#759 Anticognitivismo teológico
December 14, 2021Olá.
Hoje acabei de topar com uma forma de antiteísmo chamada de “anticognitivismo teológico”, que, se não estou enganado, declara basicamente que conceitos religiosos como Deus não têm sentido. Trata-se, obviamente, de perspectiva deveras diferente do ateísmo com que estou mais acostumado e o senhor lida frequentemente aqui em Reasonable Faith. Será que já deparou com esta filosofia? Gostaria de ouvir o que pensa a este respeito. Obrigado, e Deus abençoe.
Carlo
Filipinas
Dr. Craig responde
A
O motivo por que você, provavelmente, jamais ouviu falar desta visão antes, Carlo, é que ela está morta há mais de 50 anos! Quando era estudante na década de 1970, já estava moribunda, mas ainda era discutida nas aulas de filosofia da religião.
Os filósofos da religião de meados do século XX, diante do desafio do positivismo lógico, foram forçados a defender a própria significância das suas afirmações contra os ataques de positivistas e a sua laia filosófica. Os positivistas defendiam um princípio de verificação do sentido, segundo o qual uma frase informativa, para ter sentido, deve ser capaz, em princípio, de ser verificada empiricamente. Uma vez que declarações religiosas como “Deus existe” ou “Deus ama o mundo” eram, na opinião deles, incapazes de ser verificadas empiricamente, os filósofos positivistas as consideravam como se não tivessem nenhum conteúdo cognitivo e, portanto, não afirmassem nada.
Em geral, análises verificacionistas do sentido enfrentavam dois problemas insuperáveis:
(1) O princípio de verificação do sentido era restritivo demais. Logo se percebeu que, segundo tal teoria de sentido, vastas extensões de discurso obviamente significativos deveriam ser declarados como sem sentido, incluindo até mesmo afirmações científicas, que o princípio almejara preservar. (2) O princípio era autorrefutável. A afirmação: “uma frase informativa, para ter sentido, deve ser capaz, em princípio, de ser verificada empiricamente” é, em si mesma, incapaz de ser verificada empiricamente. Portanto, ela é, por si só, afirmação sem sentido —ou, na melhor das hipóteses, definição arbitrária que temos liberdade de rejeitar. As inadequações da teoria positivista do sentido levaram ao colapso completo do positivismo lógico durante a segunda metade do século XX, ajudando a acender a centelha não somente de um avivamento de interesse na metafísica, mas também na filosofia da religião. Atualmente, o desafio anticognitivista, que aparecia tão grande nas discussões em meados do século, mal se trata de um pontinho no radar filosófico.
O principal valor da perspectiva anticognitivista hoje — e o motivo por que escolhi a sua pergunta esta semana — é que ela sublinha o seu ponto principal, a saber: há múltiplas versões de antiteísmo. Por exemplo, há o ateísmo, a visão segundo a qual Deus não existe. Há também o agnosticismo, a visão segundo a qual não se pode saber ou não se sabe se Deus existe. E, por fim, há o anticognitivismo, a visão segundo a qual a questão da existência de Deus não tem sentido. Todas as três são formas de antiteísmo. Isto desmente a afirmação da moda entre os mal-informados segundo a qual o ateísmo é, simplesmente, a ausência da crença em Deus, não fazendo, portanto, nenhuma afirmação nem exigindo nenhuma justificação. Tal visão ingênua não consegue distinguir entre as diferentes formas que a ausência de crença em Deus pode tomar: pode-se ser ateu, agnóstico ou anticognitivista. Assim, precisamos perguntar ao nosso interlocutor descrente exatamente qual forma de antiteísmo ele adota. Em seguida, podemos inquirir quais razões ele tem para a sua visão em particular.
- William Lane Craig