#699 A morte é tão ruim assim?
March 23, 2021Caro professor,
Sou um coreano que o respeita como um dos melhores intelectuais cristãos. O que quero perguntar desta vez é que estou curioso para saber o que pensa sobre a morte de Shelly Kagan e a alegação que faz sobre a vida eterna. Fico bastante curioso porque, se o argumento dele estiver correto, nosso desejo pelo céu será negado e nosso medo da morte será rejeitado.
Li no seu livro Em guarda que o senhor tinha fortes sentimentos em relação ao medo da morte. Li que o senhor tinha um medo enorme de perder a sua existência para sempre. Por isso, faço esta pergunta, por pensar que o senhor também está interessado no assunto. Segue o argumento dele: 1. A morte não é objeto de medo e não é necessariamente algo ruim; a eternidade é castigo. Um dos temas principais do livro dele é o argumento do Shelley Kagan segundo o qual medo da morte é irracional, e não uma boa atitude, e devemos enfrentá-lo. Por que a morte é tão ruim? A morte em si não lhe causaria nenhum dano, não deve ser causa de medo, então a morte em si não pode mais ser ruim para a pessoa que dela se aproxima, pois isso é ruim para quem está vivo, é válido somente para quem permanece vivo e não pode mais ser algo ruim para quem está diante da morte. Por isso, minha não-existência não pode ser algo ruim para mim, pois a não-existência em si não pode me prejudicar; porém, se a morte é ruim, é porque coisas positivas das nossas vidas nos são retiradas, mas, além disso, a morte em si não é nem um pouco ruim.
Assim, precisamos admitir a morte e aceitá-la como ela é, e não temos de sentir medo da morte. Pelo contrário, a vida eterna é castigo, pois, se vivemos para sempre, se minha vida for terrível, será um castigo, e, se minha vida for boa, é ruim demais, pois fica entediante caso dure por muito tempo.
Até onde sei, uma das maiores preocupação dos existencialistas é o medo da perfeita extinção da existência. Neste sentido, Shelly Kagan parece estar tentando eliminar o risco da não-existência sentida por existencialistas com base no argumento clássico de Epicuro. Acha que é válido? Acha que Shelly Kagan solucionou com sucesso o medo da morte que afligia os existencialistas, por meio do argumento dele? Acha que o argumento de Shelly Kagan é razoável? Gostaria de saber o que pensa.
P.S.: meu inglês não é bom. Se foi difícil ler, desculpe.
Han
Coreia do Sul
Dr. Craig responde
A
Quando comecei a ler a sua carta, Han, pensei que queria dizer que Shelly Kagan havia morrido! Agora entendi que está perguntando sobre o argumento dele acerca da morte. Como ando investigando outras áreas da filosofia, devo confessor que não tirei tempo para ler o livro dele sobre o assunto, de modo que minha resposta será simplesmente à sua pergunta, conforme formulada. Francamente, acho difícil acreditar que você tenha exposto o argumento do Kagan com precisão, uma vez que o argumento que você detalha é, a meu ver, falacioso demais.
Primeiro, considere a afirmação de que não devemos temer a morte porque a morte não pode nos prejudicar. Este argumento parece reificar a morte, como se ela fosse uma coisa, além de afirmar que essa coisa não pode nos prejudicar se estivermos mortos. Não há uma “coisa” chamada morte; o que tememos, com razão, é morrer. Com razão, temos receio de morrer porque, ao morrermos, perdemos tudo, até mesmo nossos egos. É simplesmente equivocado imaginar uma pessoa após a sua morte e dizer que a morte não pode prejudicá-lo porque tal pessoa não existe. Não tememos que, após cessarmos de existir, talvez sejamos prejudicados pela morte. Antes, o que tememos é cessar de existir! Qualquer pessoa em existência perde tudo, caso deixe de existir, e, portanto, com razão tem medo de morrer. Assim, uma pessoa que se aproxima da morte ou está diante dela ainda é uma pessoa que tem tudo a perder ao morrer e, portanto, teme com razão. (Estou falando, obviamente, a partir da perspectiva ateísta.)
Segundo, considere a afirmação de que a vida eterna seria terrível. Da perspectiva ateísta de Kagan, isso está absolutamente correto. Nenhum bem finito pode satisfazer o homem pela eternidade. Alguém disse que até mesmo Shakespeare, até mesmo Beethoven, ficariam enjoativos depois de um tempo. Não, para satisfazer o nosso anseio infinito, devemos ter um bem infinito, um bem inexaurível, que possa ser desfrutada eternamente. É exatamente por isso que pensadores como Agostinho criam que o fim do homem deve ser encontrado no conhecimento de Deus. O teísmo dá esperança ao homem.
Assim, continuo firmemente do lado dos existencialistas. Pessoas como Kagan estão a cantarolar à porta do cemitério, brincando com a morte.
- William Lane Craig