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Excurso sobre teologia natural (Parte 7): O argumento da contingência, Parte 3

June 11, 2023

Outra objeção ao argumento da contingência

Já vimos as duas premissas do argumento da contingência para a existência de Deus que são disputados. Eles são, como vocês devem lembrar-se:

1. Tudo que existe tem explicação para a sua existência, quer na necessidade da sua própria natureza, quer em alguma causa externa. (Ou, de modo mais simples, disse que podemos reformular que “tudo que é contingente tem explicação para a sua existência”.)

Em seguida, propus uma defesa da segunda premissa:

2. Se o universo tem explicação para a sua existência, tal explicação é Deus.

Mais uma vez, caso você ache esta premissa estonteante demais para o seu gosto, ela poderia também ser reformulada para uma premissa mais modesta. Ela pode ser reformulada assim: “Se o universo tem explicação para a sua existência, tal explicação é um ente pessoal transcendente”. Não é preciso chamá-lo de Deus, se não o quiser, mas será um ser metafisicamente necessário, transcendente e pessoal, que criou o universo. E, então, a defesa que você daria da premissa seria semelhante.

Acho que temos bons motivos para pensar que estas duas premissas são verdadeiras e, portanto, se o universo existe, ele tem a sua explicação ou fundamento em tal ente metafisicamente necessário e transcendente.

O que o ateu pode fazer a esta altura? Acho que lhe sobra um recurso, embora seja radical. Ele pode rastrear os seus passos, retirar a sua objeção à premissa (1) e, em vez disso, admitir que, sim, o universo tem mesmo uma explicação para a sua existência. Porém, talvez ele diga que a explicação é a seguinte: o universo existe por necessidade da sua própria natureza. O ateu pode considerar o universo como uma espécie de Deus substituto. Trata-se de um ser metafisicamente necessário que explica por que tudo mais existe. Para o ateu, o universo poderia ser uma espécie de substituto para Deus, como o ente metafisicamente necessário que fundamenta a existência de tudo mais.

Seria um passo radical para o ateu tomar. De fato, não consigo pensar em nenhum filósofo ateu contemporâneo que siga tal coisa. Muitos anos atrás, participei de um simpósio sobre filosofia do tempo na Faculdade da Cidade de Santa Bárbara. Pensei que o professor Adolf Grünbaum, que palestrava no simpósio e é filósofo ateu vociferante, estava flertando com esta ideia de que o universo existe necessariamente. Porém, quando fiz a pergunta desde a plateia sobre o que ele pensava do universo, se existia necessariamente, ele ficou bem indignado com a sugestão: “Claro que não!”, disse ele, e continuou dizendo a frase típica de que o universo simplesmente existe de modo inexplicável. É contingente, mas simplesmente não tem nenhuma explicação do porquê da sua existência.

A razão por que os ateus não se empolgam em adotar esta saída do argumento, a meu ver, é bastante óbvia. Quando se olha ao redor no universo, nenhuma das coisas que constituem o universo parece existir necessariamente, quer falemos de planetas, pó intergaláctico, radiação, estrelas ou galáxias. Nenhuma destas coisas parece existir necessariamente. Todas elas parecem ser contingentes. Poderiam todas inexistir. De fato, em dado momento no passado, quando o universo era muito denso e muito quente, nenhuma delas realmente existia. Assim, estas coisas não existem necessariamente, e o universo é apenas a coleção de todas estas coisas. Parece que o universo não existe necessariamente. Assim, os ateus não se empolgam em tentar adotar esta rota de fuga do argumento.

Alguém talvez diga em resposta: supondo-se que todas as coisas no universo sejam contingentes, não obstante, o que dizer da matéria que as compõe? Talvez a matéria em si exista necessariamente e só assuma essas diferentes configurações contingentes.[1] Todas estas diferentes configurações da matéria, como as estrelas, planetas e galáxias, são contingentes, mas a matéria em si é necessariamente existente. Acho que o problema com esta sugestão é que, de acordo com o modelo convencional da física subatômica, a matéria é em si composta por minúsculas partículas fundamentais, como quarks e elétrons. Todas estas coisas no universo são compostas destas minúsculas partículas fundamentais. De fato, o universo é justamente a coleção de todas estas partículas arranjadas de modos distintos.

