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Excurso sobre teologia natural (Parte 6): O argumento da contingência, Parte 2

June 11, 2023

Objeções ao argumento da contingência

Andamos vendo o argumento da contingência para a existência de Deus. Da última vez, propus uma defesa da premissa (1) do argumento de que tudo que existe tem uma explicação para a sua existência, quer na necessidade da sua própria natureza, quer em alguma causa externa. Em defesa desta premissa, compartilhei a ilustração que Richard Taylor deu de um passeio na floresta em que se encontra uma bola largada no chão. A reação natural seria perguntar como é que ela veio a estar ali. Se alguém disser que ela, simplesmente, existe sem explicação para a sua existência, você vai pensar que a pessoa está brincando. Não é só à bola que isto se aplicaria. Qualquer tipo de objeto que se pode imaginar se encaixaria igualmente bem. Uma árvore no seu quintal. Um carro na sua garagem. Uma pessoa que trabalha no seu escritório. Em cada caso, diríamos haver uma explicação do porquê de tal coisa existir, em vez de não existir. O mero aumento do tamanho do objeto nada faz para proporcionar ou remover a necessidade de uma explicação para a sua existência. Isto leva, naturalmente, à pergunta: qual é, então, a explicação para a existência do universo?

Os ateus costumam responder à premissa (1) dizendo que este princípio de razão suficiente, como é chamado, é verdade para tudo que existe no universo, mas querem isentar o próprio universo do princípio. O universo em si é a exceção à regra, e ele não precisa de uma explicação para a sua existência. Tudo no universo tem uma explicação para a sua existência, mas o universo em si existe sem explicação.

Penso que a resposta ateísta ao princípio comete o que foi corretamente chamado de “falácia do táxi”. O filósofo alemão do século XIX Arthur Schopenhauer indicou que o princípio de razão suficiente não é algo que pode ser dispensado como uma charrete depois que se chega ao destino desejado! Quando se chega ao universo, não se pode, simplesmente, dizer que o universo é a exceção à regra, porque se comete assim a falácia do táxi: pensa-se que se pode, simplesmente, dispensar o princípio de razão suficiente ao chegar ao supremo explanatório. Lembrem-se que Leibniz não isenta a Deus do princípio de razão suficiente. Ele diz que, sim, Deus tem explicação para o porquê da sua existência. Ele existe por necessidade da sua própria natureza. Leibniz não pode ser acusado de isentar, arbitrariamente, do princípio de razão explanatória o supremo explanatório, mas é isto que o ateu tenta fazer. Ele, simplesmente, diz que o universo é a exceção à regra e, ao fazê-lo, está sendo arbitrário. Não dá nenhuma razão para pensar que o universo deva ser isento do princípio: ele só o isenta, arbitrariamente. Isto não tem justificativa. Lembrem-se da ilustração da bola na floresta. O mero aumento do tamanho da bola, até tornar-se o próprio universo inteiro, nada faz para remover a necessidade de uma explicação para a sua existência.

Observe também como esta objeção é anticientífica. Todo o projeto da cosmologia contemporânea (o estudo da estrutura em grande escala do universo) dedica-se à busca por uma explicação da existência do universo. A atitude ateísta de pensar que o universo, simplesmente, existe sem qualquer explicação interromperia, de fato, a ciência. Alijaria o projeto da cosmologia moderna de buscar explicar por que o universo existe.

Assim, a típica resposta ateísta, na minha opinião, comete a falácia do táxi segundo Schopenhauer.

Alguns ateus tentam evitar esta arbitrariedade — esta falácia — ao fornecer uma justificação para isentar o universo. Tentam oferecer um argumento para o porquê de o universo dever estar isento do princípio de razão suficiente.[1] Tipicamente, dirão que é impossível ao universo ter uma explicação para a sua existência e, portanto, ele é a exceção à regra, por ser impossível que haja uma explicação da existência do universo. Por que será? O que há com o universo que o tornaria impossível de ter uma explicação? Alguns filósofos que li sobre a questão dizem que, se houver uma explicação para a existência do universo, teria de ser em algum tipo de estado explanatório anterior em que o universo não existia. Porém, dizem eles, seria um estado de nada. Não haveria nada, e nada não pode ser a explicação de coisa alguma; portanto, o universo deve existir, simplesmente, de modo inexplicável.

