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#716 Afirmações espúrias sobre o firmamento

February 03, 2021
Q

Suponho que você esteja falando de meu podcast Defenders, Meir, e não de meu livro Em guarda. No entanto, você não só deixa de interagir com as informações que apresentei no podcast Defenders, mas a sua “prova clara” do “erro total” do meu ponto de vista está predicada no manuseio ingênuo de textos antigos, viciando o seu argumento.

Em relação a AO 8196 iv 20-22 (cf. KAR 307.303-33), o que você não consegue entender é que se trata de texto mitológico que precisa ser interpretado. Deve ser interpretado literal ou figurativamente? A sua abordagem da “prova do crime”, ao meramente citar um texto, exibe ingenuidade literária, ao pressupor acriticamente uma interpretação literalista desses textos mitológicos. Contraste com Horowitz, que diz o seguinte acerca de textos mitológicos mesopotâmicos: “Os indícios atuais simplesmente não nos permitem saber, por exemplo, se leitores antigos de Gilgamexe realmente acreditavam que também poderiam ter visitado Utnapistim ao navegar pelo mar cósmico e ‘as águas da morte’ ou se alguns, muitos, a maioria ou todos os leitores antigos entendiam o material topográfico do ponto de vista metafísico ou místico”.[1]

Mitos mesopotâmicos relacionados à geografia cósmica não tinham, obviamente, a intenção de ser tomados literalmente, sob o risco de incoerência. Na epopeia de Etana, supõe-se que Etana voa para o céu de Anu nas costas de uma águia. Como ele conseguiu atravessar os pisos sólidos dos céus inferiores e intermediários, disso nada se fala. No mito de Adapa, ele sobe pelo caminho para o céu. Em Nergal e Ereskigal, Nantar escala uma escadaria para o céu. Em Enuma elis, a metáfora de portões orientais e ocidentais com parafusos, pelos quais os corpos astrais atravessam (v. 9-10), se lida literalmente, pressupõe que as estrelas estão em movimento livre, em vez de estar fixas em um domo sólido. Na história da criação, Marduque fatia o corpo da deusa-dragão Tiamate e, com metade do corpo dela, estica os céus e os apóia com a virilha dela (v. 61). Porém, nenhum babilônio antigo que observasse o céu esperava ver o cadáver dissecado de um dragão lá em cima, e nenhum viajante jamais esperava encontrar a virilha gigantesca de Tiamate a escorar os céus.

Além disso, podemos inferior dos textos cosmológicos babilônicos antigos que descrições mitológicas dos céus como superfícies sólidas não eram tomadas literalmente. De acordo com textos astronômicos babilônicos conhecidos como astrolábios, cuja datação remonta ao menos ao período babilônico médio, as estrelas fixas podem ser agrupadas em três “caminhos” conforme se locomovem pelo céu, cada uma com o nome de uma divindade. A banda central ou equatorial era chamada de caminho de Anu, a banda setentrional, o caminho de Enlil, e a banda meridional, o caminho de Ea. Já que, segundo os textos mitológicos, as estrelas estão inscritas na superfície dos céus inferiores, tal superfície teria de estar em movimento constante para explicar o nascer e o pôr das estrelas no céu, geografia cósmica incompatível com a noção dos céus como domo sólido repousando na terra em seu horizonte.

Problemas piores ainda surgem com os movimentos dos planetas, bem como do sol e da lua. Isto porque astrólogos antigos observaram que os planetas não se movem em conjunto com as estrelas fixas, mas vagueiam pelos céus parando e até mesmo experimentando movimento retrógrado. Os astrônomos babilônicos, portanto, diferenciavam das estrelas fixas (kakkabu) os planetas (bibbu, ovelhas selvagens), incluindo, na nossa nomenclatura, Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno. Estes planetas, em conjunto com o sol e a lua, locomovem-se todos numa única banda própria pelo céu, mas esta banda cruza os caminhos de Anu, Enlil e Ea em razão da inclinação do eixo da terra. Em consequência, os planetas, bem como o sol e a lua, transitam do caminho de uma divindade para outro, aparecendo em certas estações do ano no caminho de Anu, por exemplo, e em outras estações no caminho de Enlil (ver figura).

