Excurso sobre teologia natural (Parte 8): O argumento cosmológico kalam
June 11, 2023O argumento cosmológico kalam
Hoje passamos para um novo argumento para a existência de Deus, o chamado argumento cosmológico kalam.
Quando menino, ficava encantado com a existência do universo. Eu me indagava de onde ele veio. Será que teve um começo ou será que sempre existiu? Posso me lembrar deitado na cama à noite, tentando pensar num universo sem começo. Cada evento seria precedido por outro evento. Um regresso incessante, sem ponto de parada (ou, para ser mais preciso, sem ponto de partida). A minha mente se perdia no conceito. Parecia-me inconcebível. Deve ter havido um começo em algum momento, pensei eu, para que tudo começasse.
Pouco sabia eu que, por séculos, os homens lutaram com a ideia de um passado infinito e se o universo teve um começo. Os antigos filósofos gregos, como Aristóteles, criam que a matéria era necessária e incriada, sendo, portanto, eterna no passado. Deus talvez seja responsável por introduzir a ordem no cosmo, mas ele não criou o universo em si.
A visão grega contrastava com a visão judaica, ainda mais antiga, acerca do assunto. Os autores hebreus mantinham que o universo nem sempre existira, mas teve um ponto inicial, em algum momento no passado, em que foi criado por Deus. Conforme afirma o primeiro versículo da Bíblia hebraica: “No princípio, criou Deus os céus e a terra” (Gênesis 1.1).
Em algum momento, as duas tradições (grega e judaica) começaram a interagir. Daí surgiu, dentro da filosofia ocidental, um debate contínuo que durou bem mais de mil anos sobre o universo ter um começo ou não. O debate se desenrolou entre judeus e muçulmanos, bem como cristãos, tanto católicos quanto protestantes. Enfim, decaiu num fim um tanto inconcluso, no pensamento do grande filósofo alemão do século XVIII Immanuel Kant. Ele sustentava, como se não bastasse a ironia, que há argumentos racionalmente persuasivos para os dois lados, expondo, portanto, a falência da própria razão!
Vim a saber deste debate, pela primeira vez, só depois de terminar a faculdade. Uma semana antes da formatura, estava passando os olhos nas mesas de liquidação da livraria da faculdade e topei com este livro por um dos meus ex-professores, Steward Hackett, intitulado The Resurrection of Theism [A ressurreição do teísmo]. Tinha ouvido que era um livro importante e, já que estava em promoção, decidi comprá-lo. Depois da formatura, comecei a lê-lo naquele verão. E fiquei estupefato com o seu conteúdo. Vejam bem: eu aprendera na faculdade que não há bons argumentos para a existência de Deus, que todos eles haviam sido refutados pelos filósofos modernos. Portanto, não há nenhum bom argumento próprio a favor de Deus. Embora me parecesse contraintuitivo, eu tinha grande respeito por meus eruditos professores e pensei que, se eles disseram não haver bons argumentos para a existência de Deus, deviam estar certos, sem dúvida alguma. Então, descobri ali, no livro de Hackett, uma defesa de argumento atrás de argumento a favor da existência de Deus, bem como refutações detalhadas de toda objeção concebível que se possa levantar contra tais argumentos. Fiquei absurdamente admirado.
Desejoso de lidar com os argumentos de Hackett, fui fazer o mestrado em filosofia. Ao me preparar para os exames de seleção da pós-graduação, descobri que a peça central do livro de Hackett, o chamado argumento cosmológico kalam, tinha, na verdade, essa longa história no pensamento judaico, muçulmano e cristão, remontando aos primeiros séculos depois de Cristo.[1] Queria encontrar uma solução mental para este argumento. Assim, quando me candidatei para o doutorado na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, propus escrever a minha tese de doutoramento sobre o argumento cosmológico para a existência de Deus. De fato, acabei escrevendo sobre o argumento. Consegui investigar as raízes históricas deste argumento, bem como aprofundar a análise dele, além de descobrir relações incríveis com a astronomia e astrofísica contemporâneas.
Em razão das suas raízes na teologia islâmica medieval, cunhei o argumento de argumento cosmológico kalam, para diferenciá-lo de outras versões do argumento cosmológico, como o argumento de Leibniz a partir da contingência, que já estudamos. Kalam é a palavra árabe para teologia medieval. Foi a teologia islâmica medieval que desenvolveu este argumento a um elevado grau de sofisticação.
