#735 A culpabilidade da descrença
September 12, 2021Tenho alguns comentários sobre a resposta do sr. Craig à pergunta da semana # 728. A partir do ponto de vista cristão, não é possível que alguém seja apresentado ao Espírito Santo, o evangelho e Jesus, mas não venha a se convencer da sua verdade, a menos que suprima a verdade pela injustiça. Uma pergunta desconcertante é por que, dado o que está em jogo, Deus permite às pessoas fazerem isso — é óbvio que o livre-arbítrio não compensa o custo do sofrimento eterno, mas deixemos isto de lado.
Para alguém como eu, que pensa que o cristianismo é tão plausível quanto o mormonismo ou o Islam, é questão aberta se existe um Deus que queira se comunicar comigo. Instintivamente, indago se qualquer sentimento vigoroso que eu vivencie é, de fato, comunicação do divino, ou simplesmente outro aspecto da minha psicologia. Afinal, o meu cérebro constantemente cria experiências, sonhos, sensações e emoções extremamente complexos que não costumamos atribuir ao divino. Como, exatamente, posso fazer distinção entre o direcionamento de Jesus e um truque da neurologia? Por exemplo, certa vez pensei seriamente que tivera importante experiência religiosa na igreja, mas alguns dias depois experimentei a mesma coisa ao ouvir a uma boa canção de rock. Será que a canção era divina, ou será que a experiência jamais foi divina, para começo de conversa? Penso que seja a segunda opção.
A resposta do sr. Craig parece ser que quem quer que ouça o evangelho e não creia é culpado; deve estar conscientemente rejeitando a Deus, porque quer ser pecador. Ora, para mim, isto tem a cara de explicação sectária clássica de por que tantas pessoas não concordam com ele. Se você crê, é porque você é pessoa boa; se não crê, é porque você é pessoa má. Você não quer ser uma pessoa má, não é? Para o cristão, este tipo de explicação cria uma poderosa barreira psicológica à ideia de que as crenças cristãs são questionáveis porque lhes falta plausibilidade. Se você tem dúvidas genuínas, é porque há algo errado em você (talvez pecados secretos ou defeitos inexoráveis como autoestima), e não porque as crenças estão erradas. (Os cristãos estão preparados para aceitar este tipo de coisa, uma vez que ensinamento central da religião é que os seres humanos são sujos, pecaminosos, maus e não podem confiar em si mesmos.) Isto é, literalmente, manipulação clássica, e não costumamos aceitar tática manipuladora como prova de veridicidade em outros contextos.
Por questão de piedade, não é possível que a realidade contradiga os ditos de Jesus. Não pode ser, do ponto de vista cristão, que alguém venha a buscar a Deus com seriedade, sinceridade, piedade e abertura, e ainda assim não saia convencido. No entanto, não há provas de que a dinâmica da conversão (ou desconversão) é o que afirma o sr. Craig. Parece que simplesmente temos de aceitar as palavras de Jesus.
Mas esta é a questão: será que as afirmações de Jesus na Bíblia, ou de Maomé no Alcorão, ou de Joseph Smith no Livro de Mórmon, são comunicações da parte de Deus? Não vejo nenhuma razão para pensar que sim. Nunca me apresentaram com nada que eu soubesse (ou pensasse) ser Deus, Jesus ou o Espírito Santo. Ouvi o evangelho muitas e muitas vezes a esta altura. Não creio nele, de jeito nenhum. Porém, tampouco “tomei a decisão” de rejeitá-lo em algum momento. Nem tampouco escolhi rejeitar o Islam ou o mormonismo; como o cristianismo, simplesmente não se associam com nada na minha experiência e pensamento que me levaria a crer que são descrições precisas da realidade. No entanto, o sr. Craig dirá apenas que estou mentindo. A ironia é que isto tende a confirmar a minha crença de que o cristianismo não tem muito a dizer sobre o mundo real, uma vez que ele não descreve o que vivencio. Porém, não consigo nunca provar isto aos cristãos, não é? Muito cômodo. (Para eles.)
