#715 Há algum problema em ser gay?
February 03, 2021Caro Dr. Craig,
Há muita coisa que quero cobrir nesta mensagem, mas tentarei ser o mais breve possível. Basicamente, sou cristão devoto e “nascido de novo” minha vida inteira e, para falar a verdade, sou muito comprometido com Deus. Estudar apologética cristã era meu passatempo predileto. A hipocrisia da igreja realmente me incomodava, bem como a desonestidade intelectual, e, para dizer a verdade, foram provavelmente os seus artigos que mantiveram firme a minha fé em Deus. Foram as únicas coisas que me deram a profundidade intelectual de que eu precisava.
No entanto, fico extremamente decepcionado com os seus artigos sobre homossexualidade. Posso mandar minha carta de “saída do armário”, se quiser, mas, basicamente, eu teria dado de tudo para ser heterossexual e roguei a Deus que retirasse meus pensamentos “impuros”. E isto mesmo odiando esses pensamentos. Quando, enfim, aceitei que “terapia de conversão” é danosa e que “orar para expulsar o gay de mim” não funciona (pode acreditar, eu tentei, esgotei toda minha capacidade mental, e era como viver o inferno na terra!), cheguei ao fundo do poço. Ainda assim, tentei viver livre da hipocrisia e permaneci no celibato. Compensava minha solidão extrema socializando com amigos e, quando começaram a se casar, cheguei ao pior ponto. Só com pensamentos de suicídio que embarquei na jornada mais dolorosa da minha vida, entrando num lento caminho de auto-aceitação. Ouvi que é algo que todos os LGBT buscam alcançar, mas poucos chegam lá.
A homossexualidade não é, de forma alguma, uma escolha, e a opressão dificulta mais ainda. Para falar a verdade, não acho que aqueles que tiveram o privilégio de nascer heterossexuais conseguirão compreender a luta. Tudo que desejo é uma relação amorosa e compromissada com uma pessoa, com quem eu possa me casar e amar incondicionalmente. Enfim, percebi que muitos outros gays desejam o mesmo.
Os seus comentários sobre o “estilo de vida” homossexual são extremamente homofóbicos! Posso falar por mim mesmo quando digo que relações sexuais casuais não me ajudariam em nada, só dariam prejuízo. Sexo, para mim, ainda está ligado ao amor. Se você ler livros como The Velvet Rage, de Alan Downs, perceberá que esse “estilo de vida” homossexual estereotípico é para preencher um vazio de uma vida inteira de dor e opressão social (ao que a igreja tem muito a responder). As lutas de cristãos gays são tão grandes que precisam “pecar” (por exemplo, beber demais) para suprimir o “pecado” da atração pelo mesmo sexo. Conversei com muitos gays em minha caminhada e vim a entender que muitos, no fundo, desejam também amor com um parceiro compromissado. A “cultura gay” surgiu de grandes vazios e feridas na vida, tornando-se puramente um mecanismo de compensação. Daí, emergiu uma cultura inautêntica e angustiante. The Velvet Rage desenvolve este tema.
Passei por muita dor, mas ainda me recuso a desistir da minha fé em Cristo. Ninguém consegue acreditar que eu ainda mantenha fé num sistema de crença que me causou tanta dor. Mas acho que tenho a inteligência para lidar com a desonestidade intelectual e hipocrisia da igreja, e consigo distinguir a fé pessoal genuína em Deus daquela que parece boa, superficialmente, todo domingo. Tenho muito mais a dizer, e o assunto é tão delicado e emocionalmente carregado por causa da dor profunda e pensamentos de suicídio que me causou.
Mas fico realmente frustrado ao ler que alguém tão preparado academicamente ainda escreva com esse preconceito. De novo, tudo que desejo é uma relação amorosa compromissada (sempre vou esperar que seja com alguém do sexo oposto, mas a atração pelo mesmo sexo é tanto uma escolha quanto o é a cor dos olhos, então não acho que seja possível). Fico me perguntando por que a igreja, que de bom grado faz o novo casamento de tantos divorciados e permite fertilização in vitro, enquanto se opõe ao aborto, pode mesmo negar isso de mim. Diferente do alcoolismo e coisas assim, o companheirismo e a sexualidade são essenciais à pessoa, uma necessidade humana básica. Apesar de todos os meus esforços, cheguei à beira do suicídio antes de perceber isso. E a minha história não é exclusiva a cristãos gays. Para falar a verdade, não acho que haja nada mais doloroso que uma pessoa possa experimentar.
Realmente espero que você pense mais sério a esse respeito, porque você é um dos melhores que temos para salvar a fé cristã e a integridade daquilo em que cremos! Fico muito preocupado que o cristianismo esteja começando a perder a luta, em especial em assuntos controversos como este. Esta experiência me fez me humilhar tanto e perder toda a dignidade, de modo que estou disposto a ser o mais franco e honesto em relação a qualquer coisa em que você precise de esclarecimento. Muitos cristãos gays estão achando a dissonância cognitiva grande demais que estão dando fim às próprias vidas! E muitos estão deixando Cristo por questões assim! Sou médico com experiência em clínica geral, psiquiatria e cuidado paliativo (na verdade, provavelmente para me permitir enfrentar as grandes questões da vida, assim como tive de lutar com a ideia de morte do momento em que nasci — outra longa história e razão por que minha fé em Jesus é tão real para mim).
