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#802 A Trindade e a encarnação

October 07, 2022
Q

Dr. Craig,

Começarei a minha pergunta com a frase obrigatória de que sou grande fã do seu ministério e o tenho seguido desde o colegial. Foi o senhor que me levou a estudar filosofia na faculdade e, então, a fazer mestrado em teologia na Universidade Batista de Houston. Devo muito ao senhor.

Dito isto, parece que o seu entendimento da Trindade solapa uma das suas críticas à cristologia quenótica.

Quando o senhor discute a Trindade, diz que exemplificar a natureza divina não é a única maneira de ser divino (algo com que concordo). Uma razão para isto é que um dos atributos da natureza divina é ser trino e, evidentemente, os membros da divindade não são trinos, de modo que eles não instanciam a natureza divina, neste sentido. Todavia, podemos dizer que são divinos em virtude da sua participação na Trindade ou algo assim. Não tenho problema com isto e concordo com o seu entendimento da Trindade.

A questão é que, quando o senhor critica a cristologia quenótica, raciocina mais ou menos assim: “Bem, a onisciência é atributo essencial da natureza divina, de modo que, se Cristo não é onisciente, quer dizer que ele não está a exemplificar a natureza divina, o que significa que ele é tanto Deus quanto Homem”. Há de se admitir que isto é paráfrase tosca, mas espero que consiga entender a ideia dela.

Mas espere um pouco: o senhor argumenta em relação à Trindade que a pessoa pode ser divina sem exemplificar a natureza divina, observando que partes podem ter propriedades que o todo não tem.

Se seguirmos o seu raciocínio em relação à Trindade, deveríamos poder dizer que, na encarnação, o Filho não tem mais as propriedades da onisciência. Como podemos dizer que a natureza divina tem a propriedade de ser tripessoal, algo de que os membros da Trindade não dispõem, assim também podemos dizer que a natureza divina tem a propriedade de ser onisciente, algo de que um dos membros da Trindade não dispõe. Se alguém disser que Jesus, por não exemplificar a natureza divina quanto à onisciência, não é Deus, deveria ser coerente e dizer que o Pai, por não exemplificar a natureza divina quanto a ser tripessoal, não é Deus. Entende-se que ser tanto onisciente quanto tripessoal são, afinal, atributos essenciais da natureza divina. No entanto, o senhor parece mudar o tom quando o assunto é a Trindade, dizendo que a pessoa não tem de instanciar a natureza divina para ser divina.

Quero observar que, segundo a visão que acabei de propor, Deus (entendido como a Trindade plena) ainda tem, essencialmente, a propriedade de onisciência. Só acontece que um dos membros da divindade não tem tal propriedade. Não vejo como isto é substancialmente diferente da sua visão da Trindade, que diz ter Deus (entendido como a Trindade plena), essencialmente, a propriedade de ser trino. Só acontece que os membros da Trindade não têm tal propriedade.

Seu irmão em Cristo,

James

Estados Unidos

United States

Dr. Craig responde


A

Obrigado por seus gentis comentários, James! A resposta curta à sua pergunta, na minha opinião, é que só por uma pessoa divina não dispor de uma propriedade de ser, por si, trino (tripessoal) não significa que uma pessoa divina pode não ter simplesmente nenhum atributo divino. Por exemplo, tenho certeza de que você concordaria que nenhuma pessoa divina poderia não ter a propriedade de ser pessoal. Nenhuma pessoa poderia desistir da propriedade de ser pessoal e, ainda assim, ser divina. Igualmente, quanto à bondade: nenhuma pessoa pode ser divina, se não for boa. Apenas percorra os atributos divinos comuns e pergunte-se se qualquer pessoa que não tenha tal atributo merece ser chamada divina. Eu incluiria a onisciência à lista de propriedades de que qualquer pessoa deva ter, caso seja, devidamente, chamada de divina. Por isso, eu corrigiria a sua paráfrase, reconhecidamente tosca, da minha visão para afirmar com mais precisão: “se Cristo não é onisciente, significa que ele não é divino, o que quer dizer que ele não é tanto Deus quanto Homem”.

Assim, daí não se segue a inferência de que: “Como podemos dizer que a natureza divina tem a propriedade de ser tripessoal, algo de que os membros da Trindade não dispõem, assim também podemos dizer que a natureza divina tem a propriedade de ser onisciente, algo de que um dos membros da Trindade não dispõe”. Tal inferência exigiria justificação, algo que, na minha opinião, não está disponível.

- William Lane Craig