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Excurso sobre teologia natural (Parte 5): O argumento da contingência

June 11, 2023

O argumento da contingência

Pode parecer estranho ter começado um excurso sobre teologia natural defendendo que não precisamos mesmo de argumentos a favor da existência de Deus a fim de crermos, racionalmente, e até saber que Deus existe. Mas vimos que, de fato, os argumentos favoráveis à existência de Deus não são necessários, porque se pode saber que Deus existe, de modo apropriadamente básico, mediante o testemunho autoautenticador do Espírito Santo.

Mas dizer que os argumentos para a existência de Deus não são necessários para saber que Deus existe ou que as grandes questões do evangelho são verdadeiras não significa dizer que não haja tampouco argumentos suficientes para o conhecimento de Deus. De fato, defendo com Alvin Plantinga que, embora a crença em Deus e nas grandes verdades do evangelho sejam apropriadamente básicas, ainda há argumentos e provas suficientes para avalizar a crença na existência de Deus e nas grandes verdades do evangelho.

Hoje, queremos começar a ver alguns desses argumentos a favor da existência de Deus. O primeiro argumento é o argumento a partir da contingência. [Dr. Craig distribui o esboço.] Às vezes, ele é chamado de argumento cosmológico leibniziano. Discuto este argumento no livro Em guarda e também, de modo mais profundo, no livro Apologética contemporânea. Veremos, esta manhã, a versão conforme exposta em Em guarda.

Sempre me impressionei com o mistério da existência do universo. Lembro-me de quando era menino a olhar as estrelas à noite e me perguntar de onde tudo aquilo tinha vindo. Só me parecia que devia haver uma explicação para por que tudo existe. Mal percebia eu que a minha pergunta de menino, bem como a sua resposta, tinha sido objeto de reflexão de filósofos há séculos, até mesmo milênios. Por exemplo, Gottfried Wilhelm Leibniz (que foi o codescobridor do cálculo, um polímata de gênio tremendo e um dos maiores gênios da Europa do século XVIII) defendeu, nas suas palavras, que “a primeira questão que deve ser acertadamente feita é a seguinte: ‘Por que há algo, em vez de nada?’”. Ou seja, por que é que algo sequer existe? Leibniz acreditava que esta é a pergunta mais básica que se pode fazer. Como eu, Leibniz chegou à conclusão de que a resposta deve ser encontrada, não no universo das coisas criadas, mas, sim, numa causa transcendente do universo, em Deus. Deus, disse ele, existe necessariamente, sendo a explicação para o porquê de algo mais existir.

Um dos meus amigos disse que é uma pena que eu tenha começado o livro Em guarda com este argumento leibniziano, porque o argumento é muito filosófico e metafísico, algo que o leigo acha, a meu ver, dificílimo de compreender. Assim, logo no começo do livro, esta barreira é colocada no caminho, quando teria sido melhor talvez ter começado com argumentos para a existência de Deus mais fáceis de compreender. Mas devo dizer que concordo com o que Leibniz disse: logicamente, esta é a primeiríssima questão que precisa ser feita. Antes de perguntarmos: “por que o universo tem ajuste fino para a nossa existência?”, ou “Por que o universo começou a existir?”, a questão mais fundamental é a seguinte: “Por que sequer existe algo?”. Este é, claramente, o ponto inicial.

Dois séculos depois de Leibniz, Martin Heidegger, célebre metafísico alemão do século XX, escreveu o seguinte: “Por que há entes, em vez de nada? Eis a questão. Sem dúvida, não é pergunta ordinária. Por que há entes, por que há sequer algo, em vez de nada? Obviamente, esta é a primeira de todas as questões”. É onde vamos começar o nosso panorama dos argumentos para a existência de Deus, com a questão mais fundamental de todas: por que algo sequer existe?[1]

Podemos colocar o argumento de Leibniz na forma de uma série bem simples de premissas que estão no seu esboço.

1. Tudo que é existente tem uma explicação para a sua existência, quer na necessidade da sua própria natureza, quer em causa externa.