Deus abençoe.
Jono
P.S.: uma citação para reflexão: “Pensei que Deus queria me usar para mostrar aos gays como ser hétero. Na verdade, Deus queria usar os gays para me mostrar como ser cristão”.
New Zealand
Dr. Craig responde
A
Obrigado, Jono, por sua expressão sincera da dor que você experimentou! Você está certo que não faço ideia, pessoalmente, do tipo de luta pela qual você e outros cristãos homossexuais passam. O melhor que posso fazer é ouvir com atenção e tentar aprender com as suas experiências. Concordo que Deus pode usar gays para me mostrar como ser cristão melhor, não no sentido de comprometer o ensino moral bíblico, mas no sentido de ser um ouvinte humilde, um irmão solidário e uma pessoa amável que aceita os outros com os quais discordo do ponto de vista ético.
Dito isto, não há muito na sua carta que eu não possa responder. O propósito principal do meu artigo “Uma perspectiva cristã sobre a homossexualidade” é articular e defender a visão de que, ainda que a orientação sexual de alguém talvez esteja além do controle da pessoa, o nosso comportamento não está, e de que Deus proscreveu o comportamento homossexual. Uma vez que os mandamentos de Deus determinam os deveres morais, devemos obedecer ao que ele diz, não importa quão difícil o seja.
Ao ler e reler a sua carta, não acho nada nela que refute esta perspectiva básica. Você diz que seguiu um “lento caminho de auto-aceitação”. Isto é ótimo, se você quer dizer que veio a reconhecer que é homossexual e não está fingindo o contrário. No entanto, como cristão comprometido, você não pode querer dizer que veio a pensar que a atividade homossexual seja moralmente aceitável, porque Deus claramente a proscreve. Você diz que “tudo que desejo é uma relação amorosa compromissada (sempre vou esperar que seja com alguém do sexo oposto, mas a atração pelo mesmo sexo é tanto uma escolha quanto o é a cor dos olhos, então não acho que seja possível)”. Entendo, mas Deus proscreve o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Você fica se “perguntando por que a igreja... pode mesmo negar isso de mim”. Ora, porque Deus estabeleceu o casamento como união heterossexual. Se você escolher um casamento heterossexual, como tem a liberdade de fazer, tudo deve ser conduzido com máxima transparência logo no começo, ou então o fracasso será provavelmente inevitável.
Você pode, como o Senhor Jesus, ser chamado a uma vida de solteirice.
Eu também “fico muito preocupado que o cristianismo esteja começando a perder a luta... e muitos estão deixando Cristo por questões assim!” Acredite, eu bem sei disso! Porém, não posso comprometer o que me parece o claro ensinamento moral da Bíblia, por ser impopular e atrapalhar o evangelismo. Simplesmente não posso!
Pois bem, há um parágrafo na sua carta que responde diretamente a algo que eu disse, dizendo respeito aos meus “comentários sobre o ‘estilo de vida’ homossexual”. Coloquemos esses comentários em contexto. Ao apresentar uma perspectiva cristã sobre a homossexualidade, meu alvo principal é persuadir outros cristãos como você, com base na autoridade bíblica, a se abster da atividade homossexual. Contudo, reconheço que, numa sociedade secular, tais apelos bíblicos não dão conta do recado. Assim, investigo se não haveria motivos seculares para abster-se de tal atividade. Observo que há ampla concordância de que é moralmente errado se envolver em atividade que é autodestrutiva ou destrutiva de outrem. Aponto, então, os dados médicos de quão destrutiva a atividade homossexual (masculina) costuma ser. O estilo de vida gay é, tipicamente, acompanhado pelo abuso de drogas, alcoolismo, problemas de saúde mental, promiscuidade desenfreada e assim por diante. Como médico, você deveria saber do dano patológico que a sodomia prolongada inflige. Você não nega as provas de que tal estilo de vida é danoso para o indivíduo e para os demais. Antes, você diz: “esse ‘estilo de vida’ homossexual estereotípico é para preencher um vazio de uma vida inteira de dor e opressão social”.
No meu artigo, evito explicitamente pontificar sobre as razões para esse estilo de vida destrutivo. Talvez você esteja certo, embora isso tudo, até onde eu sei, ainda precise ser provado de modo cientificamente confiável. Meu argumento permanece: quem quer que escolha embarcar no estilo de vida gay está brincando com fogo, vindo normalmente a se prejudicar, bem como aos demais. Estas são as razões seculares para abster-se de tal atividade. Será que oferecer tais razões é “homofóbico” da minha parte? Se você quer dizer cheio de ódio ao falar “homofóbico”, é óbvio que não! Pelo contrário, tudo isto expressa preocupação genuína pelo bem-estar dos demais que venham a ser tentados a entrar nesse estilo de vida.
Tenho a impressão de que você não embarcou nesse estilo de vida, e por isso só podemos dar graças a Deus. De fato, minha impressão é que você está em busca de um parceiro. Incentivo a seguir a ordem bíblica, por mais difícil que seja. O caminho do discipulado bíblico é, afinal, um caminho de abnegação. Jesus disse: “Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Mateus 16.24).
- William Lane Craig