#843 Mutações aleatórias e epigenética
August 02, 2023Na pergunta 671: Mutações “aleatórias” ocorrem por “acaso”?, o senhor diz:
Passamos a ver que a teoria evolutiva não afirma que as mutações que se encontram na raiz do desenvolvimento evolutivo e, portanto, da própria evolução ocorram sem propósito ou por acaso, conforme popularizadores e mesmo cientistas descuidados costumam dizem. Ao entendermos corretamente o significado de “aleatório” na teoria evolutiva, passamos a ver que a evolução é completamente compatível com a direção divina providencial do processo evolutivo.
O senhor diz que, na evolução, aleatório não é lá tão aleatório. Porém, os biólogos declaram que o é, conforme diz este artigo emblemático:
Desde a primeira metade do século XX, a teoria evolutiva é DOMINADA pela ideia de que as mutações ocorrem ALEATORIAMENTE no que diz respeito às suas consequências. Em comparação com as expectativas, descobrimos que as mutações ocorrem com menos frequência em regiões do genoma limitadas funcionalmente (em razão da epigenética). A ocorrência aleatória de mutações no que diz respeito às suas consequências é um AXIOMA sobre o qual repousa a maior parte da biologia e da teoria evolutiva. Esta simples proposição tem tido efeitos PROFUNDOS nos modelos de evolução desenvolvidos desde a síntese moderna, moldando a forma em que os biólogos pensam e estudam a diversidade genética ao longo do último século.
Sabe-se AGORA que a composição nucleotídica, as características epigenômicas e o viés no reparo de DNA podem influenciar a probabilidade de que as mutações ocorram, em diferentes locais ao longo do genoma. Em conclusão, descobrimos ASSOCIAÇÕES entre frequências de mutação e características bioquímicas conhecidas por afetar o reparo de DNA e a vulnerabilidade do dano.
As probabilidades de mutação preditas pelo epigenoma explicaram mais de 90% da variação no padrão de mutações observadas ao redor dos corpos de genes. A nossa descoberta resulta em uma NOVA EXPLICAÇÃO das FORÇAS a conduzirem padrões de VARIAÇÃO NATURAL (e não seleção natural), desafiando um PARADIGMA DE LONGA DATA em relação à ALEATORIEDADE da mutação e dando inspiração a direções futuras para a pesquisa teórica e prática na biologia e na evolução.
“Mutation bias reflects natural selection in Arabidopsis thaliana”, revista Nature 1/2022.
A revista Nature está dizendo que os biólogos acreditavam serem as mutações verdadeiramente aleatórias, mas, em virtude do novo campo da epigenética, tudo isto estava ERRADO.
Sinto que o senhor atracou o seu vagão na visão genocêntrica da evolução e perdeu de vista o novo campo teleológico da epigenética, que acrescenta 1050.000 informações ao conjunto de DNA de cada célula.
Vaughan
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Não há por que se preocupar, Vaughan! No meu tratamento da Doutrina da Criação, para o meu projeto de teologia filosófica sistemática, tenho um extenso “Excurso sobre a origem e evolução da vida”, em que discuto os fatores epigenéticos que ajudam a moldar a evolução dos organismos. Na síntese contemporânea evolutiva estendida, em contraste com a síntese moderna que a precedeu, “importantes condutores da evolução, condutores estes que não podem ser reduzidos a genes, devem ser entretecidos na própria tapeçaria da teoria evolutiva”.[i] O enfoque “genocêntrico” da síntese moderna não consegue captar toda a gama de processos a dirigirem a evolução. “Peças faltantes incluem como o desenvolvimento físico influencia a geração de variação (viés de desenvolvimento); como o ambiente molda diretamente os traços dos organismos (plasticidade); como os organismos modificam os ambientes (construção de nichos); e como os organismos transmitem mais do que genes ao longo das gerações (herança extragenética)”.[ii] Por isso, você está bastante correto em notar esta mudança significativa na biologia evolutiva, e agradeço por compartilhar comigo este artigo interessantíssimo.