Se pensarem por um minuto, acho que conseguirão ver que este raciocínio é, obviamente, falacioso, porque, ao dizerem que este estado explanatório anterior em que o universo não existe é o nada, essas pessoas pressupõem que o universo é tudo que há. Assim, se não houvesse universo, não haveria nada. Isto só pressupõe que o ateísmo é verdade, não é mesmo? Assim, toda a objeção é raciocínio circular. Pressupõe que Deus não existe. Pressupõe a verdade do ateísmo! Assim, é raciocínio circular. Podemos concordar que, se o ateísmo é verdade, o universo não tem explicação para a sua existência. Porém, toda a questão é a seguinte: será que o ateísmo é verdade? Não se pode, simplesmente, pressupor que é verdade, a fim de objetar ao argumento de Leibniz.

Leibniz concordaria que o estado explanatório anterior que explica a existência do universo será um estado em que o universo não existe. Porém, não seria um estado de nada; antes, seria Deus e a sua vontade. Seria a explicação da origem do universo.

Por isso, não deixem o ateu escapar pressupondo que o universo é tudo que existe, porque este pressuposto assume a verdade do ateísmo, e é isto que está sendo questionado. É isto que estamos tentando investigar.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Voltando ao argumento ateísta de que “se aplica a tudo no universo, mas não ao universo em si”, será que você diria que aquilo que o ateu está, essencialmente, procurando é algo necessário que exista aí? Será que eles entendem que ter algo necessário é necessário, de modo que o atribuem ao universo, e não a Deus?

Dr. Craig: Normalmente, não. Vocês entenderam a pergunta dele? Porque ela é muito perspicaz. Será que o ateu está dizendo: “quando se chega ao universo, ele existe por necessidade da sua própria natureza. Assim, o universo não é isenção arbitrária à premissa (1). Tem explicação para a sua existência, a saber: o universo existe por necessidade da sua própria natureza”. Conforme direi mais adiante, não é, tipicamente, o que estão dizendo. Não conheço nenhum ateu contemporâneo que sustente tal posição de que o universo existe por necessidade da sua própria natureza. Antes, o que eles dizem é que o universo é a exceção à regra. Tudo mais tem explicação da sua própria existência, mas não o universo em si. Conforme eu disse, na ausência de algum tipo de justificação, comete-se a falácia do táxi, porque não há nada na natureza do universo, além de ele ser, simplesmente, grande, que o impediria de ter uma explicação para a sua existência.

Aluno: Muitos ateus também dizem que, simplesmente, não temos ainda a explicação. Não sabemos. Eles alegam: “Esperem, que teremos uma resposta. Não sabemos quando, mas teremos. Vamos descobrir”. O agnóstico quer dizer: “Quero saber como Deus criou o universo; por isso, vamos continuar com a ciência para desenvolvimento e pesquisa e tudo mais”. Nós, cristãos, queremos saber: será que Deus criou o universo, ou será só um mistério?[2]

Dr. Craig: Acho que a pessoa que diz o que você acaba de dizer não entendeu o argumento. Não se trata de argumento para o qual a ciência é sequer relevante. O seu amigo está confundindo este argumento com o argumento cosmológico kalam, que pergunta: “Como é que o universo se originou? Qual foi a origem temporal do universo?”. Porém, conforme disse, na semana passada, em resposta a uma pergunta, Leibniz está bastante disposto a admitir que o universo é eterno no passado, que ele sempre esteve presente. Assim, não há nenhuma explicação para a sua origem. Talvez não tenha tido origem no sentido temporal. Mas o que Leibniz indica é que mesmo um universo existente eternamente ainda é contingente. Não tem de existir. Podia não ter existido, ou um tipo diferente de universo poderia ter existido, talvez um universo com começo, em vez de eterno. Assim, a simples postulação da eternidade do universo no passado não escapa deste argumento. Quer dizer que questões científicas sobre a proveniência do universo e o modo em que foi criado são, simplesmente, irrelevantes para esta questão. Trata-se de argumento filosófico ou metafísico. Indaga por que há sequer uma realidade de espaço-tempo (não importa quão grande seja, quão vasto, quer tenha começo ou não, ou quais são as suas leis). Tudo isto é irrelevante. O que se está perguntando aqui é qual seria a explicação para haver este algo, em vez de inexistir. Não se trata de questão para a qual a ciência é relevante.

Aluno: Algumas coisas que tenho dificuldade de entender são contingência e entes necessários. O senhor mencionou que Leibniz está disposto a aceitar o universo, mesmo que seja eterno no passado, mas, ainda assim, contingente. Será que poderia explicar como é que isto é possível? Porque sempre entendi que, se algo é eterno, é claro que não terá um começo. Isto é algo que não entendo. Como é que ainda pode ser contingente, mesmo sendo eterno no passado?

