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#376 Perguntas sobre a Origem do Universo

May 16, 2015
Q

Olá Dr. Craig. Eu sou um ateu agnóstico, e atualmente estou fazendo uma graduação em CS, então eu lido bastante com a lógica. Eu acho que seus debates são interessantes, já que você quase sempre deixa seus adversários atentos, como no debate Hitchens, exceto de algumas poucas ocasiões como no debate com Sean Carroll. Sean fez um ótimo trabalho naquele debate.

Bem, a minha primeira pergunta é, você ainda vai usar o teorema Borde Guth Vilenkin (BGV) para a evidência do começo do universo? Porque Carroll parece ter desmentido completamente a declaração de que isto prova um começo. Como ele afirma: O teorema BGV prova que nossa física atual se rompe em um certo ponto, não que o universo começou. Claro, alguns modelos eternos no passado têm problemas, mas não todos. Mesmo que todos eles falhassem, isso é apenas evidência que nossos modelos não são bons o suficiente, não que houve um começo. Mesmo se um começo fosse comprovado, provavelmente não seria o tipo de começo que você precisa a fim de mostrar que deus é necessário para criar o universo. Embora eu concorde que algo não pode vir do nada, isto é um absurdo se você tem leis da física que existiam antes (antes é provavelmente a palavra errada) do universo, não é surpreendente obter um universo uma vez que por causa das leis da gravidade e física quântica o vácuo é gerado devido às leis quânticas, e, portanto, eventualmente um universo.

Nem mesmo Hawking está afirmando que o universo veio do nada com a teoria-M, porque ele ainda acha que havia leis que estavam em vigor antes do universo em uma espécie de estado platônico. Números não são considerados sem espaço, atemporais e imateriais? Assim, mesmo se nós seguimos a sua lógica, a conclusão poderia ainda ser que há leis físicas que são sem espaço, atemporais e imateriais que nos diz que é preciso haver um universo, e essas leis são necessárias, como 2 + 2 = 4. Portanto, parece para mim, que um começo do universo não é uma ameaça ao ateísmo de nenhuma forma, e nem ao argumento kalam. Bem, não seria a matemática 'causando' o universo vir a existir, mas essas leis físicas "permitem" que um universo a vir a existir.

Você diz que algo não pode começar a existir sem [ter uma] causa, bem, isso parece ser apenas uma suposição metafísica, para a qual você provavelmente tem uma boa defesa. Claro, as coisas não surgem sem uma causa dentro da nossa experiência, mas estamos falando de um nível macro. Em um nível micro, nossas intuições comuns parecem ser falsas. Eu não quero abrir essa lata de vermes quântica, mas de qualquer forma [...] Então, por que pensar que a causalidade em nível macro é a linguagem apropriada para usar em um estado extremamente pequeno do universo, onde as nossas intuições são susceptíveis de serem falsas? Assim como nossas intuições sobre o tempo são falsas em uma escala muito grande (relatividade). Você diz: "Bem, se as coisas podem vir a existir sem causa, por que qualquer coisa (e tudo) não surge sem causa do nada", muitas vezes você chama a atenção de Krauss por confundir nada com vácuo, mas aqui você equivoca nada com o vácuo. Independentemente disso, parece oportuno lembrar que o nosso universo segue as "leis da física", tais como a conservação de energia. Então, dentro do nosso universo, objetos inteiros não podem vir a existir sem ser causados. Portanto, me parece que dizer que alguma coisa pode vir a existir sem uma causa só viola as leis que conhecemos no universo.

Matt

Austrália

Australia

Dr. Craig responde


A

Muito obrigado por sua pergunta, Matt! Não me canso de falar sobre a origem do universo! Eu concordo com você que Sean Carroll fez um excelente trabalho e, portanto, acho que o nosso debate foi um dos melhores que já tive, juntamente com os debates com Doug Jesseph e Austin Dacey. Na verdade, para realmente absorvê-lo, você tem que estudar a transcrição, e não apenas assistir ao debate.

