básica que a fé deles é verdadeira, você pode simplesmente começar a compartilhar com essa pessoa os invalidadores da crença dessa pessoa. Compartilhe com elas objeções sobre o Alcorão ou objeções à veracidade histórica do Livro de Mórmon, por exemplo. Ao compartilhar esses invalidadores com elas, confie em espírito de oração que Deus usará isso para desfazer a falsa confiança delas, porque elas realmente não têm um testemunho autêntico do Espírito Santo. Elas não têm uma experiência de autenticação. Elas são enganadas por algum tipo de experiência falsa. Portanto, os invalidadores que você compartilhar com elas não serão intrinsecamente derrotados pela crença delas. Eles podem alcançar êxito e ajudar a convencer essa pessoa. Nunca se esqueça de que, enquanto você compartilha esses invalidadores, o Espírito Santo também está silenciosamente trabalhando, dando testemunho genuíno ao coração daquela pessoa sobre a verdade do Evangelho. Ela pode permanecer não-cristã somente se ignorar e resistir à convicção e à atração do Espírito de Deus em seu coração.[2] Não se intimide com falsas alegações de uma testemunha auto-autenticada do Espírito Santo. Em vez disso, quando você enfrentar uma pessoa assim, compartilhe com ela os invalidadores para a crença dela e ore por ela para que o Espírito de Deus convença seu coração e a atraia para ele.

COMEÇO DA DISCUSSÃO

Aluno: Você debateu inúmeros céticos e pessoas que não acreditam em Deus. Você e Plantinga estão dispostos a se levantar na frente de multidões e conversar sobre isso. Como você descreveria a falta de vontade destas pessoas em aceitar o Espírito?

Dr. Craig: Penso, com toda a sinceridade, em relação a muitas pessoas que debati, que é muito evidente que a incredulidade delas não se baseia em argumentos e evidências, porque muitas delas se mostram incapazes, francamente, de defender sua própria visão de mundo quando desafiadas, ou de refutar os argumentos e evidências da existência de Deus ou da verdade do cristianismo. Parece muito evidente que, se elas realmente seguissem o rumo para onde as evidências levam, elas ficariam pelo menos abaladas, caso não mudassem de ideia. Mas acho que para muitos delas existe apenas um profundo compromisso com a verdade do naturalismo ou, pelo menos, com a falsidade do cristianismo. Alguns deles foram bastante sinceros sobre isso. Lembro-me, por exemplo, do humanista e abortista canadense Henry Morgantaler, dizendo nos debates que tive com ele que, mesmo que Deus aparecesse a ele e se mostrasse verdadeiro, disse Morgantaler, “eu ainda não dobraria o joelho para ele. Eu preferiria ir para o inferno a ajoelhar-me para Deus e adorá-lo.” Era apenas uma profunda, profunda rejeição moral de Deus por parte dele.

Aluno: Isso também é verdade em religiões fora do cristianismo. Uma das minhas experiências com os rabinos ortodoxos: alguns deles até disseram "ainda que Jesus descesse com toda a sua glória do céu, eu não dobraria meus joelhos".

Dr. Craig: Uau. Acho que quando você chega nesse ponto com uma pessoa, não deveria se sentir desencorajado de forma alguma. Acho que você fez tudo o que a apologética pode fazer. Porque o que você fez foi remover qualquer desculpa intelectual da incredulidade e expor a verdadeira razão da descrença - apenas um coração profundamente endurecido e a determinação de vontade em não acreditar de forma nenhuma.

Aluno: Adoro filmes e amo conectar filmes com apologética. Eu estava pensando como o filme Contacto se relaciona com isso. A última cena com Jodie Foster - seria um bom exemplo de uma crença propiamente básica, onde ela está diante de todos e eles estão dizendo: “Você não tem provas. Você não tem provas. Você não admite a possibilidade de estar alucinando em relação a tudo isso?” No final, ela diz: “Sim, mas não posso negar que isso realmente aconteceu porque tudo em mim me diz que era real.[3] Esse seria um bom exemplo?

