#674 A essencial justiça retributiva negativa de Deus
July 17, 2020Olá, Dr. Craig.
Em primeiríssimo lugar, quero agradecer de coração por seu trabalho. Aos 20 anos de idade, seus escritos, em especial sobre molinismo e pós-modernismo, salvaram-me da crise intelectual de fé, algo pelo qual serei eternamente grato. (Sem contar que eles estão me ajudando também a ir adiante na faculdade!) Mais recentemente, porém, encontro-me em meio a uma nova crise que estou buscando remediar, e diz respeito à substituição penal. Embora esteja inclinado a concordar com ela, minha única ressalva com a doutrina é como Deus pode ser considerado justo ao punir Cristo (uma parte inocente) por aquilo que me era devido (enquanto parte culpada).
Certo que o senhor cobrira o assunto extensamente, procurei nos seus escritos para examinar as perguntas que encontrasse. Em seu artigo acadêmico intitulado “Is Penal Substitution Unjust?” [A substituição penal é injusta?], o senhor faz uma afirmação interessante ao responder à potencial objeção à Teoria da Ordem Divina, sendo o possível contra-argumento de que a justiça retributiva é, de fato, parte da natureza de Deus: “Porém, o teórico penal pode manter que Deus é um retribuidor negativo apenas restritamente, uma vez que, mesmo que ele tenha proibido os seres humanos de punir inocentes (Deuteronômio 24.16) e mesmo que ele seja bom demais para punir inocentes (Gênesis 18.25), ainda assim, ele reserva a si prerrogativa de punir uma pessoa divina inocente, a saber, Cristo, no lugar do culpado. Esta extraordinária exceção é resultado de sua bondade, e não defeito em sua justiça”.
Minha pergunta relacionada à sua declaração é como justificar a criação desta distinção entre pessoas humanas e divinas no que diz respeito à justiça retributiva de Deus. Se a natureza de Deus verdadeiramente está ligada a tal justiça, por que importar-se com quem é a pessoa que passa a ser a vítima? Por que criar uma exceção a essa justiça retributiva simplesmente porque o envolvido é divino? Gostaria muito de resolver esta questão, mas não estou conseguido.
Ayo
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
A pergunta que trago à tona na discussão da justiça da substituição penal é, dado que Deus é, essencialmente, um retribuidor positivo que punirá o culpado, como é que sabemos que Deus é, essencialmente, um retribuidor negativo irrestrito que não punirá o inocente? Como é que sabemos isto? Uma vez que Deus, na minha visão, não tem nenhum dever moral a exercer (uma vez que deveres morais surgem das ordens divinas e Deus não ordena a si mesmo fazer as coisas), teríamos de deduzir seu retributivismo negativo irrestrito de sua perfeita bondade. Podemos fazer isto? Penso que podemos inferir que um Ser perfeitamente bom proibiria seres humanos de punir outros seres humanos inocentes e, plausivelmente, tampouco puniria seres humanos inocentes. Não obstante, ele pode, se assim escolher, punir uma pessoa divina inocente no lugar do culpado, pois tal ato de sacrifício divino é expressão de sua bondade essencial. Não é tanto a divindade da pessoa em si que faz a diferença quanto o fato de que uma pessoa divina tem o direito de se sacrificar pelo bem de outros. Que certeza podemos ter de que, se Deus é perfeitamente bom, ele não possa fazer tal sacrifício por aqueles que ama? Não muita, penso eu.
- William Lane Craig