2. Se o universo tem explicação para a sua existência, tal explicação é Deus.

3. O universo é algo existente.

4. Logo, a explicação para a existência do universo é Deus.

Trata-se de argumento hermético, do ponto de vista lógico. Ou seja, se as três premissas forem verdadeiras, a conclusão se seguirá, necessariamente. Não importa se você não gosta da conclusão. Pouco importa se você tem outras objeções à existência de Deus. Caso você aceite que essas premissas são verdadeiras, terá de aceitar também a verdade da conclusão. Quem quer que queira rejeitar a conclusão precisa dizer que ao menos uma dessas três premissas é falsa.

Mas qual delas a pessoa rejeitará? Sem dúvida, a premissa (3) é inegável a qualquer pessoa que busque sinceramente a verdade. Obviamente, o universo existe! Logo, o cético terá de negar a premissa (1) ou a premissa (2). Assim, toda a questão relacionada a este argumento se reduz a isto: será que estas duas premissas são mais plausíveis do que implausíveis? São plausivelmente mais verdadeiras ou mais falsas? Pois bem, vejamos cada uma delas à sua vez.

Primeiro, tudo que é existente tem explicação para a sua existência, quer na necessidade da sua própria natureza, quer em causa externa. Vocês perceberão que Leibniz faz distinção, no caso, entre dois tipos de entes. O primeiro tipo são coisas que existem necessariamente — por necessidade da sua própria natureza (um ente necessário). É a ideia de um ente que não pode deixar de existir. É algo para o que a inexistência é impossível. Qual seria um exemplo de ente necessário? Muitíssimos matemáticos pensam que entidades matemáticas são necessárias deste modo — coisas como números, conjuntos, proposições, coisas desse tipo. Até os antirrealistas nesta questão, que não pensam haver realmente objetos matemáticos, reconhecem, mesmo assim, que, se esses objetos existem, eles o fazem necessariamente. Se o número 1 existe em qualquer mundo possível, ele realmente existe. Seria impossível que o número 1, por exemplo, existisse só de modo contingente, que ele existisse neste mundo, mas não em algum outro mundo possível. Mesmo quem não crê na existência de entidades matemáticas, como números, conjuntos e figuras geométricas, ainda reconheceria que faz parte da natureza destas coisas existir por necessidade. Se elas sequer existem, elas existem necessariamente. Esse tipo de coisa não tem a causa da sua existência em outra coisa. Esse tipo de coisa existe por necessidade da sua própria natureza, e é impossível que não existam.

O outro tipo de coisa seriam coisas que existem de modo contingente. Ou seja, são entes contingentes. Entes contingentes são coisas que existem, mas não têm de existir. É possível que não existam. Existem, mas a sua existência não é necessária, poderiam não ter existido. É assim com o mundo de objetos ao nosso redor: coisas como pessoas, cadeiras, planetas, galáxias e assim por diante. Estas coisas existem, mas não são necessárias na sua essência. Podemos imaginar um mundo possível em que qualquer uma dessas coisas ou todas elas não existam. Esses tipos de coisas, se existem, têm explicações fora de si mesmas para o porquê da sua existência. Não existem por necessidade da sua própria natureza. Se, por exemplo, um unicórnio existe neste mundo, deve haver alguma explicação para por que ele existir, em vez de não existir.[2] Há muitos mundos possíveis nos quais não há unicórnios, tal qual o mundo real. Se o unicórnio existe, sim, é preciso haver algum tipo de explicação fora da natureza de um unicórnio que explique por que o unicórnio existe, de fato, em vez de ser mera possibilidade.

Assim, quando Leibniz diz que tudo que existe tem explicação para a sua existência, tal explicação poderia ser uma de dois tipos. A explicação poderia ser que ela existe por necessidade da sua própria natureza: trata-se de ente necessário. Ou a explicação poderia ser que é ente contingente, com causa fora de si mesmo a produzir a sua existência. Se Deus existe, ele é um ser que existe por necessidade da sua própria natureza. É impossível que Deus seja causado por alguma outra coisa. Se Deus fosse causado por alguma outra coisa, haveria algo maior do que Deus e, portanto, ele não seria Deus. Assim, pelo próprio conceito de Deus, ele não pode ser algo que fosse levado a existir por alguma outra coisa. Se Deus existe, ele existe necessariamente. O argumento de Leibniz nos conduz a um conceito poderosíssimo de Deus, a saber, a ideia de um ente metafisicamente necessário, um ser que existe por necessidade da sua própria natureza. Não se trata de ente meramente contingente, que calha de existir, mas um ente a existir necessariamente.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Um ente contingente requereria um ente necessário?