Dr. Craig: É um exemplo maravilhoso do cinema contemporâneo. Gostei muito do filme Contato. Quando ela tem essa visão cósmica da essência do universo ou algo semelhante, ela clama, “Eu nunca soube! Eu nunca soube!” Essa verdade simplesmente despenca sobre ela. Então, como você diz, toda a evidência está contra ela, pelo menos até bem perto do fim, quando acho que eles encontram os 18 minutos do tempo faltante. Mas mesmo aparte disso, digamos que ela não tenha essa evidência que finalmente se concretiza no final; para ela, essa era uma crença propiamente básica, fundamentada nessa experiência que simplesmente invalidou intrinsecamente as evidências trazidas contra ela por pessoas que nunca haviam tido tal experiência e estavam dizendo a ela que era ilusório. Se você ainda não viu o filme Contato, eu o incentivaria a assistir e pensar nele em termos de crenças propiamente básicas e invalidadores intrínsecos de invalidadores. Bom exemplo.

Aluno: Eu acho que para muitos dos céticos o que eles têm é uma crença em uma anti-religião. É uma anti-crença e não uma crença. É isso que eles abraçam.[4]

Dr. Craig: Eu acho que esse é um bom argumento. Você vê isso especialmente com agnósticos que realmente não têm um sistema de crenças positivo. Não é como se eles estivessem comprometidos com qualquer tipo de alternativa. Mas eles estão comprometidos, como você diz, em provar a falsidade do cristianismo - que isso não pode ser verdade.

Aluno: Como corolário, ouvi alguém comentar que você pode debater com um crítico, mas não com um cínico. Se alguém é cínico, na verdade não está interessado no que é verdadeiro, na evidência ou em algo assim.

Dr. Craig: Isso requer sensibilidade quando você está conversando com uma pessoa, independentemente de se tratar de uma conversa que vale a pena ter. Porque existem pessoas que estão pesquisando e que responderão às evidências e argumentos. Recebemos e-mails maravilhosos toda semana de pessoas como essa. O que estamos falando aqui é alguém que, até o fim de sua vida, resiste firmemente à atração e à condenação do Espírito Santo. Essa pessoa não poderá apresentar-se diante de Deus e ter uma desculpa justa, pois suas evidências e argumentos não são adequados.

FIM DA DISCUSSÃO

Vamos continuar. Penso que a mudança mais plausível que uma pessoa poderia fazer sobre essa objeção, se quisermos avançar um pouco na discussão, seria dizer que falsas alegações de um testemunho do Espírito Santo devem minar minha confiança na confiabilidade das faculdades cognitivas que formam crenças religiosas, porque essas faculdades evidentemente enganam as pessoas com frequência. Você vê tantas religiões falsas no mundo que parece que você simplesmente não pode ter nenhuma confiança nas faculdades cognitivas que levam a crenças religiosas porque, por sua própria concessão, a maioria das pessoas tem crenças falsas como resultado dessas faculdades. O fato de tantas pessoas aparentemente de forma sincera, mas enganosamente, acreditarem que o Espírito de Deus está testemunhando a verdade de sua religião deve nos deixar desconfiados sobre nossa própria experiência de Deus. Por que devemos confiar em nossa experiência quando pensamos que a experiência de todos os outros não é confiável?

Eu acho que há pelo menos duas coisas erradas nessa afirmação ou interpretação da objeção. Primeiro, como cristãos, não precisamos dizer que toda experiência religiosa não-cristã é simplesmente espúria - que é totalmente inválida. Pode ser que os adeptos de outras religiões desfrutem de uma experiência verídica de Deus em certos aspectos. Por exemplo, talvez nas religiões panteístas a experiência de Deus como o fundamento do ser, de quem nós criaturas contingentes dependemos momento a momento para nossa existência. Ou talvez em certas religiões uma experiência de Deus como o Absoluto Moral de quem derivam deveres e valores morais. Ou mesmo uma experiência religiosa de Deus como o Pai amoroso da humanidade. Não precisamos dizer que todas essas experiências de Deus são apenas espúrias. Não temos o compromisso de dizer que as faculdades cognitivas responsáveis pelas crenças religiosas das pessoas são fundamentalmente não confiáveis.