Ainda assim, acho que você não entendeu o cerne da minha resposta aos proponentes da síntese moderna, que alegam ocorrerem as mutações de modo aleatório. Muitos cristãos pensam que a teoria evolutiva é incompatível com o teísmo cristão, uma vez que, segundo a visão cristã, Deus supervisiona de maneira providencial quaisquer mutações que ocorram e, portanto, elas não ocorrem cegamente ou por mero acaso. A minha observação foi que, quando os proponentes da síntese moderna explicaram o que queriam dizer com “aleatório”, acontece que mutações “aleatórias” não são nem um pouco incompatíveis com a direção das mutações por parte de Deus. O que eles dizem significar “aleatório” é que as mutações não ocorrem em benefício dos organismos hospedeiros. Ou seja, não há, nas causas naturais das mutações, nenhuma direcionalidade a conduzir o processo em favor do florescimento do organismo hospedeiro. Tal definição de “aleatório”, obviamente, é compatível com a direção e até mesmo com a causação, por parte de Deus, das mutações. Mutações dirigidas por Deus não precisam implicar algum benefício para o organismo hospedeiro. Assim, mutações podem ser tanto dirigidas por Deus quanto aleatórias, no sentido definido.
O artigo que você cita não diz nada para contradizer a definição de “aleatório” que citei dos proponentes da síntese moderna. A mera maiusculização da palavra “aleatório” não mostra que está sendo definida de modo diferente. De fato, você deveria ter maiusculizado as palavras: “no que diz respeito às suas consequências”. A expressão indica que as mutações são indiferentes ao benefício conferido ao seu organismo hospedeiro. A argumento do artigo deles é mostrar que, na planta específica que estudaram, as mutações são, de fato, distorcidas ou limitadas por fatores epigenéticos para suprimirem mutações deletérias, de modo que as mutações tendem ao benefício da planta em questão.
Os autores do artigo reportam que descobriram, na planta Arabidopsis thaliana, um viés de mutação associado a fatores epigenéticos que “age para reduzir os níveis de variação deletéria, na Arabidopsis, ao diminuir a velocidade de mutação em genes limitados” (p. 104). Comparam este viés com um par de dados viciados: “O valor de adaptação deste viés pode ser conceitualizado com a analogia de dados viciados que tenham probabilidade reduzida de saírem números baixos (isto é, mutações deletérias) e, portanto, probabilidade maior de saírem números altos (isto é, mutações benéficas)”. Assim, em nítido contraste com as afirmações da síntese moderna, as mutações podem, sim, ser enviesadas para o benefício do organismo hospedeiro em que elas ocorrem.
O teórico evolutivo James Shapiro também defendeu o que denomina de engenharia genética natural (EGN), de acordo com a qual os organismos reestruturam ativamente os seus genomas no decorrer da evolução, usando um conjunto de ferramentas bioquímicas e celulares de EGN para reescrever o seu DNA.[iii] Ele argumenta que organismos têm um sistema de SOS embutido que pode, realmente, reagir a estressores e perigos, gerando mutações que ajudarão a irem ao encontro do desafio.
Por isso, se, na síntese evolutiva estendida, acontece que as mutações ocorrem mesmo de modo prejudicial, para o benefício do organismo hospedeiro, tanto melhor assim! Isto só reforça a minha observação de que Deus pode estar a dirigir as mutações que levam adiante a evolução. O que temos, então, é uma forma poderosa de argumento que chamo de argumento do tipo “Mesmo que...; mas de fato...”. Mesmo que as mutações sejam aleatórias, elas podem ser dirigidas por Deus; mas, de fato, elas não são aleatórias.
[i] K. Laland et al., “Does evolutionary theory need a rethink?”, Nature 514 (9 de outubro de 2014), p. 161.
[ii] Laland et al., “Does evolutionary theory need a rethink?”, p. 162.
[iii] James A. Shapiro, Evolution: A View from the 21st Century. Fortified (Chicago: Cognition Press, 2022), p. xxii.
- William Lane Craig