#242 Sofrimento Animal
January 14, 2015Caro Dr. Craig,
Eu realmente gostaria que você desse uma olhada nessas duas perguntas.
Estou confuso com a sua resposta ao ponto de Stephen Law que levantou a questão do sofrimento dos animais. Você tinha dito que os animais não sofrem no mesmo sentido que os seres humanos sofrem. Eu queria saber se você poderia explicar melhor isso porque eu conheço pessoas que também entenderam mal o que foi que você realmente queria dizer. Você tinha dito que os animais não têm a capacidade de compreender qualquer "auto-consciência" durante o sofrimento e os pontos que são levantados contra como: "Bem, como poderia um animal não estar ciente de seu sofrimento se eles estão latindo / gritando de dor" e "Se você bater em um animal ele não tentaria evitar a fonte da dor de modo que forma 'ele' não sofresse. Isso não é uma forma de "auto-consciência?" Eu acredito que esses pontos são interessantes e espero que você possa elaborar sobre eles, por favor.
A minha segunda pergunta é esta: Se determinados métodos como a Teoria dos Jogos pode prever o comportamento altruísta em animais, onde, digamos, um animal que dá a vida pelo rebanho, mesmo que não seja benéfico para o animal morrendo, mas benéfico para todo o rebanho, então o que isso diz sobre o comportamento humano e moral? Se coisas como o comportamento altruísta podem ser deixadas para aplicações matemáticas que, em conseqüência, prevêem esses atos no reino animal, onde um cristão diria que "os animais não têm moralidade", então como é que podemos dizer que o comportamento humano é diferente, apesar de sermos mais complexos do que os animais? Podemos realmente dizer que há uma moralidade objetiva sabendo essas coisas? Tenho sido especialmente incomodado por isso e eu espero que você possa responder!
Eu realmente respeito tudo que você faz e eu desejo-lhe bem em defender o cristianismo! Você realmente tem mostrado a muitas pessoas quão racional é, especialmente eu.
Tudo de bom,
AJ
United States
Dr. Craig responde
A
Eu sou grato por sua pergunta, AJ, porque me dá a oportunidade de esclarecer o que eu quis dizer sobre a experiência de dor dos animais. Em seu livro Nature Red in Tooth and Claw [Natureza Vermelha no Dente e na Garra], Michael Murray explica, com base em estudos neurológicos, que há uma hierarquia ascendente de três níveis de consciência de dor na natureza [1]:
Nível 3: a consciência de que se está em dor
Nível 2: Estados mentais de dor
Nível 1: Reação aversiva a estímulos nocivos
Organismos que não são sensíveis, ou seja, não têm vida mental, demonstram no máximo o Nível 1 de reações. Insetos, vermes e outros invertebrados reagem a estímulos nocivos, mas não têm a capacidade neurológica para sentir dor. Seu comportamento de evitação, obviamente, tem uma vantagem seletiva na luta pela sobrevivência e por isso é construído neles pela seleção natural. A experiência da dor não é, portanto, necessária para que um organismo exiba um comportamento aversivo ao entrar em contato com o que pode ser prejudicial. Assim, quando seu amigo pergunta: " Se você bater em um animal ele não tentaria evitar a fonte da dor de modo que forma 'ele' não sofresse. Isso não é uma forma de "auto-consciência?," você pode ver que esse tipo de comportamento aversivo nem sequer implica o segundo nível de consciência da dor, muito menos o terceiro nível de consciência. Comportamento de evitação não requer consciência da dor, e as capacidades neurológica dos organismos primitivos não são suficientes para suportar os estados mentais do Nível 2.
Consciência do Nível 2 entra em cena com os vertebrados. Seus sistemas nervosos são suficientemente desenvolvidos para ter associado com certos estados cerebrais e mentais de dor. Por isso, quando vemos um animal como um cão, gato ou cavalo se debatendo ou gritando quando feridos, é irresistível atribuir a eles os estados mentais de segunda nível de dor. É esta experiência de dor animal que forma a base da objeção à bondade de Deus do sofrimento animal. Mas note que uma experiência de Nível 2 de conscientização da dor não implica uma consciência de Nível 3. De fato, a evidência biológica indica que poucos animais têm a consciência de que eles próprios estão com dor.