Jon
United States
Dr. Craig responde
A
Para ir além do tom negativo da sua carta, Jon, refleti nela por alguns dias, perguntando a mim mesmo: O que será que ele está falando de fato? Você diz que “é questão aberta se existe um Deus que queira se comunicar comigo”, e presumo que você também esteja aberto à possibilidade de que esse Deus seja o Deus cristão. Então, qual é o problema de fato?
Depois de pensar a este respeito, creio que o problema que você está trazendo à tona é o que os filósofos denominam “a culpabilidade da descrença”. Pessoalmente, penso que a descrença é pecado e, portanto, o descrente é culpável por ela. Outros, como você, discordam. Você pensa que a descrença pode ser inculpável.
Assim, suponho que o que você julgou questionável na minha pergunta # 728 é a seguinte afirmação: “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, saberá se esse ensino é dele, ou se falo por mim mesmo” (João 7.17). Aqui, Jesus diz que alguém que busca a Deus com sinceridade e que se confronta com o ensino de Jesus saberá que o seu ensino vem, de fato, de Deus. Segue daí que alguém que não reconhece esse fato não quer mesmo fazer a vontade de Deus.
Você é cético quanto a esta afirmação e está pessoalmente ofendido com ela, o que não é nada surpreendente, uma vez que ela tem a implicação de que você, ao menos a esta altura da sua vida, é exatamente uma pessoa assim, alguém que não quer mesmo fazer a vontade de Deus.
Será, porém, que isso é tão implausível, Jon? Você quer fazer a vontade de Deus? Não vejo quase nada na sua carta que demonstre um desejo de conhecer a Deus, se Ele existe, nenhuma fome ou sede espiritual, nenhum desejo de buscar a Deus. Antes, vejo sarcasmo, dureza de coração, hostilidade e falta de curiosidade intelectual. Não vejo quase nenhuma prova de que você se encaixe na sua descrição de alguém que busque “a Deus com seriedade, sinceridade, piedade e abertura, e ainda assim não saia convencido”. Pelo contrário, você parece se encaixar muito bem na descrição daquilo que Paulo denomina de “homem natural”, conforme expliquei na pergunta 728: uma pessoa “em estado de alienação e rebelião contra Deus, morta nos seus pecados, [que] portanto não busca, mas, sim, resiste a Deus”.
Ora, para que você não pensar que não se encaixa nessa descrição, permita-me esclarecer alguns mal-entendidos. Não creio — e nada que eu tenha dito dá a entender — que você esteja “mentindo”. Não tenho dúvida da sua sinceridade. Contudo, você mesmo sabe que as pessoas podem se enganar, assim como você acha que os cristãos estão enganados. Jamais disse nem creio que quem ouve o evangelho e não vem a crer nele “deve estar conscientemente rejeitando a Deus, porque quer ser pecador”. A rejeição consciente não é necessária para a descrença, tampouco o é o desejo de ser pecador (em oposição a simplesmente ser pecador). Nem tampouco estou afirmando que, em algum momento, você “’tom[ou] a decisão’ de rejeitar” o evangelho. A incapacidade de crer no evangelho basta para isolá-lo de Deus. Não negaria nem me surpreendo que o cristianismo simplesmente não se associe “com nada na minha experiência e pensamento que me levaria a crer” que o cristianismo seja descrição precisa da realidade. Ao não buscar a Deus nem investigar os argumentos e provas favoráveis ao teísmo cristão, você se isolou de tais fatores, de modo que, obviamente, não há nada na sua experiência e pensamento que o leve a pensar que o teísmo cristão seja verdade.
