#801 Incoerência quanto ao platonismo moral
October 07, 2022Caro Dr. Craig,
No seu debate com Wielenberg, o senhor menciona que um dos problemas da visão de Wielenberg é “que ele postula conexões causais entre objetos físicos e objetos abstratos, onde nenhuma parece existir” (p. 64).
No entanto, nas suas publicações sobre objetos abstratos, o senhor reconhece que objetos físicos podem causar objetos abstratos:
1 – Em relação ao equador da terra. Em God over All [Deus acima de tudo], o senhor escreve: “o equador é uma linha geométrica que cinge a terra e, portanto, existe no espaço. Você pode, na verdade, pisar esse objeto abstrato! Além disso, ele depende da terra para existir e, portanto, só existe desde que a terra exista” (p. 5).
A terra (objeto físico) parece estar causando um objeto abstrato (o equador da terra).
2 – Em relação às composições literárias e artísticas, o senhor escreve: “muitos platonistas contemporâneos pensam que composições literárias e musicais são objetos abstratos, que não devem ser identificados com nenhum exemplar particular dessas obras. Por exemplo: a Quinta Sinfonia de Beethoven não pode ser, plausivelmente, identificada com alguma partitura impressa, para que não sejamos compelidos a dizer que, se tal partitura for destruída, a Quinta Sinfonia de Beethoven não existirá mais! No entanto, uma vez que obras literárias e musicais são, plausivelmente, as criações dos seus respectivos autores, a maioria dos platonistas mantém que a existência delas não é metafisicamente necessária” (p. 18).
Portanto, obras de arte seriam objetos abstratos causados por objetos concretos (físicos?) (isto é, seres humanos).
Mesmo que consideremos ser a causa de obras de arte a “mente imaterial” dos autores (e, portanto, não algo puramente físico), continua a ser verdade que algo “concreto” está causando o abstrato.
De fato, o senhor menciona o último exemplo como objeção à visão de Van Inwagen segundo a qual objetos abstratos não se põem em relações causais. O senhor menciona o último exemplo como exemplo de objetos abstratos sendo “efeitos” de outra coisa.
A minha pergunta é a seguinte: será que os exemplos mencionados acima (sobretudo, o exemplo do equador da terra) solapam a sua objeção contra a visão de Wielenberg? Se não, qual é a diferença relevante entre a tese de Wielenberg e os dois exemplos acima, mencionados pelo senhor?
Muito obrigado por seu ministério!
Agustin
Estados Unidos
Dr. Craig responde
A
Esta é uma pergunta muito boa em relação a uma incoerência aparente da minha parte. Penso que se pode mostrar que a incoerência é, meramente, aparente, caso se tenha em mente a diferença entre valores morais abstratos e os tipos de objetos que você menciona.
Primeiramente, o equador, mesmo que algo assim exista, não é, plausivelmente, causado pela terra, mas por geógrafos que decidiram dividir a superfície da terra com linhas matemáticas de latitude e longitude. É, portanto, o mesmo tipo de objeto que as criações literárias e artísticas que você menciona na sequência. Em relação a estas últimas, mesmo que tais coisas existam mesmo como objetos abstratos, elas são, como eu digo, criações dos seus respectivos autores.
Como tais, são radicalmente diferentes dos valores morais independentes, atemporais, a-espaciais e abstratos postulados pelo platonista moral. Não são criações de seres humanos (para que não caiamos em subjetivismo moral). Existem de modo totalmente distinto do nosso. Portanto, é misterioso como estados físicos, como duas pessoas em amor mútuo, poderiam fazer com que um objeto como bondade fosse exemplificado. Isto é especialmente misterioso dado o naturalismo de Wielenberg, pois a física não conhece nada de tais poderes causais da parte de entidades físicas.
Tudo isto é dito como concessão ao platonista, obviamente. Estou falando aqui como se esses objetos abstratos existissem, algo que duvido. No entanto, se existem mesmo, há diferença profunda entre objetos que são criações humanas e objetos que são totalmente separados de nós.
- William Lane Craig