O Nível 3 é uma ordem de consciência superior que alguém está em si mesmo experimentando um estado de Nível 2. Seu amigo pergunta: "Como pode um animal não estar ciente de seu sofrimento se eles estão latindo / gritando de dor?" Estudos do cérebro fornecem a resposta notável. Pesquisa de Neurologia indica que há dois caminhos neurais independentes associados com a experiência da dor . Uma via está envolvida na produção de estados mentais do Nível 2 de estar com dor. Mas há um caminho neural independente que está associado com a consciência de que se está num estado Nível 2. E essa segunda via neural é, aparentemente, um desenvolvimento evolutivo muito tardio que só surge nos primatas superiores, incluindo o homem. Outros animais não têm as vias neurais para ter a experiência de Nível 3 da consciência de dor. Assim, mesmo que animais como zebras e girafas, por exemplo, experimentam dor quando atacados por um leão, eles realmente não estão cientes disso.
Para ajudar a entender isso, considere um fenômeno análogo surpreendente na experiência humana conhecida como visão cega. A experiência da visão está também associada biologicamente com duas vias neurais independentes no cérebro. Uma via transmite estímulos visuais sobre quais objetos externos são apresentados ao espectador. A outra via é associada a uma consciência dos estados visuais. Por incrível que pareça, algumas pessoas, que tenham sofrido trauma na segunda via neural, mas cuja primeira via neural está funcionando normalmente, apresentam o que é chamado “visão cega”. Ou seja, essas pessoas são efetivamente cegos porque não estão conscientes de que podem ver qualquer coisa. Mas, na verdade, elas conseguem "ver" no sentido de que elas registram corretamente estímulos visuais veiculados pela primeira via neural. Se você atirar uma bola para essa pessoa ela vai pegá-la, porque ela consegue vê-la. Mas ela não está ciente de que ela vê! Fenomenologicamente, ela é como uma pessoa que é totalmente cega, que não recebe quaisquer estímulos visuais. Obviamente, como diz Michael Murray, seria uma tarefa inútil convidar uma pessoa com visão cega para passar uma tarde na galeria de arte. Pois, embora ele, em certo sentido, vê as pinturas nas paredes, ele não está ciente de que ele as vê e assim não tem nenhuma experiência das pinturas.
Agora a neurobiologia indica uma situação semelhante no que diz respeito à consciência da dor animal. Todos os animais além dos grandes macacos e do homem não têm as vias neurais associadas com o Nível 3 da consciência da dor. Sendo um desenvolvimento evolutivo muito tardio, esta via não está presente em todo o mundo animal. O que isso significa é que ao longo de quase a totalidade da longa história de desenvolvimento evolutivo, nenhuma criatura esteve consciente de estar com dor.
Visto teologicamente, esta descoberta amplia a misericórdia e a bondade de Deus. Deus protegeu quase todo o reino animal ao longo de sua história de uma consciência de estar com dor! Para aqueles de nós que são donos e amantes de animais, isso é um tremendo conforto e um motivo de louvor a Deus por Seu bondoso, maravilhoso, mesmo engenhoso, cuidado da criação. Quem teria imaginado que Deus tinha feito uma coisa dessas? Esses insights neurológicos, documentados por Murray, reduzem significativamente a força do problema do mal representado pelo sofrimento animal.
A sua segunda pergunta pode ser mais rapidamente respondida. Os fatos que você menciona apoiam a alegação de que, se não há Deus para servir como fonte transcendente de valores e deveres morais, então o comportamento moral humano não tem validade mais objetivo do que comportamento semelhante exibido por animais sociais. Tal comportamento é útil para uma espécie de luta pela sobrevivência e por isso é programado em nós por meio da seleção natural. Assim, dado o ateísmo, acho que seu ceticismo sobre a objetividade da moralidade humana seria totalmente justificado. Por outro lado, se realmente existe um Deus que é o paradigma da bondade e a fonte de nossas obrigações morais e proibições, então a moralidade está firmemente baseada em uma realidade transcendente além do processo evolutivo. De fato, uma das vantagens do teísmo é que o reino moral e o reino natural estão ambos sob a hegemonia soberana de Deus, para que o acordo entre o reino moral e o reino natural não precise ser visto como uma coincidência inacreditável.
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[1]
Michael Murray, Nature Red in Tooth and Claw: Theism and the Problem of Animal Suffering (Oxford: Oxford University Press, 2008).
Michael Murray, Nature Red in Tooth and Claw: Theism and the Problem of Animal Suffering (Oxford: Oxford University Press, 2008).
- William Lane Craig