Este argumento, o argumento cosmológico kalam, em grande medida esquecido desde o tempo de Kant, voltou ao centro da discussão filosófica. Em The Cambridge Companion to Atheism [Manual Cambridge do ateísmo], publicado em 2007, relata-se:
Uma contagem dos artigos nos periódicos de filosofia mostra que mais artigos foram publicados sobre o argumento kalam do que o foram sobre qualquer outra formulação contemporânea de um argumento para a existência de Deus. Tanto teístas quanto ateus não conseguem deixar em paz o argumento kalam.
Qual é o argumento que despertou tamanho interesse? Deixemos um dos seus maiores proponentes muçulmanos medievais falar por si mesmo. Algazali foi teólogo do século XII da Pérsia, no Irã atual. Ele se preocupava que os filósofos muçulmanos do seu tempo estavam sendo influenciados pela filosofia grega antiga para negar a criação que Deus fez do universo.
Depois de estudar minuciosamente as obras e ensinamentos desses filósofos, Algazali escreveu uma crítica avassaladora das visões deles, no livro intitulado A incoerência dos filósofos. Trata-se de livro fascinante que ainda vale a pena ler hoje. Se você estava aqui semana passada, vai saber onde obter uma cópia deste livro, não é mesmo? Onde encontrá-lo? Empréstimo entre bibliotecas! É isto mesmo! Assim, se você estiver interessado em ler o livro de Algazali, só vá e pegue-o por empréstimo entre bibliotecas. A leitura é fascinante. No livro, Algazali defende que a ideia de um universo sem começo é absurda. Ele argumenta que o universo deve ter tido um começo e, uma vez que nada pode começar a existir sem uma causa, deve haver um Criador transcendente do universo.
Algazali formula o seu argumento de maneira muito simples. Permita-me citá-lo diretamente. Ele escreveu: “Todo ente que começa tem uma causa para o seu começo; ora, o mundo é um ente que começa; logo, ele possui uma causa para o seu começo”.[2]
O raciocínio de Algazali envolve três passos bem simples:
1. O que quer que comece a existir tem uma causa para o seu começo.
2. O universo começou a existir.
3. Logo, o universo tem uma causa para o seu começo.
Trata-se de argumento válido do ponto de vista lógico, de modo que a única questão é se as premissas são mais plausivelmente verdadeiras do que falsas. Vejamos as duas premissas, cada uma à sua vez.
Primeiramente, a premissa (1) é “O que quer que comece a existir tem uma causa para o seu começo”. Observe que Algazali não precisa mesmo de uma premissa que seja tão forte quanto a premissa (1) de que o que quer que comece a existir tem uma causa. O argumento dele pode ser formulado de modo mais modesto, na seguinte forma:
1’. Se o universo começou a existir, ele tem uma causa para o seu começo.
Esta premissa mais modesta não afirma que tudo que começa a existir tem uma causa para o seu começo, mas, simplesmente, que, se o universo começou a existir, ele tem uma causa para o seu começo.[3] Esta versão mais modesta da premissa (1) nos permitirá evitar todas estas distrações sobre se as partículas subatômicas decorrentes dos processos de decaimento quântico vêm a existir sem uma causa. Só podemos deixar esta questão de lado por sua irrelevância à premissa (1’). Esta alegada exceção à premissa (1) (“o que quer que começa a existir tem uma causa”) não é relevante a (1’). Por quê? Porque o universo contém toda a realidade contígua de espaço-tempo. Toda a realidade física. Portanto, para o universo inteiro vir a existir sem uma causa, ele viria a existir do nada, o que é absurdo. Em eventos de decaimento quântico, as partículas não vêm a existir a partir do nada. Conforme explica Christopher Isham, o maior cosmólogo quântico da Grã-Bretanha:
É preciso ter cuidado quando se usa a palavra “criação” em contexto físico. Um exemplo conhecido é a criação das partículas elementares num acelerador. No entanto, o que ocorre nesta situação é a conversão de um tipo de matéria em outro, com a quantidade total de energia sendo preservada no processo.
