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#747 Deus e o espaço

September 12, 2021
Q

Olá, Dr. Craig.

Uma questão importante na teologia islâmica é: “Onde está Deus?”, e diferentes seitas muçulmanos dão diferentes respostas. Há quem creia que Deus está em todo lugar, enquanto outros acreditam que Deus está, literalmente, lá em cima, no seu trono nos céus. Qual é a resposta cristã a esta questão?

Ibn

United States

Dr. Craig responde


A

Fiquei muito feliz em receber esta pergunta porque, por coincidência, estou empenhado nela neste exato momento para a seção da minha teologia filosófica sistemática dedicada ao assunto da onipotência divina. Os cristãos creem que Deus, enquanto ser spiritual que criou o mundo físico, não tem um corpo e, portanto, as descrições bíblicas de Deus como se ele tivesse partes corpóreas ou estivesse assentado num trono são de natureza antropomórfica. Trata-se de descrições de Deus em termos humanos que são figurativos e, portanto, não devem ser entendidos literalmente. Os muçulmanos ponderados, creio eu, diriam o mesmo, em comparação com os literalistas engessados. Que Deus não está circunscrito espacialmente ao céu fica bastante óbvio com as passagens bíblicas relacionadas à onipresença de Deus, ou seja, a doutrina de que Deus está em todo lugar.

As Escrituras insistem categoricamente que Deus não está confinado a um lugar específico. Na dedicação do Templo, Salomão ora: “Certamente te edifiquei um templo para morada, assento para a tua eterna habitação”, mas, em seguida, acrescenta: “Mas, na verdade, habitaria Deus na terra? O céu, e até o céu dos céus, não te podem conter; muito menos este templo que edifiquei!” (1 Reis 8.13, 27). Salomão reconhece que, embora o céu, e não o Templo, seja a habitação própria a Deus (v. 30), até mesmo o céu não pode circunscrever a Deus. O salmista afirma que Deus está em todo lugar:

Para onde me ausentarei do teu Espírito?

Para onde fugirei da tua presença?

Se eu subir ao céu, lá tu estás;

se fizer a minha cama nas profundezas, tu estás ali também

Se tomar as asas da alvorada,

se habitar nas extremidades do mar,

ainda ali a tua mão me guiará,

e a tua mão direita me sustentará. (Salmos 139.7-10)

Aqui, Deus é descrito como presente por todo o mundo, assim como no céu e no domínio inferior dos mortos.

Igualmente, o profeta Jeremias declara: “Diz o SENHOR: ‘Sou eu apenas Deus de perto? Não sou também Deus de longe? Pode alguém esconder-se em esconderijos sem que eu o veja?’, diz o SENHOR. ‘Não sou eu o que enche os céus e a terra?’, diz o SENHOR” (Jeremias 23.23-24). Deus está tanto perto quanto longe, enchendo o céu e a terra, assim como a água enche um vaso.

No Novo Testamento, uma das afirmações mais notáveis da presença divina sem limites espaciais vem do discurso de Paulo no Areópago, onde ele contrasta a habitação da deusa pagã Atena com a presença divina que a tudo permeia:

O Deus que fez o mundo e tudo o que nele há, Senhor do céu e da terra, não habita em templos feitos por mãos de homens. Tampouco é servido por mãos humanas, como se necessitasse de alguma coisa. Pois é ele mesmo quem dá a todos a vida, a respiração e todas as coisas. De um só fez toda a raça humana para que habitasse sobre toda a superfície da terra, determinando-lhes os tempos previamente estabelecidos e os territórios da sua habitação, "para que buscassem a Deus e, mesmo tateando, pudessem encontrá-lo. Ele, de fato, não está longe de cada um de nós;" pois nele vivemos, nos movemos e existimos. (Atos 17.24-28)

As Escrituras, portanto, apresentam a Deus como presente em todo lugar, e não confinado em apenas um local.

Antes, a questão controversa entre os cristãos é o peso teológico a ser atribuído a estas passagens. Como um Deus eterno pode ser concebido como temporal ou atemporal, assim também um Deus onipresente pode ser concebido como espacial ou a-espacial, ou seja, ou Deus pode existir no espaço ou Ele pode transcender o espaço. Se Deus existe mesmo no espaço, a Sua onipotência exige que Ele exista em todo lugar no espaço ou oni-espacialmente.

Ora, os dados bíblicos pertinentes à onipresença divina amparam quase unilateralmente a oni-espacialidade de Deus, e não o Seu espaço em transcendência. No entanto, convém-nos aqui recordar a observação do filósofo cristão Paul Helm quanto à relação de Deus com o tempo, segundo a qual os autores bíblicos talvez não dispusessem do contexto intelectual para indagar-se acerca da temporalidade vs. atemporalidade divina — o mesmo se aplica à espacialidade ou a-espacialidade de Deus. O propósito das passagens bíblicas citadas acima não é ensinar metafísica, mas assegurar-nos da soberania, imprescindibilidade e acessibilidade universais de Deus.

Deveras, a essência das passagens que tratam da habitação de Deus no céu é enfatizar a Sua transcendência, e não a sua localização espacial! Ao dizer que até mesmo o céu e o mais alto céu não podem conter a Deus, a oração de Salomão se inclina, na verdade, para a direção do espaço divino em transcendência. Ainda que o céu de Deus, assim como os céus físicos, sejam descritos com linguagem espacial, de modo que se possa dizer que Deus se assenta sobre o Seu trono no céu, olha do céu e desce do céu, tal linguagem é, de todo modo, gritantemente antropomórfica e, plausivelmente, metafórica, indicando a transcendência divina. Os autores bíblicos sabiam muito bem que Gênesis 1.1 ensina que, no princípio, o Deus transcendente criou os céus e a terra, de modo que tudo que existe, com exceção de Deus, foi criado por Ele (João 1.1-3).

Muitos teólogos e filósofos cristãos — provavelmente, a maioria deles — concebem a onipresença de Deus em relação à Sua onipotência e onisciência: Deus, embora transcenda o espaço, está causalmente ativo e consciente de todo lugar no espaço, podendo, neste sentido, ser considerado onipresente. É interessante como o conhecimento e a atividade de Deus se associam de maneira tão íntima com a presença de Deus, nas passagens bíblicas como as citadas acima, quando se trata da presença universal de Deus (cf. Salmos 139.1-6, 11-18; Hebreus 4.12-13). O Deus transcendente está, certamente, ativo no espaço e sabe o que acontece em todo lugar no espaço; porém, será que Ele está literalmente no espaço? Os dados bíblicos não são tão determinantes assim, deixando a questão nas mãos do teólogo filosófico.

- William Lane Craig