#356 Abusando da Filosofia
January 14, 2015Querido Dr. Craig,
Estou estudando atualmente para obter duas graduações universitárias (Filosofia e Biologia) em Sydney, Austrália. Como você sabe, por causa de seu recente tour pela Austrália, meu país tende a uma abordagem mais secular do que seu país natal. Apesar de eu não ser nem um pouco Cristão, eu percebo, cada vez mais, que até mesmo as pressuposições de uma cosmovisão ateística dos professores transbordam em suas abordagens discursivas e me encontro consistentemente desafiando a “autoridade”, por assim dizer. E isso acaba resultando, de forma não intencional, em uma conclusão teísta. Por esta razão, decidi primeiro completar ambas as disciplinas e, se minhas conclusões teístas prevalecerem, eu então considerarei seriamente deliberar sobre as verdades de diferentes religiões e ver se posso aderir a alguma, consistentemente, sem prejuízo intelectual.
Tendo dito isto, eu recentemente ofereci um ou dois argumentos sugerindo a objetividade da moralidade em um tutorial, refutando outro aluno que é um ardente relativista moral. Ao invés de se engajar com os argumentos que eu apresentei, ele simplesmente se dirigiu a mim com as seguintes sugestões ao estilo de van Inwagen:
“Antes mesmo de eu considerar seus argumentos você precisa provar que a realidade existe.” “'Eu estou sugerindo que o conhecimento de até mesmo uma mesa é sem sentido, pois sentidos são a única forma com que podemos experimentar a 'realidade' e então o axioma que T=T é fundado sobre a crença de que nossas experiências são infalíveis quando, demonstravelmente, elas não são e, portanto, não pode ser considerado conhecimento objetivo. Tudo isso está relacionado com a minha ideia sobre moralidade - se não podemos concordar que uma mesa objetivamente existe, como podemos sugerir o mesmo com a moralidade?” “Então, você pode afirmar, e apoiar com provas apropriadas, que o niilismo mereológico é 100% falso? Se você pode, eu adoraria ouvir sua prova, do contrário você está simplesmente escolhendo ignorá-lo além de ignorar muitas outras teorias para fortalecer seu próprio sistema de crenças.” “Sem conhecimento, não podemos ter objetividade.” E em última análise... “Por que interagir com suas premissas quando suas crenças subjacentes não são provadas?”
Como você pode ver pelas citações acima do estudante “B”, o debate a respeito de moralidade objetiva se transformou, de forma estranha e muito rápida, em um argumento sobre alguma forma de niilismo mereológico, pelo que pude discernir. Eu não fui dissuadido da validade e adequação dos meus argumentos morais. Porém, quando o professor também disse que os pontos destacados pelo aluno precisavam ser contemplados antes de eu considerar tais argumentos, fiquei realmente perplexo.
Parece-me absurdo ter que afirmar que eu e você e o mundo em que vivemos existem como compostos para que seja possível discutir a moralidade objetiva!
Portanto, tenho duas perguntas:
1. Preciso incorporar uma consideração em resposta ao niilismo mereológico a fim de ir adiante com um argumento em defesa da moralidade objetiva?
2. De qualquer forma, você poderia, por favor, falar a respeito das afirmações do “outro aluno” (e confirmação do professor) listadas acima, para referência futura?
Qualquer resposta será muito apreciada, pois isso tem me incomodado muito em minha jornada, pelo simples fato de que a posição do outro estudante parece absurda.
Atenciosamente,
Taylor
Australia
Dr. Craig responde
A
Eu devo ter perdido algo aqui! O que seu amigo e professor dizem parece tão obviamente errado que eu fiquei chocado que eles possam acreditar em algo assim.
A aparente pergunta aqui (para leitores que não tem o conhecimento prévio do Taylor) tem a ver com a existência ou não de objetos compostos, ou seja, existem de fato objetos como cadeiras, mesas e pessoas, ou existem simplesmente partículas fundamentais (como quarks) arranjados na forma de cadeiras e mesas, etc.? Esta é uma pergunta ontológica que mantém os metafísicos acordados a noite. A ideia de que objetos compostos não existem é chamada de niilismo mereológico. A afirmação que o amigo e o professor do Taylor parecem fazer é que o Taylor precisa primeiro dar uma resposta a esta pergunta ontológica antes de afirmar que existem valores morais objetivos.
Isso parece ser uma reivindicação bizarra. Se valores morais fossem objetos compostos feitos de partículas fundamentais, então seria possível compreender este requisito. Mas, como seria loucura pensar que valores morais são objetos materiais compostos, esse requisito é inapropriado e inútil.