Nestes eventos de decaimento quântico, as partículas não vêm a existir a partir do nada. Assim, a alegada exceção à premissa (1) não é exceção à premissa (1’), conforme a formulei, o que exigiria que o universo viesse a existir a partir do nada.
Permitam-me dar três razões para apoiar esta premissa (1’).
1. Algo não pode surgir a partir do nada. Pense nisto. Afirmar que algo pode vir a existir a partir do nada é pior do que mágica. Quando um mágico saca um coelho da cartola, ao menos, há aí um mágico, sem contar a cartola! Mas dizer que o universo veio a existir sem nenhum tipo de causa seria, simplesmente, vir a existir a partir da mera inexistência. Seria nada. Literalmente, é pior do que mágica. Você teria de crer que o universo inteiro justamente apareceu, em algum ponto no passado, por absolutamente nenhuma razão. Porém, ninguém, penso eu, acredita sinceramente que as coisas — por exemplo, um cavalo ou um vilarejo esquimó — possam, simplesmente, surgir sem uma causa.
Por vezes, os céticos responderão a esta questão dizendo que, na física, as partículas subatômicas (chamadas “partículas virtuais”) vêm a existir a partir do nada. Ou, em certas teorias da origem do universo, elas são descritas em revistas de divulgação científica popular como se fizessem algo do nada, de modo que o universo deve ser a exceção ao provérbio: “Não existe almoço grátis”.
Acho que esta resposta cética representa um abuso deliberado da ciência, conforme já sugeri. As teorias em questão têm a ver com a origem das partículas (ou do universo) como uma flutuação de um sistema físico, tal qual o vácuo ou campos quânticos. O vácuo, por exemplo, na física moderna, não é o que o leigo entende com a palavra “vácuo”, a saber, nada. Antes, na física, o vácuo é um mar de energia em agitação, regido por leis físicas e contendo uma estrutura física. Dizer ao leigo que, segundo tais teorias, algo vem do nada, a meu ver, representa uma deliberada representação equivocada dessas teorias.
Propriamente dita, a palavra “nada” é um termo de negação universal. Significa “não-algo”.[4] Assim, por exemplo, se eu disser: “Não comi nada no café da manhã hoje”, quero dizer: “Não comi coisa alguma no café da manhã hoje”. Se você ler um relato da Segunda Guerra Mundial e o texto disser que “Nada parou o avanço alemão de varrer a Bélgica”, quer dizer que o avanço alemão não foi parado por coisa alguma. Se um teólogo lhe disser que “Deus criou o universo a partir do nada”, ele quer dizer que a criação que Deus fez do universo não foi a partir de coisa alguma. A palavra “nada”, repetindo, é simplesmente um termo de negação universal, com o sentido de “não-algo”.
Há toda uma série de palavras assim na nossa língua. São termos de negação universal. “Ninguém”, por exemplo, significa “não alguém”.
Ora, como a palavra “nada” é, gramaticalmente, um pronome, ela pode ser usada como sujeito ou objeto direto de uma oração. Ao usar estes termos de negação universal como palavras supostamente a referirem-se a algo, pode-se gerar todo tipo de situação engraçada. Por exemplo, se você disser; “Vi ninguém no salão”, o sabichão dirá: “Ah, sim, ele anda passando bastante tempo ali, ultimamente!”. Se você disser: “Comi nada no almoço hoje”, ele dirá: “Sério? E estava gostoso?”. É um abuso destes termos de negação universal, como se estivessem se referindo a algo.
Estes tipos de jogos de palavras são tão antigos quanto a própria literatura. Por exemplo, na Odisseia de Homero, Odisseu se apresenta ao Ciclope como “ninguém”. Certa noite, Odisseu arrancou o olho do Ciclope. Os outros ciclopes o ouvem gritando e lhe berram de volta: “Qual é o seu problema, fazendo tanto barulho que não conseguimos dormir?”. O ciclope responde: “Ninguém está me matando! Ninguém está me matando!”. Eles respondem: “Se ninguém o está atacando, você deve estar doente, e não há nada que podemos fazer a este respeito!”.
Na versão desta mesma história segundo Eurípides, ele compõe uma espécie de apresentação humorística ao estilo de Abbott e Costello em “Who’s on first?”. É assim que Eurípides escreve:
“Por que você está gritando, Ciclope?”