Vamos nos concentrar nos quarks e falar a respeito deles. Será que uma coleção de diferentes quarks teria existido, em vez da coleção que, realmente, existe? Será que absolutamente todos estes quarks existem de forma necessária? Parece loucura pensar que absolutamente todos os quarks no universo existam por necessidade da sua própria natureza, de modo que não poderia ter havido menos quarks ou poderia ter havido mais quarks ou diferentes quarks. Esta é a única coleção de quarks que poderia ter existido. Isto parece loucura.

Observem o que o ateu não pode dizer a esta altura. Ele não pode dizer que todos estes quarks são só diferentes configurações da matéria e que poderiam ter sido diferentes, mas a matéria em si existe necessariamente. Ele não pode dizer isto, porque os quarks não são compostos de nada mais. Eles são só as unidades fundamentais da matéria. Assim, se o quark não existe, a matéria não existe. Os quarks não são compostos de nada mais. Eles são só as unidades fundamentais da matéria. Sem os quarks, não haveria nenhuma matéria.

Daí, parece óbvio que uma diferente coleção de quarks talvez tenha existido, em vez da coleção que realmente existe. Se fosse assim — suponha que uma diferente coleção de quarks tivesse existido, acho que se concluiria que um universo diferente poderia ter existido. Se uma diferente coleção de quarks pudesse ter existido, um universo diferente poderia ter existido.

Para enxergar esta observação, quero convidá-los a pensar nos sapatos que estão usando agora. Pensem nos sapatos que têm nos pés agora. Será que eles poderiam ter sido feitos de aço, em vez do material de que são feitos? Sem dúvida, vocês poderiam ter sapatos de aço com a mesma forma e tamanho dos sapatos que estão usando, mas será que seriam os mesmos sapatos? Ou não seriam sapatos diferentes, sapatos de aço? Será que os próprios sapatos que você está calçando agora poderiam ter sido feitos de aço? Acho que a resposta é, obviamente, não. Seriam outro par de sapatos, não os próprios sapatos que você está calçando. O mesmo seria verdade com o universo. Um universo constituído de diferentes quarks não seria o mesmo universo, mesmo que todos esses quarks fossem arranjados exatamente do mesmo modo, de maneira que os mesmos objetos macroscópicos existissem. Seria um universo diferente, porque seria composto de uma diferente coleção de quarks.

Talvez alguém objete a esta altura: espere um minuto, a matéria no meu corpo é completamente reciclada de tantos em tantos anos, de modo que as moléculas ou as partículas que tenho no meu corpo hoje não são as mesmas que eu tinha, digamos, quando era menino, mas, ainda assim, sou a mesma pessoa. Continuo idêntico, embora toda a matéria no meu corpo seja completamente reciclada, e não há nenhuma das partículas no meu corpo agora que antes estava nele. Assim, talvez digam que, analogamente, um universo poderia ser idêntico em diferentes mundos possíveis, mesmo que fosse constituído de uma coleção completamente diferente de quarks. Acho que, no entanto, as duas situações não são análogas. A falta crucial de analogia é que a diferença entre mundos possíveis não envolve nenhum tipo de mudança intrínseca. Não há nenhum sujeito duradouro que passa por mudança de um estado para outro, ao passo que, no meu corpo, há um sujeito duradouro que passa por mudança intrínseca.[2] Assim, comparando-se diferentes universos em diferentes mundos possíveis seria mais como comparar corpos humanos que não têm absolutamente nenhuma ligação um com o outro, sendo eles constituídos de matéria diferente. No caso, acho que se diria que não são o mesmo corpo. São corpos distintos, porque um não se transforma no outro no mesmo sentido em que meu corpo de menino se transforma no meu corpo adulto. No caso em que não há nenhuma mudança intrínseca e há uma matéria completamente diferente a constituir o objeto, haveria dois objetos. Haveria dois corpos humanos. Igualmente, haveria dois universos.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Fico pensando em Espinosa. O senhor acha que ele teria mordido a isca e dito: sim, é assim mesmo? Tem alguma ideia de qual resposta ele daria?

