#844 A aplicabilidade da matemática mais uma vez
August 02, 2023Olá, Dr. Craig.
Em primeiro lugar, agradeço pelas contribuições incríveis que fez no avanço da respeitabilidade intelectual do cristianismo.
Ultimamente, andei ponderando sobre o argumento da aplicabilidade da matemática. Depois de ver e ler boa parte do seu trabalho acerca do assunto, acho que, enfim, fiz pazes com ele após não estar assim antes. Consegui superar a objeção costumeira de que a função da matemática é necessária, mas uma questão ainda me corrói.
Parece-me que o argumento, necessariamente, implica que a matemática ser aplicada ou não ao universo é questão contingente; de fato, é o que se faz tão surpreendente. Se for assim, como seria um universo ao qual a matemática não se aplicou? Ou seja, um universo em que, por exemplo, as leis da física não são expressas de modo tão elegante a partir da matemática ou não se lhe conformam muito bem. Como é que seria um mundo assim? Seria caos ininteligível? Será que a física ainda operaria, mas incapaz de ser decifrada e expressa pela matemática? Ou será que tal universo, simplesmente, teria menos coisas às quais a matemática pudesse ser aplicada (talvez a sua falta de movimento, por exemplo, e, portanto, a sua falta de certo domínio que a matemática pudesse expressar)?
Justin
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Trata-se, sim, de questão contingente a matemática ser ou não aplicada ao universo físico! O jeito mais fácil de ver o assunto é perceber que é contingente que o universo sequer exista. Pode não ter havido absolutamente nenhum fenômeno físico, uma vez que a criação é ato de livre volição de Deus e, portanto, contingente.
Porém, mesmo que fosse realidade física, não fica claro que teria de ser descritível matematicamente. Não poderia ter havido o caos? Ninguém menos do que Albert Einstein pensava que sim. Escreveu ele:
Deve-se esperar um mundo caótico que não pode ser compreendido pela mente de forma alguma. Pode-se (sim, deve-se) esperar que o mundo esteja sujeito à lei, apenas na medida em que o ordenamos por meio da nossa inteligência... Em contraste, a ordem criada pela teoria da gravitação de Newton, por exemplo, é completamente diferente. Mesmo que os axiomas da teoria sejam propostos pelo homem, o sucesso de tal projeto pressupõe alto grau de ordenamento do mundo objetivo, e isto se poderia esperar a priori. É este “milagre” que se reforça constantemente, à medida que se expande o nosso conhecimento.[i]
A questão continua a ser assunto de debate. Em 2015, o Instituto de Questões Fundamentais [Foundational Questions Institute], uma ONG dedicada à investigação de questões fundamentais da física e cosmologia, promoveu um concurso de redação com o título: “Engano ou verdade: a conexão misteriosa entre a física e a matemática”, inspirada pelo artigo de Wigner, com o intuito de abordar a questão: por que parece haver uma conexão misteriosa entre a física e a matemática?[ii] Na sua intervenção, o filósofo da física Tim Maudlin sustenta que mesmo a aplicabilidade de matemática elementar, como a aritmética e a geometria, demanda explicação.[iii]
Mas tudo isto, na verdade, mostra-se irrelevante. Isto porque o argumento de Wigner não tinha a ver com a aplicabilidade das verdades necessárias da matemática elementar. Antes, todo o seu interesse estava na matemática elegante que vem a expressar-se nas leis da física. Tais leis físicas não são necessárias, mas contingentes, do ponto de vista lógico. O universo não tinha de ser descritível pelas leis incríveis e tão maravilhosamente precisas descobertas pelo físico matemático. Ao descrever natureza a priori da investigação matemática, especialmente da matemática tão valiosa na física, Wigner escreve:
Enquanto é verdade inquestionável que os conceitos da matemática elementar e, em particular, da geometria elementar, tenham sido formulados para descrever entidades diretamente sugeridas pelo mundo real, o mesmo não parece ser verdade em relação aos conceitos mais avançados, em especial os conceitos que desempenham papel tão importante na física... A maioria dos conceitos matemáticos mais avançados, tais quais números complexos, álgebras, operadores lineares, conjuntos de Borel — e esta lista poderia continuar quase indefinidamente —, foi desenvolvida de tal maneira que são assuntos adequados a partir dos quais o matemático consegue demonstrar a sua própria engenhosidade e senso de beleza formal.[iv]
Ao usar como exemplos as leis da natureza que são tremendamente avançadas do ponto de vista matemático, Wigner já forçou a questão para um plano superior.