Dr. Craig: Porque poderia não existir. Poderia haver nada, em vez deste algo. Podemos imaginar outro mundo possível em que o universo não existe. Ou, como disse um instante atrás, podemos imaginar outro mundo possível em que haja um diferente tipo de universo, talvez um universo que não tenha começo. Assim, um universo eterno é apenas um de uma ampla gama de possibilidades lógicas e, portanto, é contingente que tal coisa exista. Vem a existir um universo com começo, de acordo com as melhores provas que temos. Mas trata-se de fato contingente. Caso tivesse havido um universo eterno no passado, isto também seria um fato contingente. Não é lógica ou metafisicamente necessário que haja este tipo de universo. Poderia ter havido um como o nosso, não é mesmo? Desde que se possa ver que poderia ter havido um universo como o nosso, é preciso ver que um universo eterno é contingente. Não é necessário, porque seria possível que tivéssemos o nosso, exatamente como já o temos. Se você acha que este mundo é possível (que, obviamente, o é), isto mostra que esse outro tipo de mundo não é necessário, caso ele tivesse existido no lugar deste aqui.

Aluno: Caso houvesse um universo eterno, já estaria em morte térmica.

Dr. Craig: Isto está entrando no próximo argumento. Falaremos das propriedades termodinâmicas do universo, quando chegarmos ao chamado argumento cosmológico kalam. Trata-se de um tipo de argumento diferente deste aqui. E é importantíssimo fazer distinção entre os dois, porque as objeções contra uma versão simplesmente não se aplicam à outra versão, em especial de alguém como acabamos de ouvir: “talvez a ciência venha a explicar como o universo se originou no passado”. Isto é bem irrelevante ao argumento de Leibniz.

Aluno: O senhor acha que a objeção de Peter van Inwagen ao princípio de razão suficiente se aplica a esta versão particular dele?

Dr. Craig: Já li van Inwagen sobre esta questão e acho que quem defende o princípio de razão suficiente de forma modesta, como esta (e estou pensando, no caso, em gente como Alexander Pruss, da Universidade Baylor), já abordou a questão de modo adequado.[3] A objeção de van Inwagen é forte versão radicalíssima de Leibniz de que todo fato, toda verdade, tem explicação. Van Inwagen diz que isto tornaria tudo necessário, caso verdadeiro. Mas esta versão do princípio — a premissa (1) — não diz que toda verdade tem explicação ou todo fato tem explicação, apenas que tudo que existe tem explicação para a sua existência, em vez de inexistir. Isto se encontraria num ente necessário e na sua vontade. Dada a liberdade da sua vontade, esse ente necessário pode escolher criar uma realidade contingente ou não criar uma realidade contingente. Assim, acho que esta versão modesta do universo não cai nas objeções da versão tão forte do princípio de Leibniz. Essa era uma das razões por que vim a aceitar esta versão do argumento. Permaneci cético quanto ao argumento de Leibniz por muitos anos, até que li esta reformulação de Stephen Davis, filósofo cristão, usando esta versão bem modesta do princípio. Pensei: “Uau! Faz muito sentido e evita aqueles problemas”.[4]

Aluno: Algumas pessoas falariam de um multiverso. Este argumento, mesmo que alguém cresse num multiverso, não responderia à explicação para o nosso universo. O multiverso em si teria de ter uma explicação para a sua existência.

Dr. Craig: Sim, esta é a ideia. Porque, quando Leibniz fala do “universo”, ele quer dizer toda a realidade do espaço-tempo físico, incluindo qualquer multiverso incorporante de que talvez você queira que o nosso universo faça parte; então, buscaremos saber por que o multiverso existe, em vez de nada, no lugar de, por exemplo, um único universo. Por que existe o multiverso? Em última instância, acho que ele está certo. É preciso retornar a um ente necessário, que exista por necessidade da sua própria natureza.