Em segundo lugar, a objeção supõe injustificadamente que o testemunho do Espírito Santo é o produto das faculdades cognitivas humanas ou que é indistinguível dos produtos das faculdades cognitivas humanas. Isso simplesmente não é verdade. É apenas um fato sociológico que a experiência religiosa não-cristã, como a experiência religiosa budista ou hindu, é tipicamente muito diferente da experiência cristã. Por que eu deveria pensar que, quando um Mórmon diz que tem algo “queimando no peito”, pra dizer que o Livro de Mórmon é verdade, que isso é qualitativamente indistinguível do testemunho do Espírito Santo que eu experimento? Não vejo razão para pensar que essas experiências religiosas não-verídicas que as pessoas tenham sejam qualitativamente incapazes de serem diferenciadas do testemunho do Espírito Santo. Uma maneira de obter evidência desse fato seria simplesmente perguntar aos convertidos dessas outras religiões para o cristianismo se a experiência delas é diferente agora.[5] Pergunte aos ex-mórmons ou ex-muçulmanos que se tornaram cristãos: “Sua experiência de Deus agora é diferente de quando você era mórmon ou muçulmano?” Eu acho que na maioria dos casos eles dirão que é absolutamente diferente. Eles passaram a conhecer a Deus de uma maneira pessoal diferente. Simplesmente não é correto dizer que o testemunho do Espírito Santo é indistinguível dessas experiências religiosas falsificadas.

Alguém pode dizer (e ouvi isso ser dito): “Mas não foi dito que os neurocientistas podem estimular artificialmente o cérebro a ter experiências religiosas que são obviamente não-verídicas e, no entanto, são como o testemunho do Espírito Santo? Talvez um cientista do cérebro possa estimular seu cérebro a fazer você pensar que tem o testemunho do Espírito Santo para a verdade do cristianismo. Novamente, como questão de fato, isso simplesmente não é verdade. O tipo de experiências religiosas que os neurocientistas foram capazes de induzir artificialmente por estímulos cerebrais é mais semelhante a experiências religiosas panteístas, como no taoísmo, no budismo e no hinduísmo - um tipo de senso de unidade com o Todo em que você perde sua identidade pessoal. Todo, a totalidade de tudo, o Absoluto. Eles não são como as experiências cristãs da presença e do amor pessoal de Deus. Portanto, simplesmente não é verdade que os neurocientistas tenham conseguido induzir algo como o testemunho do Espírito Santo nas pessoas.

Porém, mais importante, ainda mais fundamental do que isso, o fato de que uma experiência não-verídica pode ser induzida qualitativamente de forma idêntica a uma experiência verídica não influencia absolutamente nada para minar o fato de que existem experiências verídicas e que somos racionais em considerar essas experiências como verídicas. Caso contrário, você teria que dizer que, como os neurocientistas podem induzir em seu cérebro experiências de ver um objeto ou ter uma alucinação de algo, seus cinco sentidos não são totalmente confiáveis e você nunca deve confiar neles quando vê um objeto. Só porque um neurologista pode estimular artificialmente seu cérebro para fazer você pensar que está tendo uma experiência com algum objeto, não há razão para duvidar que, quando você não está sob esse estímulo artificial, suas experiências com esses objetos não são verídicas. Da mesma forma, mesmo que um cientista possa estimular artificialmente meu cérebro para me fazer pensar que estou tendo uma experiência de Deus, nada prejudica a veracidade da minha experiência de Deus quando não estou sob estímulo artificial de um neurocientista.

Portanto, a objeção a um testemunho auto-autenticado do Espírito com base nesses tipos de falsas alegações de tal experiência não prejudica minha confiança racional nas declarações expressas do Espírito Santo e seu testemunho da existência de Deus e das grandes verdades do evangelho.

COMEÇO DA DISCUSSÃO

Aluno: Sei que você usa o termo "auto-autenticação". Mas a Bíblia não nos diz para testar os espíritos com sua Palavra? Portanto, em essência, não é auto-autenticado. Pode ser auto-realizado na medida em que a experimentei, mas não devo testar essa experiência ou essa visão com a Palavra de Deus?

