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#116 Argumentos Morais Contemporâneos

January 14, 2015
Q

Um recente diálogo/debate entre o Dr. Craig e Shelly Kagan destaca algumas das objeções aos argumentos morais contemporâneos para a existência de Deus. Lá, Kagan argumentou que uma série de pessoas perfeitamente racionais concordaria em certos preceitos fundamentais para governar a sociedade, desta forma enraizando princípios morais no pensamento racional em vez de Deus. Tais argumentos morais contemporâneos funcionam? Dr. Craig demonstra porque tal visão não funciona e faz com que as leis morais sejam arbitrárias.

Pergunta

Olá,

Com respeito a seu recente debate com Shelly Kagan (sobre “Deus é necessário para a moralidade?”), eu sinto que você não teve tempo o suficiente para responder a visão de Kagan que “deveres morais são quaisquer regras que pessoas perfeitamente racionais concordariam como uma forma de governar a sociedade”, isto é, racionalidade é uma base ou medida para a moralidade.

O que tem de tão errado com esta visão? Nós não concordamos que pessoas normais DEVERIAM ser racionais (por exemplo, acreditar em verdades necessárias) mesmo se Deus não existisse? Se sim, por que não podemos dizer o mesmo sobre a moralidade?

Eu realmente apreciaria se você pudesse responder esta pergunta. Obrigado!

Alexander

United States

Dr. Craig responde


A

Argumentos morais contemporâneos

Eu respondi brevemente a visão do Prof. Kagan, Alexander, mas eu não forcei o ponto porque nossos anfitriões com o Veritas Forum deixaram bem claro para mim que eles não estavam interessados em ter um debate avassalador mas um diálogo amigável que produziria uma atmosfera calma e convidativa para estudantes não-crentes no Columbia. O objetivo era simplesmente trazer estes assuntos para a mesa em um ambiente agradável e acolhedor, que eu acho que fizemos.

A propósito, o curioso da visão que Kagan defendeu nem mesmo é sua visão do assunto! Ele é um consequencialista radical, que defende que o valor moral de nossas ações é determinado apenas pelas consequências de nossas ações. Ele acredita que nós somos moralmente obrigados a realizar qualquer ação, não importa o que seja, se eventualmente levará ao melhor resultado como um todo, o melhor definido em termos de prosperidade humana. Se torturar e estuprar uma menina leva ao bem-estar humano no final, então é isso que você é moralmente obrigado a fazer. Kagan admite que esse tipo de consequencialismo não é somente abertamente rejeitado pelos eticistas mas muito implausível também. Eu suspeito que seja por isso que ele escolheu não articular e defender suas ideias reais em nosso diálogo e sim uma posição que ele mesmo vê como falsa, isto é, a visão que a coisa moral a se fazer é o que quer que pessoas racionais idealmente concordariam que alguém deve fazer.

Em nosso diálogo eu argumentei que valores e deveres morais objetivos estão fundamentados em Deus e em Seus comandos. Então em resposta a sua pergunta, “Nós não concordamos que pessoas normais DEVERIAM ser racionais mesmo se Deus não existisse?”: se por “deveriam” você quer dizer “moralmente deveriam,” então pelo ateísmo eu não vejo qualquer razão para pensar que pessoas tem um dever moral de ser racional. Não há razão, dado o naturalismo, de pensar que os primatas relativamente avançados neste planeta tem uma obrigação moral de ser racional.

Argumentos morais contemporâneos - Os problemas na fingida visão de Kagan

Quanto ao que há de errado com a visão fingida de Kagan, nós precisamos manter claramente em mente a distinção que eu constantemente enfatizo entre epistemologia moral e ontologia moral. Epistemologia moral concerne a como nós conhecemos o Bem; ontologia moral concerne o fundamento na realidade do Bem. A visão afetada pelo Prof. Kagan, se é que seja relevante para minha defesa para Deus como o fundamento da moralidade, não deve meramente ser uma prescrição de como nós conhecemos nossas obrigações morais. Esta não é a questão diante de nós, e o teísta poderia concordar que perguntar, “Como pessoas perfeitamente racionais agem nesta situação?” pode ser um guia confiável para discernir as obrigações morais de alguém.

