#748 A conexão entre a morte expiatória e a ressurreição de Cristo
November 10, 2021Olá, Dr. Craig.
Sou cristão há 5 meses, e o seu ministério tem impulsionado demais a minha fé. Obrigado! Estou convencido de que Cristo ressuscitou dentre os mortos, mas tenho uma pergunta sobre a significância da ressurreição de Cristo: será que a Sua ressurreição fez algo além de provar que a Sua morte foi suficiente para os nossos pecados e que Ele era, de fato, Deus em carne? Se Ele não tivesse ressuscitado, será que ainda assim seríamos perdoados? Obviamente, Ele não estaria mais vivo hoje para interceder por nós e nos ajudar, se não tivesse ressuscitado, mas será que há algo além disto que eu esteja perdendo de vista? Não entendo por que Paulo diz que Ele foi ressuscitado para a nossa justificação em Romanos 4.25; por favor, será que poderia me explicar?
Clay
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Parabéns por sua nova vida com Cristo, Clay! Recentemente, escrevi um artigo sobre o assunto da sua pergunta para um Festschrift dedicado a Gary Habermas.[1] Nele, explico que uma crítica comum às teorias da expiação substitutiva é que, em razão do seu enfoque míope na morte de Jesus como o meio da expiação, a Sua ressurreição parece ser um acréscimo supérfluo. O que significa dizer, por exemplo, que “Ele foi entregue à morte por causa das nossas transgressões e ressuscitado para a nossa justificação” (Romanos 4.25)? Como é que a sua ressurreição contribui para a nossa justificação? Se Cristo não tivesse ressuscitado, ele, ainda assim, teria “[levado] nossos pecados em seu corpo sobre o madeiro” (1 Pedro 2.24), expiando, portanto, a nossa culpa, não é mesmo?
Penso que você está correto ao dizer que a ressurreição de Jesus serve a uma função probatória, ao vindicar a eficácia da Sua morte expiatória. É difícil exagerar como Jesus de Nazaré apresentou uma imagem contracultural do Messias. A expectativa messiânica dominante à época era de um rei guerreiro que lançaria fora o jugo dos inimigos de Israel (leia-se: Roma), restauraria o trono de Davi em Jerusalém e inspiraria respeito tanto do judeu quanto do gentio. Neste contexto, o ceticismo dos principais sacerdotes quanto a Jesus de Nazaré se torna muito compreensível. Parecia absurdo que uma figura tão patética e desamparada como Jesus na cruz pudesse ser o Messias.
No entanto, a ressurreição de Jesus mostrou que Deus vindicara dramaticamente a Jesus. Não importa o quanto o entendimento de Jesus acerca do seu messianato estivesse fora do molde, tal entendimento foi confirmado categoricamente por Deus ao ressuscitá-lo dentre os mortos de modo milagroso. Pedro declara: “Foi a este Jesus que Deus ressuscitou; e todos somos testemunhas disso ... Toda a casa de Israel fique absolutamente certa de que esse mesmo Jesus, a quem crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo” (Atos 2.32-36). Na ausência da Sua ressurreição, um ponto de interrogação indelével pairaria sobre a pessoa e missão iconoclásticas de Jesus. A Sua ressurreição nos diz que ele não era delirante, como muitos criam, mas era, de fato, o Messias e Salvador.
Até aí, tudo bem — você pode dizer —, mas será que há uma conexão mais orgânica entre a morte e a ressurreição de Jesus? Sim, penso que há. Qualquer teoria expiatória biblicamente adequada deve incluir não apenas a noção de expiação dos pecados, mas também a noção de propiciação de Deus, isto é, o apaziguamento da justa ira de Deus contra o pecado. A fonte da ira de Deus é a Sua justiça retributiva e, portanto, o apaziguamento da ira é uma questão da satisfação da justiça divina. Biblicamente falando, a satisfação da justiça de Deus se dá não conforme pensava Santo Anselmo, mediante a compensação, mas, sim, mediante a punição. Ao carregar o sofrimento que merecíamos como punição por nossos pecados, Jesus satisfez plenamente à justiça divina.
O ato divino de ressuscitar a Jesus dentre os mortos, portanto, não nos é apenas uma ratificação da eficácia da morte expiatória de Cristo, mas consequência necessária dela. Isto porque, mediante a Sua morte substitutiva, Cristo satisfez plenamente à justiça divina. Como a pena da morte foi paga por completo, Cristo não pode mais permanecer morto, assim como um criminoso que cumpriu toda a sua sentença não pode mais permanecer preso. A punição não pode continuar de forma justa; a justiça demanda a liberação dele. Assim, a morte de Cristo é tanto ratificação quanto consequência necessária da Sua satisfação da justiça divina.
Entender a ressurreição de Cristo como consequência necessária da sua morte expiatória nos permite ler a afirmação de Paulo de que “Jesus, nosso Senhor ... foi entregue à morte por causa das nossas transgressões e ressuscitado para a nossa justificação” (Romanos 4.25) de uma perspectiva nova e surpreendente. Os comentaristas ficam intrigados com o fato de que as expressões gregas “por causa das nossas transgressões” (dia ta paraptōmata hēmōn) e “para a nossa justificação” (dia tēn dikaiōsin hēmōn), quando lidas com o sentido convencional da preposição dia + acusativo, não parecem fazer sentido. Se adotarmos o sentido convencional de “por causa de”, a afirmação de Paulo significa que Jesus morreu por causa dos nossos pecados e foi ressuscitado por causa da nossa justificação. Embora a morte de Cristo por nossos pecados faz todo sentido, segundo a visão de que Cristo suportou o sofrimento que merecíamos como punição por nossos pecados, parece não fazer nenhum sentido dizer que Cristo foi ressuscitado dentre os mortos por sermos justificados. Aparentemente, a inclinação seria dizer bem o contrário, que a nossa justificação se deu por causa da ressurreição de Cristo; porque ele ressuscitou, somos, de alguma maneira, justificados. Este enigma leva muitos comentaristas a postular os dois exemplos de dia + acusativo na frase de Paulo como se tivessem dois sentidos distintos, primeiramente “por causa de” e, então, um sentido diferente como “com o fim de”: Cristo foi entregue à morte por causa dos nossos pecados e ressuscitado tendo em vista a nossa justificação.
[1] “On the Organic Connection between Jesus’ Atoning Death and Resurrection”. In Raised on the Third Day, ed. W. David Beck e Michael R. Licona (Bellingham, Wash.: Lexham Press, 2020), pp. 89-104.
- William Lane Craig