Dr. Craig: Eu acho que você não esteve aqui cerca de três semanas atrás, quando analisamos os dados do Novo Testamento referentes ao testemunho do Espírito Santo, porque eu lidei com essa passagem em 1 João, onde 1 João 4: 1 diz: “Amados, não creiam em qualquer espírito, mas examinem os espíritos para ver se eles procedem de Deus.” O que eu argumentei - e me sinto muito confiante disso - é que João não está incentivando as pessoas a testar dessa maneira o testemunho do Espírito Santo em seus próprios corações. Ele está falando sobre falsos profetas que os procuram alegando falar em nome do Espírito de Deus. Você precisa testar esses profetas para ver se eles estão realmente falando de Deus.[6] Ele fala sobre essas pessoas em 1 João 2 - Eles saíram de nós, mas na verdade não eram dos nossos. Existem essas alegações falsas por aí, e eu diria que as pessoas que reivindicam a "queimação no peito" pelo mormonismo seriam um exemplo de tal falso espírito. Ele precisa ser testado. Mas não há nada em João que sugira que testemos o testemunho do Espírito Santo para a verdade do Evangelho. Pelo contrário, tudo o que João diz sobre isso é que ele nos ensina e nos leva a toda a verdade, excede o testemunho dos homens, é o testemunho do próprio Deus e nos dá garantia e confiança de que nossa fé é verdadeira.

Aluno: Então você está dizendo que eu poderia estar iludido e ainda assim não deveria testá-lo?

Dr. Craig: Não. O que estou dizendo é... OK, você precisa voltar e examinar as notas sobre isso, o que eu disse sobre o que significa ser auto-autenticado. Eu disse que para uma pessoa que tem um testemunho genuíno do Espírito Santo, essa pessoa não pode ser iludida. É inconfundível. É, como eu disse, um testemunho auto-autenticado. Você pode se iludir como um mórmon ou um muçulmano e pensar que tem essa experiência; isso é verdade. Mas a pessoa que tem uma experiência verídica do Espírito de Deus não pode estar enganada sobre isso.

Aluno: Lembro que passei por esse caminho de olhar para o budismo, o taoísmo e coisas do gênero. Lembro de acordar. Eu sabia que estava dormindo porque me lembro de acordar. Acordei quando ouvi a Palavra de Deus. Essa experiência nesse sentido foi auto-autenticada, mas a experiência veio através da Palavra de Deus. O que eu não estou ouvindo - pode ser que eu não estou entendendo - qual é o papel que a Palavra de Deus desempenha para assegurar-nos de que o que nós temos como auto-atenticado é, de fato, verídico e não uma ilusão.

Dr. Craig: OK. Plantinga tem muito a dizer sobre a Palavra de Deus. O que eu disse é que o Espírito Santo testifica as grandes verdades do Evangelho. Então, como descobrimos quais são essas verdades? Bem, elas estão na Palavra de Deus. Então a Palavra de Deus é o meio pelo qual aprendemos essas verdades, e então é o Espírito que dá testemunho dessa verdade. Assim como na sua experiência! Você ouviu isso, e tenho certeza de que, de alguma forma, isso veio sobre você como verdadeiro - essa é realmente a Palavra de Deus que está falando comigo. A garantia não vem da Palavra. Vem do Espírito Santo, que dá testemunho dessa Palavra. A Palavra é o que fornece o conteúdo. É o meio. Mas então é o próprio Espírito de Deus que presta testemunho da verdade disso. É por isso que a proclamação do Evangelho e da Palavra de Deus é tão importante, porque será o meio pelo qual aprenderemos sobre essas verdades que o Espírito testifica.

FIM DA DISCUSSÃO

Permitam-me sugerir duas razões teológicas pelas quais penso que os cristãos que apoiam o uso magisterial da razão estão enganados. Estas são agora duas razões pelas quais eu rejeitaria o uso magisterial da razão.

Primeiro, esse papel consignaria a maioria dos cristãos à irracionalidade. Pense nisso. A grande maioria da raça humana não tem tempo, treinamento ou recursos literários para chegar a ter uma apologia cristã completa para servir de base para sua fé. Até os proponentes do uso magistral da razão um dia estiveram no início de seus estudos, ainda presumivelmente sem tal apologética. De acordo com o uso magistral da razão, essas pessoas não deveriam ter acreditado em Cristo até que tivessem terminado sua apologética. Caso contrário, elas estariam acreditando por razões insuficientes. Lembro que quando eu era aluno do seminário na Trinity, perguntei a um dos meus colegas de classe: "Como você sabe que o cristianismo é verdadeiro?" Ele me disse: "Eu realmente não sei". Será que isso significa que ele não era um cristão naquele momento? Que ele deveria rejeitar a Cristo de sua vida até que ele pudesse encontrar uma resposta para essa pergunta? Eu obviamente acho que não! Ele sabia que o cristianismo era verdadeiro porque conhecia Jesus, mesmo que ainda não tivesse trabalhado um tipo de apologia para a fé cristã.[7] O fato é que podemos conhecer a verdade, se temos argumentos racionais ou não. A grande maioria dos cristãos em todo o mundo e ao longo da história nunca esteve em uma posição em que pudesse justificar suas crenças cristãs de maneira racional através de argumentos e evidências. Acho que foi na semana passada que alguém disse que, se Deus simplesmente nos deixado solucionar através de nossa própria razão se ele existe ou não e então entrar no céu isso seria como entrar em Harvard. Pensei que esse é realmente um bom exemplo.