Em vez disso, Kagan deve ser entendido como querendo dizer que nossas obrigações morais estão, na verdade, constituídas em como idealmente pessoas racionais falariam que devemos agir em uma situação em particular. Mas então a pergunta que eu levantei em nosso diálogo força uma resposta: por que pensaríamos tal coisa? Por que pensar que se você pudesse organizar um comitê de seres humanos perfeitamente racionais e todos eles concordassem que você deveria fazer a ação A, isso constitui uma obrigação moral para você fazer A? Como um fundamento para seus valores e deveres morais objetivos, esta explicação parece completamente arbitrária.

Prof. Kagan em seu livro The Limits of Morality [Os Limites da Moralidade] (Oxford: Clarendon, 1989) tem muito a dizer sobre a necessidade de explicações sólidas em a teoria moral. Ele corretamente afirma “uma das coisas que nós queremos que nossa teoria moral nos ajude a entender é como pode até mesmo haver uma esfera moral, e que tipo de status objetivo tem” (p. 13). Ele insiste, “Esta necessidade por explicação em a teoria moral não pode ser exagerada. ... No final das contas, a menos que tenhamos uma explicação coerente de nossos princípios morais, nós não temos um fundamento satisfatório para acreditar que sejam verdade” (Ibid.) Ele antecipa a objeção que todas as explicações devem chegar a um fim em algum lugar. “Talvez isso seja verdade,” ele responde, “mas ainda seria justificativa de não precisar de uma explicação pelo menos em um nível superficial” (p. 14). Longe de ser uma explicação adequada, ele diz, nossos princípios morais “não estarão livres daquela mácula de arbitrariedade” que caracteriza as [ad hoc] listas de compras dos princípios morais (p. 13).

Argumentos morais contemporâneos - A insuficiência explanatória da visão fingida de Kagan

Como eu disse em nosso diálogo, a visão fingida de Kagan parece-me ser caracterizada por aquele tipo de arbitrariedade porque ele resume a explicação em um nível superficial. O que queremos saber é porque as decisões de tal comitê ideal tem um status objetivo em fundamentar valores e obrigações morais. Não consigo ver qualquer razão de pensar que isso é um verdadeiro fundamento de valores e deveres morais objetivos.

De fato, dado o fato que pessoas perfeitamente racionais não existem, como seu relato fingido pode realmente fundamentar valores e deveres morais? Não existe tal comitê ideal; não existe e nunca foi considerado ou decidido algo. Então como valores morais objetivos podem ser fundamentados em tal não-realidade? (Se a visão fingida de Kagan fundamentasse a moralidade em decisões de seres humanos reais, seria apenas uma afirmação que valores e deveres morais não são objetivos. Eles são inventados ou constituídos por seres humanos. Mas então valores e deveres morais não seriam válidos e obrigatórios independentemente se alguém acredita ou não neles.) Perguntar como tais pessoas ideias se comportariam pode, mais uma vez, ser um guia útil para discernir nossos deveres morais (como perguntar “O que Jesus faria?”), mas uma não-realidade não pode ser o fundamento ontológico de alguma realidade.

Finalmente, note que existe uma presunção nas entrelinhas da visão fingida de Kagan que ameaça ser uma enorme incorreção a petição de princípio, isto é, simplesmente assume que todas as pessoas perfeitamente racionais concordariam sobre quais seriam nossas obrigações morais! Isto simplesmente presume que o que Kagan chama “minimalistas morais” (como niilistas, egoístas, e libertarianos) são todos irracionais. Mas então ele precisa mostrar porque o niilista moral ateu está errado em pensar que na ausência de Deus, valores e deveres morais objetivos não existem. Do contrário, ele está incorrendo a petição de princípio. Enquanto for racional manter, como eu argumentei, que na ausência de Deus, valores e deveres morais objetivos não existem, minimalistas não podem ser excluídos do comitê ideal, e então a comitê irá falhar em concordar que nós temos quaisquer obrigações morais de fazer qualquer coisa. Em outras palavras, pegando emprestado da frase memorável de Dostoyevsky, todas as coisas serão permitidas.

- William Lane Craig