Dr. Craig: Sim, é por isso que eu disse nenhum ateu contemporâneo. Você está apontando que o filósofo holandês do século XVII Bento Espinosa cria que o universo é uma espécie de substituto de Deus. Ele cunhou a famosa expressão: Deus sive Natura, Deus ou natureza. Ele entendeu que o universo é Deus e existe com necessidade metafísica. Você está certo. Houve pessoas assim, mas não consigo pensar ninguém, no cenário atual, que defenderia o espinosismo ou esta alternativa. Onde talvez se encontre algo assim será nas religiões panteístas, em alguma forma de hinduísmo ou budismo. Se bem que, no caso, eles costumam pensar que o universo é ilusório, e não que é necessário. Mas eu consigo imaginar um panteísta a dizer algo assim. Mas não vai achar algo assim entre os típicos ateus naturalistas ocidentais. A resposta, a meu ver, seria exatamente a que dei. Acho que, dado o fato de que o universo é constituído dessa coleção de partículas fundamentais, parece completamente implausível dizer que absolutamente todos os quarks no universo existem por necessidade metafísica da sua própria natureza. Para mim, isso é completamente implausível.

Aluno: Estava com dificuldade com o que o senhor estava dizendo no começo, quando estava reintroduzindo o material. Peço desculpas por trazê-lo à tona de novo, não sei se já passou para outro ponto, mas a parte pessoal do que está dizendo que o Criador do universo deve ser. Não peguei este ponto nas semanas anteriores.

Dr. Craig: O argumento era que chegamos a um ser que está além do espaço e tempo, além da matéria e energia, porque é a causa ou explicação da existência do universo. Assim, precisa ser um ente imaterial, a-espacial, atemporal e metafisicamente necessário. Caso você se pergunte o que poderia preencher esta descrição (algo que é a-espacial, atemporal, imaterial e metafisicamente necessário), parece-me que há apenas duas coisas que consigo pensar que conseguiriam preencher esta descrição: ou um objeto abstrato (como um número ou outro objeto matemático) ou, então, uma mente ou consciência incorpórea. Uma mente incorpórea poderia ser imaterial, atemporal, a-espacial e metafisicamente necessária. Mas eis aí a questão. Objetos abstratos não se colocam em relações causais. É definidor do que se constitui um objeto abstrato: ele é estéril e impotente do ponto de vista causal, não tem potências causais. Assim, a causa do universo não pode ser objeto abstrato e, portanto, pela lógica, segue-se que deve ser uma mente, consciência ou pessoa incorpóreas.

Aluno: O que quer dizer com “pessoa”? Quer dizer que tem os traços de uma pessoa, ou quer dizer que tem, de fato, interação pessoal?

Dr. Craig: Com “pessoa”, quero dizer “uma mente”, um indivíduo autoconsciente dotado de intelecto, autoconsciência e volição. Há, na realidade, outro argumento bem legal para a pessoalidade da primeira causa que já vou logo compartilhar com vocês. Foi sugerido por um dos meus alunos numa aula no seminário Talbot.[3] Ele apontou: “Como é que se vai de uma causa existente necessariamente para um objeto contingente como o universo?”. Se a causa é um conjunto impessoal, como que a operar de modo mecânico, com condições necessárias e suficientes, caso a causa esteja necessariamente presente e seja suficiente para o seu efeito, o efeito deverá estar presente necessariamente também. Caso se tenha um ser necessário como a sua causa, o efeito existirá necessariamente, ainda que dependente da causa. Como se obtém um efeito contingente a partir de uma causa necessária? Acho que a resposta é esta: se a causa for um agente pessoal dotado de liberdade da vontade que pode livremente escolher criar um efeito contingente. Voltar a um agente pessoal e apelar para a causação do agente permitirá explicar como se obtém um efeito contingente como o universo, a partir de uma causa existente necessariamente. Acho que é um ótimo argumento. Gosto muito deste argumento para a pessoalidade da primeira causa. Ele nos dá dois argumentos independentes para a pessoalidade da primeira causa, a saber: o argumento das propriedades que ela deve ter como ser imaterial, a-espacial, atemporal etc. e, então, o outro argumento de como se vai de uma causa necessária para um efeito contingente. Acho que há boas razões para pensar que essa segunda premissa é verdadeira, sem nenhuma relação com o fato de que, como disse, seja praticamente sinonímica ao que diz o próprio ateu. Lembrem que, na ocasião, falamos como o ateu costuma dizer que, se o ateísmo é verdadeiro, o universo não tem nenhuma explicação para a sua existência, o que é logicamente equivalente a dizer que, se o universo tem uma explicação para a sua existência, o ateísmo não é verdade. Ou seja, Deus existe. Assim, acho que isto torna a segunda premissa muitíssimo plausível.