Quando você fizer isso, eu acho que você vai descobrir que muitas de suas perguntas já foram abordadas. Por exemplo, você vai descobrir que o meu argumento de abertura foi formulado precisamente de tal forma que foi imune à crítica antecipada de Carroll de que o teorema Borde-Guth-Vilenkin é aplicado ao espaço-tempo clássico e assim não leva em conta a física quântica. Aqui está o esboço da minha defesa:

1.0 Evidências da Expansão do Universo

1.1 Espaço-tempo clássico começou a existir

1.11 Teorema Borde GuthVilenkin

1.12 O modelo de Carroll descartado por outros motivos

1.2 Era da Gravidade Quântica começou a existir

1.21 Se tal estado não teve um começo, iria produzir o espaço- tempo clássico desde a eternidade ou nunca. Assim, se tal era existe, é o começo do universo.

2.0 Evidências da Termodinâmica

2.1 O universo começou a existir em uma condição de baixa entropia

2.11 O modelo de Carroll

2.111 O modelo de Carroll viola a unitaridade da física quântica

2.112 O modelo de Carroll não resolve problema do Cérebro de Boltzmann

2.2 Era da gravidade quântica começou a existir

2.21 Teorema Wall defende a era da gravidade quântica e requer um começo. Pode-se evitá-lo apenas com a reversão da seta do tempo, o que implica um começo do tempo e do universo termodinâmico.

Como você pode ver, em ambos os casos, eu argumentei primeiro em favor do começo do espaço-tempo clássico e, em seguida, em favor de um começo de qualquer era de gravidade quântica hipotética. Assim, o meu uso do teorema BGV foi impecável. Esse teorema prova que qualquer espaço-tempo clássico que tem, em média, se expandido ao longo de sua história não pode ser eterno no passado, mas deve terminar em um limite de espaço-tempo. [1] Esse limite não precisa ser singular; então, é simplesmente equivocado dizer que o teorema prevê uma quebra das leis da física. No modelo Hartle-Hawking que você menciona, por exemplo, não há quebra das leis nem um começo singular, mas há um começo de qualquer forma, e o universo é finito no passado. Está, assim, em consonância com o teorema.

Portanto, os passos controversos no argumento não são, ou não deveriam ser (1.1) ou (2.1), mas sim (1.2) e (2.2). Carroll tinha pouco a dizer sobre essas questões e, mais tarde admitiu que não tinha sequer ouvido falar do teorema de Aron Wall.

Carroll na verdade me surpreendeu ao insistir que devemos basear nossas conclusões, não em teoremas, mas em modelos. Pois se fizermos isso, então a defesa do começo do universo torna-se quase irresistível. Após pesquisar os modelos, incluindo o modelo do próprio Carroll, Vilenkin diz: "Até onde nós sabemos, não há modelos nesse momento que fornecem um modelo satisfatório para um universo sem um começo". [2] Os modelos com começo se encaixam nas evidências; modelos sem um começo, não.

Matt, por favor olhe honestamente como você está com a mente fechada ao seguir as evidências onde elas apontam. No que diz respeito aos modelos eternos no passado, você diz: "Mesmo que todos eles falhassem, isso é apenas evidência que nossos modelos não são bons o suficiente, não que houve um começo." Sério? Por que não? Você diz que os modelos não são bons o suficiente. Não são bons o suficiente para o quê? Não são bons o suficiente para explicar a evidência para um começo! Lembre-se das palavras de Sean Carroll,

a ciência julga os méritos de modelos concorrentes em termos da sua simplicidade, clareza, abrangência e ajuste aos dados. Teorias mal sucedidas nunca são falsificadas, já que podemos sempre inventar esquemas elaborados para salvar os fenômenos; eles simplesmente desaparecem à medida que teorias melhores ganham aceitação. [3]

Este parágrafo precisa ser completamente absorvido. Claro, Matt, os defensores de um universo eterno podem continuar inventando esquemas elaborados para tentar evitar a evidência de um começo; mas, dada a presença de teorias melhores, isto é, modelos bem sucedidos do universo com um começo, as suas esperanças estão desaparecendo.

Sua falta de mente aberta está mais evidente quando você, em seguida, diz: "Mesmo se um começo fosse comprovado, provavelmente não seria o tipo de começo que você precisa a fim de mostrar que deus é necessário para criar o universo". Não importa que o argumento não conclui que Deus existe, mas que uma causa transcendente existe. O começo do espaço-tempo e seu conteúdo certamente é o tipo de início que carrega grandes implicações metafísicas, como já argumentei, uma vez que é um começo absoluto e não apenas relativo.