Dr. Craig: Sim, este será o argumento. Um ente contingente requer alguma espécie de causa ou explicação fora de si. Em última instância, será fundamentado por um ser metafisicamente necessário. É isto mesmo. Você já está vendo a implicação do argumento de Leibniz.

Aluno: Será que poderia explicar mais a filosofia do ente necessário? Obviamente, o conceito de Deus é enorme e dificilmente compreensível. O mesmo com a matemática, como números ou tempo. O senhor teria algo mais para associar à questão que a tornaria mais inteligível?

Dr. Craig: Não tenho. A dificuldade, no caso, é que, ao menos segundo a visão cristã das coisas, tudo que é físico, tudo no universo do espaço-tempo, é criado por Deus e, portanto, contingente. Por isso, é preciso ir realmente longe para encontrar exemplos ateológicos de entes necessários. O único lugar onde se pode, realmente, encontrar isso tudo seria nos chamados objetos abstratos: coisas que não são concretas, feitas de matéria e energia, existentes no espaço e tempo. Coisas como objetos matemáticos, proposições, propriedades, mundos possíveis. São denominados objetos abstratos. Penso que o exemplo da matemática é o mais claro. A maioria de nós, nas aulas de matemática, pensou se os números existem ou não, ou se existe um círculo perfeito. Todos sabemos que não há nenhum círculo perfeito no mundo físico, de modo que seriam todos eles aproximações de algum tipo de círculo abstrato perfeito? Será que essa coisa como que existe enquanto objeto abstrato? Se sim, existiria necessariamente. Seria impossível dizer que só calha de existir um círculo perfeito neste mundo, mas não existe nesses outros mundos. Objetos matemáticos, para mim, são o exemplo mais acessível de algo que existe necessariamente, caso existam. Se quiser alguma explicação além desta, tudo que posso fazer é que você lance uma pergunta, e eu tentarei respondê-la.[3]

Aluno: Lutei por muito tempo com este conceito de ente necessário. Enfim, cheguei a algo que, ao menos, ajudou-me, e talvez ajudará outras pessoas também. Há um número infinito de coisas que poderiam ter acontecido para impedir que eu existisse. Por isso, não sou ser necessário. Não há nada que pudesse ter acontecido para impedir que Deus existisse. Por quê? Na minha cabeça (talvez seja muito tacanha), eu destilei a questão ao fato de que ele não tem começo. Tudo que não tem começo é necessário, pois nada poderia ter acontecido para impedir a existência dele. Há apenas duas coisas que não poderiam ter começo, segundo consegui pensar: Deus e (não vamos entrar no tempo, mas) o tempo dele (acho que há, provavelmente, dois tempos diferentes). Ambas as entidades não têm começo. A segunda coisa, sobre números abstratos e tudo mais: para mim, são conceitos, e um conceito só pode existir, se houver uma inteligência. Não havendo nenhuma inteligência ou compreensão, não há nenhum número 7. Não há nenhuma raiz quadrada deste, desse e daquele número. Porém, uma vez que Deus é necessário, ele é a inteligência. Portanto, são necessários também, porque ele está presente para que eles existam como conceito.