Aluno: Quero perguntar a partir de uma visão antagônica, que é: se a matéria e a energia são intercambiáveis, será que não podemos pensar nesta necessidade como uma energia que é convertida de volta à matéria nessa relação?

Dr. Craig: Acho que, talvez, o que o não-teísta possa fazer, no caso, é dizer que esses quarks fundamentais ou essas partículas fundamentais são diferentes configurações de campos físicos quânticos subjacentes, e é isto que subjaz a estas partículas que aparecem de modos diferentes. Seria uma resposta interessante, na minha opinião. Mas, então, isto exigiria que se dissesse que esses campos quânticos existem necessariamente e, mais uma vez, simplesmente não parece ser verdade que essas coisas tenham necessidade metafísica. Parecem ser contingentes. Reforçarei a questão em um momentinho no meu próximo ponto.

Aluno: Será que o senhor classificaria a energia como atemporal, imaterial...?

Dr. Craig: Ah, não, não, não. É claramente algo que existe no espaço e no tempo e, como você disse, pode ser convertido na matéria e matéria, de volta à energia. É a famosa equação de Einstein: E=mc2. Assim, a energia e a matéria seriam quantidades convertíveis.

Aluno: Caso houvesse uma consciência necessária, como no panteísmo, ela não se refletiria, exceto em outras divindades e manifestações. Não se mostraria tampouco causalmente. Seria preciso rejeitar algum tipo de consciência universal.

Dr. Craig: Correto. No hinduísmo, por exemplo, estes deuses não são a realidade última. A realidade última é impessoal, sem propriedade, não podendo ser caracterizada. Assim, esses deuses como Xiva, Vixenu e assim por diante são só, em certo sentido, manifestações ilusórias desse absoluto impessoal; não são a realidade última.

DISCUSSÃO TERMINA

O que defendo aqui é que é implausível pensar que o universo exista necessariamente.[4] Por quê? Porque ele é constituído de coisas que são, obviamente, contingentes, coisas como quarks e elétrons.

A afirmação que estou fazendo aqui se torna, na minha opinião, ainda mais óbvia quando refletimos no fato de que parece inteiramente possível que os elementos constitutivos fundamentais da natureza poderiam ter sido substâncias bem diferentes de quarks e elétrons, caracterizados, portanto, por um conjunto totalmente diferente de leis da natureza. Mesmo que se diga que as leis da natureza são metafisicamente necessárias, que esta é a única maneira em que quarks e elétrons poderiam ter-se comportado, não obstante, as leis da natureza poderiam ainda ter sido diferentes, porque poderia ter havido substâncias diferentes dos quarks a existirem dotadas de diferentes disposições e diferentes propriedades, de modo que haveria um conjunto totalmente diferente de leis da natureza. Não há razão para pensar que apenas quarks são possíveis e que não poderia ter havido outros tipos de partículas, no lugar dos quarks, e que, portanto, poderia ter havido um universo bem diferente. Acho que seria completamente implausível dizer que se trataria do mesmo universo. Seria como dizer que um painel de vidro pudesse reter a sua identidade, caso tivesse sido feito de aço. É obviamente absurdo. Não seria a mesma janela, caso fosse feita de aço, em vez de vidro. Por isso, acho que temos razões muito boas para pensar que, em virtude da sua composição ou constituição, o universo não existe de modo necessário, metafisicamente falando. É provavelmente por isso que pouquíssimos ateus contemporâneos, se é que algum deles, apelam para isto na tentativa de escapar do argumento.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Tenho uma pergunta sobre eternidade no passado e necessidade. Carl Sagan, na frase de abertura de Cosmos, que é bastante famosa, essencialmente substituiu João 1.1 por “O Cosmos é tudo que jamais existiu, tudo que jamais existe e tudo que jamais existirá”. Estava me perguntando: se o ateu faz a afirmação de que o universo tem um estado de eternidade no passado, será que está reivindicando, essencialmente, necessidade para o universo?

Dr. Craig: Falamos sobre a questão algumas vezes nas aulas. Tentei indicar que a mera transformação do universo em eterno no passado não o torna necessário. Acho que o jeito mais fácil de ver isto é imaginar que o universo é eterno no passado. Certo? Imagine que o universo jamais começou a existir. Não seria logicamente possível que, ao contrário, o nosso universo existisse? Claro que seria, porque sabemos que este universo é logicamente possível. Nós existimos nele. Ele é real. Segue-se que o universo eterno não existe necessariamente. Ele existe de modo contingente, e poderia ter havido outro universo no seu lugar. O argumento de Leibniz é totalmente independente do fato de ser o passado do universo eterno ou ter tido um começo.

