#698 Deus, o fundamento da moralidade
March 23, 2021Olá, Dr. Craig.
Obrigado por todo o trabalho que faz! Tem me beneficiado tremendamente ao longo dos anos. Preciso de algumas explicações sobre o dilema de Eutífron. Por que motivo a natureza de Deus pode ser considerada a fundamentação para a moralidade objetiva? Penso que a resposta seja que a natureza de Deus assim funcione por causa da perfeição moral de Deus. Porém, se eu propuser um ser hipotético B, de tal modo que B seja moralmente perfeito e eterno, mas não onipotente e onisciente, será que B pode ser a fundamentação para a moralidade objetiva? Além disso, se a moralidade objetiva nos dá provas da existência de Deus (argumento moral), será que não se pode dizer também que a moralidade objetiva nos dá provas da existência de B? Por favor, conto com sua ajuda para resolver esta confusão.
Atenciosamente,
Danial
Paquistão
Dr. Craig responde
A
É incrível saber que há gente no Paquistão interagindo com o trabalho de Reasonable Faith, Danial! Obrigado por me escrever!
Parece haver algumas confusões na sua pergunta. A mais básica é a combinação de uma teoria moral baseada em Deus com um argumento moral a favor da existência de Deus.
Para mantermos a clareza, comecemos pelo segundo. O argumento moral busca provar que há um ser pessoal, metafisicamente necessário, que é o paradigma da bondade moral. É só isso. Nada faz para provar que esse ser é onipotente e onisciente, como tampouco o fazem o argumento cosmológico kalam ou o argumento do ajuste fino, nenhum dos quais alegando provar que um criador pessoal e arquiteto do universo, por mais poderoso e inteligente, é literalmente onipotente e onisciente. Pessoalmente, uma das características atraentes desses argumentos é a sua modéstia: eles não alegam provar todos os atributos divinos, apenas alguns poucos. Para chegar à onisciência e onipotência, você vai precisar provavelmente do argumento ontológico. Assim, o argumento moral é bastante compatível, penso eu, com um ser como B (a menos que eu não tenha entendido direito o que você disse). O argumento moral deixa em aberto a questão da onipotência e onisciência do Absoluto moral.
Agora, voltemos à questão de postular Deus como o fundamento de valores e deveres morais objetivos. No caso, não se está buscando provar que tal ser exista. Apenas se está propondo uma teoria moral para a consideração das pessoas que forneça uma fundamentação teísta da moralidade. Alguém que creia num ser como B pode muito bem propor a sua teoria alternativa, como o faz o platonista que propõe fundamentar valores morais em algum objeto abstrato como o Bem, ou o humanista que propõe fundamentar valores morais objetivos em seres humanos. Todo teórico tem o direito de propor um fim explanatório ao elaborar a sua teoria, e então analisamos qual teoria é a mais plausível. Assim, quando se propõe uma teoria moral teísta em resposta ao dilema de Eutífron, a pergunta: “Por que motivo a natureza de Deus pode ser considerada a fundamentação para a moralidade objetiva?” sequer vem à tona, uma vez que não se está tentando provar a existência de Deus, mas se está simplesmente propondo uma teoria moral que exibe Deus como o fim explanatório. Defendo que a concepção anselmiana de Deus como o ser máximo que se pode conceber faz de Deus um fim explanatório mais plausível do que as teorias rivais, que me parecem prematuras e arbitrárias em suas etapas explanatórias. Além disso, como defende Richard Swinburne, um ser que possua uma propriedade a um grau infinito é mais simples do que um ser que, inexplicavelmente, possui essa propriedade, mas a um grau finito n (onde n é algum número natural). Deus é, portanto, um fim explanatório mais plausível do que um ser como B.
- William Lane Craig