 

Estações                    Caminhos                  Dia do mês

Enlil                             Anu                 Ea       1º. de adar / 30º. de sevat

solstício de inverno                                      15º. de tebet

                                                                        1º. de kislev / 30º. de arahsammu

equinócio de outono                                     15º. de tisri

                                                                        1º. de elul / 30º. de av

solstício de verão                                          15º. de tamuz

                                                                        1º. de iya / 30º. de sivã

equinócio primavera                                     15º. de nisã

norte                                                   sul

                                                                        1º. de adar / 30º. de sevat

 

Estas observações cuidadosamente desenhadas pelos mesopotâmios antigos são decisivas contra a interpretação literalista de textos cosmográficos que descrevem os céus como superfície sólida em que as estrelas estão gravadas.

Por isso, quando se trata do relato de Gênesis sobre a criação divina do chamado firmamento (rāqîaʿ), não é preciso falar muito. Exposta a má interpretação da cosmogeografia mesopotâmica, entra em colapso o principal pilar para interpretar rāqîaʿde Gênesis 1 como domo literal e sólido. Gênesis 1 não nos conta praticamente nada sobre a natureza de rāqîaʿnem se a palavra é usada figurativa ou literalmente. A chave para o significado de rāqîaʿconforme usado em Gênesis 1 aparece no v. 8: “E ao firmamento Deus chamou céu” (šāmāyim)”. Šāmāyim é a palavra para céus. Rāqîaʿ, portanto, denota o céu ou, ao expressar a noção de amplidão, os céus. Os hebreus antigos não podiam ter pensado que o céu é domo sólido onde o sol, lua e estrelas estão embutidos, pois se observa que esses luminares celestes se locomovem pelo céu, e é por isso que eles servem para demarcar as estações e dias e anos (Gênesis 1.14). Benjamin Smith deu, provavelmente, a melhor caracterização da denotação de rāqîaʿcomo “o céu inteiro, tudo que pode ser visto acima da Terra a partir da superfície”.[2] Muito mais merece ser dito a este respeito, e leitores interessados podem encontrar discussões mais detalhadas em meu livro In Quest of the Historical Adam (Grand Rapids: Wm. B. Eerdmans, no prelo).

De volta à sua pergunta, Meir, o seu apelo às visões de indígenas em Bornéu (e que lugar para escolher!) como se fossem relevantes para a interpretação dos textos mesopotâmicos antigos (ou bíblicos) é estonteante. Exibe a mentalidade dos “antropólogos de gabinete” do século XIX, como G. Frazier, cujo agrupamento acrítico de mitos de diferentes culturas e tempos é rejeitado universalmente por folcloristas hoje em dia.[3]

Mais uma vez, a sua mera citação de 1 Enoque 18, sem nenhuma tentativa de entendê-la, repete o mesmo erro que você cometeu em relação aos textos mesopotâmicos. 1 Enoque é literatura apocalíptica tardia, Meir, e relaciona-se a visões de Enoque! Visões apocalípticas estão repletas de imagens figurativas, tais como esta mesma citação exibe com tanta clareza, que ninguém pensa ter tido a intenção de ser tomada literalmente. Se você acha que literatura apocalíptica judaica deveria ser tomada literalmente, muito boa sorte ao tentar convencer os estudiosos!

Não ia gostar nem um pouco de ver o restante da sua “lista de citações”, se for mais do mesmo, Meir. Uma lista de citações é inútil sem interpretação. Obviamente, você foi influenciado pela subcultura do livre pensar que está presa no século XIX e tem compreensão limitada da pesquisa moderna. Eu o incentivo a começar a pensar criticamente sobre o que lhe foi dito, a abordar textos com sensibilidade ao gênero literário e a tentar entender, em vez de meramente citar, textos antigos.

 

[1]        Wayne Horowitz, Mesopotamian Cosmic Geography (Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2011), xv. Note bem: Horowitz equipara metafísico com místico, termos que ele entende como opostos a real.

[2]        Benjamin D. Smith Jr.,Genesis, Science, and the Beginning (Eugene: Wipf & Stock, 2018), p. 240.

[3]        Ver esta caracterização por Alan Dundes na introdução a Sacred Narrative: Readings in the Theory of Myth, ed. Alan Dundes (Berkeley: University of California Press, 1984), p. 3. Igualmente, o trabalho de Levy-Bruhl, que postula o desenvolvimento da mentalidade primitiva do homem antigo até a mentalidade moderna do homem contemporâneo, sofre rejeição praticamente universal hoje em dia.

Dr. Craig responde


A

- William Lane Craig