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#339 A Necessidade de Deus e o Princípio Causal em uma Teoria-B do Tempo

May 16, 2015
Q

Caro Dr. Craig,

Na Pergunta #329 você escreveu “[...] não faz sentido perguntar: ‘se Deus existe, por que ele existe?’ Esse tipo de quebra-cabeça é apropriado apenas para um ser que exista contingentemente. Mas com relação a um ser necessário, isso é como se perguntar: ‘Por que todos os solteiros não são casados?'”

Estou inclinado a concordar com você de que se adotarmos uma teoria-B ou aflexiva [atemporal] do tempo, segundo a qual todos os momentos do tempo são igualmente reais, e tornar-se temporal é uma ilusão da consciência humana, então o argumento cosmológico Kalam com base no começo do universo não é a questão saliente [...]"

Tenho dúvidas sobre os dois pontos que você defende. Em resposta ao seu primeiro ponto sobre a asseidade divina, parece que há uma divergência epistemológica com o solteiro, já que em minha mente eu posso ver que um homem solteiro não ser casado é auto-evidentemente verdadeiro, e, assim, eu entendo a necessidade do estado civil de um solteiro. Com Deus, no entanto, eu não vejo a sua necessidade da mesma forma. Eu não tenho dúvida de que ele seja, de fato, necessário, mas já que eu não posso ver Sua necessidade não consigo realmente entendê-la (mesmo se eu entender que é o caso de que Ele seja necessário). Anselmo declarou que se alguém realmente entende o que significa ser Deus, então compreenderá que Ele tem de existir; infelizmente eu ainda não entendo o que significa ser Deus e, portanto, não consigo ver a Sua necessidade.

Parece que as verdades necessárias são explicadas pelo seu significado, assim solteiros são necessariamente não casados em virtude do sentido da solteirice. Do mesmo modo 2 + 2 = 4 é necessariamente verdadeiro, por força dos valores de 2 e 4. Assim, parece que o conceito de Deus implica a sua necessidade da mesma forma. Então, minha pergunta é como é que o conceito de Deus implica a sua necessidade de tal maneira?

Uma resposta óbvia é que o aspecto da natureza de Deus que implica Sua necessidade é Sua asseidade, então Deus é necessário em virtude do fato de que Ele é, por definição, um ser necessário. No entanto, isto não parece ser suficiente, já que todos os solteiros, não sendo casados, também é necessariamente verdadeiro por definição, mas meramente afirmar que solteiros são necessariamente não casados não consegue explicar a necessidade. Em vez disso, solteiros são necessariamente não casados porque solteirice contém não ser casado. Da mesma forma, o conceito de Deus de alguma forma deve conter a Sua existência a fim de Sua existência ser necessária.

Em seu argumento ontológico, Anselmo dá um modelo para a compreensão da necessidade de Deus baseado no conceito de Deus como o maior ser concebível, uma vez que, para Anselmo, a grandeza de Deus contém a Sua existência. Que modelo você proporia para explicar a existência de Deus sendo necessária?

Em resposta a suas dúvidas sobre o Argumento Cosmológico Kalam contra uma Teoria-B do tempo não se poderia argumentar, indutivamente, que todas as entidades com uma borda no sentido “antes-de” têm uma relação causal com outra entidade nessa borda (isto parece quase equivalente a premissa causal)? Como é verdadeiro para cada entidade que podemos testar a este respeito, parece ser plausível que, para qualquer entidade que não podemos testar, se a entidade tiver uma borda antes-de, então é muito provável que ela tenha uma relação causal com outra entidade nessa borda. O universo tem tal borda, por isso, é muito provável que o universo tenha uma relação causal com outra entidade nessa borda. Tal argumento poderia funcionar?

