#675 Deus tem de ser bom?
July 17, 2020Olá, Dr. Craig.
Por favor, ajude-me a entender por que Deus tem de ser bom. O senhor afirmou que bondade é fundamental em nosso conceito de Deus, mas por quê? E se nosso conceito ou definição de Deus estiver errado? Por que é necessário que Deus seja um ser digno de culto? Seria isto simplesmente uma condição que estabelecemos para adequar-se à nossa preconcepção de Deus? Será que um ser como os deuses de H. P. Lovecraft existe, imortal e amoral?
Respeito seu raciocínio, e costumo sentir que a bondade inerente de Deus é tomada como fato, mas não tenho certeza do porquê. Obrigado!
“É conceitualmente necessário que Deus seja bom. Ou seja, bondade pertence ao próprio conceito de Deus, assim como não estar casado pertence ao conceito de solteiro.”
Michael
Estados Unidos
United States
Dr. Craig responde
A
Parece-me que a última linha diz tudo: “É conceitualmente necessário que Deus seja bom. Ou seja, bondade pertence ao próprio conceito de Deus, assim como não estar casado pertence ao conceito de solteiro.” Pense nisto. Se alguém dissesse: “Por que um solteiro não pode ser casado?”, explicaríamos que, com “solteiro”, queremos dizemos um homem que não é casado. Sem dúvida, poderíamos redefinir a palavra “solteiro” para significar algo diferente ou poderíamos imaginar uma língua em que “solteiro” significa algo diferente, mas isto não tem nenhuma relevância para o fato de que o conceito de ser (o que chamamos, no vernáculo, de) “solteiro” implica não ser casado. A convenção das palavras que atribuímos a certos conceitos não torna os conceitos em si convencionais.
Assim, em relação a Deus, o conceito de Deus é o conceito de um ser que é digno de culto. É isto que queremos dizer em contextos teológicos comuns quando usamos, no vernáculo, a palavra “Deus”. A palavra em si é convencional; poderíamos, em seu lugar, utilizar “God”, “Dieu”, “Gott” ou “Bog”. Porém, se não se está falando de um ser digno de culto, simplesmente não se está falando de Deus. Antes se está falando de outra coisa — digamos, o criador do universo ou o arquiteto cósmico, que pode não ser bom. Necessariamente, contudo, não se está falando de Deus. Por isso, claro, poderia haver deuses imortais e amorais, mas, nesse caso, Deus presumidamente não existiria (a menos que se pense que ele criou aqueles seres inferiores).
Conforme entendeu santo Anselmo, Deus é o maior ser concebível. Se houvesse algo maior do que Deus, isso seria Deus. Necessariamente, porém, o maior ser concebível é bom porque é melhor ser moralmente bom do que moralmente imperfeito. Assim, quando se fala de Deus, falamos de um ser perfeitamente bom. Caso se use a palavra “Deus” para falar de outra coisa, simplesmente não se está falando de Deus. E aqui repito: a convenção das palavras que usamos não torna convencionais os conceitos relevantes.
- William Lane Craig