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#805 A distinção entre a ordem do ente e a ordem do conhecimento

November 05, 2022
Q

Olá, Dr. Craig.

Como é que sabemos que os atributos de Deus são bons? Por exemplo, diríamos que Deus é pleno em amor, pois é o ser maximamente grande, digno de adoração e, assim, deve possuir tal atributo, necessariamente. No entanto, parece-me que a razão por que devemos atribuir-lhe algo assim é que ser pleno em amor é bom, e Deus é onde se encontra a bondade. Mas não é verdade que todos nós sabemos que o amor é bom, pois Deus é onde se encontra a bondade, e ele é pleno em amor? Como é que isto aqui não se trata de raciocínio circular? O que não estou enxergando direito?

Obrigado.

Mason

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

O que você não está enxergando direito, Mason, é a velha distinção entre a ordem do ente (ordo essendi) e a ordem do conhecimento (ordo cognoscendi). Uma vez que tal distinção é tão importante e útil, a sua pergunta me dá a oportunidade de explicá-la aos leitores que não estão familiarizados com ela.

A ordem do ente diz respeito à dependência ontológica que alguns aspectos da realidade têm de outros aspectos. Por exemplo, na ordem do ente, Deus precede o universo, já que o universo depende de Deus para a sua própria existência. Porém, na ordem do conhecimento, o universo pode muito bem preceder Deus, já que podemos inferir, a partir do universo, que Deus existe.

Igualmente, no caso que você menciona, na ordem do ente, Deus precede a bondade dos Seus diversos atributos. São bons, por serem fundamentados ontologicamente em Deus, que, como você disse, é um ser maximamente grande, um ser perfeito, digno de adoração.

Onde você erra é ao dizer: “nós sabemos que o amor é bom, pois Deus é onde se encontra a bondade, e ele é pleno em amor”. Na ordem do conhecimento, primeiramente, experimentamos a bondade do amor na experiência moral e, então, inferimos que Deus é pleno em amor. Isto é crucial no argumento moral para a existência de Deus: sabemos que valores morais objetivos existem, sem sabermos que estão fundamentados em Deus.

A aparência de circularidade surge ao se ignorarem as duas diferentes ordens envolvidas. Se compreendermos claramente que estamos a subir duas escadas distintas, uma a escada do ente e a outra, a escada do conhecimento, não teremos a sensação de subir e descer a mesma escada ao mesmo tempo.

 

                                                                                                                      Ordo essendi                  Ordo cognoscendi

                                                                                                                      Deus                           Deus

                                                                                                                      ↓                                  ↑

                                                                              Mundo                       Mundo

 

Deus vem sempre primeiro na ordem do ente, mas pode aparecer depois na ordem do conhecimento.

- William Lane Craig