Dr. Craig: Permita-me tratar da segunda questão primeiro. Vocês se lembram que, na nossa discussão dos atributos de Deus, falamos da asseidade ou autoexistência divina e do desafio que o platonismo lhe impõe, por ser a filosofia de que há esse tipo de entidades incriadas abstratas e de existência necessária, como números, conjuntos, formas geométricas e assim por diante. Uma das respostas cristãs, de fato a resposta cristã convencional a este desafio, é exatamente o que você disse, a saber: trata-se de conceitos divinos. Assim, eles não existem, realmente, de modo independente de Deus. São ideias ou conceitos na mente de Deus. Penso que seja perspectiva defensável. Conforme enfatizei ao apelar para este exemplo, mesmo os conceitualistas reconheceriam que, se há essas entidades platônicas, como números, conjuntos e assim por diante, seriam entes necessários. Seriam coisas que existem por necessidade da sua própria natureza. Mas ele pensa não haver essas coisas. Pensa, antes, que se trata de conceitos na mente de Deus. Não são bem objetos abstratos. Embora eu tenda a concordar com você que estas coisas não tenham nenhum tipo de existência independente de Deus, não creio que isto roube da ilustração o seu poder, já que se constitui o melhor exemplo de um ente necessário que não é Deus, caso o platonista esteja correto.

Gostei muito do que você disse, na sua primeira pergunta, sobre nada poder impedir que Deus existisse, ao passo que seres contingentes poderiam ser impedidos na sua existência. Há outros mundos possíveis nos quais estas coisas jamais aconteceram ou jamais vieram a ser. Quero, entretanto, resistir à sua explicação de por que Deus não pode ser impedido de existir e por que outras coisas podem. Você encontrou a explicação no fato de um começo temporal. Não acho que esteja correto. De fato, Leibniz enfatiza que não se pode escapar do seu argumento, dizendo que o universo é eterno, ao passo que, se você desse a sua explicação, poderia escapar do argumento dele desta forma. Porém, Leibniz diz que, mesmo que o universo tenha existido desde a eternidade, ainda é possível que ele não tenha existido. É logicamente possível que não haja absolutamente nenhum universo, ou que haja um universo com começo, em vez de universo eterno. Mesmo dizer que o universo é sem começo e eterno no passado não responde à pergunta de Leibniz: “Por que há algo, em vez de nada?”. Embora eu goste do que você disse da necessidade de Deus a acarretar que nada pode impedir a sua existência, não encontro a explicação no fato de ele ser sem começo, porque acho que é incorreto, além de permitir ao ateu um escape deste argumento.

Aluno: Parece que o que estamos dizendo é que, se Deus existe da maneira em que o definimos, ele é ente necessário.[4] Mas isto requer que digamos que a nossa definição de Deus é esta e, portanto, ele seria um ente necessário. Não é prova de que Deus existe. Será que estou entendendo tudo corretamente?

Dr. Craig: Mais ou menos. Espere até chegarmos à premissa (2), que diz: “Se o universo tem explicação, tal explicação é Deus”. É aí que Deus será introduzido no argumento. Mas não na premissa (1). A premissa (1) é apenas um princípio de que as coisas que existem têm explicações para o porquê de existirem, e tais explicações podem estar em alguma causa externa ou na sua existência por uma necessidade da sua própria natureza. Na literatura filosófica, bem como na própria obra de Leibniz, isto se chama o princípio da razão suficiente. Leibniz afirmou uma versão bem radical deste princípio. A versão que tenho aqui é uma versão bastante modesta do princípio que, a meu ver, é muito plausível, como exporei adiante. Exige que, simplesmente, qualquer coisa existente tenha explicação do porquê de existir, em vez de não existir. Discutiremos se a premissa (2) é verdadeira ou não e se somos justificados em chamar a este ser de Deus.

Aluno: Parece-me que somente Deus tem a sua existência por necessidade, porque mesmo o tempo começou a existir. Do mesmo modo, quando se pensa em números, veem-se os números como meios de considerar objetos. Trata-se de conceito, mas não sei como se poderia ter sequer um conceito separado de Deus, porque não consigo nem imaginar algo que possa existir sem ter origem em Deus.

Dr. Craig: Você quer dizer sem Deus? Mais uma vez, remeto à nossa discussão da asseidade divina, quando falamos dos atributos de Deus e onde defendi precisamente este ponto. Tudo que existe, além de Deus, é contingente e dependente de Deus. Mas o que isto significa justamente é que não sou platonista. Porém, muitos matemáticos são platonistas. Não fundamentam estes objetos em Deus como seus conceitos. Pensam que o número 1, o conjunto de números naturais, o círculo perfeito e formas geométricas são objetos reais que existem de verdade. São objetos abstratos. Estou dizendo que, segundo o platonismo, temos uma ilustração de um ente necessário ateológico. Estou tentando encontrar algo aqui que ilustre para leigos o que é um ente necessário, sem apelar para Deus. É o melhor exemplo que me vem à mente. Se você for platonista, estará saturado dessas coisas.