A segunda razão que desejo dar para rejeitar o uso magisterial da razão é que, se o uso magisterial da razão fosse legítimo, uma pessoa que recebesse maus argumentos pelo cristianismo teria uma desculpa justa para não acreditar em Deus. Imagine alguém que recebeu um argumento inválido para a existência de Deus. Essa pessoa poderia estar diante de Deus no dia do julgamento e dizer: “Deus, esses cristãos só me deram esse péssimo argumento inválido para acreditar em você. Por isso não acreditei" Não! A Bíblia diz que todos os homens são indesculpáveis. Isso está no livro de Romanos. Mesmo aqueles que não têm boas razões para acreditar e muitas boas razões para não acreditar são, em última análise, sem desculpa, porque a razão final pela qual eles não acreditam é porque rejeitam deliberadamente o testemunho do próprio Espírito Santo de Deus em relação as grandes verdades do Evangelho ou a existência de Deus.

Assim, parece-me que o papel da argumentação racional em conhecer o cristianismo como verdadeiro é novamente o papel de um servo. Uma pessoa sabe que o cristianismo é verdadeiro fundamentalmente porque o Espírito Santo diz a ela que é verdadeiro, e embora argumento e evidência possam ser usados para confirmar essa verdade, não pode legitimamente ser usado para invalidá-la ou substituí-la. O testemunho do Espírito Santo é um invalidador intrínseco de todos os invalidadores que são trazidos contra ele.

Eu poderia dizer aqui que não vejo motivo para pensar que Deus não pode aumentar o testemunho ou a intensidade do testemunho de seu Espírito Santo, conforme necessário. Pode ser que o testemunho do Espírito Santo que você tem agora não pareça suficiente para superar grandes invalidadores contra a fé cristã, mas é suficiente para você agora. Mas imagine um aluno, digamos, criado na antiga União Soviética e doutrinado com propaganda marxista ao longo de sua educação e carreira universitária. Para que essa pessoa acredite e derrote intrinsecamente os invalidadores trazidos contra ela, Deus pode intensificar o testemunho do Espírito Santo em um grau que está muito além do que você ou eu experimentamos aqui. Em outras palavras, o testemunho do Espírito Santo pode variar em sua intensidade em relação às circunstâncias e às necessidades. O que Deus não permite é que uma pessoa esteja em uma situação em que a coisa mais racional a fazer é apostatar, rejeitar a Cristo ou não ser crente e ser ateu ou agnóstico, ou um não-cristão.

Mesmo que o testemunho do Espírito Santo em sua vida não pareça poderoso o suficiente para derrotar todos os invalidadores, isso pode acontecer com aqueles que são confrontados com invalidadores muito fortes, que eles experimentem um testemunho mais intenso do Espírito Santo que seja suficiente para perseverarem na fé.

Isso finalmente nos leva ao passo três do argumento:

3. Portanto, a crença de que o Deus bíblico existe pode ser racionalmente aceita como uma crença básica não fundamentada em argumentos.

Gostaria de acrescentar, como vimos, que essa crença propiamente básica é propiamente básica, não apenas no que diz respeito à racionalidade, mas também no que diz respeito à garantia, para que possamos dizer que sabemos com base no testemunho do Espírito Santo que Deus existe e as grandes verdades do Evangelho são realmente verdadeiras.[8]

 

[1] 5:03

[2] 10:08

[3] Veja https://www.youtube.com/watch?v=DVn90-83NQQ#t=1m23s (acessado em 6 de Setembro de 2015).

[4] 15:03

[5] 20:05

[6] 25:03

[7] 30:06

[8] Tempo total: 35:35 (Copyright © 2015 William Lane Craig)