DISCUSSÃO TERMINA

A sua observação é uma boa ponte para o próximo argumento que quero trazer, e ele é a segunda razão para pensar que o universo não existe por necessidade da sua própria natureza, pelo fato de que ele parece ter começado a existir. Se algo existe necessariamente, deve existir eternamente, porque, se começa a existir, mostra-se que a sua inexistência é possível. Ele veio a ser. Assim, uma propriedade essencial de um ser existente necessariamente será a sua externalidade: existir sem começo ou fim. Temos, agora, provas muito fortes de que o universo não é eterno no passado, mas tem um começo que mostraria a sua contingência.

Isto nos leva ao próximo argumento que vamos discutir, o argumento cosmológico kalam, baseado no começo do universo. Como disse, quero tentar manter os argumentos o mais independentes uns dos outros que pudermos, porque, se forem independentes uns dos outros, multiplicam-se as probabilidades ao se acumularem estes argumentos independentes a favor da existência de Deus.[5] Acho que temos boas razões para pensar que o universo não existe necessariamente, independentemente do seu começo. Não obstante, mostra-se assim como os argumentos se encaixam e se reforçam mutuamente. Porque o universo tem um começo, revela-se assim a contingência do universo. Não apenas isto, mas revela-se que o universo é contingente de maneira muito especial, a saber: ele veio a existir a partir do nada. Na existência de um universo eterno, ele ainda existe de modo contingente, embora exista eternamente, mas o universo existir de modo contingente e ter um começo parece ser duplamente absurdo, porque, no caso, ele vem à existência sem absolutamente nenhuma explicação, a partir do nada. Consigo imaginar como tornar a vida do ateu difícil ao dizer: sim, se o universo é eterno, ele sempre esteve presente, não tem uma causa. Porém, uma vez que se diga que o universo teve um começo e veio a existir, parece completamente implausível pensar que não há nenhuma explicação para a existência do universo. O argumento cosmológico kalam reforça vigorosamente o argumento da contingência ao mostrar ou sublinhar a contingência do universo de modo deveras especial. Mesmo que o universo seja eterno no passado, ele é contingente, mas, caso tivesse um começo, a sua contingência só se torna ainda mais óbvia, e a necessidade de uma explicação clama ainda mais alto.

Como disse, os ateus não se empolgam em afirmar que o universo existe com algum tipo de necessidade metafísica. Antes, a resposta típica a este argumento é só cometer a falácia do táxi e dizer que o princípio de razão suficiente se aplica a tudo no universo, mas não ao próprio universo. O universo só existe, sem nenhuma explicação, o que, a meu ver, é arbitrário e forçado.

DISCUSSÃO COMEÇA

Aluno: Falei com meu irmão um pouco ontem e surgiram algumas ideias. Estava só pensando na coisa toda. Lembro o debate que fez com Lawrence Krauss. Cheguei até a dizer que ele é, provavelmente, o melhor ateu que já existiu, porque ele quer provar que tudo, simplesmente, veio do nada. A razão por que digo isto é que meu irmão estava perguntando: qual é o oposto de Deus? A ideia que quero expressar é que é o diabo. Mas ele não é o oposto de Deus, porque Deus o criou e lhe deu habilidades e assim por diante. A forma em que o cristianismo enxerga Deus é que Deus é tudo: todo-poderoso, e assim por diante.

Dr. Craig: O cristianismo não pensa que Deus é tudo, não é mesmo? Seria o panteísmo.

Aluno: Deus criou tudo.

Dr. Craig: Certo, aí é bem diferente!

Aluno: Um ser máximo. O oposto de Deus, como ele disse, é o nada. É por isso que creio que é nisto que o ateu tem de se apoiar: as coisas vieram do nada.

Dr. Craig: Permita-me dizer que é difícil saber o que uma pessoa quer dizer quando fala do oposto de um ser. Acho que o seu exemplo do diabo mostra que a pessoa esteja pensando em oposto a partir das suas qualidades morais. Em certo sentido, entes contingentes são o oposto de Deus, porque ele existe necessária e independentemente, mas nós existimos de modo contingente e dependente. Assim, em certo sentido, isto é o oposto de Deus. Porém, no sentido de que Deus existe, posso enxergar por que ele diria que o oposto disto é que nada existe.