Aluno: Mesma neste quesito, e sem querer insistir no ponto, é preciso ter uma mente para conceber contingência ou necessidade. Trata-se de conceito de uma mente. Mas, então, a mente não tem uma necessidade?

Dr. Craig: Isto é interessante. Platão tinha um conceito que chamava de demiurgo. É uma espécie de “deus” com “d” minúsculo. Ele é o criador do mundo físico. O que Platão diz é que estes objetos abstratos ou Formas são as coisas mais reais. Elas existem independentemente de tudo mais, e “deus” observa as Formas e, então, molda o mundo físico segundo o seu modelo. Assim, o círculo perfeito é o modelo para estas aproximações que “deus” faz. Estes números são as entidades ideais: quando “deus” faz três coisas, por exemplo, existem uma, duas e três no domínio das Formas. Pois é, o mundo concreto, segundo a visão de Platão, é devido à ação deste demiurgo, mas ele não é responsável por este domínio de Formas ou objetos abstratos. Eles existem de modo bem independente dele. Como você indica corretamente, é algo totalmente incompatível, a meu ver, com o teísmo cristão ou com o teísmo judaico-cristão.[5] Os Pais da Igreja rejeitaram o platonismo e tendiam a colocar estas coisas na mente de Deus: são as ideias de Deus. Eles internalizaram o domínio platônico das Formas na mente de Deus. Quando apelo para esta ilustração, apelo (na maior parte) para matemáticos e filósofos ateus que ainda endossam o platonismo. Infelizmente, a verdade é que há muitos filósofos cristãos que também endossam o platonismo. Estou pensando em pessoas como Peter van Inwagen e Keith Yandell, que são platonistas. Fico perplexo com isto, mas há platonistas hoje que pensam serem estas coisas entes existentes necessariamente.

Aluno: Esses conceitos não seriam, então, apenas um caráter de Deus? Em essência, eles estão dizendo que creem neste conceito, mas não os estão concedendo como parte do caráter de Deus.

Dr. Craig: Eles não acham que sejam conceitos. Pensam serem objetos reais. São tão reais quanto esta cadeira ou você. De certa forma, são mais reais em certo sentido por existirem necessariamente, ao passo que a cadeira e você são só contingentes.

Aluno: Não se pode objetificar estas coisas sem uma mente. Não se pode ter um conceito de unidade e números em abstração, a menos que haja uma mente que pressuponha ser possível entender tal coisa.

Dr. Craig: Mais uma vez, estamos revertendo à nossa discussão anterior sobre asseidade divina. Não quero repeti-la mais uma vez aqui, porque tudo que estou tentando fazer é ilustrar a ideia para vocês de um ente necessário. Concordo com você que o platonismo é falso. Estamos no mesmo barco, não é mesmo? Mas será que entendemos a ideia de um ente que exista por necessidade da sua própria natureza, um ser que não pode inexistir? Se você chegar a esta ideia, tudo certo. É tudo que queremos estabelecer, além de como isto é distinto de um ente contingente que calha de existir, mas poderia inexistir, caso as coisas tivessem acontecido de outro modo, tendo, portanto, alguma causa fora de si mesmo.

Aluno: Podemos usar uma descrição substituta para o ente necessário como um conjunto de conceitos divinos? Porque João 1.1 diz: “No princípio era o Verbo”. O Verbo é apenas conceitos divinos. Conforme temos a capacidade de pensar em conceitos, pode haver uma lei de que os conceitos podem reunir-se e tornar-se um conjunto, e tal conjunto denominamos de Deus.