Obrigado por todo o trabalho que você faz,

Deus abençoe,

Rob

Austrália

Australia

Dr. Craig responde


A

Vamos considerar os seus dois pontos um por vez, Rob. O seu primeiro ponto é na verdade uma objeção ao argumento ontológico, não para a existência necessária de Deus. É, de fato, a objeção de Tomás de Aquino ao argumento ontológico de Anselmo! Tomás diferenciou entre proposições que são auto-evidentes em si mesmas e proposições que são auto-evidentes para nós. No que diz respeito à proposição de que Deus existe, Tomás de Aquino escreveu:

Eu digo que a proposição ‘Deus existe’, quanto ao que é em si, é evidente em si mesma, porque o predicado é o mesmo que o sujeito; porque Deus é a Sua própria existência [...]. Mas como não conhecemos a essência de Deus, a proposição não é evidente para nós; precisa ser demonstrada por meio do que é mais conhecidas para nós, apesar de menos conhecidas em sua própria natureza - nomeadamente, pelos efeitos (Summa Theologicapt 1 Quest 2 art 1).

Por outro lado, no caso do solteiro, podemos, como você diz, "ver que um solteiro não sendo casado é evidentemente o caso" porque entendemos que pertence ao conceito de um solteiro não ser casado. Portanto, na visão de Aquino, ainda que Deus existe seja necessariamente verdadeiro, não é evidente para nós que seja necessariamente verdadeiro, devido à nossa ignorância da essência de Deus, e assim o argumento ontológico falha.

Agora você achar que isso é uma boa objeção ao argumento ontológico (eu não acho), é irrelevante, como Tomás percebeu, para a asseidade e existência necessária de Deus. A existência necessária de Deus não depende de que seja auto-evidente para nós. Assim como uma equação matemática complexa, pode ser necessariamente verdadeira, mesmo que não possamos sequer entendê-la, assim “Deus existe” pode ser necessariamente verdadeiro, mesmo que não seja óbvia para nós. Assim, o fracasso do argumento ontológico não faz nada para minar a existência necessária de Deus.

Não pense que todas as verdades necessárias são verdadeiras apenas por definição. Exemplos de verdades necessárias que não são por definição incluem: Tudo que é colorido é estendido; Nada é simultaneamente todo vermelho e todo verde; O ouro tem o número atômico 78; Os meus sapatos não poderiam ter sido feitos de aço; Nenhum evento precede a si mesmo; Tudo o que vem a ser tem uma causa; e assim por diante. Da mesma forma, Deus existe não precisa ser considerado verdadeiro por definição.

Concordo com Anselmo de que Deus, como o maior ser concebível, deve ter existência necessária como uma propriedade essencial. Pois a existência necessária é uma propriedade engrandecedora. Isso implica que, em todos os mundos possíveis em que Deus existe, Ele tem a propriedade de existência necessária.

Isso nos traz de volta ao argumento ontológico. Porque, se Deus tem existência necessária em qualquer mundo possível, então Ele existe em todos os mundos, incluindo o mundo real. Então, se a existência de Deus é sequer possível, Ele deve de fato existir. O problema real para o argumento ontológico não é se podemos ver que Deus existe necessariamente, como pensava Aquino, mas se podemos ver que Deus possivelmente existe.

Quanto à sua segunda pergunta, apesar de eu ser comprometido com a teoria-A (ou flexiva) do tempo, de acordo com a qual se tornar temporal (temporal becoming) é uma característica objetiva da realidade e o passado, presente e futuro não estão em igualdade ontológica, ainda estou feliz que os teóricos-B queiram defender a premissa causal do argumento cosmológico Kalam. Um teórico-B me disse: "Se um cavalo começa a existir em algum momento t, é claro que o teórico-B diria que tem que haver uma causa anterior do que t que explica porque há (atemporalmente) um cavalo em t!" Isso parece bastante sensível para mim. Seu argumento indutivo iria fornecer alguma justificativa para defender o princípio da causalidade, embora ele esteja muito aquém dos fundamentos metafísicos que o teórico-A pode oferecer para a justificação do princípio, ou seja, de que algo não pode vir a existir a partir do nada.

- William Lane Craig