Seu apelo às leis da natureza para explicar o começo do universo espaço-tempo é mal concebido, pois as leis da física (em oposição aos estados físicos que elas descrevem) são apenas equações ou proposições matemáticas, as quais são entidades abstratas que não estão em relações causais. (Na verdade, este é um dos meus três argumentos para a pessoalidade da causa transcendente alcançado na conclusão do argumento. [4] Ao contrário da sua reinvindicação, as leis da física não geram ou causam nenhuma coisa.

Você parece no fim entender o seu passo em falso, pois você acrescenta: "Bem, não seria a matemática 'causando' o universo vir a existir, mas essas leis físicas 'permitem' um universo vir a existir." Ah, 'permitir que' é uma relação muito fraca para explicar por que o universo começou a existir! Muitas coisas são nomologicamente possíveis (permitidas pelas leis da natureza), mas não reais. Para explicar por que algum estado de coisas é real, você tem que fazer muito mais do que mostrar que é possível.

(Uma observação: olhe quão disposto você está, como um suposto agnóstico, a aceitar a realidade dos objetos abstratos sem espaço, atemporais, imateriais, causalmente irrelevantes como os números e leis, para os quais eu diria que não temos boas evidências, mas como você não está disposto a aceitar Deus o Criador. Isso não lhe faz parar para pensar?)

Quanto ao princípio da causalidade, sim, eu acho que tenho boas razões para pensar que seja mais provavelmente verdadeiro do que falso. [5] Eu estou perplexo com a afirmação de que a causalidade funciona no nível macro, mas não no nível micro. Então, as coisas podem aparecer a partir do nada a menos que sejam coisas bem pequenininhas, e não coisas grandes? Sério? O tamanho (que é relativo, afinal) realmente tem alguma coisa a ver com a possibilidade metafísica de surgir espontaneamente da não-existência? Não abra a lata de vermes quântica porque não estamos aqui falando de estados físicos como o vácuo, mas de existência vinda da não-existência.

Isso se relaciona com o meu ponto de que se alguma coisa pode vir a existir a partir do nada, então tudo (e qualquer coisa) pode vir a existir a partir do nada, já que não há restrições sobre como tornar-se - é desprovido de causa no fim das contas! Não há equívoco aqui, Matt (ver Pergunta # 368 sobre o argumento de A.N. Priore). Estou falando de algo surgindo espontaneamente da não-existência.

Seus comentários finais sobre as leis de conservação e energia são confusos. Você parece pensar que essas leis, de alguma forma, impedem que objetos grandes, ao contrário de pequenos objetos, surjam sem uma causa; e ainda assim você parece pensar que essas leis não são necessárias, mas por acaso se aplicam ao nosso universo. Agora, se coisas grandes surgissem sem serem causadas, então as leis da conservação seriam violadas. Então, por que elas não estão sendo violadas o tempo todo, se é metafisicamente possível que as coisas venham a existir sem uma causa? Lembre-se que as leis são causalmente impotentes; elas não podem restringir nada. Elas apenas descrevem (ou não conseguem descrever) o modo como é a realidade física. Você parece admitir esse fato ao dizer que elas existem contingentemente em nosso universo. Mas por que, então, elas se aplicam se é metafisicamente possível que as coisas surjam espontaneamente do nada?

De qualquer forma, eu tenho apreciado o estímulo de interagir com suas perguntas e desejo-lhe o melhor em seus estudos daqui para frente.

  • [1]

    Como notado em (1.12) modelos como o de Carroll que não obedecem esta única condição são descartados por outros motivos.

  • [2]

    Alexander Vilenkin, “Did the Universe Have a Beginning?” http://www.youtube.com/watch?v=NXCQelhKJ7A. Para uma boa pesquisa, veja a contribuição James Sinclair ao “The Kalam Cosmological Argument” no The Blackwell Companion to Natural Theology, ed. Wm. L. Craig e J. P. Moreland (Oxford: Wiley-Blackwell, 2009), pp. 101-201.

  • [3]

    Sean Carroll, “Does the Universe Need God?” no The Blackwell Companion to Science and Christianity, ed. J. B. Stump e Alan G. Padgett (Oxford: Wiley-Blackwell, 2012), p. 196.

  • [4]

    Ver Reasonable Faith, 3rd ed. (Wheaton, Ill.: Crossway Books, 2008), p. 153.

  • [5]

    Ver a Pergunta # 368

- William Lane Craig