#123 A Concepção Islâmica de Deus é Moralmente Inadequada?
September 25, 2014Dr. Craig,
Primeiramente, eu gostaria de lhe agradecer por todo o trabalho que você tem feito. Como muçulmano, tenho conseguido tirar muito proveito de muitos dos seus artigos e tenho conseguido entender melhor o cristianismo também.
Minha pergunta lida com a questão de Deus ser todo amoroso. Recentemente tive o prazer de escutar seu debate com Shabir Ally sobre o conceito de Deus. Você levantou a objeção de que a concepção islâmica de Deus é moralmente deficiente por que, de acordo com essa concepção, Deus não é todo amoroso.
Eu gostaria apenas de levantar alguns pontos:
1) Como exatamente você poderia me provar que é necessário que Deus seja todo-amoroso? Você deriva isso do argumento ontológico em defesa da existência de Deus ou por meio de intuição natural?
2) Eu recebi a seguinte objeção de um colega muçulmano:
O maior ser concebível terá o menor número de atributos essenciais possível. Por que isso? Por definição o maior ser é o ser mais poderoso (já que ele explica tudo o que existe, isto se segue de qualquer versão do Princípio de Razão Suficiente que você quiser). Segue-se disso que um ser poderoso teria o menor número de restrições possível. Então, vamos dizer que Alá tivesse um atributo essencial negativo, por exemplo, Alá essencialmente não pode nos prover com um milagre se temos uma vaga lei natural específica contra ele. Claramente, poderíamos conceber um ser mais poderoso! Ok, e quanto ao atributo da existência. Se ele não tivesse esse atributo ele não poderia ser um ser todo poderoso. Portanto somos obrigados a colocar este atributo em sua natureza essencial. Em outras palavras, se alguém quer colocar um atributo no campo essencial de Alá, então esse alguém tem que aceitar o ônus de fornecer provas para suas afirmações. Assim, por que Alá precisa ser TODO amoroso?! Por que Alá precisa amar tudo e agir?!
Achei este ponto interessante. Em outras palavras, ao definir absolutos sobre Deus não estaríamos limitando-o dizendo que ele não pode fazer certa coisa como, por exemplo, não amar? Não seria melhor dizer que Deus tem uma escolha e, portanto, não é limitado?
3) Quando um cristão me diz que Deus ama a todos, mesmo o pecador, eu lhe pergunto como um Deus moralmente perfeito poderia amar o pecador que desafia a Deus e causa o mal àqueles que estão ao seu redor. Normalmente recebo a resposta de que Deus “odeia o pecado e ama o pecador” (que aparentemente é uma citação de Ghandi!). Porém, isto é realmente possível? Esse tipo de raciocínio nunca é aplicado às decisões judiciais ou até mesmo a decisão de Deus no dia do julgamento. Quando alguém decide algo, ele leva em conta o indivíduo e o pune também. Como podemos dizer que Deus ama a pessoa cujo coração está em trevas, cheio de pecado e afronta a Deus? Isso não implica uma aprovação implícita ou indiferença quanto a essa rejeição? Podemos realmente remover o pecado do pecador? Dessa forma, Deus poderia amar o pecado?
4) Não é justo que Deus talvez recompense os crentes e justos dando a eles amor (ou talvez mais amor) e afeto para o bem contínuo deles. Parece injusto pensar que Deus amaria igualmente todas as pessoas a despeito das incríveis diferenças de valores. Poderíamos dizer que Deus ama Jesus, digamos, tanto quanto Ele ama os opressores brutais no mundo? Como podemos dizer que Deus dá exatamente o mesmo amor? E se o amor Dele é graduado e varia de acordo com o crente, como São Tomás de Aquino afirma, então você implicitamente admite que existe um aspecto de justiça em seu amor. Portanto, a acusação do Deus islâmico ser moralmente deficiente parece mais fraca, uma vez que você concedeu que Deus pode julgar seu amor de acordo com a pessoa.
Eu apreciaria seus pensamentos sobre isso e espero me beneficiar do seu conhecimento.
Kevin
United States
Dr. Craig responde
A
Obrigado por suas perguntas perspicazes, Kevin! Eu gosto muito de conversar com muçulmanos sobre estas questões que são mutuamente importantes.
Para leitores que não ouviram meu debate com Shabir Ally, me permitam apresentar um pouco de contexto ao reproduzir aqui o argumento da minha fala de abertura:
Isso nos leva a minha segunda alegação, que o conceito muçulmano de Deus é racionalmente deficiente. Agora, ao declarar isso, eu não estou tentando diminuir ou atacar alguém pessoalmente. Apenas estou dizendo que me parece que o conceito islâmico de Deus tem problemas reais que fazem com que ele seja racionalmente deficiente. Deixe-me compartilhar apenas um dessas deficiências, a saber: o islã tem um conceito de Deus que é moralmente deficiente.