DISCUSSÃO TERMINA

Permitam-me dizer o seguinte sobre a primeira premissa. A primeira premissa pode ser reformulada de modo mais simples, se quiserem. Poderíamos reformulá-la para, simplesmente, dizer: “tudo que é contingente tem explicação para a sua existência”. Seria versão mais simples e também aceitável. Obviamente, se tudo tem explicação para a sua existência (conforme afirma a premissa), tudo que é contingente tem explicação para a sua existência. Assim, são compatíveis, mas seria só algo mais modesto: tudo que é contingente tem explicação da sua existência. Então, seria possível modificar a premissa (3) para dizer que o universo é algo contingente. Daí, segue-se que o universo tem explicação para a sua existência. Por vezes, em meus debates, como o que vai acontecer em breve na Alemanha, a fim de tornar tudo mais acessível à audiência leiga que me está ouvindo, costumo usar esta versão mais simples da premissa e, então, empregar a história da bola na floresta para passar a mensagem. Espero que lhes seja de ajuda na memorização das premissas e na capacidade de compartilhá-las com outros. Trata-se de versão mais simples.

Passemos, agora, para a premissa (2), que é que, se o universo tem explicação da sua existência, tal explicação é Deus. A princípio, parece bastante dissonante. Lembro quando vi, pela primeira vez, a versão de Steve Davis para o argumento e pensei: “Espere um minuto. De onde vem isso?”. Parece um deus ex machina, um Deus que sai da máquina. Se o universo tem explicação para a sua existência, tal explicação é Deus. O que Davis indicou é que a premissa (2) é, na verdade, logicamente equivalente à resposta típica do ateu ao argumento de Leibniz. O que quero dizer com isto? Duas declarações são logicamente equivalentes se for impossível que uma delas seja verdade e a outra, falsa. Elas se sustentam ou desmoronam juntas. Ambas podem ser verdadeiras. Ambas podem ser falsas. Porém, se são logicamente equivalentes, uma não pode ser verdade e a outra, falsa. Aqui vai uma ilustração bem simples.[5] Considerem a proposição p. p é logicamente equivalente à dupla negação não-não-p. São logicamente equivalentes. Se disser: “Não é impossível que Bryant esteja pregando esta manhã”, quer dizer que é possível que ele esteja pregando esta manhã. Com muita frequência, usaremos este tipo de dupla negação. Lembro-me de um cientista a me dizer certa vez: “Este não se trata de um resultado não-trivial”, que é o mesmo que dizer que se trata de um resultado significativo. Às vezes, falamos com essas duplas negações. Dizemos: “Não é incomum”, que é o mesmo que “isto é comum”. Estes seriam exemplos de declarações logicamente equivalentes.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Poderia ilustrar duas declarações logicamente equivalentes nas quais a implicação está envolvida?

Dr. Craig: Sim, na verdade, podemos. P implica q é equivalente a não-p ou q. Se p implica q, quer dizer ou não-p ou q. É equivalência lógica simples. Vou apelar para Se p implica q é equivalente a não-q implica não-p. Isto é chamado, na verdade, de contraposição. Há um nome para esta equivalência lógica. Não se confundam com todos estes símbolos. Simplesmente, ilustram a ideia de declarações logicamente equivalentes umas às outras: são tanto verdadeiras quanto falsas, mas não se pode ter uma que seja verdadeira e a outra, falsa.

DISCUSSÃO TERMINA

O que é que o ateu quase sempre diz em resposta ao argumento de Leibniz? Conforme vimos no nosso exame da premissa (1), o que o ateu costuma dizer em resposta a Leibniz é o seguinte:

A. Se o ateísmo é verdade, o universo não tem explicação para a sua existência.

Ele diz que o universo é a exceção ao princípio de razão suficiente. O universo simplesmente existe, de modo inexplicável. Ele diz que, se o ateísmo é verdade, o universo não tem nenhuma explicação para a sua existência. Porém, isto é o equivalente lógico de dizer:

B. Se o universo tem explicação para a sua existência, o ateísmo não é verdade.

As duas afirmações são logicamente equivalentes, não é mesmo? Porém, (B) é praticamente sinonímica à premissa (2)! Assim, a premissa (2), que, à primeira vista, pode parecer muito audaz e ousada, é, de fato, praticamente sinonímica ao que o próprio ateu acredita. Por isso, a premissa (2) não é a que o ateu contesta.

Assim, ao afirmar (A), o ateu também, implicitamente, afirma (B), e (B) é praticamente sinonímica à premissa (2), de modo que o próprio ateu está afirmando a premissa (2).[6]

Aqui vai um segundo argumento para a premissa (2). Penso que a premissa (2) é plausível por si mesma, independentemente do que pense o ateu. Acho que a premissa (2) é plausível demais. Apenas pense no que é o universo: toda a realidade do espaço-tempo, toda a matéria e energia. Assim, segue-se que, se o universo tem explicação para a sua existência, ela deve ser encontrada numa causa que existe além do espaço e tempo, além da matéria e energia, sendo, portanto, um ente não-físico, imaterial, a-espacial e atemporal. Isto é incrível. A explicação do universo só poderia ser encontrada em algo que transcende o espaço e tempo, a matéria e a energia, tendo criado o universo.