A única forma em que eu consigo ver a relevância do niilismo mereológico para a moralidade objetiva é se alguém fosse reivindicar que, no niilismo mereológico, pessoas não teriam valor moral objetivo porque não existem pessoas (já que eles seriam objetos compostos)! Portanto, não existem agentes morais. Tal argumento, porém, assume que pessoas são objetos materiais, afirmação que os dualistas rejeitam. Então este argumento teria força apenas contra o materialista. Mas então o argumento poderia até mesmo dar uma boa base para o materialista rejeitar o niilismo mereológico. Eu sei que sou um agente moral; se o niilismo mereológico for verdade, então eu não sou um agente moral; portanto, o niilismo mereológico não é verdade. Assim, ao contrário de requerer uma decisão anterior a respeito do niilismo mereológico, o objetivismo moral pode, na realidade, prover um bom fundamento para decidir a respeito do niilismo mereológico.
De qualquer forma, seu amigo não parece estar argumentando dessa forma. Não vejo nada nos comentários dele que possa sugerir que o niilista mereológico não pode consistentemente aderir ao objetivismo moral. Aqui está um bom contra-argumento para a alegação dele de que você precisa decidir-se a respeito do niilismo mereológico antes de decidir-se a respeito da moralidade objetiva:
1. Alguns que defendem o niilismo mereológico defendem racionalmente a moralidade objetiva (ex., van Inwagen).
2. Alguns que rejeitam o niilismo mereológico defendem racionalmente a moralidade objetiva (ex., Plantinga).
3. Se você pode defender ou rejeitar o niilismo mereológico e defender racionalmente a moralidade objetiva, então a decisão a respeito do niilismo mereológico não é necessária a fim de defender racionalmente a moralidade objetiva.
4. Então a decisão a respeito do niilismo mereológico não é necessária a fim de defender racionalmente a moralidade objetiva.
A menos que seu amigo esteja disposto a encarar o enorme ônus da prova mostrando que van Inwagen ou Plantinga são irracionais (boa sorte!), ele terá de dizer que não faz diferença se você defende o niilismo mereológico ou não; o que realmente importa é que você tome uma decisão a respeito do assunto. Contanto que você tenha tomado uma decisão, você pode aderir ao objetivismo moral, independente do que tenha decidido. Mas se é isso que ele está dizendo, então tudo o que você tem que fazer é simplesmente anunciar a sua decisão a ele e, seja qual for a sua decisão, sua crença em valores morais objetivos estará bem!
Seja qual for o caso, por que pensar que, para ser um objetivista moral racional, você tem que ter tomado a decisão a favor ou contra o niilismo mereológico? Os problemas não parecem ser paralelos de forma alguma. Os enigmas filosóficos que surgem por causa da composição (como identidade e mudança intrínseca) simplesmente não aparecem quando estamos falando da realidade dos valores morais. Então, qual é o problema em estar indeciso sobre questões relacionadas a composição que não permite que eu defenda racionalmente que o abuso sexual de crianças é objetivamente errado? Seu amigo te deve um argumento aqui.
Taylor, aqui está o que eu penso que realmente está acontecendo: para justificar seu relativismo moral seu amigo está bancando o cético. Ele está dizendo que se você não pode confiar nem mesmo nos seus cinco sentidos para dizer que mesas existem, como pode confiar em suas percepções morais para dizer que valores morais objetivos existem? Debates filosóficos sobre niilismo mereológico estão sendo usados de forma inapropriada para tentar justificar este ceticismo. Seu amigo erroneamente acredita que a dificuldade em decidir questões filosóficas sobre composição ocorre por causa das falhas dos nossos cinco sentidos. Isso somente expõe a superficialidade do entendimento dele a respeito desses debates. Uma pessoa como van Inwagen deixa muito claro que sua negação quanto à existência de cadeiras não quer dizer que cadeiras são ilusórias ou que existe algo de errado com os nossos cinco sentidos. Suas reservas a respeito de se cadeiras são objetos de fato são metafísicas e não perceptuais. A resposta à pergunta, “e se não podemos concordar que uma mesa objetivamente existe, como podemos sugerir o mesmo com a moralidade?” é que nossa falta de habilidade para decidir a respeito de perguntas sobre composição não tem nada a ver com a confiabilidade dos nossos sentidos mas com questões metafísicas que não surgem em debates a respeito da existência de valores morais objetivos.
Note o típico erro cético de seu amigo ao igualar conhecimento com certeza: a menos que você consiga provas “que niilismo mereológico é 100% falso,... você está simplesmente escolhendo ignorá-lo e muitas outras teorias para fortalecer seu próprio sistema de crenças.” O ceticismo não sofisticado do seu amigo se auto-destrói. Apenas pergunte a ele, “Como você sabe que 'sentidos são a única forma com que podemos experimentar 'realidade'”? Como você sabe que a Lei da Identidade 'que T=T é fundada sobre a crença que nossas experiências são infalíveis'?” Diga a ele, “A menos que você possa provar que moralidade objetiva é 100% falsa,...você está simplesmente escolhendo ignorá-la além de ignorar muitas outras teorias para fortalecer seu próprio sistema de crenças relativistas.” Repita as próprias palavras dele: “Por que interagir com suas premissas quando suas crenças subjacentes não são provadas?”
O seu amigo não está engajado em filosofia séria. O que ele está fazendo é abusar, de forma amadora, da filosofia.
- William Lane Craig