Dr. Craig: Vou com você até uma parte. No princípio era o Verbo ou o Logos. Este é quem se diz ser Jesus Cristo. Ele é o Logos encarnado. Conforme indiquei em resposta a perguntas anteriores, os Pais da Igreja localizaram estes objetos abstratos no Logos. O Logos é a mente de Deus. Estas coisas são conceitos na mente de Deus. Mas todas estas questões dizem respeito à lição anterior que já terminamos sobre a autoexistência ou asseidade divina. Tudo que estamos discutindo aqui agora é isto: será que é verdade que tudo que existe tem explicação para a sua existência? Há dois tipos de explicação. Acho que você entendeu esta parte, mas quer falar sobre esta outra coisa.

Aluno: Talvez esteja em busca de mais bibliografia sobre o assunto.

Dr. Craig: Ah, aí é fácil de passar.

Aluno: Perguntei ao meu amigo o seguinte: por que há algo, em vez de nada? Provavelmente, foi um mês atrás. Ele saiu pedindo para pensar a este respeito. Umas duas semanas atrás, eu lhe perguntei novamente: “Será que você chegou a uma conclusão?”. Ele disse que não. Ele ainda a está procurando. Agora, eu também vou investigar a questão para ajudá-lo. Há alguns artigos por aí, mas são complexos demais. Não sei onde mais podemos procurar sobre esta questão e argumento específicos.

Dr. Craig: Já leu a abordagem deste argumento, por exemplo, em Apologética contemporânea?[6]

Aluno: Não li.

Dr. Craig: Pois bem, é o lugar para começar. Há notas de rodapé que você pode seguir para ler mais literatura sobre o argumento de Leibniz. Você pode voltar e ler o próprio Leibniz.

Aluno: Existe um capítulo específico ali que devo ver?

Dr. Craig: Sim, é o capítulo 3 no livro. É o lugar para ver. Conforme disse, há citações para mais literatura e bibliografia ali.

DISCUSSÃO TERMINA

 

Que razão se pode oferecer para pensar que a premissa (1) é verdadeira? Por que devemos pensar que é verdade? Penso que, quando se reflete a este respeito, há uma espécie de obviedade na premissa. Se algo existe de modo contingente — por exemplo, se o unicórnio existe, em vez de inexistir —, é preciso haver alguma espécie de explicação de por que uma dessas alternativas é realizada, e não a outra. Por que é que o universo, realmente, existe, em vez de não existir, quando a sua inexistência era possível?

Richard Taylor, que foi destacado filósofo americano no século XX, dá ilustração incrível para a questão. Ele diz: imagine que esteja andando na floresta e, de repente, tope com uma bola transluzente largada no chão. Ele disse: você, naturalmente, perguntaria por que ela existe. Como é que ela veio a estar ali? Se o seu amigo de caminhada dissesse: “Esqueça! Simplesmente existe, sem explicação nenhuma! Nada pode explicar a sua existência”. Taylor diz que você não aceitaria a resposta. Você pensaria que o sujeito estava só brincando ou queria fazer que você continuasse a andar. Mas é óbvio que haveria algum tipo de explicação de por que tal bola existe.

Observe que o mero aumento do tamanho da bola, digamos, até que fosse do tamanho de um automóvel, nada faz para explicar a sua existência. Ou torná-la ainda maior, até o tamanho de uma casa. Mesmo problema. Suponha que tenha o tamanho de um planeta. Mesmo problema. Suponha que tenha o tamanho de uma galáxia. Mesmo problema. Suponha que tenha o tamanho do universo inteiro. Mesmo problema. O mero aumento do tamanho do objeto nada faz para proporcionar uma explicação para a sua existência.

Se vocês têm a sensação de que encontrar uma bola na floresta exija uma explicação para a sua existência, penso que isto levará, inevitavelmente, a dizer que objetos cada vez maiores (mesmo o próprio universo) precisará de uma explicação para a sua existência, porque o mero aumento do tamanho da bola nada faz para proporcionar ou remover a necessidade de uma explicação para a sua existência.

Assim encerramos hoje. Da próxima vez, vou abordar algumas respostas ateístas à premissa (1) que buscam isentar o universo deste princípio.[7]

 

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[3] 15:00

[4] 20:00

[5] 25:01

[6] 30:00

[7] Duração total: 33:20 (Copyright © 2015 William Lane Craig)