Ora, quais seriam os possíveis candidatos para tal ente? Só consigo pensar em duas coisas que se encaixem com este tipo de descrição: ou um objeto abstrato como um número (ou outro objeto matemático) ou, então, uma mente ou consciência incorpórea. Um objeto abstrato é, vocês vão se lembrar, imaterial, não-físico, existente além do espaço e tempo, existente necessariamente (se é que sequer existe, ele não o faz contingentemente). Assim, um objeto abstrato realmente se encaixaria muito bem no papel do ente transcendente, imaterial, atemporal, a-espacial e metafisicamente necessário. O problema é que objetos abstratos não se colocam em relações causais. De fato, entre os filósofos contemporâneos, isto é praticamente definitivo quando se fala de objeto abstrato. O que diferencia um objeto abstrato de um objeto concreto é que apenas objetos concretos se colocam em relações causais. Objetos abstratos são estéreis ou impotentes do ponto de vista causal. O número 7, por exemplo, não tem nenhum efeito sobre nada. Daí, segue-se que a causa ou a explicação do universo não pode ser objeto abstrato. Portanto, deve ser mente ou consciência incorpórea que seria o ente transcendente, imaterial, não-físico, a-espacial, atemporal e pessoal que criou livremente um universo contingente.

Esta é uma conclusão que, sem dúvida, está repleta de relevância teológica. Espero que comecem a perceber o poder do argumento de Leibniz. A explicação do universo tem de ser um ente necessário, incausado, atemporal, a-espacial, imaterial e pessoal. Não se trata de um monstro macarrônico voador, concebido de qualquer jeito. A conclusão é, realmente, estonteante.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: E se o ateu dissesse algo sobre a filosofia da mente? Creem que a mente só é material e, caso não se tenham os neurônios a dispararem, não se tem uma mente e, portanto, ela é inerentemente física.

Dr. Craig: É importante ver que este argumento que Leibniz dá, no caso, é um argumento a favor de uma mente imaterial! Seria uma razão para crer que mentes não são só físicas ou materiais, como cérebros, mas são entidades imateriais. Isto porque este é o único jeito de explicar a existência de um universo contingente. Trata-se, na verdade, de um argumento a favor da imaterialidade e não-fisicalidade da mente. O ateu, provavelmente, não crê em mentes assim. Por isso, ele pode, então, levantar-lhe objeções. Ele pode tentar dar-nos as suas provas para o materialismo ou o fisicalismo redutivo. O teísta terá de responder a tais argumentos. Mas ele não pode, simplesmente, pressupô-lo. Do contrário, ele está forçando o argumento mais uma vez. Se ele, simplesmente, pressupõe não poder haver uma mente, ele está forçando o argumento, porque este aqui é um argumento para uma mente assim.[7] Porém, se ele tem alguns argumentos para o fisicalismo redutivo ou o materialismo, ótimo! Nós os ouviremos e veremos se conseguimos responder-lhes. Tipicamente, os argumentos contra a existência da mente, segundo vi, serão baseados na cognição humana e no fato de que, nos seres humanos, as mentes costumam estar unidas aos cérebros; a alegação é que os estados cerebrais se correlacionam com estados mentais e assim por diante. O problema é que, na melhor das hipóteses, isto só provaria que somos criaturas físicas, e não mentes. Porém, isto não mostra que uma mente é impossível. Será bem difícil, a meu ver, que o materialista ou ateu mostre não poder haver uma mente pessoal transcendente e imaterial que criou o universo. O máximo que fará será, talvez, tornar implausível esse tipo de dualismo em relação a criaturas humanas. Porém, ele precisaria extrapolar para um criador cósmico, e não tenho certeza de que conseguiria fazê-lo.

Aluno: Será que pode esclarecer a ideia de necessidade metafísica? Muita gente fica presa nela. Se eu digo: “o universo existe, e Deus não”, não há nenhuma contradição, estritamente falando. Não estamos contradizendo alguma definição estipulada. Porém, não queremos dizer “impossível” da mesma forma que dizer que é impossível mover-se mais rapidamente do que a luz, que é impossível criar uma máquina de movimento perpétuo.