“Ninguém acabou comigo!”
“Então, não há ninguém a feri-lo, afinal.”
“Ninguém está me cegando!”
“Então, você não está cego.”
“Tão cego quanto você!”
“Como é que ninguém o cegou?”
“Você está zombando de mim! Mas onde está este Ninguém?”
“Em nenhum lugar, Ciclope!”
O uso dessas palavras de negação como substantivos, em referência a algo, constituem uma piada. É uma piada!
Que espantoso, então, ver que alguns divulgadores científicos contemporâneos cuja língua materna é o inglês usam esses termos precisamente como substantivos de referência. Por exemplo, Lawrence Krauss, um ótimo físico, disse-nos sem perder a compostura que:
“Há uma variedade de formas de nada, [e] todas elas têm definições físicas.”
“As leis da mecânica quântica nos dizem que nada é instável.”
“70% da matéria dominante no universo é nada.”
“Não há nada ali, mas ele tem energia.”
“Nada pesa algo.”
“Nada é quase tudo.”[5]
Todas estas afirmações tomam a palavra “nada” como termo substantivo em referência a algo — por exemplo, o vácuo quântico ou campos físicos quânticos. Eles são realidades físicas e, portanto, claramente algo. Chamar essas realidades de nada é, na melhor das hipóteses, equivocado, garantindo a confusão aos leigos, e, na pior das hipóteses, como disse, uma deliberada representação equivocada da ciência em questão.
2. Se algo pode vir a existir do nada, torna-se inexplicável por que, simplesmente, coisa alguma vem à existência do nada. Pense nisto: por que bicicletas, Beethoven e refrigerante não vêm a existir do nada?[6] Por que é que só universos podem vir à existência do nada? O que torna o nada tão discriminatório? Obviamente, estou sendo jocoso, porque nada não é coisa alguma: ele não tem propriedades. Trata-se só de um termo de negação universal. Não há nada a ser limitado. “Nada” significa não-algo. Se as coisas podem, simplesmente, vir à existência a partir do nada, sem uma causa, todo tipo de coisa deveria estar fazendo o mesmo a todo instante.
A esta altura, o ateu provavelmente replicará: “Está bem, se tudo tem uma causa, qual é a causa de Deus?”. Fico sempre impressionado com a atitude complacente com a qual os alunos fazem esta pergunta. Eles imaginam terem dito algo realmente importante ou profundo, quando tudo que fizeram foi só entender mal a premissa. A premissa (1) não diz que tudo tem uma causa. Diz que tudo que começa a existir tem uma causa ou que, se o universo começou a existir, ele tem uma causa. Mas algo que é eterno não precisaria de uma causa, porque jamais passou a existir.
Algazali responderia a esta pergunta dizendo que Deus é eterno e incausado. Observe que não se trata de algo forçado em relação a Deus, porque é exatamente o que o ateu diz tradicionalmente sobre o universo: o universo é eterno e incausado. O problema, a meu ver, é que temos boas provas de que o universo não é eterno no passado, mas teve um começo, provas que analisaremos nas próximas semanas. Isto encurrala o ateu, que se vê obrigado a dizer que o universo surgiu sem uma causa, o que, na minha opinião, é absurdo.
3. A experiência comum e as provas científicas confirmam a verdade da premissa (1). A premissa (1) é sempre verificada e jamais falsificada. É difícil entender como alguém comprometido com a ciência moderna possa negar que a premissa (1) seja mais plausivelmente verdadeira do que falsa, à luz das provas.
Ouvi alguns céticos da internet responderem a este terceiro ponto dizendo que ele comete a falácia da composição. O que é ela? A falácia da composição envolve inferir que, porque cada parte de uma coisa tem certa propriedade, a coisa toda tem tal propriedade. Por exemplo, alguém talvez diga que, porque cada parte de um elefante tem peso leve, todo elefante tem peso leve. Seria, obviamente, falacioso. Comete a falácia da composição. Este terceiro ponto que estou apresentando — que a experiência comum e as provas científicas amparam a verdade da premissa (1) — não raciocina por composição. Ele não infere que, porque cada parte do universo tem uma causa, o universo inteiro tem uma causa. Ele nem sequer se refere a partes do universo!