De acordo com Mark Steiner, no seu belo livro The Applicability of Mathematics as a Philosophical Problem [A aplicabilidade da matemática como problema filosófico], os físicos não veem nenhuma dificuldade na aplicabilidade da aritmética ao mundo, uma vez que se trata justamente de questão de lógica, e não de física; antes, eles se concentram na adequação aparentemente milagrosa de conceitos fisicamente insignificantes, como a álgebra matricial ou os espaços de Hilbert para a mecânica quântica.[v] É o empenho do livro de Steiner proporcionar inúmeros exemplos da aplicabilidade dos conceitos matemáticos que não podem ser instanciados fisicamente.[vi] Alguns dos seus exemplos são os mesmos aos quais Wigner já apelou, tal qual a aplicabilidade descritiva de funções analíticas de variáveis complexas, a utilização de Heisenberg da mecânica matricial nas suas equações clássicas, um procedimento para o qual, diz Steiner, “não há nenhuma justificação física” e que substitui todas as variáveis por matrizes “que não têm nenhum significado físico”, além da aplicabilidade do formalismo do espaço de Hilbert à mecânica quântica, que Steiner denomina “fisicamente ininteligível”. Assim, mesmo que o universo físico precise ter alguma estrutura matemática, não se consegue abordar a questão levantada por Wigner.
Islami e Wiltsche, nem um pouco amistosos com o teísmo filosófico, concluem: “Confrontados com esta situação, duas opções parecem disponíveis: ou admitimos que a situação é, deveras, extremamente misteriosa; ou inferimos de modo abdutivo que deve ter havido alguma harmonia pré-estabelecida”.[vii] Wigner se contentou com a primeira opção. Steiner defende a segunda, argumentando que devemos aceitar que o nosso universo é de “uso intuitivo”, afinado para as operações da mente humana e, portanto, para o raciocínio matemático. Islami e Wiltsche divagam com acerto: “O ‘antropocentrismo’ de Steiner relembra a velha ideia racionalista de que é parte da criação de Deus ter feito com que o mundo e as nossas mentes se encaixem como uma mão na luva”.[viii] O grande físico Paul Dirac caracterizou a situação da seguinte maneira: “Seria possível, talvez, descrever a situação dizendo que Deus é matemático de altíssima ordem que empregou matemática avançadíssima para construir o universo”.[ix]
[i] Albert Einstein, carta a Maurice Solovine, 30 de março de 1952, in Albert Einstein, Letters to Solovine, com Introdução de Maurice Solovine, trad. Wade Baskin (Nova Iorque: Philosophical Library, 1987), pp. 132–33. Devo a Melissa Cain Travis esta referência.
[ii] Anthony Aguirre, Brandon Foster e Zeeya Merali, eds., Trick or Truth?: The Mysterious Connection Between Physics and Mathematics, Frontiers Collection (Cham, Suíça: Springer, 2016).
[iii] Tim Maudlin, “How Mathematics Meets the World”, in Trick or Truth?, pp. 92-94. Igualmente, o matemático Richard Hamming se maravilha de que os números nos sirvam para contar as coisas na realidade (R. W. Hamming, “The Unreasonable Effectiveness of Mathematics”, American Mathematical Monthly 87/2 [fevereiro de 1980], p. 84). O filósofo da física Arezoo Islami considera que o maravilhamento de Hamming seja bastante apropriado: “Caso os corpos não fossem razoavelmente estáveis, não conseguiríamos abstrair os números, e a aritmética perderia a sua aplicação” (Arezoo Islami, “The Unreasonable Effectiveness of Mathematics: From Hamming to Wigner and Back Again”, Foundations of Physics 52 [2022]: 72 ss.).
[iv] Eugene Wigner, “The Unreasonable Effectiveness of Mathematics in the Natural Sciences”, in Communications in Pure and Applied Mathematics 13/1 (Nova Iorque: John Wiley & Sons, 1960), pp. 2-3.
[v] Mark Steiner, The Applicability of Mathematics as a Philosophical Problem (Cambridge, Mass.: Harvard University Press, 1998), pp. 15, 27.
[vi] Ver Steiner, Applicability of Mathematics, pp. 36-40, 95-97, 102.
[vii] A. Islami e H. A. Wiltsche, “A Match Made on Earth: On the Applicability of Mathematics in Physics”, in Phenomenological Approaches to Physics, ed. H. A. Wiltsche e P. Berghofer, Synthèse Library 429 (Cham, Suíça: Springer, 2020).
[viii] Islami and Wiltsche, “Match Made on Earth”. Correto: é, realmente, uma combinação feita no céu!
[ix] P. A. M. Dirac, “The Evolution of the Physicist’s Picture of Nature”, Scientific American 208/5 (maio de 1963), p. 53.
- William Lane Craig