Dr. Craig: Dá para recorrermos a você para tornar as coisas mais complicadas do que queremos! O que ele está indicando é que há diferentes tipos de possibilidade e necessidade. Por exemplo, um seria possibilidade e necessidade física. É fisicamente impossível acelerar um objeto além da velocidade da luz e fazê-lo ir mais rápido do que a luz. É fisicamente impossível. É contra as leis da natureza. Mas não há nenhuma impossibilidade lógica nisto. Poderia ter havido um universo com diferentes leis da natureza, em que se poderia acelerar algo além da velocidade da luz. Seria um tipo de possibilidade e necessidade de nível baixo com base nas leis da natureza. Por outro lado, há o que podemos chamar de possibilidade e necessidade lógica estrita. No caso, a fim de que algo não seja estritamente possível do ponto de vista lógico, o seu oposto teria de envolver uma contradição. Por exemplo, um casado solteiro. Seria estritamente impossível do ponto de vista lógico, porque se diz que ele é casado e solteiro: são estritamente contraditórios, do ponto de vista lógico. O que os filósofos observam é que há um tipo de possibilidade e necessidade diferente deste, que se costuma denominar de possibilidade e necessidade lógica ampla, em oposição à estrita. Por vezes, é chamada de possibilidade ou necessidade metafísica. A ideia é esta: algo que poderia ser real seria metafisicamente possível. Não basta apenas ser livre de contradições. Isto mostraria que é estritamente possível do ponto de vista lógico, mas não mostraria que tal coisa poderia realmente existir, que poderia ser metafisicamente possível. Um dos meus exemplos favoritos é a ilustração que Alvin Plantinga dá: será que o primeiro-ministro [em inglês, prime minister] poderia ter sido um número primo [em inglês, prime number]? Claro que não. Não há nenhuma contradição lógica estrita em tal afirmação, não é mesmo? O primeiro-ministro é um número primo [The prime minister is a prime number.] Não há nenhuma contradição lógica estrita, mas, ainda assim, é claro que é metafisicamente impossível que o primeiro-ministro seja um número primo. Se você se perguntar o porquê, apenas pense no fato de que primeiros-ministros são agentes causais, e um número primo, enquanto objeto abstrato, não é agente causal. Já dissemos que objetos abstratos não se colocam em relações causais. Por isso, é metafisicamente impossível que o primeiro-ministro seja um número primo, mesmo que não haja aí nenhuma contradição lógica estrita. O que estamos discutindo aqui é um ente que é metafisicamente necessário na sua existência. Deus é um ser metafisicamente necessário. Este fato não é refutado para que o ateu consiga apontar que a afirmação “Deus não existe” não envolva contradição lógica.[8] “Deus não existe” não envolve contradição lógica estrita, tanto quanto dizer que o primeiro-ministro é número primo. Porém, não quer dizer que, portanto, Deus não é um ser metafisicamente necessário. Deus é metafisicamente necessário na sua existência, embora não haja nenhuma contradição lógica estrita em dizer que Deus não existe. É nisto que a pergunta está tocando: ele quer que eu esclareça que aquilo que Leibniz está discutindo é a necessidade metafísica. Deus existe com necessidade metafísica. A forma em que eu expresso a questão é que ele existe por necessidade da sua própria natureza.

DISCUSSÃO TERMINA

Se estas duas premissas forem verdadeiras — de que tudo que existe tem explicação para a sua existência (quer na necessidade da sua própria natureza, quer em causa externa) e também de que, se o universo tem explicação para a sua existência, tal explicação é Deus, segue-se que Deus existe por necessidade da sua própria natureza. Ele é um ser metafisicamente necessário.

Na próxima semana, vamos considerar uma última objeção ao argumento de Leibniz. Suponham que o ateu diz: “Está bem. Retiro minha objeção à premissa (1) e prefiro dizer que o universo é um ser metafisicamente necessário. O universo existe por necessidade da sua própria natureza”. O que podemos dizer em resposta a isto?[9]


[1] 5:01

[2] 10:07

[3] 15:01

[4] Para mais detalhes sobre a objeção de van Inwagen e a resposta de Dr. Craig, ver a pergunta número 132: “O argumento cosmológico de Leibniz e o PRS”, em https://pt.reasonablefaith.org/artigos/pergunta-da-semana/o-argumento-cosmologico-de-leibniz-e-o-prs (acesso em abril de 2023).

[5] 20:05

[6] 25:00

[7] 30:06

[8] 35:04

[9] Duração total: 37:04 (Copyright © 2015 William Lane Craig)