Antes, este terceiro ponto é um caso do que se denomina raciocínio indutivo, que subjaz a toda a ciência. Infere-se a partir de uma amostra aleatória de itens alguma propriedade que é partilhada por itens desse tipo. Neste caso, o tipo em questão são coisas que começam a existir. Quando se veem as coisas que começam a existir, as provas científicas e a experiência comum é que elas sempre têm causas. A generalização: “O que quer que começa a existir tem uma causa para o seu começo” é uma inferência indutiva muito poderosa. Infere-se esta verdade geral com base numa amostra aleatória de casos típicos. A objeção é, na minha opinião, baseada só numa confusão entre raciocínio indutivo (que é raciocínio válido) e raciocínio por composição (que é raciocínio falacioso). Este terceiro argumento não é exemplo de raciocínio por composição.[7]
A meu ver, penso que esta primeira premissa tem uma presunção muito boa de ser verdadeira. Se o universo começou a existir, ele teve uma causa para o seu começo.
DISCUSSÃO COMEÇA
Aluno: Na cosmovisão cristã, é correto dizer que Deus fez o universo existir a partir do nada, ou será que cremos, enquanto cristãos, que não há nenhum conceito do nada para nós, pois não há jamais um estado em que Deus não estivesse presente? Em outras palavras, jamais houve um tempo em que foi verdade que nada estivesse presente. Faz sentido? Podemos dizer que Deus causou o universo a partir do nada, ou será que “nada” não tem nenhum sentido, porque Deus sempre esteve presente?
Dr. Craig: A visão cristã da criação é denominada creatio ex nihilo, que é a expressão latina para “criação a partir do nada”. Porém, conforme expliquei nos meus exemplos, quando o teólogo diz que Deus criou o universo do nada, o que ele quer dizer é que Deus não o criou a partir de coisa alguma. Deus criou o universo, mas ele não o criou a partir de coisa alguma. Aqui vai um jeito de pensar na questão. Aristóteles fez distinção entre diferentes tipos de causalidade, tal qual causalidade eficiente e causalidade material. Michelangelo é a causa eficiente da estátua Davi. Ele a esculpiu, ele a produziu. Ele é a causa eficiente de tal estátua. A causa material da estátua é o bloco de mármore que ele empregou. É esta a causa material. Michelangelo é a causa eficiente. Na criação ex nihilo, Deus é a causa eficiente do universo, e não há causa material. É este o jeito de pensar sobre a questão. Não é que havia algo chamado de “nada”, e Deus criou o universo a partir daquilo. Isto comete a falácia de utilizar a palavra “nada” como se fosse um termo referencial. Antes, ele quer dizer “não-algo”. Não houve causa material.
Aluno: Esperava que você mencionasse as causas aristotélicas. Não sou especialista neste assunto. Será que temos quaisquer exemplos de creatio ex nihilo além do universo? O senhor deu o exemplo de Michelangelo, mas aí há causa eficiente e material.
Dr. Craig: Tenho uma pergunta da semana no nosso site, ReasonableFaith.org, em que discuto esta questão.[8] Do ponto de vista cristão, a criação do nada é singular somente a Deus. Não há nada mais que tenha o poder de criar algo sem uma causa material. Um grande teólogo medieval, Escoto, disse que a distância entre ser e não-ser é infinita, de modo que seria necessário um ser de poder infinito para criar do nada. Não se trata de poder que as criaturas possuam. Somente Deus tem o poder de criar ex nihilo. Temos a capacidade de remodelar coisas materiais, de modo que o carpinteiro consegue criar, por exemplo, uma cadeira usando madeira, mas não consegue criar ex nihilo.