A verdadeira pergunta que você precisa fazer, Jon, é se a afirmação de Jesus segundo a qual o seu ensino vem de Deus é crível e verdadeira. Se tivermos boas razões para pensar que Jesus era quem ele afirmava ser, teremos boas razões para aceitar o seu ensino de que a descrença é culpável. Ora, há duas maneiras de buscar a resposta para esta questão:
(1) Investigar os argumentos e provas favoráveis ao teísmo cristão. Em Reasonable Faith, disponibilizamos materiais em abundância para ajudá-lo na sua busca. A sua afirmação de que você considera o cristianismo “tão plausível quanto o mormonismo ou o Islam” me sugere que você ainda não se familiarizou com os argumentos e provas (você entende o que o mormonismo ensina de verdade?), e eu o incentivo a fazê-lo, para que consiga chegar a uma conclusão bem-informada. Creio que haja boas razões para pensar que Deus existe e Se revelou de forma decisiva em Jesus, de modo que Jesus era quem afirmou ser.
(2) Começar a buscar a Deus com seriedade e humildade, envolvendo-se com sinceridade e devoção na oração, leitura bíblica e frequência a cultos. Você é profundamente cético desta segunda abordagem porque receia que qualquer sentimento vigoroso que venha a ter talvez seja “simplesmente outro aspecto da minha psicologia”. Claro que poderia ser; há muitas experiências falsas no mundo. Isto, porém, não exclui que haja também experiências verídicas, e você não deve se alijar delas por receio das falsas. Quem indaga como distinguir o amor verdadeiro do mero sentimento de paixão não pode ser cético de todos os sentimentos desse tipo, para que não se alije da busca do amor verdadeiro por receio de amor falso. Tenho a impressão de que você carregue algumas cicatrizes de experiências negativas na igreja, de modo que você deve ser cuidadoso para que tais barreiras emocionais não se interponham entre você e Deus. A psicologia funciona dos dois lados.
Creio que, no fim, a experiência cristã traga consigo as marcas da sua própria veridicidade, mas pouco importa agora; você pode sempre verificar as suas experiências em contraste com os argumentos e provas objetivos mencionados em (1). O cristianismo lhe oferece a consonância de provas e experiência pessoal. Se (1) e (2) amparam o teísmo cristão, a afirmação de Jesus sobre a culpabilidade da descrença é crível. Deus não deve ser culpado pela descrença, pois Ele faz tudo o que pode, a não ser remover o nosso livre-arbítrio, para atrair as pessoas para Si; antes, o defeito está na nossa incapacidade de Lhe responder.
Será que a minha posição sobre a culpabilidade da descrença faz de mim um sectário manipulador? Pensar que sim seria ilógico. Só porque sectários dizem que alguém que discorde da posição deles esteja errado, não se depreende daí que quem quer que diga algo parecido seja sectário. Seria como raciocinar:
1. Covardes se recusam a lutar pelo que creem.
2. Os quacres se recusam a lutar pelo que creem.
3. Logo, os quacres são covardes.
Tal raciocínio é ilógico. Igualmente, é ilógico inferir que, porque sectários manipuladores dizem algumas das mesmas coisas que cristãos, estes últimos sejam sectários manipuladores. Deveras, é de se esperar que o falso se pareça com o verdadeiro, de diversas maneiras.
Assim, como você disse, Jon, a questão é a seguinte: será que o cristianismo é comunicação da parte de Deus? Será que é para valer? Dei provas em abundância nas minhas publicações de que o é, e defendi tal afirmação em debates públicos com os detratores do cristianismo mais célebres. Se, de fato, o cristianismo vem de Deus, devemos prestar atenção a Jesus quando diz: “Se alguém quiser fazer a vontade de Deus, saberá se esse ensino é dele, ou se falo por mim mesmo”.
Fico esperançoso por você, Jon, porque, apesar da sua afirmação de que o cristianismo não se associe com nada na sua experiência e pensamento e que você não crê nele, de maneira alguma, ainda assim você está lendo as minhas perguntas da semana, além de ter tirado do seu tempo e esforço para me escrever uma carta extensa sobre as suas reservas. Deus talvez esteja operando na sua vida mais do que você perceba!
- William Lane Craig