#803 Empatia e onisciência divina
November 05, 2022Dr. Craig,
O seu ministério me tem sido uma verdadeira fonte de encorajamento e ajudado a fundamentar a minha fé de maneira intelectualmente mais satisfatória. Com frequência, encontro-me abordando objeções de amigos ao cristianismo usando os argumentos que o senhor desenvolveu. Infelizmente, fiquei sem resposta a algo que um colega me perguntou. Meu colega, que sofreu bastante na vida, disse que o sofrimento dá sentido à vida. Na visão dele, o sofrimento oferece o contraste de que necessitamos para, realmente, desfrutarmos as coisas boas na vida.
Respondi que, na minha visão como cristão, o sofrimento jamais foi o ideal de Deus para a humanidade. No entanto, a Bíblia promete que todo o sofrimento será, em última instância, redimido. Também apresentei que a morte de Cristo é um exemplo da vontade divina de partilhar do nosso sofrimento — a demonstração decisiva de empatia.
O meu amigo não concordou, apontando uma aparente incoerência lógica: se todas as coisas se sustentam em Deus, e Deus é onisciente, como é que ele poderia ter colaborado, de maneira significativa, ao seu corpo de conhecimento, ao morrer pessoalmente na cruz? Em outras palavras, será que Cristo, por morrer na cruz, sequer mostra empatia? Será que Deus já deveria saber qual é a sensação de sofrer desta maneira? Afinal, Deus é a fonte de todas as coisas e onisciente.
Tenho vergonha de admitir que não tinha resposta para o meu caro amigo, e espero que o senhor consiga me orientar na direção certa. Como é que um Deus onisciente pode experimentar algo pela primeira vez? Será que caracterizei de forma errada a identificação de Cristo com o nosso sofrimento, quando a chamei de ato de empatia?
Benjamin
United States
Dr. Craig responde
A
A suposição por trás da objeção do seu amigo parece ser que a experiência que Cristo teve de experimentar o sofrimento da crucificação e de levar o pecado requer que Deus aprenda algo novo. Não penso que seja verdade.
Nas minhas aulas sobre a Doutrina de Deus: Onisciência, no curso Defenders 3, explico a útil distinção que os filósofos fazem entre conhecimento proposicional e conhecimento não-proposicional. Conhecimento proposicional é conhecimento de fatos: conhecimento de que ______, em que a lacuna é preenchida com alguma oração. Conhecimento não-proposicional inclui conhecimento de como, tal qual como se sente o sofrimento ou a própria crucificação. Ora, a onisciência é definida a partir do conhecimento proposicional: para qualquer pessoa S e a proposição verdadeira p,
S é onisciente, se e somente se S sabe que p e não acredita em não-p.
Enquanto ser onisciente, Deus deve possuir todo conhecimento proposicional. Isto, porém, não implica que Ele possui todo conhecimento não-proposicional. Assim, embora Deus deva conhecer tais fatos como Ser crucificado é sufocante, Ser crucificado é excruciante, Ser crucificado é humilhante etc., a onisciência não requer que Deus saiba qual é a sensação da crucificação em si. Isto deixa aberta a possibilidade de dizer que, na encarnação e crucificação de Cristo, Deus chega a novo conhecimento não-proposicional, embora Seu conhecimento proposicional continue imutável.
Além disso, o seu amigo parece supor que, se Deus possui, de fato, conhecimento não-proposicional de qual é a sensação da própria crucificação, antes da encarnação, Ele não pode empatizar conosco. Esta é, realmente, uma objeção estranha! As pessoas que, pessoalmente, sofreram alguma doença ou enfermidade têm mais facilidade de empatizar com quem sofre de igual forma, pois sabem qual é a sensação! Teria sido mais plausível que seu amigo dissesse que, por Deus não ter tal conhecimento não-proposicional, Ele não pode empatizar conosco. Porém, o fato de Deus tomar para si tal sofrimento tão-somente por nossa causa mostra incrível empatia da Sua parte.
Quanto à sua pergunta: “Como é que um Deus onisciente pode experimentar algo pela primeira vez?”, a resposta é: ao passar por isto pela primeira vez. Mesmo que Deus tenha, antes da encarnação, conhecimento não-proposicional de qual é a sensação da própria crucificação, ele experimenta, de fato, a crucificação, pela primeira vez, quando Cristo é crucificado.
Por último, permita-me dizer que a sua resposta à alegação do seu amigo de que “o sofrimento dá sentido à vida”, pois “o sofrimento oferece o contraste de que necessitamos para, realmente, desfrutar as coisas boas na vida” parece sair pela tangente. Não seria resposta melhor apontar que isto oferece, na melhor das hipóteses, um sentido subjetivo à vida dele, mas não um sentido objetivo? Segundo o ateísmo, o sofrimento dele é sem sentido, em última instância, assim como o são as coisas boas na vida das quais ele desfruta.
- William Lane Craig