Se você estiver disposto a prosseguir um pouco mais comigo nesta questão, pode-se dar alguns exemplos possíveis, embora sejam bem incomuns. Neste curso, costumamos falar de objetos abstratos, como números, conjuntos, propriedades e assim por diante. Na filosofia da estética, há um debate parecido acerca da existência de coisas como composições musicais e produções literárias. Guerra e paz, de Tolstói, segundo muitos diriam, não pode ser identificado com nenhum exemplar físico, porque, do contrário, se fosse destruído, o romance Guerra e paz não existiria. Ou a Quinta Sinfonia de Beethoven não pode ser identificada com nenhuma série específica de marcas de tinta num papel. Antes, constituem-se objetos abstratos que têm exemplos ou exemplares no mundo. Estes livros físicos e partituras físicas são exemplares de um objeto abstrato, que é a Quinta Sinfonia ou Guerra e paz. É nisto que creem alguns esteticistas. Creem também, porém, que Beethoven criou a Quinta Sinfonia.[9] E pensam que Leo Tolstói criou Guerra e paz. Estas coisas não são objetos abstratos existentes eternamente. São contingentes e tiveram um começo, tendo sido criadas por seus compositores e autores.
Se for verdade, seria um exemplo de algo criado sem uma causa material, porque estas coisas não têm nenhum material. Não são feitas a partir de algo. Se conseguir entreter a ideia, seria um exemplo de criação em que se tem uma causa eficiente, mas nenhuma causa material.
Aqui vai mais um exemplo provocador que me foi sugerido pelo físico Jim Sinclair. Na cosmologia contemporânea, o espaço está em expansão. Não é que as galáxias estejam se afastando umas das outras num espaço vazio pré-existente, como partículas numa grande caixa vazia. Pelo contrário, o espaço em si está a expandir-se. O espaço é algo físico, tem propriedades físicas. De onde vem o novo espaço, à medida que se expande o universo? Obtém-se cada vez mais espaço, com o passar do tempo. Ele não vem de coisa alguma. Seria outro exemplo de algo criado ex nihilo. Seria uma ilustração possível de algo em que se teria uma causa eficiente, mas não se teria uma causa material.
Não estou sugerindo, de forma alguma, que são exemplos fulminantes. Acho, porém, que são experimentos mentais. São ilustrações que podem ajudar a provocar-nos a pensar acerca da ideia de criação ex nihilo, podendo torná-la mais inteligível e mais compreensível.
Aluno: É interessante que o senhor associou contingência com o começo do universo. Immanuel Kant disse que, caso se suponha que algo é contingente, dizer que ele tem uma causa se constitui só uma verdade analítica. Não poderíamos ir direto ao ponto e só dizer que esta premissa é verdadeira, do ponto de vista analítico?
Dr. Craig: Sejamos cautelosos. Verdade analítica significa que é verdadeira por definição, como “Um solteiro é um homem que não está casado”. Kant não achava que esta premissa causal fosse verdadeira, por definição. Pelo contrário, ele disse que se tratava de verdade sintética, e não de verdade analítica. Ele a chamou de proposição sintética a priori, ou seja, é verdade necessária universal, mas não verdadeira, por definição. Trata-se de verdade informativa. A ideia de que o que quer que comece a existir tem uma causa (ou, de modo mais modesto, se o universo começou a existir, ele tem uma causa), não é verdadeira, por definição. Trata-se de verdade informativa, para a qual buscaríamos provas a fim de crer nela.
DISCUSSÃO TERMINA
Estarei de volta no próximo domingo, e, então, vamos passar para a defesa da premissa realmente fundamental neste argumento, que é que o universo começou a existir.[10]
[1] 5:08
[2] Algazali, Kitab al-Iqtisad fi’l-I’tiqad, citado em S. de Beaurecueil, “Gazzali et S. Thomas d’Aquin: Essai sur la preuve de l’existence de Dieu proposée dans l’Iqtisad et sa comparaison avec les ‘voies’ Thomistes”, Bulletin de l’Institut français d’archéologie orientale 46 (1947): 203.
[3] 10:15
[4] 15:01
[5] Todas estas afirmações pertencem ao físico ateu Lawrence Krauss. Para referências, ver a transcrição do nosso diálogo: “Why Is There Something rather than Nothing?” [Por que há algo, em vez de nada?”].
[6] 20:23
[7] 25:04
[8] Ver a pergunta 216, “Tudo que começa a existir precisa ter uma causa material?”, em https://pt.reasonablefaith.org/artigos/pergunta-da-semana/tudo-que-comeca-a-existir-precisa-ter-uma-causa-material (acesso em abril de 2023).
[9] 30:01
[10] Duração total: 33:49 (Copyright © 2015 William Lane Craig)