#756 Escritura inspirada
November 10, 2021Olá, Dr. Craig.
Tenho aproveitado os seus ensinamentos sobre a doutrina da inspiração nos últimos anos ouvindo as suas aulas no curso Defenders no iTunes. Será que poderíamos entender “inspiração” mais como a maneira em que Deus inspirou o comportamento e função da Bíblia, e não o próprio texto? Em outras palavras, quando a Bíblia diz que o texto é “soprado por Deus”, será que podemos entendê-lo como se estivesse falando da palavra de Deus como criação de Deus que recebeu uma função e propósito específicos?
O único outro lugar onde vejo essa linguagem de “soprado por Deus” nas Escrituras é onde Deus soprou nova vida em Adão e, mais uma vez, em Ezequiel, quando Deus sopra vida nos ossos secos. Embora Adão tenha sido criado à imagem de Deus, com o intuito de ser autoridade delegada de Deus na terra, não costumamos atribuir à humanidade as propriedades de inerrância, infalibilidade, perspicuidade e assim por diante. Assim, seria coerente dizer que a Bíblia é inspirada no sentido de que Deus a criou como Adão, a fim de ser criação com propósito especial e de funcionar como certo tipo de testemunho da verdade (assim como a humanidade)? E que a vontade de Deus é que a Bíblia funcionaria como âncora ao longo das gerações e fonte de autoridade? O propósito literário estaria descrito em 2 Timóteo 3.16-17, a saber, proporcionar conhecimento de salvação e capacitar o homem para toda boa obra. Se for verdade, não importa muito se há erros na Bíblia, desde que o livro realize a vontade que Deus determinou que ele realizasse. Tampouco importa se determinadas passagens são triviais (como as anedotas pessoais de Paulo), ou mesmo tão obscuras que se tornam inúteis, desde que a Bíblia realize a vontade que ele determinou que ela realizasse.
Por fim, penso que esta visão nos permita enxergar por que talvez não tenha sido necessário que Deus preservasse o texto original. Fico consternado com a sugestão de que apenas o texto original seja inspirado, mas não temos o texto original.
Mesmo que o consigamos reconstruir com certa precisão, quem somos nós para decidir que um traço ou letra não sejam importantes? Penso que se trata de algo forçoso, porque o argumento se concentra pura e simplesmente no Novo Testamento e ignora a incerteza em torno da composição do Antigo Testamento. No entanto, se a Bíblia é soprada por Deus, quem somos nós para sugerir que um traço ou letra escritos pela mão de Deus sejam insignificantes? Se a inspiração das Escrituras tem mais a ver com a função do texto do que as palavras, será que podemos imaginar que cópias da Bíblia sejam inspiradas, que traduções sejam consideradas inspiradas, e até mesmo revisões editoriais (como prevalece no Antigo Testamento)? Podemos até conseguir ver a categoria de “Escrituras” como um tanto dinâmica, flexível e mutável ao longo do tempo. As Escrituras podem entrar e sair de foco na comunidade cristã, variando um pouco de comunidade para comunidade. Tudo exatamente como Deus desejou, desde que o texto esteja funcionando como Deus deliberadamente o inspirou para fazer.
Aguardo ansioso para ouvir o que pensa a este respeito! Obrigado!
Aaron
Canadá
Canada
Dr. Craig responde
A
Atualmente, estamos percorrendo a doutrina da inspiração no meu curso Defenders, Aaron, de modo que a sua pergunta chegou em momento oportuno. Não penso que devemos “entender “inspiração” mais como a maneira em que Deus inspirou o comportamento e função da Bíblia, e não o próprio texto”. Segunda Timóteo 3.16 deixa bastante claro que é o próprio texto, o produto escrito (Escritura) que temos diante de nós, que é inspirado, literalmente “soprado por Deus”:
Toda a Escritura é divinamente inspirada e proveitosa para ensinar, para repreender, para corrigir, para instruir em justiça (2 Timóteo 3.16).
É erro hermenêutico assimilar a inspiração escriturística com coisas como o sopro de vida por parte de Deus em Adão ou nos ossos secos. Trata-se de contextos completamente diferentes. Deus não sopra vida na Escritura. De fato, a Escritura é expirada por Deus, e não inspirada! A Escritura vem da boca de Deus.
Considerar, porém, a inspiração como propriedade do próprio texto é bastante compatível com o entendimento de que isto é “como se estivesse falando da palavra de Deus como criação de Deus que recebeu uma função e propósito específicos”.
Deveras, a passagem acima delineia exatamente qual é essa função e propósito. A Escritura tem funções tanto didáticas quanto pastorais: o seu propósito didático é instrução em doutrina e refutação de heresia, enquanto o seu propósito pastoral é orientação espiritual e moral. Ora, quanto à instrução na sã doutrina e a refutação de heresia, a Escritura deve ser verdadeira em tudo que ensina. Se ela ensinasse falsidade, tais propósitos não poderiam ser alcançados. Assim, a doutrina da inerrância, formulada adequadamente, afirma que a Escritura é verdadeira em tudo que ensina. Parece-me ser consequência inevitável do seu proveito para ensino e correção. Somente assim ela pode ser fonte de autoridade em questões de doutrina.
Você tem bastante razão de que tal visão de inspiração seja compatível com o fato de haver questões triviais nas Escrituras (as chamadas levicula). Também é compatível com a existência de afirmações falsas na Escritura, desde que não digam respeito ao que ela ensina.
Quanto à sua preocupação com a perda dos autógrafos originais, há aqueles que consideram que a inspiração verbal implica que apenas os autógrafos escriturísticos, agora perdidos, foram inspirados. Ora, fica aparente que os erros dos copistas não são inspirados, uma vez que não foram parte do texto soprado por Deus, mas corrupções dele. Pela mesma razão, as traduções do texto não são inspiradas, mas constantemente revisadas à luz dos originais. No entanto, a perda dos autógrafos não implica a perda da Palavra de Deus. Ao fazer distinção entre tipos e testemunhos de obras literárias, podemos afirmar que qualquer testemunho do mesmo tipo é tão inspirado quanto o original. Duas cópias físicas de Guerra e paz, de Tolstói, por exemplo, não são objetos idênticos, mas, ainda assim, pode-se dizer que são o mesmo romance, que não deve ser identificado com nenhum exemplar físico. Assim, dois testemunhos do Novo Testamento são igualmente inspirados, se o tipo deles o é. Afinal, são idênticos na sua redação.
Embora todas as palavras originais da Escritura sejam inspiradas, disto não se depreende que todas sejam igualmente importantes. De fato, você mesmo reconhece que algumas porções da Escritura são relativamente triviais, e não se trata de arrogância reconhecer este fato. O ensinamento doutrinário do livro de Romanos é, obviamente, de importância enormemente maior do que as saudações pessoais no seu encerramento! Qualquer leitor competente consegue discernir este fato. Felizmente, qualquer incerteza na leitura do texto original diz respeito a questões desimportantes, e nenhum doutrina cristã depende de alguma passagem incerta. Assim, a igreja não se viu prejudicada por qualquer incerteza no texto original da Bíblia.
- William Lane Craig