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#124 Equívocos Relacionados ao Conhecimento Médio

September 25, 2014
Q

Olá dr Craig.

Segue abaixo um argumento que eu escrevi a um amigo após uma discussão sobre molinismo, em que eu afirmei que o conhecimento médio e a visão libertária da liberdade são incompatíveis. O argumento parece sólido para mim, mas eu estaria muito interessado em ouvir onde você acha que o meu raciocínio falha já que eu não sou um filósofo profissional. Muito obrigado.

aqui está o argumento:

Quando você considera o status da verdade de declarações contrafatuais, eu acredito que essas declarações precisam ter informações suficientes nelas para determinar se elas são verdadeiras ou falsas.

Considere a seguinte declaração a fim de entender porque tem que ser assim:

- “Se você tivesse cortado todo seu cabelo ontem, então você estaria careca”.

Duas coisas podem ser ditas sobre esta declaração:

1) é um contrafatual

2) ela é verdade

Esta declaração é contrafatual porque ela é contrária ao mundo real: você não cortou realmente todo seu cabelo ontem. E esta declaração é verdade; de fato, é verdade que “SE você tivesse cortado todo seu cabelo ontem, ENTÃO você estaria careca hoje”.

Mas a única razão pela qual nós PODEMOS dizer que esta declaração contrafatual é verdadeira é que, apesar de ser um contrafatual, ela contém informação suficiente EM SI MESMA para determinar que ela é verdadeira. Ou seja, a informação “você cortou todo seu cabelo ontem” é suficiente para determinar sua calvície de hoje.

Considere agora a seguinte declaração contrafatual:

- “Se você encontrasse água sob a pressão de 100.000 Pa, então ela estaria em estado líquido”.

Vamos perguntar: isso é verdade?

Nossa resposta tem que ser “Bem, eu não sei!”. Pressão é um parâmetro necessário, mas a fim de dizer que a água estaria em estado líquido, EU TAMBÉM precisaria saber a sua temperatura. Pressão E temperatura determinariam seu estado, e somente então eu poderia saber se a declaração é verdadeira ou não. Se as condições hipotéticas não determinam a verdade do contrafatual, então eu não posso saber se ele é verdade e nem Deus pode, já que falta a nós dois a informação necessária para responder essa pergunta isolada em particular.

Portanto, quando você aplica isto ao conhecimento médio, ou seja, o conhecimento de contrafatuais da liberdade das criaturas, eu faço a seguinte pergunta:

- Deus poderia saber antes do decreto criativo o que Pilatos LIVREMENTE escolheria se ele fosse colocado em todas as condições bíblicas? (isto é, crucificar Jesus ou não). Como visto acima, somos capazes de saber se este contrafatual é verdade ou não APENAS SE ele contém informações suficientes para determinar o seu status de verdade. Ou seja, precisamos saber que “colocar Pilatos em todas as condições bíblicas” determina que “Pilatos escolheria crucificar Jesus”. Mas esta determinação, por definição, somente está disponível se Pilatos NÃO tem liberdade no sentido libertário. Por definição, se Pilatos tem liberdade no sentido libertário, então, a despeito de TODAS as condições bíblicas corretas, ele ainda pode escolher um caminho ou outro, e nos falta informações para saber o que ele REALMENTE escolheria. Portanto, Deus não poderia ter conhecimento médio da liberdade libertária das criaturas anteriormente ao decreto criativo.

Novamente, eu acredito que Deus tinha conhecimento médio, mas a única razão pela qual isso é possível é porque eu acredito que temos uma liberdade compatibilista, não uma liberdade libertária.

Está claro? Fique à vontade para confrontar meu pensamento.

Guillaume

United States

Dr. Craig responde


A

Sua pergunta é interessante, Guillaume, porque você quer combinar conhecimento médio com uma visão compatibilista de liberdade, de acordo com a qual nossas ações são causalmente determinadas pelas circunstâncias em que nós nos encontramos, enquanto o molinista afirma que nós permanecemos não determinados em circunstâncias completamente especificadas que permitam liberdade.