Nós vimos que muçulmanos e cristãos concordam que Deus por definição é o maior ser concebível e que além de ser onipotente, onisciente, onipresente, e assim por diante, o maior ser concebível também deve ser moralmente perfeito. Isso significa que Deus deve ser um ser amoroso e benevolente. Portanto, Deus, como o ser perfeito, deve ser todo-amoroso.
E isto é exatamente o que a Bíblia afirma. A Bíblia diz,
"Deus é amor, . . . Nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: em que Deus enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por meio dele vivamos." (I João 4.8, 10).
Ou novamente ela diz,
"Mas Deus dá prova do seu amor para conosco, em que, quando éramos ainda pecadores, Cristo morreu por nós." (Romanos 5.8).
Jesus ensinou o amor incondicional de Deus pelos pecadores. Vemos isso em suas parábolas sobre o filho pródigo e sobre a ovelha perdida, em sua prática de tomar refeições com os imorais e impuros e em suas palavras, como aquelas no sermão do monte. Ele disse, por exemplo,
"Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo, e odiarás ao teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem; para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus; porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos. Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis? não fazem os publicanos também o mesmo? E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais? não fazem os gentios também o mesmo? Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial." (Mateus 5.43-48)
O amor do Pai Celestial é imparcial, universal e incondicional.
Que contraste com o Deus do Alcorão! De acordo com o Alcorão, Deus não ama os pecadores. Este fato é enfatizado repetidamente e de forma consistente, como uma batida ao longo das páginas do Alcorão. Apenas ouça algumas das seguintes passagens:
"Deus não ama os descrentes" (III. 33)
"Deus não ama os ímpios e pecadores" (II. 277)
"Deus não ama aqueles que fazem o mal" (III. 58)
"Deus não ama os orgulhosos" (IV. 37)
"Deus não ama os transgressores" (V. 88)
"Deus não ama os pródigos" (VI. 142)
"Deus não ama os traiçoeiros" (VIII. 59)
"Deus é um inimigo para os descrentes" (II. 99)
Repetidamente o alcorão declara que Deus não ama as mesmas pessoas que a Bíblia diz que Deus ama tanto que Ele enviou Seu Filho para morrer por elas!
Isso pode parecer paradoxal à luz do fato de que o Alcorão chama Deus de "al-Rahman al-Rahim"-- o Todo-misericordioso -- até que você entenda que, de acordo com o alcorão, o que a misericórdia de Deus realmente significa é que se você acreditar e fizer boas obras, então você pode esperar que Deus irá ignorar seus pecados e recompensá-lo por suas boas obras. Assim, o Alcorão promete,
"Trabalhe e Deus certamente verá suas obras." (IX. 105)
"Toda alma será paga inteiramente por aquilo que merece." (II. 282)
"Aqueles que acreditam e fazem obras de retidão e realizam a oração e pagam esmolas -- o salário deles os aguarda com o Senhor." (II. 278)
De acordo com o alcorão o amor de Deus é, portanto, reservado apenas para aqueles que o merecem. Ele diz,
"Para aqueles que acreditam e fazem justiça, Deus irá designar amor." (XIX 97).
Portanto, o alcorão nos assegura o amor de Deus para aqueles que temem a Deus e fazem o bem; mas Ele não tem amor pelos pecadores e incrédulos. Assim, na concepção islâmica, Deus não é todo-amoroso. Seu amor é parcial e deve ser conquistado. O Deus muçulmano somente ama aqueles que primeiro o amam. Dessa forma, o amor Dele não vai além do amor que Jesus disse que até mesmo os coletores de impostos e descrentes exibem.
Você não acha que este é um conceito inadequado de Deus? O que você acharia de um pai que dissesse a seus filhos, “Se você alcançar os meus padrões e fizer o que eu digo, então eu irei te amar”? Alguns de você tiveram pais assim, que não lhe amaram incondicionalmente, e vocês sabem as cicatrizes emocionais que vocês carregam como resultado disso. Como o maior ser concebível, o ser mais perfeito, a fonte de toda bondade e amor, o amor de Deus deve ser incondicional e imparcial. Portanto, o conceito islâmico de Deus me parece moralmente deficiente. Eu, portanto, não posso aceitá-lo racionalmente.
Assim, em resposta às suas perguntas:
1. Como é evidente acima, eu considero o ponto de partida para o meu argumento nossa convicção compartilhada, como cristãos e muçulmanos, que Deus é o maior ser concebível. Esta compreensão de Deus é, como você notou, o centro do argumento ontológico de Anselmo, apesar de nós não estarmos endossando o argumento dele aqui. A ideia é que o maior ser concebível deve ser moralmente perfeito. Isso parece auto-evidente: se um ser é, de alguma forma, moralmente imperfeito, então ele não é um ser perfeito e, portanto, não é o maior ser concebível. A jogada chave, então, é afirmar que a perfeição moral implica ser todo-amoroso. Isso parece intuitivamente óbvio para mim, pois amor é uma perfeição moral e, portanto, um ser perfeito será um ser que é o mais amoroso possível.