Aluno: O ateu não pode adotar esta abordagem, dizendo que a contingência é o oposto de Deus. O ateu tem de se apegar ao nada. Acho que este é todo o começo deles.

Dr. Craig: OK, acho que talvez esteja entendendo melhor o que você está dizendo. Quando diz o oposto de Deus, quer dizer qual é a explicação alternativa a Deus, em certo sentido. Correto? Acho que é o que está dizendo.[6] Qual é a alternativa? E, sim, a alternativa parece ser dizer que não há nenhuma explicação para a existência do universo. No caso de alguém a pensar que o universo começou a existir (como Krauss), isto significaria que o universo simplesmente veio a partir do nada, que é o que ele assevera. Mas tenho de dizer que ele não quer bem dizer isto. Ele sabe que, na física, o estado de vácuo ou os estados que não têm em si o espaço-tempo são estados físicos descritos pelas leis da natureza. Krauss dirá coisas como “nada realmente tem o peso de algo”, “tudo é quase nada”. Ele faz todo tipo de afirmações contraditórias em si mesmas. Ele emprega a palavra “nada” de modo a representar erroneamente a física, do ponto de vista científico. É um jeito coloquial de falar que não é preciso. Ele estava falando de estados nos quais o nosso espaço-tempo relativista não existe, mas ainda é um estado do universo. Será um estado bem primitivo do universo em que esse tipo de estrutura ainda não emergiu. Mas não é nada no sentido de não-ser ou não haver algo. Por isso, é um abuso crasso da linguagem e, francamente, acho que é uma deliberada representação errônea da ciência.

Aluno: Para ir mais a fundo na obra de Leibniz, ele escreveu em alemão, francês e latim (infelizmente, não em inglês). Ele escreveu sobre dezenas, senão centenas, de assuntos. Ele escreveu milhares e milhares de páginas. Não parece que, para este tipo de discussão, haja uma única obra representativa que eu poderia indicar para dizer que seria agradável pegar e ler o que ele escreveu sobre a questão. Existe alguma edição específica? Precisamos mesmo é um Leibniz simplificado por William Lane Craig.

Dr. Craig: Já existem livros assim. Que bom que você perguntou. Há um volume muito bom intitulado Leibniz Selections [Seleções de Leibniz], que inclui todas essas obras seletas das quais falamos. Não tenho muita certeza, mas acho que é editado por Philip Wiener. Incluirá todas elas. Mas você pode dizer: como é que vou conseguir uma cópia de Leibniz Selections? Você vai até a biblioteca de East Cobb e a pede por empréstimo entre bibliotecas. É um tesouro secreto de recursos. Eu raramente compro livros. Uso o sistema de empréstimo entre bibliotecas e obtenho tudo aqui na pequena biblioteca de East Cobb. Por exemplo, esta última semana, ando lendo a teologia sistemática em três volumes de Francisco Turretini, teólogo reformado suíço do século XVII, denominada Compêndio de teologia apologética. E eu a consegui por empréstimo entre bibliotecas na biblioteca de East Cobb! Na semana anterior, eles me arranjaram um livro de L. W. Grensted intitulado A Short History of the Atonement [Breve história da expiação], publicado lá por 1905. Eles conseguem tudo isso de graça! É grátis! Por isso, não há nenhuma desculpa. Usem a sua biblioteca local. Trata-se de um recurso secreto que muitas pessoas desconhecem. Por isso, agradeço pela pergunta, porque é assim que se obtém esse tipo de material.

Aluno: Existe também uma cópia (acabei de procurar na Amazon) por 41 centavos, mais 3,99 de frete!

Dr. Craig: Compre já! Editada por Wiener?

Aluno: Sim.

Dr. Craig: Excelente!

DISCUSSÃO TERMINA

Permita-me dizer, como conclusão deste argumento, que, dada a verdade das três premissas, segue-se logicamente a conclusão: Deus é a explicação para a existência do universo. Este argumento nos dá um conceito riquíssimo de Deus: uma mente incausada e incorpórea que transcende o universo físico, além até mesmo do próprio espaço e tempo, e existente com necessidade metafísica da sua própria natureza. Trata-se de conceito exaltado de Deus.[7]


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[2] 10:02

[3] 15:09

[4] 20:02

[5] 25:12

[6] 30:06

[7] Duração total: 35:19 (Copyright © 2015 William Lane Craig)