Parece-me que sua visão não irá funcionar porque ela irá reduzir o conhecimento médio de Deus ao Seu conhecimento natural (o conhecimento de Deus de todas as verdades necessárias) ou ao Seu conhecimento livre (o conhecimento de Deus de verdades contingentes que é posterior ao Seu decreto criativo). Será conhecimento natural se, assim que todas as circunstâncias e leis da natureza estejam especificadas, seja logicamente necessário que alguém escolha um certo caminho. Será conhecimento livre se for logicamente contingente como alguém escolhe assim que todas as circunstâncias e leis da natureza estejam especificadas. Então é verdade que você pode atribuir a Deus conhecimento contrafatual, assim como ele tem conhecimento contrafatual de quais eventos físicos ocorreriam sob várias circunstâncias especificadas, mas isso não é, de fato, conhecimento médio. Para serem consideradas como conhecimento médio, as contrafatuais relevantes tem que ser (1) contingentemente verdadeiras e (2) verdadeiras anteriormente ao decreto de Deus.

Mas e sua crítica da perspectiva molinista? Parece-me que ela é baseada em vários equívocos. Você está certo quando diz que, a fim de ter um valor verdade, os contrafatuais em questão precisam ter informações suficientes em suas cláusulas antecedentes especificando as circunstâncias. Alguns contrafatuais podem não ser nem verdadeiros nem falsos porque as circunstâncias em suas cláusulas antecedentes são insuficientemente especificadas. Na prática nós resolvemos este problema ao simplesmente presumir que o mundo real é mantido constante exceto pela alteração das circunstâncias mencionadas, e então nós perguntamos o que seria verdade. Até mesmo em seu exemplo de cortar todo o seu cabelo você mantém constante as leis reais da natureza governando a rapidez com a qual os cabelos crescem! Mas ao lidar com o conhecimento médio divino Alfred Freddoso e Thomas Flint resolveram este problema de forma elegante e eficaz ao simplesmente estipular que o que eles chamam “contrafatuais da liberdade da criatura” têm circunstâncias completamente especificadas em seus antecedentes. Tais contrafatuais têm a forma “Se o agente S estivesse nas circunstâncias C, então S livremente executaria a ação A”.

Note que o que estamos discutindo aqui não é uma questão sobre o nosso conhecimento do valor verdade de tal contrafatual. Ao invés disso, a questão aqui é se tal contrafatual sequer tem um valor verdade. O problema gerado pela especificação inadequada não é uma questão sobre o nosso conhecimento de tais contrafatuais. A questão é, de forma mais fundamental, se esses contrafatuais têm ou não têm um valor verdade, independentemente do fato de podermos saber quais são esses valores ou não.

Assim, no caso do que Pilatos faria livremente nas circunstâncias C, nós estipulamos que C deve ser inteiramente especificado, incluindo toda a história do mundo até o momento da escolha. Em virtude dos antecedentes estarem inteiramente especificados, o contrafatual da liberdade será verdadeiro ou falso. Mas quando você diz,

somos capazes de saber se este contrafatual é verdadeiro ou não, APENAS SE ele contém informações suficientes para determinar o seu status de verdade. Ou seja, precisamos saber que “colocando Pilatos em todas as condições dadas na bíblia” determina que “Pilatos escolheria crucificar Jesus”. Mas esta determinação, por definição, somente está disponível se Pilatos NÃO tem liberdade no sentido libertário,

você está confundindo a proposição ser suficientemente especificada para ter um valor verdade com a escolha ser causalmente determinada. O contrafatual “Se Pilatos estivesse em C, ele livremente faria A” pode ser verdadeiro ou falso somente se essa declaração for especificada no sentido de que C é inteiramente especificado. Mas as circunstâncias especificadas inteiramente não são circunstâncias causalmente determinantes. Pelo contrário, elas são estipuladas para serem circunstâncias que permitem liberdade. Como um agente escolheria livremente não é determinado pelas circunstâncias em que ele está. Depende simplesmente dele o que ele fará. Dessa forma, não confunda uma proposição ser especificada com uma ação ser determinada.

Assim, o molinista concorda plenamente com você que “se Pilatos tem liberdade no sentido libertário, então, a despeito de TODAS as condições bíblicas corretas, ele ainda pode escolher um caminho ou outro”. Com certeza! Ele pode escolher um caminho ou outro; mas ele escolherá um caminho. Se ele estivesse em C, ele livremente escolheria A, apesar de ele poder escolher não-A em vez disso. Não confunda o que alguém faria com o que ele poderia fazer ou pense que, porque ele faria A, ele não poderia fazer não-A.

Também não existe falta de informação nesse caso. Contanto que as circunstâncias sejam inteiramente especificadas, o contrafatual terá um valor verdade, e Deus, como um ser onisciente, deve conhecê-lo. Ele sabe qual é o valor verdade de cada proposição, independentemente da nossa ignorância.

- William Lane Craig