2. Não estou muito impressionado com o argumento do seu amigo que você cita. Primeiro, apesar da teologia tradicional cristã considerar Deus absolutamente simples, eu não vejo qualquer razão para pensar que é melhor ter o menor número possível de atributos essenciais (ver Pergunta #111). De fato, o oposto parece ser o certo! O maior ser concebível não será meramente um ser essencialmente todo-poderoso, eterno, santo, onisciente, onipresente, etc., etc. (Pense nos 99 lindos nomes de Deus no Alcorão!) Então, não vejo fundamento para pensar que Deus não pode ter uma multiplicidade de atributos essenciais. Na verdade, ser maximamente grande implica ter um número grande de atributos distintos, tais como aqueles que eu acabei de mencionar.
Quando seu amigo diz que um ser onipotente terá o menor número de restrições possível, ele está dando voz à típica visão Islâmica do poder de Deus que triunfa sobre tudo, até mesmo sobre Sua própria natureza. Deus é tão poderoso que ele poderia dizer aos muçulmanos fiéis no Dia do Julgamento, “Ha, ha! Enganei vocês! Estou mandando todos vocês para o inferno eterno por acreditar em mim e no meu profeta!”. Nessa visão, Deus não é restringido nem mesmo por Sua própria bondade. Eu discordo completamente que isso faz com que Deus seja um ser maior. Pelo contrário, uma Deidade malévola assim é moralmente falha e, portanto, não é perfeita. Devemos insistir que a onipotência de Deus opera consistentemente com Sua perfeição moral.
Agora, eu assumo o ônus da prova que seu amigo requer. Meu argumento é que grandeza máxima implica perfeição moral e que perfeição moral implica ser todo-amoroso. Esta primeira implicação parece inegável. A questão chave é a segunda implicação. Ela é baseada no fato evidente de que ser amoroso é uma perfeição moral ou uma propriedade que faz parte de um ser maximamente grande e que é melhor ser todo-amoroso do que ser parcialmente amoroso.
3. A resposta a esta terceira pergunta é, “Sim, enfaticamente Sim!” Você pode separar o pecado do pecador. Todo bom pai sabe disso. Seu filho ou filha adolescente rebelde irá partir seu coração precisamente porque você o ama a despeito de seu comportamento desafiador e mal. Se você não amasse seu filho, não doeria tanto. Mas o fato é que você ama seu filho, a despeito dos seus caminhos errados.
No contexto de um tribunal, não há razão para pensar que o juiz não possa amar o acusado a despeito de sua obrigação de fazer justiça imparcialmente.
Deus nos ama porque nós somos pessoas criadas à Sua imagem e, portanto, somos portadores de valor moral intrínseco. Ele odeia as coisas pecaminosas que fazemos e lamenta a bagunça que temos feito em nossa vida e no mundo, mas ele nos ama como Seus próprios filhos. Não há inconsistência aqui; na verdade, é isso que um ser moralmente perfeito faria.
4. Aqui chegamos a um ponto muito sutil. Note como eu coloco a noção de um ser todo-amoroso: o amor de Deus é imparcial, universal e incondicional. Eu não faço qualquer afirmação sobre a intensidade do amor de Deus sendo a mesma para todas as pessoas. Talvez seja, talvez não seja. Não estou defendendo isso. Estou dizendo que um ser moralmente perfeito amaria as pessoas imparcialmente, todas as pessoas, e sem exigir nenhum requisito especial. Mas Alá não tem qualquer amor pelos descrentes. Esta não é somente uma diferença em grau, mas é como a diferença entre a noite e o dia!
Naturalmente, aqueles que respondem ao amor de Deus irão experimentar o amor de Deus de uma forma mais completa e profunda do que aqueles que o rejeitam. Isso é parte do que significa estar em um relacionamento de amor. Esse relacionamento com Deus está no coração do cristianismo. É o que faz o céu ser tão maravilhoso. Nesse sentido, podemos concordar que aqueles que são salvos serão recompensados com uma medida maior do amor de Deus em um sentido experiencial.
Eu acredito que esta diferença moral entre o Deus do Novo Testamento e o Deus do Alcorão é tão importante quanto as diferenças sobre a Trindade, pois ela afeta diretamente e de forma fundamental quem Deus é.
Notas
O debate em questão é “O Conceito de Deus no Islã e no Cristianismo” entre Dr. Craig e Shabir Ally, que aconteceu na Universidade McMaster no Canadá. O vídeo do debate é um dos quatro vídeos inclusos no DVD “Cristianismo e Islã”
- William Lane Craig